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sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Raul de Carvalho 4

Guio-me

Guio-me
Por teus olhos abertos
Sobre a trémula e ardente
Superfície das lágrimas.

De tantas coisas
É feito o Mundo!

Entre escombros, espigas, dias e noites
Procuram os homens ansiosamente
O ramo de louro.

Quando, fatigados,
Próximos estão do limiar, do pórtico,
Os homens deixam, à entrada,
Suas mais queridas coisas.

E ei-los que apenas se incomodam,
E se interrogam,
Sobre o modo mais simples
De se despir e adormecer.


Raul de Carvalho

(Raul de Carvalho nasceu no dia 4 de Setembro de 1920. Morreu em 1984.)

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Raul de Carvalho 3

Coração sem imagens

Deito fora as imagens,
Sem ti para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em toda a parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.


"Obras de Raul de Carvalho", Raul de Carvalho

(Raul de Carvalho nasceu no dia 4 de Setembro de 1920. Morreu em 1984.)

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Raul de Carvalho 2

Percam para sempre

Percam para sempre as tuas mãos o jeito de pedir.
Esqueça para sempre a tua boca
O que disse a rezar.
E os teus olhos nunca mais, nunca mais saibam chorar
Porque é inútil.

Faz como os outros fizeram
Quando chegou o momento
De perder o medo à morte
Por ter muito amor à vida.


"As Sombras e as Vozes", Raul de Carvalho

(Raul de Carvalho nasceu no dia 4 de Setembro de 1920. Morreu em 1984.)

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Raul de Carvalho

Amiúde

No vale dos afectos
ninguém está seguro:
mingua a lembrança,
esquece-se o rosto,
retorna-se ao eu,
os lábios secam, as palavras
dormem, os sonhos dispersam-se,

a presença ausenta-se,
há o lago de que não se vê o fundo.

E apenas as pequenas ilusões
- um café, o cigarro, a limonada -
imitam dois corações unidos...


Raul de Carvalho

(Raul de Carvalho nasceu no dia 4 de Setembro de 1920. Morreu em 1984.)