Mostrar mensagens com a etiqueta Festa da Bomba. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Festa da Bomba. Mostrar todas as mensagens

sábado, 19 de abril de 2025

Bombeiros de Fafe, 135 anos

Foto Hernâni Von Doellinger

Os Bombeiros de Fafe fazem hoje 135 anos. As cerimónias do aniversário estão marcadas para 27 de Abril, domingo, de amanhã a oito dias. Era aquilo a que antigamente se chamava a Festa da Bomba, que eu recordo aqui.

domingo, 24 de junho de 2012

O meu Santo António, em honra do São João

Quando eu era pequeno, Fafe tinha três grandes festas e eram as maiores festas do mundo: a Senhora de Antime, a Festa da Bomba e a cascata do Santo António na minha rua. Hoje sei que Fafe tem duas festas de considerável importância local: a Senhora de Antime, ainda e sempre, e essa recente e extraordinária festa da cultura que são as Jornadas Literárias.
Para que não pensem que a minha memória exagera, deixem-me contar-lhes o seguinte: no nosso Santo António até tínhamos altifalantes, que o Zé da SIF arranjava e aquele pedaço de Fafe regalava-se a ouvir o "Tango dos Barbudos", o "Fado das Trincheiras" e o "Je T'Aime Moi Non Plus", que era proibido e eu nunca percebi o que é que estava ali a fazer. O Zé da SIF é irmão do Armando Perrinha, e eles mais o Zé Maria, que foi comando no Ultramar, a Dina e a Luísa são filhos do Agostinho Cachada e da Senhora Laura, família quase minha, vizinhos do coração e gente do melhor que pode haver.
Os discos deviam ser poucos. O "Tango dos Barbudos", parece que lhe estou a ver a capa, tocava vezes sem conta e o "Se eu morrer na batalha só quero ter por mortalha a bandeira nacional", do Fernando Farinha fardado, fazia a rua inteira chorar, não sei se por causa do Zé Maria já estar na guerra. Dessa parte não me lembro bem. Lembro-me é que nem com o "Je T'Aime" se me arrebitava o pirilau, também não sei se por medo de ir preso ou por o meu corpo ainda não ter idade para semelhantes acrobacias.
Tínhamos foguetes também. Eram foguetes de três-croas, foguetes envergonhados, quase peidos, se me dão licença, géu, trás, trás, adeus e até ao próximo. E tínhamos girândolas e diabos-encaixados. Tudo comprado no Rates, mais ou menos onde está agora escondido o monumento à Justiça de Fafe. Quase tudo comprado no Rates, devo corrigir-me: na verdade, íamos em bando para nos aproveitarmos das distracções do homem, a antipatia enfiada numa larga bata de sarja cinzenta e com manguitos, e metíamos ao bolso tudo o que lá coubesse. Levávamos muitos bolsos e o mais certo é que o Senhor Rates até fosse boa pessoa.

Estávamos portanto no Santo Velho, quando a minha rua era um largo de terra e tílias e nem desconfiava que um dia havia de ser uma estrada com semáforos e tudo. Hoje a nossa cascata seria multada por estacionamento proibido.


(Parte do texto A Festa da Bomba, que escrevi e publiquei no passado dia 22 de Abril)

domingo, 22 de abril de 2012

A Festa da Bomba

Foto Tarrenego!

A sarça ardente (ou Chamem os bombeiros!)
Quando Moisés disse todo vaidoso "A minha vida dava um filme", Deus ficou bastante chateado, pegou lume ao monte e proclamou: - Agora apaga-o, que o Noé gastou-me a água toda.

Quando eu era pequeno, Fafe tinha três grandes festas e eram as maiores festas do mundo: a Senhora de Antime, a Festa da Bomba e a cascata do Santo António na minha rua. Quanto à enormeza da Senhora de Antime, sobretudo da sua incomparável e pungente procissão, suponho que estamos conversados. O nosso Santo António era também uma coisa constada, pelo menos para nós, e é preciso não esquecer que até tínhamos foguetes e altifalantes, que o Zé da SIF arranjava, e metíamos raivinha às outras ruas todas, incluindo avenidas, rampas, quelhas e largos como o nosso. O Zé da SIF é irmão do Armando Perrinha, e eles mais o Zé Maria, que foi comando no Ultramar, a Dina e a Luísa são filhos do Agostinho Cachada e da Senhora Laura, família quase minha, vizinhos do coração e gente do melhor que pode haver. Mas as festas. Falta esmiuçar a festa de anos dos Bombeiros Voluntários de Fafe - a Festa da Bomba, que se celebra regularmente por alturas de 19 de Abril -, e vamos a isso.

A Festa da Bomba, um bocadinho acima e dois meses antes do nosso Santo António, era de arrebenta. Só de altifalantes - sempre os altifalantes! - eram dois dias, quase três, e coisa profissional, a encher de som fanhoso o ar da vila e arredores: "Amplificações sonoras de João Baptista Gonçalves, de Antime, Fafe, deslocam-se a qualquer localidade, haja ou não haja corrente eléctrica", levando atrás a discografia completa do António Mafra e da Maria Albertina, com o Tom Jones e o alemão Freddy Breck a emprestarem um toque de classe aos "trabalhos". E no domingo era povo que só visto. Havia bailarico no terraço do quartel e na parada, que era nas traseiras, havia discos pedidos - "E o disco que se segue é dedicado à menina de camisola vermelha que está encostada à parede na varanda do segundo andar, por um seu admirador", e saía "O Carrapito da Dona Aurora" -, havia os tremoços da minha avó e o verde tinto do meu avô, que era quarteleiro mas não era tolo, havia capacetinhos de folheta dourada e alfinete torcido para enfiar nas lapelas dos generosos pobretes mas alegretes que davam "qualquer coisinha para a ajuda". (Se calhar foram os primeiros pins de que há memória. Os lacinhos furta-cores e os autocolantes de mão estendida ainda não tinham sido inventados.) Arranjaram-se ali namoros, casamentos. Era uma festa popular, sim. Mas a minha Festa da Bomba, a parte que me dizia particularmente respeito, era a festa dos bombeiros.
Começava uns dias mais cedo, a distribuir pelas montras o programa do aniversário e a puxar pelo corpo para pôr os carros e o quartel como brincos, que naquele tempo eram só para mulheres e piratas. Depois ia na "Carrinha", uma velha Austin da II Grande Guerra, ajudar a recolher garrafões de vinho oferecidos pelos ricos da terra e amigos da Bomba: os Summavielles, o Zé de Freitas, o João do Sal, o Senhor Fernandes do Retiro (não por acaso, um quase eterno presidente da associação), que são os que me recordo.
O meu ponto alto, porém, era o içar das bandeiras, a toque de caixa e ao som da fanfarra, logo pela manhãzinha do dia grande. Eu fazia questão, tomava conta da bandeira dos Bombeiros, bela, azul e branca, passada a ferro pela minha querida tia Laura, feita num linho que dava gosto tocar, com a águia que afinal era a fénix renascida, as chamas e os machados no meio. Içava-a a compasso, orgulhoso, solene, tremente e, confesso, a chorar por mim abaixo como um madaleno arrependido nunca soube de quê.
Tinha mais que fazer no quartel, mas ia ao Largo ver o desfile engrossado pelas corporações convidadas e amigas. Caíam-me os olhos para os carros, todos mais modernos do que os nossos, mas isso não chegava para me desmoralizar. Eu sabia que os bombeiros de Fafe eram muito melhores do que os outros, nem que tivessem de ir a pé para o fogo. E às vezes iam.
Lembro-me sobretudo dos amigos de Vizela, que eram mais do que amigos, eram irmãos (futebol à parte), e, depois da obrigação feita, decilitravam com quase tanto gabarito como os bombeiros de Fafe, campeões mundiais da decilitragem. Era: após a cerimónia das medalhas é que começava a verdadeira festa. Cada um que se amanhasse para o almoço, em casa, era o mais certo, e já voltavam todos bem bons, mas a meio da tarde havia o "beberete" no salão de festas transformado em refeitório. O "beberete" constava de uns bijus e de uns bolinhos de bacalhau feitos pela minha avó e metidos em sacos plásticos de doses individuais e sumárias, acompanhados à fartazana pelo tal vinho dado pelos beneméritos da corporação e que era bebido como se só voltasse a haver Festa da Bomba dali a um ano. O que até nem estava mal visto.
Conclusão: era beberete demais para tão pouco comerete. Passavam-se ali carraspanas iglantónicas. Os de Vizela ficavam até ao fim, num taco-a-taco que chegou a ser histórico, mas o nosso Joãozinho do Opel levava sempre a taça para casa. E levavam-no sempre a casa. De padiola. E eu pensava que não fazia mal, que os nossos bombeiros voluntários mereciam de mão cheia aquele dia sem medida e só para eles, derivado ao resto do ano em que eles eram só para os outros. Pensava que, às tantas, a Festa da Bomba era essencialmente aquilo - aquela bebedeira geral, eucarística, redentora e uniformizada, em descompassada ordem unida. E achava bem. E quero acreditar que nunca mais na vida tive pensamentos tão acertados.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Os Bombeiros de Fafe fizeram 122 anos na passada quinta-feira. A Festa da Bomba é hoje.)