Alá a mediados deste siglo había na cibdá de Ourense un zapateiro chamado Xan Canitrote, home de ben a carta cabal, pro que tiña o vicio condenado de tomar cada pelica que o demo iba con ela.
Pola semán adiante traballaba de xenio o bon do descípolo de San Crispín, e ¡abofellas que outro que botase mellor unhas tombas ou uns tacóns, non o había en media légoa ó redondo!
Todo iba ben, como dixen, durante a semán, pro ó chegar o luns, erguíase cedo, moito antes de que cantasen os galos, baixaba á tenda, puña o betún, a subela, as formas e máis chismes do oficio, todo con moito xeito, e logo ben quediño, para que non o sentise a muller abría a porta, e ala, ala, chegaba nun santiamén ó ponte maor, donde, pra facer boca, botaba un par de netos do tinto, en xuntanza con outros compinches.
Ó vir a noite xa tiñan recorrido media docena de bodegóns, e tombo de aquí, rempuxón de acolá, chegaba Canitrote á súa casa feito unha cuba; pro o conto era que Xuliana, moza forte coma un buxo, agardaba ó seu home detrás da porta, e cando coa forcada, cando co sacho, púñalle o lombo que aquelo era de ver.
[...]
"Xan Canitrote (conto popular)", Luís Bouza Trillo
(Luís Bouza Trillo nasceu no dia 1 de Agosto de 1869. Morreu em 1941.)
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quinta-feira, 1 de agosto de 2019
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019
Waldemar Lopes 3
Soneto dos bois na madrugada
São clamores? são gritos? são gemidos?
Entre a música líquida, nos ares,
a lâmina de angústia dos mugidos
fere os nervos da noite... Os passos pares.
Verdores de vergéis. A brisa. Os idos
acalantos de aboio. E sóis de luares.
Velhos pastos do tempo, remoídos
nas doçuras rurais, e em seus vagares.
Era a vida? Floriu, dor libertada.
Rubra rosa na relva, eis a recente
memoração da morte: céu de engano
refletido no sangue da alvorada,
sob o triste clamor puro e pungente
desse pranto animal - e mais que humano.
"Memória do Tempo", Waldemar Lopes
(Waldemar Lopes nasceu no dia 1 de Fevereiro de 1911. Morreu em 2006.)
São clamores? são gritos? são gemidos?
Entre a música líquida, nos ares,
a lâmina de angústia dos mugidos
fere os nervos da noite... Os passos pares.
Verdores de vergéis. A brisa. Os idos
acalantos de aboio. E sóis de luares.
Velhos pastos do tempo, remoídos
nas doçuras rurais, e em seus vagares.
Era a vida? Floriu, dor libertada.
Rubra rosa na relva, eis a recente
memoração da morte: céu de engano
refletido no sangue da alvorada,
sob o triste clamor puro e pungente
desse pranto animal - e mais que humano.
"Memória do Tempo", Waldemar Lopes
(Waldemar Lopes nasceu no dia 1 de Fevereiro de 1911. Morreu em 2006.)
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quinta-feira, 30 de agosto de 2018
Ferreira Leal 2
Daqueles seis túmidos, seminus, justapostos como dois gémeos num colo de jaspe, circulado de flores e alumiado em cintilações de diamantes e rubis orientais; daquele vinco untuoso do dorso, que, a descer da nuca penugenta, se ia perder misteriosamente na curva côncava dos lombos, daqueles coxins refeitos das espáduas, continuando-se nas linhas cruas dos deltoides roliços e dos antebraços, resguardados até acima dos cotovelos em macia pelica, distendida pelos punhos franzinos e as pontas afiladas dos dedos; daquela cintura quebradiça, a jungir por um contraste arrojado as amplidões rendadas e florescentes do tórax com as mais salientes da pelve; daquele triunfante sorriso, que lhe sobredourava os lábios finos, os olhos arrepanhados no véu das pálpebras; das travessas espiras do cabelo, torcido atrás em grandes massas; da majestosa cerviz, balouçada num piso de semideia; daquele poema, enfim, de falbalás, reflexos, nuvens, fantasias, a compreender outro poema mais eloquente de carne tenra e palpitante; desprendiam-se capitosos odores, vívidos coloridos, eflúvios quentes, que embriagavam de desejos lúbricos e irritantes todos os olhos que a viam, os olfactos que a aspiravam e as epidermes que lhe roçavam de leva pedaços frescos da pele rósea.
"O Suplício de Um Marido", Ferreira Leal
(Ferreira Leal nasceu no dia 30 de Agosto de 1850)
"O Suplício de Um Marido", Ferreira Leal
(Ferreira Leal nasceu no dia 30 de Agosto de 1850)
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