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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Os dias inúteis

Sempre a dar-lhe
Esteve de baixa em Janeiro e Fevereiro, pelo seguro em Março e Abril, de quarentena em Maio, dispensado sem perda de salário em Junho, sob "lay-off" em Julho, chegou a Agosto e meteu férias.

Quem terá inventado a teoria dos "dias úteis" e das "horas de expediente"? Donde veio semelhante ciência? Porque é que, não vamos mais longe, os meus sábados, os meus domingos, os meus feriados e dias santos, as minhas férias, se eu as tivesse, hão-de ser considerados dias inúteis e, digamos assim, imprestáveis para a Nação?
Eu por acaso não concordo, e também sou Nação, segundo suponho. Pela parte que me toca, comigo isto dos dias úteis funciona exactamente ao contrário, foi sempre exactamente ao contrário. Os meus dias mais profícuos foram e são os fins-de-semana e afins, aproveito-os até ao tutano, todos os minutos e segundos, coisinhas de nada dão-me imenso prazer, gozo como um perdido, a minha mulher que o diga, que ela é que me leva, nós fazemos os dias de mão dada. Chamar-lhes inúteis, a estes meus dias esplendorosos e cheios, é uma estupidez rematada. É de quem não sabe o melhor.
São-me tão úteis os meus dias inúteis. De resto, não descansei enquanto não consegui transformar todos os "dias úteis" dos outros em "dias inúteis" para mim, para nós, isto é, reformei-me mal pude, logo que atingi a idade, nem mais um dia de emprego e horário, que trabalho é outro assunto, tenho agora finalmente um modo de vida completamente "inútil" e geralmente feliz. Ajudo pessoas, nas horas vagas. A inutilidade é uma coisa bastante útil, é só o que vos digo. Regalo-me.
Depois, chateiam-me as "horas de expediente", expressão tão prestável ao duplo sentido e que sempre me deixou com a pulga atrás da orelha. Fico a magicar no seguinte: será que, das 9 às 17, nas Finanças, no Registo, nas autarquias ou nos ministérios, o papel do funcionalismo passa por lançar mão de todos os truques e armadilhas possíveis e imagináveis, para nos infernizar a vida e sacar-nos tudo, até o cotão dos bolsos, a mando do Estado? Então mais vale ir lá bater à porta depois do fecho dos serviços. Pode ser que, fora de horas, sem a obrigação do "expediente", sejamos enfim atendidos com honradez.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)