| Foto Hernâni Von Doellinger |
quinta-feira, 21 de novembro de 2019
quarta-feira, 20 de novembro de 2019
Dia da Consciência Negra
Eu também sou América
Eu também canto a América.
Eu sou o irmão negro.
Eles mandam-me comer na cozinha
Quando chegam as visitas.
Mas eu rio,
E como bem,
E cresço forte.
Amanhã
Eu estarei à mesa
Quando as visitas vierem.
Ninguém ousará dizer-me
"Vai comer na cozinha".
Além disso
Eles verão como eu sou bonito
E terão vergonha.
Eu também sou América.
Langston Hughes
(O Brasil celebra a 20 de Novembro o Dia da Consciência Negra. Portugal não.)
Eu também canto a América.
Eu sou o irmão negro.
Eles mandam-me comer na cozinha
Quando chegam as visitas.
Mas eu rio,
E como bem,
E cresço forte.
Amanhã
Eu estarei à mesa
Quando as visitas vierem.
Ninguém ousará dizer-me
"Vai comer na cozinha".
Além disso
Eles verão como eu sou bonito
E terão vergonha.
Eu também sou América.
Langston Hughes
(O Brasil celebra a 20 de Novembro o Dia da Consciência Negra. Portugal não.)
Microcontos & outras miudezas 180
Simplesmente Simplício (ou, vá lá, Sr. Galinhas)
Sou Bomba, Dezassete e Perna-de-Pau, por parte do meu pai, e sou Neques, por parte da minha mãe, com muito gosto. Já me chamaram Américo, Pobre, Padreca, Sacerdote, Profeta, Bítala, Cabeludo, Guedelhudo, Hippie, Careca, 05613478, Amélia, Caixa-de-Óculos, O das Barbas, Ó Tio Ó Tio, Gramático, Chefe, Doutor, Professor, Andrade, Pau de Virar Tripas, Gordo, Ex-Gordo, Hernano, Hermano, Herlânder, Hermo, Hérnio, Irrenane, Renane, Ranano, Renamo, Ernesto, Aquele Senhor, Ó Senhor!, Doente da Cama 2, Próximo!, Nanes, Se'Nane, Belingue, Berlingue, Bilingue, Berlindes, Boelingue, Bolingue, Dillinger, Dilingue, Volkswagen. Eu prefiro que me chamem Simplício.
P.S. - Texto publicado originalmente no dia 29 de Outubro de 2018. Torno hoje a ele porque anteontem, num contacto telefónico com a NOS, recebi uma nova medalha: Galinhas. A simpática e diligente operadora chamava-me Sr. Galinhas, Sr. Hernâni Galinhas. Só para aí à terceira ou quarta vez é que eu percebi e desatei a rir, elogiando a agradecendo tão original rebaptismo. "Mas o senhor não me disse que se chama Hernâni Galinhas?", perguntou-me a menina-senhora, um bocadinho confusa e pareceu-me que também algo constrangida. "Doellinger, eu disse Doellinger", tentei explicar. "Hã?...", tarmamudeou a eficiente profissional, cada vez mais desbaratinada. "Silva, Hernâni Silva. Olhe, chame-me Simplício, simplesmente Simplício", resolvi eu enfim, e foi assim que nos entendemos.
A pintura do Mané
A pintura do Mané não lhe dizia grande coisa. Asseguravam-lhe que o Mané era um grande artista, falavam-lhe do impressionismo francês, até do realismo, dos jogos de luz e de sombra, dos nus, mas ele não se deixava convencer. O Mané era um gajo porreiro, isso nem se discute, pagava umas cervejas quando chegava a sua vez e desenrascava satisfatoriamente o lugar de defesa-esquerdo nos jogos das manhãs de domingo na praia, mas, quer-se dizer, era apenas um trolha regular e à beira da reforma. Como ele...
O organista
- Profissão?
- Organista.
- Orquê?...
- Tocador de órgão...
- Próprio ou de outrem?...
O número
Subiu ao palco, aproximou-se do microfone e anunciou que tinha um número para apresentar. Apresentou o cinquenta e três e foi um sucesso.
Futebol, a quinta-essência
Antigamente jogava-se para ganhar. Às vezes ganha-se, outras vezes perde-se, geralmente empata-se. Agora joga-se para "tirar ilações".
Sou Bomba, Dezassete e Perna-de-Pau, por parte do meu pai, e sou Neques, por parte da minha mãe, com muito gosto. Já me chamaram Américo, Pobre, Padreca, Sacerdote, Profeta, Bítala, Cabeludo, Guedelhudo, Hippie, Careca, 05613478, Amélia, Caixa-de-Óculos, O das Barbas, Ó Tio Ó Tio, Gramático, Chefe, Doutor, Professor, Andrade, Pau de Virar Tripas, Gordo, Ex-Gordo, Hernano, Hermano, Herlânder, Hermo, Hérnio, Irrenane, Renane, Ranano, Renamo, Ernesto, Aquele Senhor, Ó Senhor!, Doente da Cama 2, Próximo!, Nanes, Se'Nane, Belingue, Berlingue, Bilingue, Berlindes, Boelingue, Bolingue, Dillinger, Dilingue, Volkswagen. Eu prefiro que me chamem Simplício.
P.S. - Texto publicado originalmente no dia 29 de Outubro de 2018. Torno hoje a ele porque anteontem, num contacto telefónico com a NOS, recebi uma nova medalha: Galinhas. A simpática e diligente operadora chamava-me Sr. Galinhas, Sr. Hernâni Galinhas. Só para aí à terceira ou quarta vez é que eu percebi e desatei a rir, elogiando a agradecendo tão original rebaptismo. "Mas o senhor não me disse que se chama Hernâni Galinhas?", perguntou-me a menina-senhora, um bocadinho confusa e pareceu-me que também algo constrangida. "Doellinger, eu disse Doellinger", tentei explicar. "Hã?...", tarmamudeou a eficiente profissional, cada vez mais desbaratinada. "Silva, Hernâni Silva. Olhe, chame-me Simplício, simplesmente Simplício", resolvi eu enfim, e foi assim que nos entendemos.
A pintura do Mané
A pintura do Mané não lhe dizia grande coisa. Asseguravam-lhe que o Mané era um grande artista, falavam-lhe do impressionismo francês, até do realismo, dos jogos de luz e de sombra, dos nus, mas ele não se deixava convencer. O Mané era um gajo porreiro, isso nem se discute, pagava umas cervejas quando chegava a sua vez e desenrascava satisfatoriamente o lugar de defesa-esquerdo nos jogos das manhãs de domingo na praia, mas, quer-se dizer, era apenas um trolha regular e à beira da reforma. Como ele...
O organista
- Profissão?
- Organista.
- Orquê?...
- Tocador de órgão...
- Próprio ou de outrem?...
O número
Subiu ao palco, aproximou-se do microfone e anunciou que tinha um número para apresentar. Apresentou o cinquenta e três e foi um sucesso.
Futebol, a quinta-essência
Antigamente jogava-se para ganhar. Às vezes ganha-se, outras vezes perde-se, geralmente empata-se. Agora joga-se para "tirar ilações".
A pequena praça, de Sophia
A pequena praça
A minha vida tinha tomado a forma da pequena praça
Naquele outono em que a tua morte se organizava meticulosamente
Eu agarrava-me à praça porque tu amavas
A humanidade humilde e nostálgica dos pequenas lojas
Onde os caixeiros dobram e desdobram fitas e fazendas
Eu procurava tornar-me tu porque tu ias morrer
E a vida toda deixava ali de ser a minha
Eu procurava sorrir como tu sorrias
Ao vendedor de jornais ao vendedor de tabaco
E à mulher sem pernas que vendia violetas
Eu pedia à mulher sem pernas que rezasse por ti
Eu acendia velas em todos os altares
Das igrejas que ficam no canto desta praça
Pois mal abri os olhos e vi foi para ler
A vocação do eterno escrita no teu rosto
Eu convocava as ruas os lugares as gentes
Que foram as testemunhas do teu rosto
Para que eles te chamassem para que eles desfizessem
O tecido que a morte entrelaçava em ti
Sophia de Mello Breyner Andresen
A minha vida tinha tomado a forma da pequena praça
Naquele outono em que a tua morte se organizava meticulosamente
Eu agarrava-me à praça porque tu amavas
A humanidade humilde e nostálgica dos pequenas lojas
Onde os caixeiros dobram e desdobram fitas e fazendas
Eu procurava tornar-me tu porque tu ias morrer
E a vida toda deixava ali de ser a minha
Eu procurava sorrir como tu sorrias
Ao vendedor de jornais ao vendedor de tabaco
E à mulher sem pernas que vendia violetas
Eu pedia à mulher sem pernas que rezasse por ti
Eu acendia velas em todos os altares
Das igrejas que ficam no canto desta praça
Pois mal abri os olhos e vi foi para ler
A vocação do eterno escrita no teu rosto
Eu convocava as ruas os lugares as gentes
Que foram as testemunhas do teu rosto
Para que eles te chamassem para que eles desfizessem
O tecido que a morte entrelaçava em ti
Sophia de Mello Breyner Andresen
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