Mostrar mensagens com a etiqueta Nestor de Holanda. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Nestor de Holanda. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Nestor de Holanda 3

Tibúrcio

Acreditava em tudo que lhe diziam. Ninguém era mais crédulo, mais confiante. O Andaraí em peso o conhecia como a figura mais ingênua do bairro.
Desde pequeno, Tibúrcio ficou assim, talvez por ter sido educado de catecismo à mão, aprendendo a distinguir o mal do bem, para manter-se fiel a princípios sãos.
Em tudo Tibúrcio acreditava.
Bom-de-bola, jogava como centroavante do Nabucodonosor Futebol Clube. Os adversários sabiam de sua permanente boa intenção. Muitas vezes, quando atacava o último reduto do time contrário - e sempre o fazia perigosamente, veloz como um torpedo, a driblar com agilidade de raio - alguém da defesa inimiga, para evitar que ele marcasse o gol, mentia:
- O juiz já apitou o impedimento.
Tibúrcio acreditava. E largava a bola...
Havia os cavalheiros que, todas as noites, se reuniam numa esquina da Rua Ernesto Sousa, para contar estórias fantásticas. Narravam casos de assombração, de visões formidáveis, aparições da meia-noite nas encruzilhadas, mula-sem-cabeça, lobisomem. Todos riam das invencionices. Mas Tibúrcio acreditava.
Até em pequenas coisas, como a presença da mosca do sono, a tsé-tsé, no Andaraí, Tibúrcio acreditava.
[...]

"Telhado de Vidro", Nestor de Holanda 

(Nestor de Holanda nasceu no dia 1 de Dezembro de 1921. Morreu em 1970.)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Nestor de Holanda 2

Mendigos

O mais honesto pedinte que encontrei estava, uma noite, na Cinelândia. Ele se aproximou cambaleante de nosso grupo - eu, Jaime Costa, Frazão, Delorges Caminha, Silva Filho, André Villon, Fernando Costa, Armando Rosas, Arlindo Costa, Santos Garcia e outros - e pediu:
- Dai uma esmola a um pobre bêbedo, pelo amor de Deus!... Outro, igualmente sincero, foi visto pelo governador Eraldo Gueiros, recentemente, no interior de Pernambuco. Havia muitos anos que o mendigo posava de cego, nas feiras. Um dia surgiu de aleijado. Perguntaram-lhe:
- Desistiu de ser cego, Zé?
- Desisti.
- Por quê?
- Porque me passavam muito dinheiro falso...
O comum dos que pedem na via pública, porém, é a insinceridade. Quando Joraci Camargo escreveu Deus lhe Pague, com o falso mendigo, filósofo e milionário, discutiram a realidade do tema. Entretanto, nada mais verosímil. Hoje, no Rio de Janeiro, a mendicância é comércio dos mais rendosos...
Ainda há dias, um motorista de praça me contou a história de uma dona que, todas as manhãs, vem para a cidade de táxi. Num quarto que alugou, veste o "uniforme de trabalho". Pede esmola até à noite, e, depois de tornar a meter o paisano, toma outro táxi para regressar a casa. Ganha, em média, 100 cruzeiros por dia. Trabalhando cinco dias por semana (porque ela faz semana-inglesa...), fatura cerca de 2 mil cruzeiros por mês. Quase 12 salários mínimos...
Muitas alugam crianças e surgem, ante a caridade pública, caracterizadas de mãe infeliz. Há um mendigo na cidade, segundo me informaram, que mantém amante de luxo, em apartamento da Zona Sul, tal qual o personagem que Procópio criou, na famosa comédia de Joraci Camargo. E é fato corriqueiro a polícia descobrir que muitos têm conta no banco e são até proprietários de imóveis...
Por essas e outras, vi (e contei aqui) quando um pedinte, logo cedo, estendia o jornal velho num canto de calçada, perto do edifício do Ministério da Fazenda, para instalar-se. E um popular que passava:
- Está abrindo seu banquinho, hein?!...
Enfim, os fatos mostram que a situação está de tal maneira que não se pode confiar nos mendigos, porque, como o uísque, nunca se sabe quando são legítimos ou falsificados... 

Nestor de Holanda 

(Nestor de Holanda nasceu no dia 1 de Dezembro de 1921. Morreu em 1970.)

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Nestor de Holanda

Presentes de Natal

As noites de Natal existem para me mostrar que os anos têm sido arrancados das folhinhas. E me lembram de que já vou carregando, no corpo, na alma, no coração, as tatuagens do tempo.
Houve o Natal dos carneirinho manso, que meu pai me deu para ser saudade hoje. Houve o da flauta, o do velocípede, o da bicicleta.
Depois, o das obras de Júlio Verne.
Mais adiante, o da Enciclopédia e Dicionário Internacional.
Um dia, fui visitar casa amiga. E a empregada me anunciou:
- Aí está um rapaz.
Desde então, o Natal se foi transformando em pijamas, camisas, gravatas, lenços.
Noutra visita:
- Aí está um moço.
Notem que, no caso, moço é mais velho que rapaz...
Meu Natal passou a faturar abotoaduras, alfinetes de gravata, carteiras de cédulas ou de níqueis, cintos e agendas.
Agora, quando visito algum amigo, as empregadas me anunciam:
- Aí está um senhor.
Quando o dono da casa é cortês, ri:
- Que senhor, que nada, Maria. É o Iolando. Entra velho.
O velho, em tom fraterno, remoça mais a gente. Acho horrível ser senhor.
Assim, o último Natal me deixou mágoa estranha. Porque pessoa querida, das que sempre me presentearam no nascimento do Cristo, apareceu com uma caixinha embrulhada em papel multicolor. Todo alegria, abri o embrulho e a caixinha.
Eram uns suspensórios!...

"Telhado de Vidro - Volume I", Nestor de Holanda

(Nestor de Holanda nasceu no dia 1 de Dezembro de 1921. Morreu em 1970.)