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quarta-feira, 3 de maio de 2017

Frei Agostinho da Cruz 4

Ó montes altos, vales abatidos,
Verdes ribeiras de correntes rios,
Ora por baixo de bosques sombrios,
Ora por largos campos estendidos,
 

Onde mais claro vejo repetidos
Meus mal considerados desvarios
De pensamentos vãos, baixos e frios,
Emendados tão mal, quão mal sentidos.
 

Passei a mocidade sem proveito,
Antes contra meu Deus acrescentando
Culpas a quantas culpas tenho feito,
 

Cuja pena a velhice está purgando
Para passar da morte o passo estreito,
Se não se no seu sangue for nadando.

Frei Agostinho da Cruz

(Frei Agostinho da Cruz nasceu no dia 3 de Maio de 1540. Morreu em 1619.)

terça-feira, 3 de maio de 2016

Frei Agostinho da Cruz 3

Da oração

Doce quietação de quem vos ama,
Em serviços, Senhor, que tanto quanto
Amado sois, tão longe o fim de tanto,
Subindo mais, e mais, mais se derrama:


Ardendo por arder em viva chama
De amor do vosso amor, a voz levanto;
Sinto, suspiro, choro, colho, e planto
Ao som doutra suave que me chama.


Onde se vai, Senhor, quem vos ofende?
Donde levais, Deus meu, a quem vos segue?
Onde fugir se pode uma de duas?


Morto por quem o mata que pretende,
Ou que extremos de amor há que nos negue
Quem culpas nossas chama ofensas suas?


Frei Agostinho da Cruz

(Frei Agostinho da Cruz nasceu no dia 3 de Maio de 1540. Morreu em 1619.)

domingo, 3 de maio de 2015

Frei Agostinho da Cruz 2

Os olhos meus dali dependurados,
Pergunto ao mar, às ondas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?

Respondem-me em segredo, mil segredos,
Cujas letras primeiras vou cortando
Nos pés de outros mais verdes arvoredos.

Assim com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo,
Que de outras, que ensinar querem falando.

Se pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razões com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.

Ferido de tamanhos sentimentos
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.


Frei Agostinho da Cruz

(Frei Agostinho da Cruz nasceu no dia 3 de Maio de 1540. Morreu em 1619.)

sábado, 3 de maio de 2014

Frei Agostinho da Cruz

Às chagas

Divinas mãos, e pés, peito rasgado,
Chagas em brancas carnes imprimidas,
Meu Deus, que por salvar almas perdidas,
Por elas quereis ser crucificado.

Outra fé, outro amor, outro cuidado,
Outras dores às vossas são devidas;
Outros corações limpos, outras vidas,
Outro querer no vosso transformado.

Em vós se encerrou toda a piedade,
Ficou no mundo só toda a crueza;
Por isso, cada um deu do que tinha:

Claros sinais de amor, ah saudade!
Minha consolação, minha firmeza,
Chagas do meu Senhor, redenção minha.

Frei Agostinho da Cruz

(Agostinho Pimenta, mais conhecido como Frei Agostinho da Cruz, nasceu no dia 3 de Maio de 1540. Morreu em 1619.)