Armando quis pagar a despesa, mas o prefeito não deixou. Não, aquela mesa era dele.
À saída, Becker, todo mesuras, respondeu aos boas-noites, de acordo com a hierarquia: para o prefeito e o fiscal foi uma saudação enfática, calorosa. Para Karl Wolff um pouco mais discreta. Para Geraldo, o secretário e o promotor, uma resposta cansada.
Quando ganharam a praça, o prefeito chega junto de Geraldo e diz:
É preciso preparar os homens da hidráulica. As eleições estão chegando.
Geraldo, sem saber o que havia de responder, apenas pôde murmurar, vago:
Pois não, não há dúvida.
Karl Wolff se aproxima para despedir-se.
Então estamos combinados. Sábado ou domingo, se não chover, podemos fazer a nossa partida.
Um vento forte levanta a poeira da rua. O grupo se dispersa. Ruben Tauben e o fiscal tomam o rumo do Centro. O major, o secretário e o promotor pendem para o ângulo direito da praça. Karl Wolff encaminha-se num passo largo e batido para o fim da rua. O engenheiro se recolhe ao hotel.
"Um Rio Imita o Reno", Vianna Moog
(Vianna Moog nasceu no dia 28 de Outubro de 1906. Morreu em 1988.)
Mostrar mensagens com a etiqueta Vianna Moog. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Vianna Moog. Mostrar todas as mensagens
domingo, 28 de outubro de 2018
sábado, 28 de outubro de 2017
Vianna Moog 5
Karl Wolff procurava interessar-se, mas não conseguia. Um Brasil do Amazonas ao Chuí, limitando-se ao norte com Mampituba ou com o Oiapoque era-lhe indiferente. Ele mesmo não sabia, nem podia compreender como o Brasil chegava a constituir um Estado independente. Por mais que revolvesse a memória, esta só lhe restituía fatos vagos, imprecisos, esfuminhados, coisas da escola, dispersas, desconexas. Primeiro uma data, 1500, depois um nome, Pedro Álvares Cabral, o Seu Cabral das últimas canções carnavalescas; algumas guerras sem importância contra os franceses e os holandeses; o 7 de Setembro, onde aparecia um príncipe de espada desembainhada, cercado de cavaleiros, à margem de um riacho, como no motivo de tapete que acabara de ver na sala de honra do Centro; a guerra do Paraguai, que o Brasil não teria vencido se não fosse a ajuda dos primeiros colonos alemães; o 13 de Maio, que proclamou a libertação da negrada, uma gente que podia afinal de contas continuar escrava e não precisava andar por aí a faltar com respeito aos arianos. Depois, uma série de revoluções, de correrias, de requisições que só serviam para atrapalhar o comércio e a indústria, fruto exclusivo do esforço germânico.
"Um Rio Imita o Reno", Vianna Moog
(Vianna Moog nasceu no dia 28 de Outubro de 1906. Morreu em 1988.)
"Um Rio Imita o Reno", Vianna Moog
(Vianna Moog nasceu no dia 28 de Outubro de 1906. Morreu em 1988.)
sexta-feira, 28 de outubro de 2016
Vianna Moog 4
Geraldo não consegue dormir. Faz várias tentativas para recomeçar uma leitura interrompida na véspera. Impossível. Não pode prestar atenção. Já fumou vários cigarros. Está descontente consigo mesmo, irritado, nervoso. O calor o incomoda: perturba-o a zoada dos mosquitos. Vira-se na cama de um lado para o outro e o sono não vem. Pesa-lhe a cabeça. Faz um derradeiro esforço para pensar em coisas agradáveis. Inútil. Impossível fugir de si mesmo. A discussão lhe fizera mal. E ele, afinal, se conduzira como um covarde. Para não comprometer a sua situação, o seu emprego, umas relações que para ele não tinham significação, deixara insultar a sua terra, a sua gente.
Na rua sopra um vento forte, uma nuvem de pó invade o quarto. Os fios da iluminação assobiam, parecem vaiá-lo. Longe, rola o bolão. De repente Geraldo lembra-se do pai, que fazia parte dessa sub-raça que ele deixara impunemente insultar. Preguiçoso, o seu pai... E as imagens daquela vida de heroísmo anônimo perpassavam-lhe pela memória. Primeiro via-o na sua fuga do Ceará, acossado pela seca. Tinha sido num ano em que as chuvas não vieram e a soalheira pintara de negro os campos. Via o pai no meio de uma legião dos caminhos esturricados, em demanda do litoral, cruzes toscas e anônimas balizando o roteiro daquela peregrinação de fantasmas. Do litoral, campo de concentração de todas as misérias do sertão, tomara o rumo do Amazonas, que era o primeiro destino que lhe apresentaram e que meio atonizado pelo sofrimento teve de aceitar. Embarcou como os outros para a Terra da Promissão, de que lhe falavam com hipérboles de entusiasmo os primeiros paroaras. Atravancavam o navio como o gado para o corte, em bandos consignados à morte, "com carta de prego para o desconhecido".
"Um Rio Imita o Reno", Vianna Moog
(Vianna Moog nasceu no dia 28 de Outubro de 1906. Morreu em 1988.)
quarta-feira, 28 de outubro de 2015
Vianna Moog 3
Só ele, Geraldo, um covarde. Que estranha natureza a sua, que lhe não permitia odiar em nome dos outros! Ter outras simpatias e aversões que não as suas? Os próprios ódios do pai nunca pudera endossá-los. O velho odiava os regatões, seus concorrentes desleais. Ele os amava, em segredo. Seu pai movia guerra de morte ao dono do seringal vizinho, porque no fundo o achava parecido com seu pai. Eram iguais na ação e na violência. Sim. Era o sangue dos nhengaíbas que lhe corria nas veias. Como sua mãe, não distinguia entre brancos, judeus, sírios, pretos e caboclos. Aceitava ou repelia instintivamente a cada um individualmente, mas não sabia compreender um ódio universal contra um povo, uma raça. Mas com quem estaria a razão e a justiça? Quem andaria certo? Devia ser os outros. Eles eram a maioria. Quem não aceita os ódios e as simpatias dos seus antepassados deve ser covarde. Mas, então, ninguém era como ele? Talvez Lore, pensou Geraldo. Quis duvidar, mas não pôde. Sim, Lore pensava como ele. Talvez não gostasse de judeus, mas a sua simpatia não ia ao ponto de querer queimar as obras de arte que eles produziam. Quando chegariam os tempos em que a humanidade se decidisse a cancelar os ódios do passado para começar uma vida nova?
"Um Rio Imita o Reno", Vianna Moog
(Vianna Moog nasceu no dia 28 de Outubro de 1906. Morreu em 1988.)
"Um Rio Imita o Reno", Vianna Moog
(Vianna Moog nasceu no dia 28 de Outubro de 1906. Morreu em 1988.)
terça-feira, 28 de outubro de 2014
Vianna Moog 2
O que temos a fazer é separar o Rio Grande afirma o promotor, olhos postos no prefeito como a pedir aprovação. E como visse que o chefe aprovava com a cabeça, acrescentou: O Norte é o peso morto do Brasil: só dá seca, impaludismo e febre amarela. Mas lembrando-se de que Geraldo era amazonense, procurou suavizar: Aqui o amigo não repare. Que diabo! Já come churrasco e toma chimarrão.
Está bem disse Geraldo, sem jeito. Não se constranja. Fale com toda a franqueza. Mas que vantagem vê você na separação?
Ora, ficávamos livres...
Não, o Rio Grande só ficava muito pequeno interrompe o secretário. Podíamos incorporar Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Precisamos de São Paulo por causa do café e das indústrias.
Ruben Tauben queria também o Rio de Janeiro. Cidade bonita, a mais bonita do mundo. Tinha um tio que conhecia Constantinopla e não a achara tão bonita quanto o Rio. Ele mesmo podia dar o seu testemunho. No centenário tinha ido lá com o tiro-de-guerra.
"Um Rio Imita o Reno", Vianna Moog
(Vianna Moog nasceu no dia 28 de Outubro de 1906. Morreu em 1988.)
Está bem disse Geraldo, sem jeito. Não se constranja. Fale com toda a franqueza. Mas que vantagem vê você na separação?
Ora, ficávamos livres...
Não, o Rio Grande só ficava muito pequeno interrompe o secretário. Podíamos incorporar Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Precisamos de São Paulo por causa do café e das indústrias.
Ruben Tauben queria também o Rio de Janeiro. Cidade bonita, a mais bonita do mundo. Tinha um tio que conhecia Constantinopla e não a achara tão bonita quanto o Rio. Ele mesmo podia dar o seu testemunho. No centenário tinha ido lá com o tiro-de-guerra.
"Um Rio Imita o Reno", Vianna Moog
(Vianna Moog nasceu no dia 28 de Outubro de 1906. Morreu em 1988.)
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
Vianna Moog
Os mosquitos continuam o seu coro. O vento amainou. A chuva começa a cair. Geraldo já não ouve a trovoada do bolão. A chuva bate nas vidraças. Ele se lembra que desejara a chuva, intensamente. Vieram-lhe à memória os pardais. Eles talvez grasnavam para que o canto dos artistas não os humilhasse. Tinham também entre si compromissos de sangue. Lembrou-se ainda da estátua coberta de incrustações de pardais. Talvez aquela chuva lavasse a estátua. Não, não lavava. Precisava uma chuva mais forte, uma rajada de água. Aquela era muito fraca. Batia de mansinho na vidraça. Apenas descarregava a eletricidade da atmosfera. Ele já podia respirar mais aliviado. Pensava em Lore. Ela lhe ocupava quase todo o campo do pensamento. Agitava-se contra um fundo confuso e móvel: florestas tropicais, o rio imenso, vultos esfumados.
A madrugada encontrou-o perdido no meio de seus fantasmas. E, embalado ao ritmo morno desses pensamentos, Geraldo adormeceu.
"Um Rio Imita o Reno", Vianna Moog
(Vianna Moog nasceu no dia 28 de Outubro de 1906. Morreu em 1988.)
A madrugada encontrou-o perdido no meio de seus fantasmas. E, embalado ao ritmo morno desses pensamentos, Geraldo adormeceu.
"Um Rio Imita o Reno", Vianna Moog
(Vianna Moog nasceu no dia 28 de Outubro de 1906. Morreu em 1988.)
Subscrever:
Mensagens (Atom)