sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Antonio Noriega Varela 3

Laverquiña...

Laverquiña que te axotas
das degaradas gueivotas
oíndo o salvaxe berro;
musa, que a mariña extrañas,
olla as azules montañas
¡desde as plaias do desterro!

Esquence o mar, lembra o gado
miúdo, i o regalado
vivir, ¡as tumbadas festas!,
i as cantigas dos pastores,
que fan grinaldas coas frores
amareliñas das xestas.


"Do Ermo", Antonio Noriega Varela

(Antonio Noriega Varela nasceu no dia 19 de Outubro de 1869. Morreu em 1947.)

Caminho 567

Foto Hernâni Von Doellinger

Sinfrônio Cardoso

É noite velha, Marocas,
Não dorme quem tem paixão;
No fogo que nem pipocas,
Rebenta meu coração:
Na cama viro e reviro,
Lá vai por ti um suspiro
Outro e outro e muitos mais;
Sonha com o teu sertanejo,
Toma, mulata, esse beijo
Furtado nos bamburrais....


Sinfrônio Cardoso

(Sinfrônio Cardoso nasceu no dia 19 de Outubro de 1850)

I want to ride my bicycle 64

Foto Hernâni Von Doellinger

Conflito de interesses

Era parte interessada. E outra parte não.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Anjo da guarda, minha companhia

Foto Hernâni Von Doellinger

Todas as noites. A nossa mãe pegava em nós - na Nanda, no Nelo e em mim - e colocava-nos de joelhos e mãos postas, virados para a parede. Não era castigo, era amor. Na parede do quarto da nossa mãe, por cima da cama de casal, estava pendurada uma daquelas gravuras do anjo da guarda à la menino da lágrima. Rezávamos: "Anjo da guarda, minha companhia, guardai a minha alma de noite e de dia."

(Morávamos na casinha amarela do Santo Velho. O quarto da nossa mãe, logo à entrada, era também a sala, o consultório da rua inteira. Eu era então o mais novo e os mimos eram todos para mim. Os mimos que a pobreza honrada permitia. Éramos remediamente felizes, mas ríamo-nos muito, graças a Deus. Umas senhoras da Granja que trabalhavam no Centro de Saúde e passavam pelo nosso Santo Velho diziam que eu "até a chorar era bonito" - contava-me a minha mãe, cheia de vaidade, fazendo-me festinhas nos caracóis, e eu gostava. E eu gosto, mãe. Quando a minha mãe se zangava comigo - e eu enchia-a de razões para isso -, dizia-me que eu tinha sido deixado lá em casa pelos ciganos...
Depois nasceu o Lando e acabaram-se-me as mordomias.)

Todas as noites. Após a oração ao anjo da guarda e o sinal-da-cruz feito "sem aldrabices" por ordem expressa e vigilante da nossa mãe, íamos para o nosso quartinho de duas camas, uma cama para a Nanda e a cama maior para o Nelo e para mim. A nossa mãe deitava-se enfim, exausta e nós não sabíamos, e ligava o rádio na Emissora Nacional. Dava teatro. Do lado de cá do tabique, eu, o Nelo e a Nanda pedíamos "mais alto". Também queríamos. (Ou)víamos silentes e na maior das comoções, porque aquelas histórias não eram para brincadeiras. Interrompíamos apenas para um que outro pedido de esclarecimento acerca da senhora que fazia a vida negra ao senhor e que, todos concordávamos com a nossa mãe, era "uma cabra", embora eu não visse nisso grande defeito. Na escola já tinha feito algumas redações sobre "A cabra" e por isso sabia que a cabra é um animal doméstico e serve, nomeadamente, para a nossa alimentação, que era assim que a coisa se rematava.

O teatro terminava, vinha a ficha técnica - porventura Jorge Alves, Manuel Lereno, Carmen Dolores, Rui de Carvalho, Eunice Muñoz ou Canto e Castro... nos papéis de -, mas a nossa mãe só desligava depois do "Samuel Dinis ensaiou", que era mesmo o fim, e o rádio dizia "Denis". Trocávamos boas-noites dum lado para o outro do tabique. "Agora vamos dormir", mandava a nossa mãe, e nós apertávamo-nos aos cobertores, contentes pela soirée e mortinhos por obedecer.

Todas as noites. Cinco ou dez minutos passados, a minha mãe dava um toquezinho na parede e perguntava, numa voz de embalar:
- Estais a dormir?
- Eu estou - respondia sempre eu.
- Lindo menino - dizia a minha mãe. E eu adormecia feliz.

Debaixo da ponte

Foto Hernâni Von Doellinger