Mostrar mensagens com a etiqueta Ramalho Ortigão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ramalho Ortigão. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Ramalho Ortigão 6

Por detrás do cancelo do quinteiro, no mato fofo das enchidas, por baixo da ramada, ao lado das mais humildes cabanas, vê-se a porca ruça esfoçando a estrumeira, o galo branco cacarejando satisfeito, empoleirado na padiola, na escada de mão encostada à parede do cortelho ou no caniço do carro; e o podengo amarelo, de orelha bicuda, ladra da porta de casa ou de cima do muro, mostrando a quem chega os dentes anavalhados e o grande rabo em ponto de interjeição.
Não há adega, não há despensa, não há fogão de cozinha. A panela preta de barro de Prado ferve solitária sob o testo no pequeno lar enfumarado, à fogueira de cepas e de agulhas de pinheiro, entre os dois escabelos de castanho. Mas há broa em todos os balaios à porta do forno, há toucinho ou há unto, pelo menos, em todas as salgadeiras, há azeitonas no cântaro da salmoeira, há um ovo para pôr a cada galinha choca, uma braçada de erva para cada boi, uma côdea para cada cão, uma rasa de milho para cada fornada, uma estriga para cada roca, uma leira para cada enxada. 

"As Farpas", Ramalho Ortigão

(Ramalho Ortigão nasceu no dia 24 de Outubro de 1836. Morreu em 1915.)

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Ramalho Ortigão 5

O homem mais perfeitamente educado por um mestre foi Stuart Mill. Aos vinte anos de idade ele tinha aprendido com James Mill, seu pai, tudo quanto a ciência pode ensinar a um sábio e a um filósofo. E todavia Stuart Mill conta-nos na sua autobiografia que, ao perguntar um dia a si mesmo se seria feliz, uma vez realizadas nas instituições e nas ideias todas as reformas que ele projectava criar, a sua consciência lhe respondera: não. "Senti-me então desfalecer - diz ele. - Todas as fundações sobre que se tinha arquitectado a minha vida se desmoronaram de repente." Mais tarde ele sentiu a dor, sentiu depois o amor, o amor apaixonado, absorvente, enorme, dominando todo o seu ser, submetendo a força dissolvente da análise; e foi só então que ele se sentiu homem, revivendo para a natureza, forte da grande força que a natureza lhe comunicava, equilibrado para sempre no seu destino, cingido ao coração palpitante de uma mulher que ele amou - ele o sábio, o filósofo, o reformador frio e implacável - com o amor illimitado, entusiástico, cavalheiresco, que as velhas lendas líricas atribuem aos grandes amantes célebres.

"As Farpas", Ramalho Ortigão 

(Ramalho Ortigão nasceu no dia 24 de Outubro de 1836. Morreu em 1915.)

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Ramalho Ortigão 4

Criamos instituições de caridade, fazemos regulamentos de assistência pública, e vangloriamo-nos de haver definido pela revolução liberal o dogma da fraternidade humana, mas somos fundamentalmente incapazes de consagrar à pratica das virtudes, de que julgamos ter na história o monopólio, monumentos como aqueles que nossos avós lhe levantaram a prol do comum e aproveitança da terra, dando em resultado que o mais andrajoso mendigo da portaria do mosteiro de Alcobaça ou do mosteiro de Santa Cruz, com o seu alforge ao pescoço e a sua escudela debaixo do braço, participava, além da ração quotidiana que se lhe distribuía pelo caldeirão da comunidade, de um agasalho de príncipe e de um luxo de arte com que hoje não competem os maiores potentados, os quais em suas casas e para seu recreio íntimo se rodeiam de todas as jóias artísticas de que, pela abolição dos vínculos e pela extinção das ordens religiosas, se apoderou o moderno comércio do bric-à-brac.
Falta-nos a alta noção de solidariedade patriótica, falta-nos o desapego dos bens de fortuna, falta-nos o largo espírito de abnegação, falta-nos a ilimitada liberalidade cavaleirosa, e falta-nos a fé dos nossos avós.

"O Culto da Arte em Portugal", Ramalho Ortigão 

(Ramalho Ortigão nasceu no dia 24 de Outubro de 1836. Morreu em 1915.)

sábado, 24 de outubro de 2015

Ramalho Ortigão 3

Quem nunca veio a Viana, quem não atravessou a linda ponte do caminho-de-ferro, entre o aterro de S. Bento e a risonha aldeia de Darque, tão célebre outrora pelas suas faianças pombalinas; quem não percorreu a estrada litoral até Caminha, através das povoações de Âncora, da Areosa e de Afife; quem não transitou a pé pelos caminhos de uma e da outra margem do rio, por Meadela e Santa Marta, até o pontilhão do Portuzelo rodeado de casais, de moinhos de vento e de rochas em que escachoa a água, límpida e desnevada, através da qual se vêem trepidar e reluzir as trutas; quem não foi e não veio, pela direita e pela esquerda da ribeira, de Viana a Ponte do Lima e de Ponte do Lima a Viana; quem durante alguns dias não viveu e não passeou nesta ridente e amorável região privilegiada das éclogas e das pastorais, não conhece de Portugal a porção de céu e de solo mais vibrantemente viva e alegre, mais luminosa e mais cantante.

"As Farpas I", Ramalho Ortigão

(Ramalho Ortigão nasceu no dia 24 de Outubro de 1836. Morreu em 1915.)

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Ramalho Ortigão 2

Senão quando a corrente do ar cortado pela locomotiva levou-me da cabeça o meu chapéu. 
Preciso abrir para este objecto perdido um parêntese, de cuja substância Deus me livre que se soubesse! Tinha sido feito em Paris por Pinaud & Amour esse bonito chapéu tão flexível que se meteria dentro de um sobrescrito! Era de casimira azul como a minha jaqueta de viagem, forrado de azul-claro com debrum pespontado de seda preta. O próprio Amour me tinha dito ao vender-mo por vinte francos - Cela vous coiffe à merveille - e eu tinha tido a criminosa fraqueza de o acreditar! Aquele chapéu não era para mim somente um chapéu, era um elmo e um arnês. Não me considerava simplesmente coberto quando o punha, considerava-me também armado. Queres que te confesse a verdade? Eu não me teria nunca atrevido a apertar os dedos da minha alemã, nem a beijar-lhe apaixonadamente a luva, se o não trouxesse na cabeça, e era realmente muito mais com o talento dos srs. Pinaud & Arnour, do que com o meu próprio, que eu contava para me fazer passar junto dela por um homem de espírito! 
Os cabelos despenteados pelo vento tinham-me caído para cima dos olhos; compreendi que estava ridículo, não podendo esconder este ar sumamente tolo de todo o homem a quem de repente desaparece o chapéu na asa de um tufão. 
Ela ria às gargalhadas, as quais me caíam na cabeça... na cabeça não - pelas costas abaixo! - como torrentes de água nevada.

"Ele e Ela", "Histórias Cor-de-Rosa", Ramalho Ortigão 

(Ramalho Ortigão nasceu no dia 24 de Outubro de 1836. Morreu em 1915.)

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Ramalho Ortigão

Assim como, libertado de reis, ele não quer mais ser escravo senão de charlatães, assim também, uma vez descarregado do sofisma divino e precisando de algum outro símbolo a que se apegar, encomenda-se devotadamente ao acaso, ao desconhecido, ao inescrutável, e filia-se na política, bajula o cacique e compra cautelas de três vinténs.
Insanavelmente beato pelas fatalidades atávicas da sua raça, sente a necessidade espiritual de iniciar-se nalgum mistério que substitua o dogma e pede então à maçonaria um novo pão eucarístico e um cerimonial litúrgico parecido com o baptismo, com a primeira comunhão e com a crisma. E a sua alma de cândido neófito exulta com a posse dos variados sacramentos dessa religião nova, a que ele será tão fiel como foi à antiga, seguindo-lhe os preceitos e os ritos com a mesma compenetrada unção com que outrora ia à missa, ao sermão e à desobriga.
Quando ninguém precisa da cooperação da sua força chamam-lhe Zé Povinho, figurando-o com uma albarda às costas, e é o lobo manso de quem todos mofam. Quando aos filósofos em desinteligência convém açulá-lo, chamam-lhe o Povo Soberano, omnipotente e absoluto.
Por sua parte, ele acha-se no seio da civilização que o explora como o touro em tarde de corrida no meio do redondel. É puro, bravo, boiante e claro. Está aí para o que quiser dele o capinha, o bandarilheiro e o espada. Acenem-lhe com o trapo encarnado e ele arrancará sempre com lealdade e braveza, entrando pelo seu terreno, acudindo ao engano e indo ao castigo de todas as vezes que o citem para atacar, para escornar, para estripar e afinal para morrer, o que tudo para ele é unicamente marrar.


"As Farpas II", Ramalho Ortigão

(Ramalho Ortigão nasceu no dia 24 de Outubro de 1836. Morreu em 1915.)