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quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Antônio Rangel Bandeira 3

Fim do mundo

Todos os jornais darão edições especiais
E ainda um bonde terá tempo de colher um transeunte.
O Presidente dirá palavras de conforto à Nação.
Os bombeiros ficarão a postos
Como à espera dos grandes cataclismos.
À falta de luz eléctrica os homens usarão querosene
Em candieiros alados.
O poeta se perderá em cogitações
De interesse particular.
Um telegrama esclarecerá pequenos detalhes:
- As agulhas das bússolas ficarão desnorteadas
E os sinais telegráficos perder-se-ão no espaço.
Além do mais algumas estrelas cairão sobre o mar
- Parnasianas.
E entre palmas e gritos dos espectadores
A ressurreição da carne será anunciada.


Antônio Rangel Bandeira

(Antônio Rangel Bandeira nasceu no dia 24 de Outubro de 1917. Morreu em 1988.)

domingo, 23 de julho de 2017

Sobreviventes do fim do mundo (a falácia)

Gosto daqueles filmes da moda que contam o fim do mundo, os diversos modelos de fim do mundo, e a luta heróica dos sobreviventes. Catástrofes de proporções apocalípticas, cenários dantescos, a estrada da morte, o-drama-a-tragédia-o-horror. O planeta desaparece e, no seu regenerador desaparecimento, traz à tona os melhores dos melhores de todos nós, americanos por certo. O pai-herói, a mãe-coragem, o bebé-milagre, o Sepúlveda-Taberneiro, de quem ninguém sabia há mais de quarenta anos, desde que pôs os cornos à mulher no Sabugal e fugiu com a espanhola. Para a América. Dão bons títulos nos jornais.
Estes filmes fazem-me acreditar na redenção da humanidade. Os sobreviventes são a esperança num futuro melhor. Espera... - mas qual futuro e quais sobreviventes? Se o mundo acabou, como é que há sobreviventes?...

sábado, 22 de outubro de 2011

Antes que o mundo acabe

O mundo vai acabar dentro de exactamente 59 minutos. Pelas contas do pastor evangélico norte-americano Harold Camping, que se costuma enganar muito, mas desta vez é que é, o Apocalipse chega daqui a um bocado: às 20 horas de sexta-feira na terra dele, uma da manhã de sábado em Portugal continental. Foi o que ele disse aos seus discípulos. E eu só espero que ninguém se aleije. Mas não ficou claro, pelo menos para mim, se o fim do mundo é o fim da América, porque, para os americanos, a América é o mundo, ou se nos toca a todos, incluindo o principado de Sealand e essa pequena adjacência chamada China.

(Por falar em China, falemos também na Hungria. O que é que deu aos chineses e aos húngaros para julgarem que são mais infelizes do que os portugueses? Nem uns nem outros tiveram o Sócrates e o Teixeira dos Santos, não têm o Passos Coelho nem o Vítor Gaspar, não fazem ideia de quem é Cavaco Silva, queixam-se de quê? A que propósito é que chineses e húngaros ficaram à frente de Portugal num inquérito da OCDE, envolvendo 40 países, sobre os mais insatisfeitos com a vida?)

Antes que o mundo acabe, quero, porém, esclarecer o seguinte: bacalhau à espanhola não é caldeirada de bacalhau, tão-pouco ensopado de bacalhau. Bacalhau à espanhola é um prato que pede azeite e não água. É quase um guisado, de molho grosso e aveludado, e com o tempero apurado até aos limites legais de sal, pimenta, alho, louro e salsa. Por mim, também malagueta. Colorau, um nada só para dar cor. E, tomem nota, o pimento e o tomate são duas desnecessidades usadas apenas por quem pensa, mas não sabe, que só assim é que é "à espanhola". Erro crasso. O bacalhau à espanhola é à portuguesa!
O bacalhau até pode ser de quarto, daquele que, inteiro, não mede mais do que um palmo. E pode ser pouco. Não faz diferença nenhuma. O importante é o gosto que o bacalhau empresta, o equilíbrio do tempero geral, a consistência da molhanga. Quando eu era pequeno e os tempos eram de pobreza como os de agora, a minha mãe fazia um bacalhau à espanhola a que, honestamente, chamava batatas à espanhola. E vocês não fazem ideia do que perderam por nunca terem provado as batatas à espanhola da minha mãe...
E pronto, era isto. O mundo já pode acabar. Estou preparado, enfim de consciência tranquila. Andava com esta espinha atravessada na garganta desde o almoço da passada terça-feira, aí num sítio. E agora, se me dão licença, vou à cozinha salgar uns ossinhos da suã para o jantar de logo à noite.