quinta-feira, 23 de junho de 2016

O meu Europeu é melhor que o teu 7

Para ser bom, o futebol deve ser visto na Antena 1
Comecei a ver o útimo Sporting-Benfica na cozinha, ouvindo o relato na rádio Antena 1. Estava a ser um derby de arromba, bola cá, bola lá, quase-golos uns atrás dos outros, os relatadores esganiçados com tanta emoção, faltava-lhes o ar, que jogatana, que jogatana! Fui a correr para a sala e liguei a televisão, para ver com os meus próprios olhos: o jogo era fraquinho, não havia dois passes seguidos certos, os do Benfica entregavam a bola aos do Sporting e os do Sporting, porventura por civilidade anfitriã, entregavam a bola aos do Benfica, política de boa vizinhança, ao contrário do que nos querem fazer crer. Entre estas cortesias a meio campo, e sempre e ainda no dito miolo do terreno, sarrafava-se a bom sarrafar, mas dentro do protocolo estabelecido. Que merda! Voltei, desiludido, para a cozinha, liguei outra vez o rádio: o prélio tornou a ser uma categoria, um frémito, um frenesim, só não era golo porque não calhava. Eram defesas impossíveis, eram perdidas inacreditáveis, só se jogava nas áreas. Fiquei-me portanto pelos 96.7, que até podia ter sido o resultado final, tantas as oportunidades radiofónicas, e regalei-me. Que jogaço, que jogaço! Esqueçam a televisão por cabo, que nos custa os olhos da cara e só nos dá espectáculos deprimentes. O futebol, para ser bom, deve ser visto na rádio Antena 1. É mentira, mas sabe bem.

Eu sou pela Antena 1 desde pequenino, ainda a Antena 1 se chamava Emissora Nacional e dava os resultados da 3.ª divisão e dos distritais já pela noite dentro e era uma comoção tremenda ouvir dizer Fafe, Associação Desportiva de Fafe, no Philips da mesinha de cabeceira dos meus pais. Ficávamos ali todos à espera, a família, como se estivéssemos a rezar o terço mas de boca calada, angustiados e alerta, porque aquilo era dito uma só vez, como no "Alô, Alô", e com a rapidez do "não dispensa a consulta do prospecto". Vamos supor: o jogo do Fafe tinha sido em Arcos de Valdevez, que naquela altura era muito longe e não havia telemóveis (eu sei que é difícil de acreditar); se não fosse o rádio, só saberíamos o resultado a altas horas, se tivéssemos vagar para isso, quando a excursão regressasse ao Largo, e não era certo. O resultado. Porque o vinho também é bom, mas às vezes atrapalhava as contas...


Gosto muito de todavias
Na rádio, ouvi aqui atrasado uma pequena entrevista telefónica feita ao presidente de um clube de futebol da primeira divisão. Claro que o entrevistado não era nenhum dos três cabeçudos - esses não têm telefone (por causa da polícia), só dão "grandes entrevistas" nas televisões mais ou menos nacionais, em directo e exclusivo, ou, quando lhes apetece, mandam recado pela rapaziada que mantêm nas redacções. E também não era nenhum daqueles que querem ser cabeçudos quando forem grandes. Era somente o presidente de um clube de futebol da primeira divisão.
E querem saber? Gostei do que ouvi. Em apenas três ou quatro frases telegráficas, num discurso simples e honesto, o presidente utilizou pelo menos duas vezes a conjunção adversativa (ainda se chama assim?) todavia. Ora, eu gosto muito de todavias. O facto de haver um presidente de um clube de futebol da primeira divisão que respeita o trabalho dos jornalistas e tem educação bastante para atender o telemóvel e permitir a gravação de uma conversa, nos dias que correm e por si só, é para mim uma enorme novidade, um motivo de justificado aplauso. E ainda por cima as todavias falaram-me ao coração. Este presidente, digo já, passou a merecer a minha mais sincera admiração.
Apesar de nenhuma das suas todavias estar devidamente contextualizada. Ou, como se diz agora à la française, "mesmo que" nenhuma das suas todavias estivesse devidamente contextualizada. Atirou-as ao calhas e quem quiser que fuja. Quero lá saber: o homem é do futebol, não é gramático. Podia ter dito "picaretas" e, isso sim, seria perigoso. Gosto muito de todavias, mas as todavias não são tudo.


No tempo em que os animais falavam
Houve um tempo em que os presidentes dos maiores clubes de futebol falavam com os jornalistas e até convidavam os directores dos jornais para jantar. Todos eram tratados por igual e quem tivesse unhas que tocasse viola. Mas isso foi muito, muito antigamente, no tempo em que os animais falavam e não havia telemóveis. Depois, conta-se que os presidentes dos maiores clubes resolveram dividir os jornalistas em dois grandes grupos: os que levavam recados e os que levavam pancada - e deixaram de falar aos restantes. Mais tarde, os presidentes dos maiores clubes criaram as suas próprias televisões e passaram a ser "entrevistados" pelos seus próprios jornalistas. E agora, quando se dignam descer até ao ecrã das televisões generalistas, exigem tratamento de primeiro-ministro. São outros tempos.

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