terça-feira, 24 de março de 2020

O meu cão

Eu tenho um cão imaginário. Chama-se Parkinson, porque quando quero chamar por ele nunca me lembro do seu verdadeiro nome - Alzheimer. A raça do meu cão tem dias, vantagem de ser imaginário: às segundas é perdigueiro, às terças é labrador, às quartas é são bernardo, às quintas é pastor alemão, às sextas é dálmata e aos fins-de-semana é sobretudo rafeiro. O meu cão nasceu no país certo.
O meu cão fica-me muito em conta. Não come mas cala, dispensa vacinas e vitaminas, nunca vai ao veterinário, não precisa de casota nem de agasalhos para o Inverno, e só me custa o preço da trela. O meu cão conhece o dono e não morde a mão que não o alimenta. Se todos fôssemos cães assim, vínhamos mesmo a calhar ao Governo da Nação.
O meu cão faz-se muito bem de morto e corre atrás de qualquer merda que lhe atire. Só lhe falta falar. O meu cão não ladra às pernas das pessoas, não abocanha, não caga no passeio, não mija nos pneus do carro do vizinho, não tem pulgas nem chatos, nem anda por aí a emprenhar cadelas mais ou menos vadias e oferecidas. É como se não existisse. O meu cão é um exemplo de cidadão.
Já mo quiseram comprar e eu não o vendi. Foi um vendedor de empregos imaginários. Oferecia-me dois empregos bem bons em troca do meu cão. Nã! Antes quero o cão.

P.S. - Publicado originalmente no dia 28 de Setembro de 2011, num certo contexto. E sabem que mais? Ainda bem que não me desfiz do raio do bicho. Tem-me sido de uma utilidade extrema. Levo o cão a passear todos os dias, pelo cedinho, e é ele o meu salvo-conduto para furar a quarentena coronaviral. 

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