Inversão de racismo
"Amor não é racista..." - Ela dizia,
Quando em beijos ardentes me abrasava.
Ao seu peito, nervosa, me apertava,
Ao meu peito, nervoso, eu lhe prendia.
Era noite na praia. Ninguém via
Aquele par que se beijando estava...
Nos braços do cristão - ela sonhava!
E eu sonhava - nos braços da judia!
No templo azul daquela noite calma
Eu lhe dei uma Pátria, na minh'alma,
E ela deu-me, em su'alma, a Canaã...
Desde então o racismo se inverteu:
- Vivo pensando que fiquei judeu,
E ela jurando que ficou cristã!
Rogaciano Leite
(Rogaciano Leite nasceu no dia 1 de Julho de 1920. Morreu em 1969.)
sábado, 1 de julho de 2017
Amália Rodrigues
Lágrima
Cheia de penas me deito
E com mais penas me levanto
Já me ficou no meu peito
O jeito de te querer tanto
Tenho por meu desespero
Dentro de mim o castigo
Eu digo que não te quero
E de noite sonho contigo
Se considero que um dia hei-de morrer
No desespero que tenho de te não ver
Estendo o meu xaile no chão
E deixo-me adormecer
Se eu soubesse que morrendo
Tu me havias de chorar
Por uma lágrima tua
Que alegria me deixaria matar
Amália Rodrigues
(Amália Rodrigues nasceu no dia 1 de Julho de 1920. Morreu em 1999.)
Cheia de penas me deito
E com mais penas me levanto
Já me ficou no meu peito
O jeito de te querer tanto
Tenho por meu desespero
Dentro de mim o castigo
Eu digo que não te quero
E de noite sonho contigo
Se considero que um dia hei-de morrer
No desespero que tenho de te não ver
Estendo o meu xaile no chão
E deixo-me adormecer
Se eu soubesse que morrendo
Tu me havias de chorar
Por uma lágrima tua
Que alegria me deixaria matar
Amália Rodrigues
(Amália Rodrigues nasceu no dia 1 de Julho de 1920. Morreu em 1999.)
Fernando Guedes
O caule
Cinzentas procuras interceptam
o paralelismo recusado.
Sem preferência de ritmo
as fotografias dividiram entre si
os intervalos do tempo. Duas.
No caminho vãos destinos se buscam.
Só a molécula resiste, a flor aberta,
o caule perfumado, a raiz vigorosa
onde a raposa construiu o seu covil,
a folhagem criada para o abrigo do mocho,
a inteira floresta, espinheiros e buxo,
o labirinto,
o eco da canção antiga,
ingénua e tão distante.
E do eco, do bosque, do labirinto, da flor aberta
se nutre de novo o movimento.
Os símbolos perfilam outro símbolo.
"Caule, Flor e Fruto", Fernando Guedes
(Fernando Guedes nasceu no dia 1 de Julho de 1929. Morreu em 2016.)
Cinzentas procuras interceptam
o paralelismo recusado.
Sem preferência de ritmo
as fotografias dividiram entre si
os intervalos do tempo. Duas.
No caminho vãos destinos se buscam.
Só a molécula resiste, a flor aberta,
o caule perfumado, a raiz vigorosa
onde a raposa construiu o seu covil,
a folhagem criada para o abrigo do mocho,
a inteira floresta, espinheiros e buxo,
o labirinto,
o eco da canção antiga,
ingénua e tão distante.
E do eco, do bosque, do labirinto, da flor aberta
se nutre de novo o movimento.
Os símbolos perfilam outro símbolo.
"Caule, Flor e Fruto", Fernando Guedes
(Fernando Guedes nasceu no dia 1 de Julho de 1929. Morreu em 2016.)
Júlia da Costa
A noite
Brilha o céu, mas em vão soluça e brada
A terra ansiosa, com pueril receio!
É densa a treva; nessa paz calada
Funda tristeza nos oprime o seio!
Tudo fenece, embaixo da orvalhada
Repousa o campo de perfumes cheio!
Negro é o mar, a floresta sossegada,
Dormem as aves da espessura em meio!
Embalde a noite traiçoeira e linda
Enche de encanto os bosques e os atalhos,
E, enquanto de fulgor o espaço alinda,
Seu manto enfeita de gentis orvalhos.
Mentem os ermos na amplidão infinda!
Mentem as flores a tremer nos galhos!
Júlia da Costa
(Júlia da Costa nasceu no dia 1 de Julho de 1844. Morreu em 1911.)
Brilha o céu, mas em vão soluça e brada
A terra ansiosa, com pueril receio!
É densa a treva; nessa paz calada
Funda tristeza nos oprime o seio!
Tudo fenece, embaixo da orvalhada
Repousa o campo de perfumes cheio!
Negro é o mar, a floresta sossegada,
Dormem as aves da espessura em meio!
Embalde a noite traiçoeira e linda
Enche de encanto os bosques e os atalhos,
E, enquanto de fulgor o espaço alinda,
Seu manto enfeita de gentis orvalhos.
Mentem os ermos na amplidão infinda!
Mentem as flores a tremer nos galhos!
Júlia da Costa
(Júlia da Costa nasceu no dia 1 de Julho de 1844. Morreu em 1911.)
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