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quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Cruzeiro Seixas 5

[Era um pássaro alto]

Era um pássaro alto como um mapa
e que devorava o azul
como nós devoramos o nosso amor.

Era a sombra de uma mão sozinha
num espaço impossivelmente vasto
perdido na sua própria extensão.

Era a chegada de uma muito longa viagem
diante de uma porta de sal
dentro de um pequeno diamante.

Era um arranha-céus
regressado do fundo do mar.

Era um mar em forma de serpente
dentro da sombra de um lírio.

Era a areia e o vento
como escravos
atados por dentro ao azul do luar. 

"Áfricas", Cruzeiro Seixas

(Cruzeiro Seixas nasceu no dia 3 de Dezembro de 1920)

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Cruzeiro Seixas (1920-2020)

A tua boca adormeceu

A tua boca adormeceu
parece um cais muito antigo
à volta da minha boca.

Mas as palavras querem voltar à terra
ao fogo do silêncio que sustém as pontes
perdidas na sua própria sombra.

E há um cão de pedra como um fruto
que nos cobre com o seu uivo
enquanto pássaros de ouro com mãos de marfim
transplantam as árvores transparentes
para o ponto mais fundo do mar.

As lágrimas que não chorei
arrependidas
fazem transbordar a eterna agonia do mar
como um lençol fúnebre
com que tivesse alguém coberto o rosto metafórico
dos cinco continentes que em nós existem.

Assim é ao mesmo tempo
que sou eu e não o sou
aquele relógio das horas de ouro
que além flutua.

Cruzeiro Seixas, "Homenagem à Realidade"

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Cruzeiro Seixas 3

Poema da profundidade horizontal

Pintem uma paisagem dentro de outra
porque nisso está a verdade.
Olhem como avançam cautelosamente
pela falésia a pique;
uma curta aprendizagem
na agulha da torre
bastou.
Olho-te como para uma lente de aumentar,
uma luz para mais iluminar,
como se fosses antes de haver luz
uma pedra preciosa,
a causa das guerras:
dorme sobre os joelhos
e sente
revir ao mesmo tempo
automaticamente
os braços superiores laterais
enferrujados,
como a luz do velho farol.
Beija os dez cães que há dentro de um cão vadio,
os cem homens que há dentro de um homem,
de tal maneira que
o ar fique em chamas
e seja a única salvação
a mão do mar eternamente
na nossa fronte.


Cruzeiro Seixas

(Cruzeiro Seixas nasceu no dia 3 de Dezembro de 1920)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Cruzeiro Seixas 2

Um cão é isto de sermos gente

Um cão
é isto de sermos gente.

Se temos só duas pernas
temos em contrapartida
uma complicação escura
dentro do peito.

Qualquer coisa como
os fundos desconhecidos
da água
só conhecidos
dos náufragos.

Para matar
é preciso uma arma
e para voar
como búzios
precisamos papel e lápis
- e assim viajamos
dentro de vegetais malas de viagens
procurando o destino sufocante
de todas as paragens.


"Homenagem à Realidade", Cruzeiro Seixas

(Cruzeiro Seixas nasceu no dia 3 de Dezembro de 1920)

domingo, 3 de dezembro de 2017

Cruzeiro Seixas

No silêncio das tapeçarias

No silêncio das tapeçarias
há a memória
das terríveis batalhas
do imaginário.
Mas são ternas
as cartas que trocam entre si
os seus heróis.
É certo que as árvores cantam por toda a parte
a sua música
e que há enfim leões e elefantes
no centro de Londres
de Paris ou de New York.
Agora a tua face está cravejada de ponteiros
e a manhã que acaba de nascer
regressa ao ventre materno.
Lisboa cobre-se de gaivotas.
Um gravíssimo excesso de grandeza
anuncia o Nada.

"Obra Poética, vol. I", Cruzeiro Seixas

(Cruzeiro Seixas nasceu no dia 3 de Dezembro de 1920)