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sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Álvaro Cunhal 3

No escuro da noite, o clarão vermelho e baço da lanterna dançava à frente de André, rés à terra, enigmaticamente suspenso no ar, num vaivém cadenciado e brando. Iluminava debilmente as calças e as botas do homem, que pareciam mover-se sem corpo.

"Cinco Dias, Cinco Noites", Manuel Tiago

(Álvaro Cunhal nasceu no dia 10 de Novembro de 1913. Morreu em 2005.)  

domingo, 10 de novembro de 2013

Álvaro Cunhal

Longe de veredas e povoações, a serra ondulava pedregosa e nua. Só aqui e além, ao fundo das encostas ou por detrás dos cabeços, repousavam manchas macias de terra lavrada. Donde e quem vinha lavrá-la parecia mistério em sítio tão desolado e ermo. Toda a tarde caminharam, o Lambaça adiante, André atrás. Nem uma só vez avistaram um ser humano. Não fora o sol derramando luz no ar e nas coisas, não fora o ar límpido e leve, aquele deserto e aquele silêncio seriam intoleravelmente opressivos. Assim, a serra abria-se à intimidade, numa carícia tranquila e confiante.

Mas, quando o sol começou a aproximar-se do horizonte, e os vales se diluíram em penumbras, e os cabeços e rebolos estenderam as sombras, e o ar começou a pesar de humidade e frio, então, sobranceira, a serra ganhou subitamente nova grandeza, como que olhando os intrusos com hostilidade.


"Cinco Dias, Cinco Noites", Manuel Tiago

(Álvaro Cunhal, que usou o pseudónimo literário de Manuel Tiago, nasceu no dia 10 de Novembro de 1913. Faz hoje cem anos. Morreu em 2005.)