quarta-feira, 21 de junho de 2017

Lugares-comuns 539

Foto Hernâni Von Doellinger

Machado de Assis 5

O verme

Existe uma flor que encerra
Celeste orvalho e perfume.
Plantou-a em fecunda terra
Mão benéfica de um nume.

Um verme asqueroso e feio,
Gerado em lodo mortal,
Busca esta flor virginal
E vai dormir-lhe no seio.

Morde, sangra, rasga e mina,
Suga-lhe a vida e o alento;
A flor o cálix inclina;
As folhas, leva-as o vento.

Depois, nem resta o perfume
Nos ares da solidão…
Esta flor é o coração,
Aquele verme o ciúme. 

"Falenas", Machado de Assis

(Machado de Assis nasceu no dia 21 de Junho de 1839. Morreu em 1908.)

A ver navios 128

Foto Hernâni Von Doellinger

Graça Aranha 2

O velho colono segurou o animal pelo cabresto e o colocou no meio da vala. Os filhos puseram-se de lado, num recolhimento religioso. O pai puxou o cavalo para a frente. De chicote em punho, o cigano seguia atrás, e a primeira vergastada, cortando o ar num sibilo, caiu em cheio sobre o animal. Este, como arrancando-se de si mesmo, pinoteou assustado. Novas lambadas foram arremessadas por mão vigorosa. Estirou o cavalo o pescoço para a frente, abaixou-se, alongou-se, encostando quase o ventre à terra, como para se libertar do flagelo que lhe vinha do alto. Os seus membros se estorciam, confrangidos sob a dor imensa. E desapiedadamente, puxavam-no para diante, levando-o ao furor do açoite. Naquele sacrifício cumpria-se uma missão sagrada: ligava-se à nova terra o nervo da tradição da terra antiga. Quando os antepassados tártaros desceram do planalto asiático, e no solo europeu renunciaram à vida errante dos pastores, para lavrar o campo e buscar na cultura a satisfação da vida, sacrificaram aos deuses o velho companheiro de peregrinação nos brancos estepes. E, assim, a imolação ficou sempre no espírito dos descendentes como um dever, cujas raízes se estendem até ao fundo da alma das raças.

"Canaã", Graça Aranha

(Graça Aranha nasceu no dia 21 de Junho de 1868. Morreu em 1931.)

Mobiliário urbano (propriamente dito) 32

Foto Hernâni Von Doellinger

Alcina Carolina Leite

Meu anjo enganador

Meu anjo inspirador aos lábios nega
Os mimosos sorrisos da ventura,
Densa nuvem a fronte lhe carrega
Da pesada tristura!

Meu anjo inspirador é macilento
Como um raio de luz crepuscular;
Tem um mundo de dor c sentimento
No seu lânguido olhar.

O puríssimo seio não lhe cobre
Um manto rutilante de esplendor,
Mas lhe brilham gentis na face nobre
As pérolas do amor.

Meu anjo inspirador não se espaneja
Aos vívidos clarões do rei do dia,
- Profundo cismador - mas livre adeja
Na escuridão sombria.

Não lhe vibra a voz o raio ardente
Da eloquência que os ânimos seduz;
Com o flébil sopro a viração plangente
Suas falas traduz.

Meu anjo inspirador não se enfeitiça
Dos perfumes das rosas matutinas;
- Ele quer mais à palidez mortiça
Do lírio que declina.

Meu anjo inspirador é grande, imenso,
Como um abismo de amor e de amizade!
Vive no meu coração - profundo, intenso,
E chama-se... Saudade!...

Alcina Carolina Leite

(Alcina Carolina Leite nasceu no dia 21 de Junho de 1854. Morreu em 1939.)