| Foto Hernâni Von Doellinger |
quinta-feira, 31 de outubro de 2019
Carlos Drummond de Andrade 7
A castidade com que abria as coxas
A castidade com que abria as coxas
e reluzia a sua flora brava.
Na mansuetude das ovelhas mochas
e tão estrita, como se alargava.
Ah, coito, coito, morte de tão vida,
sepultura na grama, sem dizeres.
Em minha ardente substância esvaída,
eu não era ninguém e era mil seres
em mim ressuscitados. Era Adão,
primeiro gesto nu ante a primeira
negritude de corpo feminino.
Roupa e tempo jaziam pelo chão.
E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino.
"O Amor Natural", Carlos Drummond de Andrade
(Carlos Drummond de Andrade nasceu no dia 31 de Outubro de 1902. Morreu em 1987.)
A castidade com que abria as coxas
e reluzia a sua flora brava.
Na mansuetude das ovelhas mochas
e tão estrita, como se alargava.
Ah, coito, coito, morte de tão vida,
sepultura na grama, sem dizeres.
Em minha ardente substância esvaída,
eu não era ninguém e era mil seres
em mim ressuscitados. Era Adão,
primeiro gesto nu ante a primeira
negritude de corpo feminino.
Roupa e tempo jaziam pelo chão.
E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino.
"O Amor Natural", Carlos Drummond de Andrade
(Carlos Drummond de Andrade nasceu no dia 31 de Outubro de 1902. Morreu em 1987.)
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Microcontos & outras miudezas 176
Na cama com Carolina Deslandes
Estou farto de ver Carolina Deslandes na cama! Nua, após noite de, a dar de mamar ao filho, com o namorado, a aparar as unhas dos pés, a tosquiar os sovacos, e aqui atrasado "doente". Quer-se dizer: eu não sou casado com ela, não lhe estou amantizado, não a conheço de lado nenhum e a criatura nem sequer me apetece - para que é que eu a quero na cama?
P.S. - Quem não sabe quem é Carolina Deslandes, procure. Ela é a que está na cama.
Diz-me o que vestes
A forma de vestir diz muito acerca das pessoas. Por exemplo, os nudistas. Creio que está tudo dito.
Banho de sangue
Mandaram-no fechar a matraca e ele fechou. Fechou também a ponta-e-mola, a borboleta e a porta.
O povo cheira mal. Quer-se dizer: cheira a povo.
Figurão, o governante que gabava muito o Serviço Nacional de Saúde e, mal lhe ocorria uma singela caganeira, desembestava em oficial aflição para o hospital privado. Figurinha, a autarca redundante em mui propagandeadas e frequentadas sessões de caracacá para o bem-estar físico dos seus munícipes, mas que, para si própria - mantendo uma higiénica distância do suor do povo -, não dispensa a exclusividade e chiqueza ostensiva do personal trainer.
P.S. - No que me diz respeito, só tenho a dizer bem do SNS. E, modéstia à parte, sou o meu próprio personal trainer.
A sagrada comunhão
A minha sogra estava a ver na televisão a missa do 13 de Outubro no Santuário de Fátima. A santinha, que graças a Deus não padece de fastio, antes pelo contrário, costuma almoçar cerca das 11h30, mas a missinha tomara realmente conta dela, ensimesmada numa tremenda devoção, sem sequer deitar os olhos ao aparelho. Resolvemos ainda assim perguntar-lhe num sussurro se queria comer à horinha ou se esperávamos pelo fim das cerimónias. - No fim da santa missa!, respondeu-nos com rispidez, como se por um segundo lhe tivéssemos interrompido o Céu. Pronto: a mesa podia esperar.
Os ponteiros do relógio andaram um quarto de hora, mas a televisão não: a missa continuava no mesmo sítio. A minha sogra agitava-se, os impasses incomodam-na sobremaneira, especialmente se meterem rancho. Levantou-se então do trono e ordenou: - Vamos mas é comer, que isto é povo que nunca mais acaba para a sagrada comunhão!...
Estou farto de ver Carolina Deslandes na cama! Nua, após noite de, a dar de mamar ao filho, com o namorado, a aparar as unhas dos pés, a tosquiar os sovacos, e aqui atrasado "doente". Quer-se dizer: eu não sou casado com ela, não lhe estou amantizado, não a conheço de lado nenhum e a criatura nem sequer me apetece - para que é que eu a quero na cama?
P.S. - Quem não sabe quem é Carolina Deslandes, procure. Ela é a que está na cama.
Diz-me o que vestes
A forma de vestir diz muito acerca das pessoas. Por exemplo, os nudistas. Creio que está tudo dito.
Banho de sangue
Mandaram-no fechar a matraca e ele fechou. Fechou também a ponta-e-mola, a borboleta e a porta.
O povo cheira mal. Quer-se dizer: cheira a povo.
Figurão, o governante que gabava muito o Serviço Nacional de Saúde e, mal lhe ocorria uma singela caganeira, desembestava em oficial aflição para o hospital privado. Figurinha, a autarca redundante em mui propagandeadas e frequentadas sessões de caracacá para o bem-estar físico dos seus munícipes, mas que, para si própria - mantendo uma higiénica distância do suor do povo -, não dispensa a exclusividade e chiqueza ostensiva do personal trainer.
P.S. - No que me diz respeito, só tenho a dizer bem do SNS. E, modéstia à parte, sou o meu próprio personal trainer.
A sagrada comunhão
A minha sogra estava a ver na televisão a missa do 13 de Outubro no Santuário de Fátima. A santinha, que graças a Deus não padece de fastio, antes pelo contrário, costuma almoçar cerca das 11h30, mas a missinha tomara realmente conta dela, ensimesmada numa tremenda devoção, sem sequer deitar os olhos ao aparelho. Resolvemos ainda assim perguntar-lhe num sussurro se queria comer à horinha ou se esperávamos pelo fim das cerimónias. - No fim da santa missa!, respondeu-nos com rispidez, como se por um segundo lhe tivéssemos interrompido o Céu. Pronto: a mesa podia esperar.
Os ponteiros do relógio andaram um quarto de hora, mas a televisão não: a missa continuava no mesmo sítio. A minha sogra agitava-se, os impasses incomodam-na sobremaneira, especialmente se meterem rancho. Levantou-se então do trono e ordenou: - Vamos mas é comer, que isto é povo que nunca mais acaba para a sagrada comunhão!...
quarta-feira, 30 de outubro de 2019
Abençoado fastio
A minha sogra, que tem oitenta e sete anos, comeu ontem ao almoço vinte e
três sardinhinhas fritas com arroz de feijão branco e tomate. E só não
comeu vinte e quatro porque eu tive a previdente ideia de provar uma à saída da sertã.
Perante semelhante calamidade, comi uma sande de biju com meia lata de atum em
conserva. Foi o meu almoço, e é a vida.
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