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quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Ferreira Gullar 5

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.


Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.


Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.


Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.


Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.


Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.


Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?


"Na Vertigem do Dia", Ferreira Gullar

(Ferreira Gullar nasceu no dia 10 de Setembro de 1930. Morreu em 2016.)

domingo, 10 de setembro de 2017

Ferreira Gullar 2

Subversiva

A poesia
quando chega
não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
de qualquer de seus abismos
desconhece o Estado e a Sociedade Civil
infringe o Código de Águas
relincha
como puta
nova
em frente ao Palácio da Alvorada.

E só depois
reconsidera: beija
nos olhos os que ganham mal
embala no colo
os que têm sede de felicidade
e de justiça.

E promete incendiar o país.

"Na Vertigem do Dia", Ferreira Gullar

(Ferreira Gullar nasceu no dia 10 de Setembro de 1930. Morreu em 2016.)