domingo, 15 de novembro de 2020

Bernardo Élis 4

O rego

Queriam canalizar
as águas pro monjolo
mas o que abriram foi um rego de céu.
Agora
a manhã fugiu do céu
e veio morar dentro do açude.
De tarde
o céu entorna o crepúsculo no açude,
cujo silêncio paralítico
os sapos espetam
com canafístulas de gluglus.

As estrelas lavam roupa de luz
nos espraiados.
Já houve até quem visse anjos
- muitos anos - voando
nas asas dos pirilampos.
Foi desse jeito
que os homens escravizaram um retalho de céu,
amarrando-o ao rabo do monjolo.

"Primeira Chuva", Bernardo Élis

(Bernardo Élis nasceu no dia 15 de Novembro de 1915. Morreu em 1997.) 

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