segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Interlúdio fotográfico 47

Foto Hernâni Von Doellinger

Fiz anos e comi 21 gafanhotos... vivos

Quando fiz 21 anos comi 21 gafanhotos vivos. Obrigaram-me. E não me queixo, embora tenha sido uma canseira andar a apanhá-los um a um no mato, eles aos saltos e eu de cócoras, um sol do caraças, a risota do maralhal, o corpo moído, uma sede que eu sei lá, mas antes isso do que passar o dia inteiro a levar pancada. O dia e a noite. Por outro lado, apesar de ter comido 21 gafanhotos vivos quando fiz 21 anos, passei aqueles dias todos a levar pancada. Aqueles dias e aquelas noites.
Eram assim os Comandos, havia um cuidado muito grande com a nossa alimentação. Por vontade de quem mandava, nós, os desprezíveis instruendos, estaríamos sempre a comer, às mãos desabridas de sargentos e cabos com idade para serem coronéis, com poderes de general, práticas de verdugo descontrolado e tremendas saudades ultramarinas. Consta que, quarenta anos passados, os Comandos ainda são assim. E que às vezes "as coisas correm mal"...
Em 1978 correu mal uma aula de morteiros. Um instrutor jactante e incompetente, como se exige que sejam os instrutores, apontou para o infinito, despoletou a granada e, sem querer, deixou-a escorregar tubo abaixo. Pum! O morteiro só parou em cheio num centro comercial da Amadora, por acaso com pessoas dentro. Sei disto porque estava lá, do lado do morteiro e do instrutor palerma. E, para evitar problemas com a população, não me deixaram vir a casa nesse fim-de-semana.
Quanto aos gafanhotos, fritos e de escabeche talvez marchassem melhor. E depois um golinho de água, por favor...

P.S. - Não fui voluntário.

Como tarda o meu inverno

Foto Hernâni Von Doellinger

Microcontos & outras miudezas 106

Quarteto de cordas
Eram um excelente quarteto de cordas: de sisal, de propileno, bamba e estática. As quatro acompanhavam regularmente a corda vocal. Quando assim, eram o Quinteto da Corda.

Acede-o
- Se eu fosse a ti...
- Não vens, não!

Funcionário brilhoso
Profissional de mão-cheia, empenhava-se a cem por cento no emprego. Fazia tudo e fazia tudo bem. "Tenho muito brilho no meu trabalho", costumava dizer.
 
Maus hálitos
Tinha muitos maus hálitos. O tabaco e o vinho, por exemplo. E também coçava os tomates...

Fino como um alho
Burro como um soco. Duro como um corno. Bêbado como um cacho. Quer-se dizer: o soco, o corno e o cacho, que culpa é que têm?...

Chove-me dinheiro
"Nunca me tinha acontecido. Estou atolado em dívidas. Ontem fiquei a dever doze cêntimos na padaria e hoje fiquei a dever cinquenta cêntimos na peixaria. Por outro lado, devo dois euros (um mais um) à latinha do Euromilhões, que é para o bacalhau do Natal. O meu nome na praça também deve andar pelas ruas da amargura. Estou desgraçado, não sei o que hei-de fazer à minha vida."

Isso aí em cima foi há um mês, dia 25 de Agosto, e tinha o título "Quando o dever chama". Felizmente Deus é grande, tarda mas não falha, escreve direito por linhas tortas, está em toda a parte, tudo vê e tudo ouve, ouviu-me, olhou para mim, por mim, deu-me a mão, a mão do meu Senhor da Galileia, consegui recompor-me e tenho agora uma vida risonhamente desafogada. Só no passado fim-de-semana achei dinheiro três vezes: dois cêntimos na sexta-feira, dois cêntimos no sábado e um cêntimo no domingo. Evidentemente também me saiu o Euromilhões: quatro euros e noventa e oito. Vou trocar de carro.
me e tenho agora uma vida risonhamente desafogada. Só no passado fim-de-semana achei dinheiro três vezes: dois cêntimos na sexta-feira, dois cêntimos no sábado e um cêntimo no domingo. Evidentemente também me saiu o Euromilhões: quatro euros e noventa e oito. Vou trocar de carro.

Na minha rua passa o mar 36

Foto Hernâni Von Doellinger

Vicente Risco 6

Baixaron. Metéronse n'un toco escuro y-estreito, y-andiveron un pedazo. O fin foron dar a un sitio cheo de luz.
Alveiros, que levaba os ollos do escuro, ô pronto non se decatou do que vía. Era unha grandísima rotonda, cuberta c'unha bóveda d'inmensas estalactitas onde xogaban as luces de moitos miles de focos d'unha nunca vista intensidade. Viase igual que polo centro do día. A sua veira, Dehmel quitabas'o abrigo. Había un rebumbio que non deixaba a un entenderse. A man izquerda, unha chega d'esqueletes afinaban os istrumentos debían ser unha orquesta de mais de 400 profesores. Alveiros distinguía os violís, as harpas, os violós, os timbales, os redoblantes, os oboes, as trompas, os fiscorcios... No medio rebulían antr'a chusma d'esqueletes ispidos que rían e berraban, ús cuantos con vestidos de coores brilantes. Aquelo era bonito de veras.


"D'o Caso que Ll'aconteceu ô Doutor Alveiros", Vicente Risco

(Vicente Risco nasceu no dia 1 de Outubro de 1884. Morreu em 1963.)

Caminho 555

Foto Hernâni Von Doellinger