O com-abrigo abeirou-se misericordioso do sem-abrigo, levantou-lhe o
cobertor que lhe defendia a cara e disse "Bom dia", o sem-abrigo
respondeu estremunhado "Boa noite", passava um pouco do meio-dia e,
pensei eu, teria sido melhor princípio de conversa se se tivessem entendido
acerca de "Boa tarde".
Via-se que o com-abrigo tinha tarimba, tirei-lhe logo a pinta, era um bom-samaritano nas horas vagas e por conta própria.
- Então, companheiro, como é que vai isso? - encarrilou o com-abrigo.
- Ia bem, obrigado, mas esteja quieto no cobertor... - resmungou o
sem-abrigo, agarrando-se com unhas e dentes ao calorzinho que lhe
roubavam.
- É assim mesmo, companheiro, positivismo acima de tudo, nada de pensamentos suicidas - acrescentou o com-abrigo.
- Pensamentos quê? - interrogou o sem-abrigo.
- Suicidas, companheiro, pensamentos suicidas, vontade de se matar... - explicou o com-abrigo.
- Eu conheço-o de algum lado? - inquiriu o sem-abrigo.
- Não nos conhecemos de lado nenhum, companheiro, mas estou aqui para o
ajudar, limpe a cabeça de pensamentos suicidas... - disse o com-abrigo.
- Deixe então aí um ou dois euros, para um copinho de vinho - pediu o sem-abrigo.
- O importante é afastar os pensamentos suicidas, companheiro, não se deixe levar por eles... - disse o com-abrigo.
- E o eurito?... - quis saber o sem-abrigo.
- Os pensamentos suicidas podem ser-lhe fatais, companheiro, é preciso resistir... - disse o com-abrigo.
- Ouça lá - rebentou o sem-abrigo -, porque é que só fala dessa merda,
dos pensamentos suicidas? Eu não quero morrer, quero dormir, caralho!
Morra você, se gosta tanto! E, já agora, vá chamar companheiro à puta
que o pariu...
Palavra de honra se não foi mesmo assim, ou quase exactamente assim.
P.S. - Texto publicado originalmente no dia 16 de Abril de 2016. Hoje, 10 de Setembro, é Dia Mundial da Prevenção do Suicídio.
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terça-feira, 10 de setembro de 2019
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019
quarta-feira, 19 de setembro de 2018
quarta-feira, 11 de julho de 2018
sábado, 10 de fevereiro de 2018
Os pobres
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Ser pobre é fodido. Mas, para quem não sabe o que é a pobreza, "pobre" é apenas título de jornal, cinco caracteres sem pessoas dentro. Pessoas de pele e osso. O Público diz que os "pobres passam a ter acesso a refeições take away em 950 cantinas em todo o país". Vejam bem o que se escreve em Portugal e já vamos no século vinte e um, o tal que nem deveria existir se houvesse respeito pelas profecias: os "pobres" têm outra vez direito à senhazinha da sopa dos ditos. Se os pobres morrerem de fome é porque não deram o nome. Ou então porque não sabem o que quer dizer take away. Problema deles. Os pobres não são leitores do Público.
Havia o clero, havia a nobreza e havia o povo. E isto estava muito bem percebido. Depois apareceu a burguesia, que meteu um bocado de nojo, amantizando-se com o clero, com a nobreza e com o povo, consoante, porque a burguesia é muito dada a certas e determinadas promiscuidades. E a seguir, mas isto já foi um a seguir que demorou muito tempo e ainda está a doer, veio o proletariado, lá do fundo do fundo do clero, da nobreza, do povo e da burguesia que estava distraída a chá e torradas. E do sarro dos pés do proletariado, tipo cogumelos, renasceram os pobres, que aqui atrasado eram uns desgraçados que em dias certos batiam à porta da nossa casa, em Fafe, a pedirem "uma esmolinha, por alma de quem lá tem". Porque nós éramos pobres, mas menos pobres do que eles.
O Público titula que "pobres passam a ter acesso a refeições take away em 950 cantinas em todo o país". Os pobres. Nós. Os que, hoje em dia, não somos nem clero, nem nobreza, nem burguesia, nem povo, nem sequer proletariado, nem jornalistas. Nem somos os pobres que damos esmola. Somos os pobres que a pedimos. Somos outra vez os pobres de papel passado e, isto sim é notícia, vítimas do insulto patarata que também já esbordou da política para o alegado jornalismo.
Eu sou pobre e estou aqui, deste lado. A rapaziada que escreve as tolices que a mandam escrever e os tituladores que acham que são mais finos do que os outros, essa é gente que não sabe de que lado está. Um destes dias cortam-lhes as respectivas comissões de serviço de três meses, escravidão, recibo verde, pouca vergonha e pouca conversa. Talvez então a rapaziada e os tituladores pataratas percebam que afinal somos todos do mesmo: portugueses, pobres, na fila da sopa, apesar de uma vez na vida termos sido serralheiro especializado ou jornalista simpatizante.
(O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa não sabia que havia tantos sem-abrigo em Portugal. Mas devia saber, porque ele sabe tudo. E saberia se lesse o Tarrenego!, ele que lê tudo. Marquei-lhe falta. Mas, como sou boa alma, vamos lá recapitular, hoje com este desabafo escrito e publicado originalmente no dia 16 de Fevereiro de 2012.)
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018
De volta à casa de partida
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Em Portugal há 450 mil casas sobrelotadas e 2,5 milhões de casas subaproveitadas. Há mais de 735 mil casas vazias, umas caindo de velhas, outras ainda por estrear. Em Portugal há cada vez mais portugueses sem dinheiro para pagarem ao banco a prestação da casa. Os portugueses devolvem a casa ao banco, sem ondas e sem suicídios. Em Portugal não há dinheiro. E há cada vez mais portugueses morando no olho da rua. O subsídio por morte também não compensa. O BES anda na China, na Rússia e no Brasil a vender as casas devolvidas em Portugal. E a Caixa Geral de Depósitos prontifica-se a pagar os impostos da transacção a quem lhe comprar casas devolvidas.
O meu banco manda-me mensagens para o telemóvel, assediando-me com a oferta de casas ao preço da uva mijona. São casas devolvidas por portugueses à rasca como eu. As casas que eram de pessoas vão a leilão. E eu sinto-me insultado com as SMS que me convidam a ser cúmplice no aproveitamento da desgraça alheia. Logo à primeira fui imediatamente ao balcão protestar o meu incómodo e exigir que a coisa acabasse ali. Que "Sim, senhor, tem toda a razão, vamos já tratar do assunto", foi o que diligentemente me responderam. E as mensagens continuam.
Também comprei casa, no meu tempo. Fui chulado durante 25 anos e sei de que lado estou. Não devo nada ao banco, não devo nada a ninguém. Decerto por causa disto é que o banco cuida que eu agora sou um dos seus. Não sou. Sou um dos outros.
(O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa não sabia que havia tantos sem-abrigo em Portugal. Mas devia saber, porque ele sabe tudo. E saberia se lesse o Tarrenego!, ele que lê tudo. Marquei-lhe falta. Mas, como sou boa alma, vamos lá recapitular, hoje com esta notazinha escrita e publicada no dia 27 de Novembro de 2012.)
quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018
Portugal de luxo, Portugal de lixo
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Leio num site oficial do Governo de Portugal: "A Pousada do Porto, instalada no Palácio do Freixo, acabou de entrar na prestigiada e exclusiva rede The Leading Hotels of the World. Só os mais luxuosos, prestigiados e sofisticados hotéis são admitidos na referida listagem de apenas 430 unidades em todo o mundo."
Cheguei à exclusiva, luxuosa, sofisticada e duas vezes prestigiada novidade com meia dúzia de dias de atraso. Mas sei que em Janeiro as notícias diziam que Portugal tinha cinco hotéis na lista dos 100 melhores do mundo, e que, em 2012, era português o melhor hotel da Península Ibérica e o melhor pequeno hotel de luxo da Europa era em Lisboa. Em Portugal há mais de 40 hotéis de luxo.
Há também mais de três milhões de pobres, meio milhão de trabalhadores a salário mínimo, um milhão e meio de desempregados e milhares e milhares e milhares de sem-abrigo. No Portugal de lixo multiplicam-se os chalés de luxo como o da foto acima. Ontem, no espaço de menos de cem metros, passei por três. E só espero que os deixem ficar. É o que resta a estes desgraçados: a ilusão de terem um tecto.
(O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa não sabia que havia tantos sem-abrigo em Portugal. Mas devia saber, porque ele sabe tudo. E saberia se lesse o Tarrenego!, ele que lê tudo. Marquei-lhe falta. Mas, como sou boa alma, vamos lá recapitular, hoje com este textinho escrito e publicado no dia 12 de Junho de 2014.)
terça-feira, 6 de fevereiro de 2018
O com-abrigo e o sem-abrigo
| Foto Hernâni Von Doellinger |
O com-abrigo abeirou-se misericordioso do sem-abrigo, levantou-lhe o cobertor que lhe defendia a cara e disse "Bom dia", o sem-abrigo respondeu estremunhado "Boa noite", passava um pouco do meio-dia e, pensei eu, era melhor princípio de conversa se se tivessem entendido acerca de "Boa tarde".
Via-se que o com-abrigo tinha tarimba, tirei-lhe logo a pinta, era um bom-samaritano nas horas vagas e por conta própria.
- Então, companheiro, como é que vai isso? - encarrilou o com-abrigo.
- Ia bem, obrigado, mas esteja quieto no cobertor... - resmungou o sem-abrigo, agarrando-se com unhas e dentes ao calorzinho que lhe roubavam.
- É assim mesmo, companheiro, positivismo acima de tudo, nada de pensamentos suicidas - acrescentou o com-abrigo.
- Pensamentos quê? - interrogou o sem-abrigo.
- Suicidas, companheiro, pensamentos suicidas, vontade de se matar... - explicou o com-abrigo.
- Eu conheço-o de algum lado? - inquiriu o sem-abrigo.
- Não nos conhecemos de lado nenhum, companheiro, mas estou aqui para o ajudar, limpe a cabeça de pensamentos suicidas... - disse o com-abrigo.
- Deixe então aí um ou dois euros, para um copinho de vinho - pediu o sem-abrigo.
- O importante é afastar os pensamentos suicidas, companheiro, não se deixe levar por eles... - disse o com-abrigo.
- E o eurito?... - quis saber o sem-abrigo.
- Os pensamentos suicidas podem ser-lhe fatais, companheiro, é preciso resistir... - disse o com-abrigo.
- Ouça lá - rebentou o sem-abrigo -, porque é que só fala dessa merda, dos pensamentos suicidas? Eu não quero morrer, quero dormir, caralho! Morra você, se gosta tanto! E, já agora, vá chamar companheiro à puta que o pariu...
Palavra de honra se não foi mesmo assim, ou quase exactamente assim.
(O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa não sabia que havia tantos sem-abrigo em Portugal. Mas devia saber, porque ele sabe tudo. E saberia se lesse o Tarrenego!, ele que lê tudo. Marquei-lhe falta. Mas, como sou boa alma, vamos lá recapitular, a começar por este texto escrito e publicado no dia 16 de Abril de 2016.)
terça-feira, 8 de novembro de 2016
Hotéis de luxo é connosco
| Foto Hernâni Von Doellinger |
"Há quatro hotéis portugueses entre os melhores hotéis de luxo da Europa", fiz o DN. São o Vintage House Hotel, no Pinhão, o Monte Rei Golf e a Casa Modesta, ambos no Algarve, e o Terra Nostra Garden, nos Açores.
Portugal continua a ser um must. Em Janeiro de 2014 já o nosso país tinha cinco hotéis na lista dos 100 melhores do mundo, e em 2012 era português o melhor hotel da Península Ibérica e o melhor pequeno hotel de luxo da Europa era em Lisboa.
Em Portugal há mais de 40 hotéis de luxo.
Há também mais de três milhões de pobres, meio milhão de trabalhadores a salário mínimo, um milhão e meio de desempregados e milhares de sem-abrigo. Vivemos portanto entre o Portugal do luxo e o Portugal do lixo. Que se há-de fazer, é a vida, não é?...
sábado, 16 de abril de 2016
O com-abrigo e o sem-abrigo
Via-se que o com-abrigo tinha tarimba, tirei-lhe logo a pinta, era um bom-samaritano nas horas vagas e por conta própria.
- Então, companheiro, como é que vai isso? - encarrilou o com-abrigo.
- Ia bem, obrigado, mas esteja quieto no cobertor -, resmungou o sem-abrigo, agarrando-se com unhas e dentes ao calorzinho que lhe roubavam.
- É assim mesmo, companheiro, positivismo acima de tudo, nada de pensamentos suicidas - acrescentou o com-abrigo.
- Pensamentos quê? - interrogou o sem-abrigo.
- Suicidas, companheiro, pensamentos suicidas, vontade de se matar... - explicou o com-abrigo.
- Eu conheço-o de algum lado? - inquiriu o sem-abrigo.
- Não nos conhecemos de lado nenhum, companheiro, mas estou aqui para o ajudar, limpe a cabeça de pensamentos suicidas... - disse o com-abrigo.
- Deixe então aí um ou dois euros, para um copinho de vinho - pediu o sem-abrigo.
- O importante é afastar os pensamentos suicidas, companheiro, não se deixe levar por eles... - disse o com-abrigo.
- E o eurito?... - quis saber o sem-abrigo.
- Os pensamentos suicidas podem ser-lhe fatais, companheiro, é preciso resistir... - disse o com-abrigo.
- Ouça lá - rebentou o sem-abrigo -, porque é que só fala dessa merda, dos pensamentos suicidas? Eu não quero morrer, quero dormir, caralho! Morra você, se gosta tanto! E, já agora, vá chamar companheiro à puta que o pariu...
Palavra de honra se não foi mesmo assim, ou quase exactamente assim.
| Foto Hernâni Von Doellinger |
quinta-feira, 12 de junho de 2014
Portugal de luxo, Portugal de lixo
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Leio num site oficial do Governo de Portugal: "A Pousada do Porto, instalada no Palácio do Freixo, acabou de entrar na prestigiada e exclusiva rede The Leading Hotels of the World. Só os mais luxuosos, prestigiados e sofisticados hotéis são admitidos na referida listagem de apenas 430 unidades em todo o mundo."
Cheguei à exclusiva, luxuosa, sofisticada e duas vezes prestigiada novidade com meia dúzia de dias de atraso. Mas sei que em Janeiro as notícias diziam que Portugal tinha cinco hotéis na lista dos 100 melhores do mundo, e que, em 2012, era português o melhor hotel da Península Ibérica e o melhor pequeno hotel de luxo da Europa era em Lisboa. Em Portugal há mais de 40 hotéis de luxo.
Há também mais de três milhões de pobres, meio milhão de trabalhadores a salário mínimo, um milhão e meio de desempregados e milhares de sem-abrigo. No Portugal de lixo multiplicam-se os chalés de luxo como o da foto acima. Ontem, no espaço de menos de cem metros, passei por três. E só espero que os deixem ficar. É o que resta a estes desgraçados: a ilusão de terem um tecto.
quinta-feira, 1 de maio de 2014
O glorioso Dia do Desempregado
Hoje é 1.º de Maio, Dia do Desempregado em Portugal. Somos milhão e meio e estamos todos de parabéns. Haverá caldo-verde e iogurte de manga na sopa dos pobres, para quem chegar cedinho. A Senhora Dona Maria Isabel Torres Baptista Parreira Jonet proferirá uma simpática alocução alusiva à efeméride.
quarta-feira, 30 de abril de 2014
Devia ser proibido escrever proíbido
A minha junta de freguesia, que agora se chama de Matosinhos e Leça da Palmeira, parece nome de nobreza, colocou ali em baixo um contentor para recolha de roupa e calçado usados. É uma boa ideia. Mas o contentor, sendo novo em folha, veio com defeito de fabrico. Traz palavras que não existem na língua portuguesa: diz que "É proíbido o acesso ao interior" do dito e alerta para a "Afixação proíbida" no mesmo. "Proíbido"? "Proíbida"? Onde caralho foram buscar o acento? Isto não é distracção, é apenas um dos erros mais comuns do famigerado analfabetismo institucional - é burrice. Porque, se pensarmos um bocadinho e não fizer doer muito a cabeça, dá mais trabalho pôr o acento do que não pôr. O acento que não é preciso é, então, intencional. Trata-se, portanto, de ignorância militante. Oficial e registada.
E era tão fácil perceber que é proibido e proibida. Antes até da gramaticazinha, bastava ouvir o que se escreve...
Em todo o caso, realce-se a pertinência do aviso contra a "Afixação". Está bem visto. Olhar afixamente seja para onde for e sem pestanejar faz realmente muito mal aos olhos.
E era tão fácil perceber que é proibido e proibida. Antes até da gramaticazinha, bastava ouvir o que se escreve...
Em todo o caso, realce-se a pertinência do aviso contra a "Afixação". Está bem visto. Olhar afixamente seja para onde for e sem pestanejar faz realmente muito mal aos olhos.
| Foto Hernâni Von Doellinger |
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
Os pobres
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Ser pobre é fodido. Mas, para quem não sabe o que é a pobreza, "pobre" é apenas título de jornal, cinco caracteres sem pessoas dentro. Pessoas de pele e osso. O Público diz que os "pobres passam a ter acesso a refeições take away em 950 cantinas em todo o país". Vejam bem o que se escreve em Portugal e já vamos no século vinte e um, o tal que nem deveria existir se houvesse respeito pelas profecias: os "pobres" têm outra vez direito à senhazinha da sopa dos ditos. Se os pobres morrerem de fome é porque não deram o nome. Ou então porque não sabem o que quer dizer take away. Problema deles. Os pobres não são leitores do Público.
Havia o clero, havia a nobreza e havia o povo. E isto estava muito bem percebido. Depois apareceu a burguesia, que meteu um bocado de nojo, amantizando-se com o clero, com a nobreza e com o povo, consoante, porque a burguesia é muito dada a certas e determinadas promiscuidades. E a seguir, mas isto já foi um a seguir que demorou muito tempo e ainda está a doer, veio o proletariado, lá do fundo do fundo do clero, da nobreza, do povo e da burguesia que estava distraída a chá e torradas. E do sarro dos pés do proletariado, tipo cogumelos, renasceram os pobres, que aqui atrasado eram uns desgraçados que em dias certos batiam à porta da nossa casa, em Fafe, a pedirem "uma esmolinha, por alma de quem lá tem". Porque nós éramos pobres, mas menos pobres do que eles.
O Público titula que "pobres passam a ter acesso a refeições take away em 950 cantinas em todo o país". Os pobres. Nós. Os que, hoje em dia, não somos nem clero, nem nobreza, nem burguesia, nem povo, nem sequer proletariado, nem jornalistas. Nem somos os pobres que damos esmola. Somos os pobres que a pedimos. Somos outra vez os pobres de papel passado e, isto sim é notícia, vítimas do insulto patarata que também já esbordou da política para o alegado jornalismo.
Eu sou pobre e estou aqui, deste lado. A rapaziada que escreve as tolices que a mandam escrever e os tituladores que acham que são mais finos do que os outros, essa é gente que não sabe de que lado está. Um destes dias cortam-lhes as respectivas comissões de serviço de três meses, escravidão, recibo verde, pouca vergonha e pouca conversa. Talvez então a rapaziada e os tituladores pataratas percebam que afinal somos todos do mesmo: portugueses, pobres, na fila da sopa, apesar de uma vez na vida termos sido serralheiro especializado ou jornalista simpatizante.
(Texto escrito e publicado no dia 16 de Fevereiro de 2012)
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sexta-feira, 11 de outubro de 2013
Esperem pela pancada
Portugal tem uma taxa de desemprego oficial na ordem dos 17 por cento. Os portugueses realmente desempregados são muitos, muitos mais por cento. Mas. Diz um estudo: 65 por cento dos, vá lá, 83 por cento dos portugueses que oficialmente têm emprego estão enfadados com o trabalho. Dizem-se insatisfeitos, manifestam-se desmotivados e desligados da empresa que lhes paga, ou nem sempre. Uma chatice, uma tragédia.
As percentagens são uma armadilha. E os "estudos" são uma treta. Foram sempre uma treta desde a invenção da roda e agora que já há parafusos são também um perigo. Porém. Este "estudo" em particular, valendo zero, põe-nos lamentavelmente as partes ao léu: em tempos socialmente cataclísmicos, dias sem-vergonha em que nem os velhos nem as viúvas se salvam, há gente da nossa que não sabe dar o valor ao que ainda tem - e já nem peço o respeito por quem não tem nada.
O indesculpável Pedro Passos Coelho está a tratar do assunto destes portugueses desconsolados com o emprego. Mais dia menos dia eles estarão também no olho da rua e, finalmente, felizes da vida. É o que não lhes desejo.
Diz que está a dar futebol da televisão. A Selecção. "Tivemos" 63,3 por cento de posse de bola. Estatristicamente.
As percentagens são uma armadilha. E os "estudos" são uma treta. Foram sempre uma treta desde a invenção da roda e agora que já há parafusos são também um perigo. Porém. Este "estudo" em particular, valendo zero, põe-nos lamentavelmente as partes ao léu: em tempos socialmente cataclísmicos, dias sem-vergonha em que nem os velhos nem as viúvas se salvam, há gente da nossa que não sabe dar o valor ao que ainda tem - e já nem peço o respeito por quem não tem nada.
O indesculpável Pedro Passos Coelho está a tratar do assunto destes portugueses desconsolados com o emprego. Mais dia menos dia eles estarão também no olho da rua e, finalmente, felizes da vida. É o que não lhes desejo.
Diz que está a dar futebol da televisão. A Selecção. "Tivemos" 63,3 por cento de posse de bola. Estatristicamente.
domingo, 1 de setembro de 2013
De tanga
Quando eu era pequeno queria ser grande. E quando fosse grande queria ser palhaço, maquinista de comboio, famoso, padre, polícia à paisana, pianista, advogado, jornalista, actor, bombeiro, jogador de futebol, tarzan, presidente da república, terrorista, papa, escritor, herói, cantor, ciclista, santo e piloto de caça. Já há muito que sou grande e, francamente, sou tarzan e é um pau.
P.S. - Texto escrito e publicado em 17 de Dezembro de 2011. Repito-o hoje para lembrar Edgar Rice Burroughs, que nasceu no dia 1 de Setembro de 1875 e morreu em 1950. Pelo meio inventou o Tarzan.
P.S. - Texto escrito e publicado em 17 de Dezembro de 2011. Repito-o hoje para lembrar Edgar Rice Burroughs, que nasceu no dia 1 de Setembro de 1875 e morreu em 1950. Pelo meio inventou o Tarzan.
terça-feira, 27 de agosto de 2013
O que é que ele sabe, que nós não sabemos?
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Pedro Passos Coelho jura que as coisas estão a correr bem. A realidade desmente-o todos os dias, mas ele não desiste da "narrativa" que meteu na cabeça. Vítor Gaspar foi-se embora porque as coisas estavam a correr mal, mas o primeiro-ministro diz que as coisas estão a correr bem. As políticas e as reformas experimentalistas do Governo falharam notoriamente, e o primeiro-ministro diz que as coisas estão a correr bem. O Governo aumentou os impostos sem dó nem piedade, cortou a eito salários e pensões, subiu os preços de bens e serviços essenciais, e Passos Coelho gaba-se de reduzir a despesa do Estado. Portugal de carne e osso tem quase três milhões de pobres, milhão e meio de desempregados, meio milhão de trabalhadores a salário mínimo, que não chega aos 500 euros, milhares de sem-abrigo, cada vez mais gente com casa paga mas sem dinheiro para comer, e que pede ajuda. Somos já Portugal de pele e osso. Estamos à beira do abismo e o chefe do Governo diz-nos que vamos pelo caminho certo. Até parece que Passos Coelho acredita que, repetindo, repetindo, vai acabar por convencer-nos. E esta persistência intriga-me. O que é que o primeiro-ministro sabe, que nós não sabemos, acerca da estupidez dos portugueses?
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Vítor Gaspar
terça-feira, 16 de julho de 2013
De vaquinha para o desemprego
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Os transportes públicos voltaram a perder mais de 11 por cento dos passageiros no primeiro trimestre deste ano - dizem as notícias. Treze milhões de validações que foram à vida, sobretudo no comboio e no metro, que são o carro a cotio dos portugueses do rés-do-chão. Compreendo: as viagens de casa para o desemprego e do desemprego para casa custam os olhos da cara. O pessoal vai e vem de vaquinha. Para e do desemprego. É difícil de perceber, ó inteligências?! Dasse...
Depois parece que há os aviões. Mas essa parte ignoro.
quinta-feira, 25 de abril de 2013
A propósito de um tal 25 de Abril
| Foto Hernâni Von Doellinger |
O turismo
Visitar este país
até à última gota:
o porco e o Porto
a bola e a bolota
O que é como quem diz
itinerar a derrota.
Tudo tem lugar no mapa
Paris, Washington, Moscovo
Em Itália vê-se o papa
em Lisboa vê-se o povo.
Welcome Bienvenus Salud Willkommen Viva
A sífilis saúda-vos
saúda-vos a estiva
desta carga de heróis em carne viva
nociva mas barata
Vindes matar a sede com uva
beber o sumo de ócio que nos mata.
Desemborcais nos cais
Desembolsais de mais
mas não sabeis
as coisas viscerais
as coisas principais
deste país azul
com mais hotéis do que hospitais
talvez por ser ao sol
talvez por ser ao sul.
Aqui ao pé do mar
bordamos a tristeza
as toalhas de mão
as toalhas de mesa
que levais para casa
Souvenir
deste povo sem pão
que se cose a sorrir.
Aqui ao pé do rio
gememos a saudade
nosso fado submisso
nossa água a correr.
Canção de mal devir
Souvenir Souvenir
deste povo de trégua
que se canta a morrer.
Aqui ao pé do vento
forjamos o lamento
dum país que se vende a peso nos prospectos
tanto de sol ardente
tanto de cal fervente
e uma nódoa de céu nos xailes pretos.
Aqui ao pé do fel
gritamos o segredo
do que parece fácil neste país de luz:
é apenas a fome.
É apenas o medo.
É apenas o sangue.
É apenas o pus.
"Resumo", Ary dos Santos
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