quarta-feira, 21 de junho de 2017

Luís Gama 2

Serei conde, marquês e deputado

Pelas ruas vagava, em desatino,
Em busca do seu asno que fugira,
Um pobre paspalhão apatetado,
Que dizia chamar-se Macambira.

A todos perguntava se não viram
O bruto que era seu e desertara;
Ele é sério (dizia), está ferrado
E tem o branco focinho, é malacara.

Eis que encontra postado numa esquina
Um esperto, ardiloso capadócio,
Dos que mofam da pobre humanidade,
Vivendo, por milagre, santo ócio.

Olá, senhor meu amo, lhe pergunta
O pobre do matuto, agoniado;
"Por aqui não passou o meu burrego
Que tem ruço o focinho, o pé calçado?"

Responde-lhe o tratante, em tom de mofa:
"O seu burro, senhor, aqui passou,
Mas um guapo ministro fê-lo presa,
E num parvo barão o transformou!"

Ó Virgem Santa! (exclama o tabaréu,
Da cabeça tirando o seu chapéu)
Se me pilha o ministro, neste estado,
Serei conde, marquês e deputado!...

Luís Gama

(Luís Gama nasceu no dia 21 de Junho de 1830. Morreu em 1882.) 

Os meus cromos 27: o Homem da Música

Foto Hernâni Von Doellinger

Ascendino Leite

Meu rosto

Sou tão sincero no que faço
que penso: Deus me segue,
sorrindo e abençoando no pecado.

Sou tão sincero no que penso
que Deus me acompanha no passado,
- velho tributário do pecado.

Sou tão voraz por entre as coisas
que, não raro, com elas me confundo.
Daí que, fiel ao que elas são,

sei que Deus me abandona no que sou.
Como, então, não creditar
a Deus, Nosso Senhor,
a sorte de, a toda hora, ter desejos?

Ascendino Leite

(Ascendino Leite nasceu no dia 21 de Junho de 1915. Morreu em 2010.)

Lugares-(in)comuns 263

Foto Hernâni Von Doellinger

Domingos Carvalho da Silva

Poema explicativo
 
Inúteis são os voos. Inúteis são os pássaros.
Silenciosas sombras tudo extinguem.
Como as vagas de um mar longínquo e frio,
são de inúteis palavras estes versos,
pois o calado tempo esmaga tudo.

 
Moro num rio inútil que caminha
entre margens de musgo e subalternas
pontes e águas que reflectem
estrelas, luminárias, desencanto.
 

Os peixes não obstante já não dormem.
São inúteis os sonhos e as amarras
que nos prendem ao cais.

E o sangue que nos leva
em artérias eléctricas de desejo.

 
Já somos todos poetas - e a poesia é inútil -
antepassados simples de um futuro
remoto onde seremos sinais na rocha, apenas.
 

Germinará o trevo entre os alexandrinos
e nenhum pássaro compreenderá o sentido
das páginas dispersas sobre a areia.

 
Estas palavras nuas se transformarão
em pó, em lodo, em traças e raízes.


"Praia Oculta", Domingos Carvalho da Silva

(Domingos Carvalho da Silva nasceu no dia 21 de Junho de 1915. Morreu em 2003.)

Estes romanos são loucos

Foto Hernâni Von Doellinger

Martins de Oliveira

Função

Royalino é o sapo humano.
Salta, espantado, galga á mesa.
A multidão do vasto circo está silenciosa,

Mastigando apenas.

Espanto num momento.
O bombo explode surdo em surdo som.


Royalino rola e se desloca em movimentos rápidos.
(As pernas estão voltadas para o ar.
E as mãos curvadas para baixo).
Depois muda de posição e vira finalmente
Num montão de membros tortos sobre o peito.
A multidão, como se fosse um olho só, move-se contente.


Vem o palhaço, dá uma gargalhada e leva
aquilo tudo para a barraquinha.


A música rebenta num dobrado chula, e o povo
diz que tudo é velho, sim, senhor.

"Pátria Morena", Martins de Oliveira

(Martins de Oliveira nasceu no dia 21 de Junho de 1896. Morreu em 1975.)