O circo
Na praça antiga da Matriz havia
Um circo que chegara bem recente.
Eu, menino, julgava-o ingenuamente
O palácio encantado da alegria.
Todas as noites, coração ardente,
Àquele mundo de ilusões corria,
E rindo do palhaço eu me sentia
Um ser extraordinário de contente.
Hoje, o circo perdido na distância
Tantas vezes me vem da alma à tona
Que refloresce em mim a leda infância.
Encantamentos vãos que a mente afaga!
Sonhos que o peito avaro aprisiona
E o coração por alto preço os paga!
"Tempo e Espuma", Santos Moraes
(Santos Moraes nasceu no dia 20 de Setembro de 1920)
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sexta-feira, 20 de setembro de 2019
quinta-feira, 20 de setembro de 2018
Santos Moraes 2
O homem e seu cão
Na estrada sozinhos viajavam
Um homem e seu cão.
Não viam do dia as sombras
Nem da noite a escuridão.
Despreocupados da ignota origem
Das coisas e dos seres,
Sozinhos viajavam como irmãos,
Um homem e seu cão.
"Tempo e Espuma", Santos Moraes
(Santos Moraes nasceu no dia 20 de Setembro de 1920)
Na estrada sozinhos viajavam
Um homem e seu cão.
Não viam do dia as sombras
Nem da noite a escuridão.
Despreocupados da ignota origem
Das coisas e dos seres,
Sozinhos viajavam como irmãos,
Um homem e seu cão.
"Tempo e Espuma", Santos Moraes
(Santos Moraes nasceu no dia 20 de Setembro de 1920)
quarta-feira, 20 de setembro de 2017
Santos Moraes
Armário antigo
Abre este armário antigo cheio de pó cinza e mortalha
e retira de dentro os teus antepassados,
aqueles que foram teu sangue circulando através das idades.
Não tentes disfarçar o medo a repulsa a náusea
de revolver o mofo dos anos.
Retira aquele violino de cordas quebradas
que ainda conserva a alma do teu tio que morreu bêbado.
Naquele cofre de prata cheio de cartas presentes e retratos
tua mãe guardou os seus momentos felizes
mas se quiseres chorar procura entre essas coisas
um cacho de teus cabelos ainda tenros
preso a um velho retrato de noivado.
Se reparares bem naquele terno preto
verás teu pai.
Se tocares naquela cadeira de rodas
sentirás o corpo do teu avô paralítico.
E a linda irmã que morreu tísica
verás naquele vestido de baile
a mais bela relíquia desse armário.
Há tanta coisa acumulada
em quase um século
que se olhares com ironia
verás que um fio misterioso
liga inexoravelmente tua vida
àquelas relíquias às vezes destroços de outras vidas.
Agora fecha este armário
que algum dia recolherá teus objetos íntimos.
Deixa que no silêncio e na paz do abandono
as aranhas estendam sua tela sobre ele,
e o tempo dissolva inelutavelmente as lembranças
as fictícias imagens as irredutíveis formas e aparências.
Santos Moraes
(Santos Moraes nasceu no dia 20 de Setembro de 1920)
e retira de dentro os teus antepassados,
aqueles que foram teu sangue circulando através das idades.
Não tentes disfarçar o medo a repulsa a náusea
de revolver o mofo dos anos.
Retira aquele violino de cordas quebradas
que ainda conserva a alma do teu tio que morreu bêbado.
Naquele cofre de prata cheio de cartas presentes e retratos
tua mãe guardou os seus momentos felizes
mas se quiseres chorar procura entre essas coisas
um cacho de teus cabelos ainda tenros
preso a um velho retrato de noivado.
Se reparares bem naquele terno preto
verás teu pai.
Se tocares naquela cadeira de rodas
sentirás o corpo do teu avô paralítico.
E a linda irmã que morreu tísica
verás naquele vestido de baile
a mais bela relíquia desse armário.
Há tanta coisa acumulada
em quase um século
que se olhares com ironia
verás que um fio misterioso
liga inexoravelmente tua vida
àquelas relíquias às vezes destroços de outras vidas.
Agora fecha este armário
que algum dia recolherá teus objetos íntimos.
Deixa que no silêncio e na paz do abandono
as aranhas estendam sua tela sobre ele,
e o tempo dissolva inelutavelmente as lembranças
as fictícias imagens as irredutíveis formas e aparências.
Santos Moraes
(Santos Moraes nasceu no dia 20 de Setembro de 1920)
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