domingo, 4 de novembro de 2012

Elogio ao génio humano

                                                                                      Foto Hernâni Von Doellinger

Ontem estacionou-me ali em baixo o Arcadia. São 285 metros de navio para 1.948 passageiros. Os cruzeiros que me batem à porta têm-me dado que pensar, suscitam-me reflexões de pequena e média profundidade que aqui humildemente partilho com os meus queridos leitores. E ontem vieram-me à cabeça os cus. Os cus que os cruzeiros descarregam.
Cu de turista não é brincadeira, já repararam? É cu de bitola larga e se for cu americano então ocupa o mundo inteiro. Menos a Alemanha. Até parece que para se ser turista - turista encartado - é preciso ter um cu daqueles. E o cu alemão também para lá caminha, não quer ficar atrás. O que diz tudo a respeito de um cu.
Imagino que sejam muito ricos os camones com que me cruzo nas bordas do Porto de Leixões - eles a saírem todos cheios de good morning e eu, de passagem, "desculpem lá a shit de dog na sola da sandália, é good luck, com os cumprimentos do mayor". Tão turistas e tão prendados de cu, têm que ser muito ricos. Engordam e viajam porque podem. Se calhar até têm ordenados, subsídios e reformas.
Chegam e parece-me sempre um congresso de cus. Toneladas e toneladas de bagagem extra em traseiros colossais e gingões mesmo à frente do meu nariz. Confesso: é um espectáculo que não pára de maravilhar-me. Olho para os cus e olho para o barco, e só me apetece elogiar o génio humano, os avanços da ciência, os milagres da indústria, a arte e o engenho dos modernos fazedores de navios, supremos desafiadores das leis da física. Fascina-me aquilo que não consigo compreender. Para os cus e para o barco, olho e penso: com tanto badocha ali metido, como é que aquela merda se aguenta?

3 comentários:

  1. Caro Hernâni, a condenação não o é. Limitei-me a imaginar os passageiros de que fala plantados na sua varanda... e fiquei com receio que ela não aguentasse o peso. Não gosto desses palácios flutuantes que são, para mim, o símbolo perfeito do turismo mais imperfeito. Passeiam-se pelo Mar sem se darem ao trabalho de molhar os pés ou sujar as mãos. Mas gosto de varandas arejadas. Obrigada pela partilha. Cumprimentos, também à gaivota e aos quentros obedientes, e lamento o mal-entendido. M






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