| Foto Hernâni Von Doellinger |
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quarta-feira, 19 de setembro de 2018
sexta-feira, 8 de junho de 2018
Anthony Bourdain (1956-2018)
Anthony Bourdain está outra vez no Porto, noticia o jornal Público,
citando a página de Facebook da Câmara Municipal. Uma visita que vem
mesmo a calhar, na ressaca do terceiro título de melhor destino
turístico europeu conquistado pela Invicta e que o presidente Rui
Moreira tão educada e generosamente fez questão de desagradecer aos portuenses e aos portugueses que moram em Portugal.
Bourdain está no Porto para gravar um episódio do seu programa Parts Unknown, da CNN, e já "provou tripas", o que é extraordinário.
A Câmara do Porto está vaidosa. Lá terá as suas razões e certamente verba orçamentada. Sobre Bourdain, eu tenho duas coisas a dizer, e já as disse aqui no Tarrenego!, a primeira em 2011, quando o famoso ex-cozinheiro esteve na capital, e o título era "Bifanamente falando":
Vamos lá corrigir dois gravíssimos equívocos a propósito da passagem por Lisboa do viajante e ex-chef Anthony Bourdain. Primeiro: apresentaram o americano como "estrela da cozinha" e ele não é nada disso. É uma estrela de televisão e, eventualmente, da edição livreira. Estrela da cozinha sou eu. Segundo: a eterna problemática da bifana. Então o homem esteve há coisa de dez anos no Porto e vai agora comer bifanas à capital? Só pode estar mal informado.
É mesmo verdade. Muito antes desta tão badalada visita a Lisboa, Bourdain já tinha vindo ao Porto e aos Açores. E é claro que tinha de começar pelo Porto. Creio que foi no ano de 2001, era ele ainda um grande maluco de argola na orelha e keffiyeh à volta do pescoço. Desse tempo só sobrou o grande maluco. Que comeu castanhas assadas em Santa Catarina, foi ao Majestic, passeou pela Ribeira e pelo Mercado do Bolhão, visitou a Mercearia do Bolhão e almoçou no Rogério do Redondo: sardinha pequena frita, cabeça de pescada cozida com todos e as sacramentais tripas à moda do Porto.
Depois levaram-no ao Aleixo. Provou a salada de polvo e os bolinhos de bacalhau com feijão-fradinho, para ganhar embalo até aos filetes de polvo com arroz do mesmo que dão fama e proveito à casa. O excelente programa televisivo de Anthony Bourdain chamava-se então A Cook's Tour e ainda procurava naquela altura a fórmula de sucesso que veio a afinar um pouco mais tarde, provavelmente já em No Reservations. Receita simples: uma mistura bem temperada de viagem e gastronomia, um estilo de apresentação irreverente e politicamente incorrecto que cativa e, por estranho que pareça, ensina.
Na sua estada pelo Norte, Bourdain deu também um salto aos vales do Douro e do Tâmega, comeu bacalhau com natas, lombo de porco e cabrito assado em forno de lenha. Teve ainda o privilégio e o incómodo de assistir a uma matança de porco e às litúrgicas operações de desmancho e salga, acabando o dia a jogar à bola com a bexiga do bicho, como mandava a tradição.
E depois foi-se embora. Atenção: foi-se embora sem antes ir à Conga comer uma bifana. Mas comeu bifanas agora em Lisboa. Isto cabe na cabeça de alguém? As bifanas da capital sempre me mereceram as maiores reservas e, francamente, a equipa do No Reservations deveria estar na posse desta importante informação.
Bourdain disse que gostou muito das lisboetas "sanduíches gordurosas de porco", com carne "imunda e cortada em fatias finas". É uma definição elegante e que se aceita. Mas havia de ter provado as do Porto! E não me venham dizer que as bifanas são iguais em todo o lado. Porque não são. E não me venham dizer que é só temperar com vinho branco e mais não sei quê (o resto fica cá comigo). Porque não é. É com o vinho (e com o resto), mas também com cerveja, ou para onde é que vocês cuidam que vão as sobras dos barris e a espuma que esborda dos finos (ou imperiais) mal tirados? Vai tudo lá para dentro, para o caldeirão da molhanga, e aqui é que bate o ponto. Aqui é que a porca torce o rabo. É que as bifanas do Porto chafurdam em Super Bock. E isso faz toda a diferença.
Um ano depois, em 2012, ainda mais descorçoado e pessoalmente comprometido, obriguei-me a voltar ao assunto em "Anthony Bourdain deixou-me ficar mal":
Gosto do estilo e dos programas de Anthony Bourdain, a estrela de televisão que acaba de se mudar de armas e bagagens para a CNN. Apresentei-o a amigos, recomendei-o aqui no Tarrenego! E gosto tanto que, ao princípio da noite de sábado, enquanto quase quatro milhões de portugueses sofriam com a segunda parte do Alemanha-Portugal da RTP, eu entretinha-me a ver na SIC Radical dois episódios do No Reservations, um dos quais dedicado a Macau. Mas fiz mal. Afinal tive um desgosto, já não bastava o da bola.
São episódios recentes, suponho que da temporada de 2011. No de Macau, que é o que para o caso interessa, a certo passo Bourdain quer saber da herança lá deixada pelos portugueses, nomeadamente na gastronomia, e levam-no ao Restaurante Fernando. É casa de açoriano e é ali que o ex-chef mais famoso do mundo vai provar os dois mais notáveis paradigmas da cozinha tradicional açoriana: as tripas à moda do Porto e a carne de porco à alentejana. Não estou a brincar. Eu nunca mais tenha apetite se não foi assim que Anthony Bourdain referiu depois estes dois pratos no seu programa: a dobrada e o porco com amêijoas como invenções dos Açores.
Confundiram-no ou confundiu-se. Em qualquer dos casos, o bom do Tony não fica bem no retrato. Vê-se que se calhar não se prepara, dá para desconfiar que não pesquisa, que não confirma. É uma celebridade, bebe uns copos e faz ele muito bem, fia-se nos informadores locais, assina por baixo e faz ele muito mal. Percebo agora porque é que comeu bifanas em Lisboa.
Curiosamente, até há quem defenda que a carne de porco à alentejana é um prato de origem algarvia, confeccionado, isso sim, com carne de animais alimentados no Alentejo, mas deslocalizá-lo para os Açores é ir longe demais. É meter muita água pelo meio. Já quanto às famigeradas tripas, fosse Bourdain aos seus arquivos pessoais e teria facilmente descoberto que, dez anos antes, elas lhe tinham sido apresentadas e explicadas no Porto, o local certo e de nascença.
Salvou-se a alcatra, que também saltou para a mesa do restaurante macaense. A alcatra, sim, pode ser entronizada como o grande contributo da cozinha açoriana para o património gastronómico da humanidade. A alcatra honesta, feita por mão sábia e em alguidar experiente, a alcatra do aroma que chama, do gosto como nenhum outro, da carne a desfazer-se na boca. A alcatra de Vitorino Nemésio, da festa e da fartura. Da partilha, em nome do Pai, do Filho e sobretudo do Espírito Santo.
Melhor do que a alcatra, só a alcatra de peixe. Exactamente, alcatra de peixe. Melhor ainda: a alcatra de peixe de um certo sítio em Porto Judeu, não muito longe de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira. Que mais querem saber? O Zé do Boca Negra trata os clientes todos por tu? Trata. Dá raspanetes à freguesia? Dá, mas é a única borla. É sportinguista? É, coitado. Fala pelos cotovelos? Fala, fala. Tem quatro. Quatro em cada braço. E a alcatra de peixe? É um fenómeno ainda maior.
P.S. - Texto publicado no dia 13 de Fevereiro de 2017, sob o título "Bourdain voltou ao Porto, talvez desta vez acerte". Anthony Bourdain morreu hoje.
Bourdain está no Porto para gravar um episódio do seu programa Parts Unknown, da CNN, e já "provou tripas", o que é extraordinário.
A Câmara do Porto está vaidosa. Lá terá as suas razões e certamente verba orçamentada. Sobre Bourdain, eu tenho duas coisas a dizer, e já as disse aqui no Tarrenego!, a primeira em 2011, quando o famoso ex-cozinheiro esteve na capital, e o título era "Bifanamente falando":
Vamos lá corrigir dois gravíssimos equívocos a propósito da passagem por Lisboa do viajante e ex-chef Anthony Bourdain. Primeiro: apresentaram o americano como "estrela da cozinha" e ele não é nada disso. É uma estrela de televisão e, eventualmente, da edição livreira. Estrela da cozinha sou eu. Segundo: a eterna problemática da bifana. Então o homem esteve há coisa de dez anos no Porto e vai agora comer bifanas à capital? Só pode estar mal informado.
É mesmo verdade. Muito antes desta tão badalada visita a Lisboa, Bourdain já tinha vindo ao Porto e aos Açores. E é claro que tinha de começar pelo Porto. Creio que foi no ano de 2001, era ele ainda um grande maluco de argola na orelha e keffiyeh à volta do pescoço. Desse tempo só sobrou o grande maluco. Que comeu castanhas assadas em Santa Catarina, foi ao Majestic, passeou pela Ribeira e pelo Mercado do Bolhão, visitou a Mercearia do Bolhão e almoçou no Rogério do Redondo: sardinha pequena frita, cabeça de pescada cozida com todos e as sacramentais tripas à moda do Porto.
Depois levaram-no ao Aleixo. Provou a salada de polvo e os bolinhos de bacalhau com feijão-fradinho, para ganhar embalo até aos filetes de polvo com arroz do mesmo que dão fama e proveito à casa. O excelente programa televisivo de Anthony Bourdain chamava-se então A Cook's Tour e ainda procurava naquela altura a fórmula de sucesso que veio a afinar um pouco mais tarde, provavelmente já em No Reservations. Receita simples: uma mistura bem temperada de viagem e gastronomia, um estilo de apresentação irreverente e politicamente incorrecto que cativa e, por estranho que pareça, ensina.
Na sua estada pelo Norte, Bourdain deu também um salto aos vales do Douro e do Tâmega, comeu bacalhau com natas, lombo de porco e cabrito assado em forno de lenha. Teve ainda o privilégio e o incómodo de assistir a uma matança de porco e às litúrgicas operações de desmancho e salga, acabando o dia a jogar à bola com a bexiga do bicho, como mandava a tradição.
E depois foi-se embora. Atenção: foi-se embora sem antes ir à Conga comer uma bifana. Mas comeu bifanas agora em Lisboa. Isto cabe na cabeça de alguém? As bifanas da capital sempre me mereceram as maiores reservas e, francamente, a equipa do No Reservations deveria estar na posse desta importante informação.
Bourdain disse que gostou muito das lisboetas "sanduíches gordurosas de porco", com carne "imunda e cortada em fatias finas". É uma definição elegante e que se aceita. Mas havia de ter provado as do Porto! E não me venham dizer que as bifanas são iguais em todo o lado. Porque não são. E não me venham dizer que é só temperar com vinho branco e mais não sei quê (o resto fica cá comigo). Porque não é. É com o vinho (e com o resto), mas também com cerveja, ou para onde é que vocês cuidam que vão as sobras dos barris e a espuma que esborda dos finos (ou imperiais) mal tirados? Vai tudo lá para dentro, para o caldeirão da molhanga, e aqui é que bate o ponto. Aqui é que a porca torce o rabo. É que as bifanas do Porto chafurdam em Super Bock. E isso faz toda a diferença.
Um ano depois, em 2012, ainda mais descorçoado e pessoalmente comprometido, obriguei-me a voltar ao assunto em "Anthony Bourdain deixou-me ficar mal":
Gosto do estilo e dos programas de Anthony Bourdain, a estrela de televisão que acaba de se mudar de armas e bagagens para a CNN. Apresentei-o a amigos, recomendei-o aqui no Tarrenego! E gosto tanto que, ao princípio da noite de sábado, enquanto quase quatro milhões de portugueses sofriam com a segunda parte do Alemanha-Portugal da RTP, eu entretinha-me a ver na SIC Radical dois episódios do No Reservations, um dos quais dedicado a Macau. Mas fiz mal. Afinal tive um desgosto, já não bastava o da bola.
São episódios recentes, suponho que da temporada de 2011. No de Macau, que é o que para o caso interessa, a certo passo Bourdain quer saber da herança lá deixada pelos portugueses, nomeadamente na gastronomia, e levam-no ao Restaurante Fernando. É casa de açoriano e é ali que o ex-chef mais famoso do mundo vai provar os dois mais notáveis paradigmas da cozinha tradicional açoriana: as tripas à moda do Porto e a carne de porco à alentejana. Não estou a brincar. Eu nunca mais tenha apetite se não foi assim que Anthony Bourdain referiu depois estes dois pratos no seu programa: a dobrada e o porco com amêijoas como invenções dos Açores.
Confundiram-no ou confundiu-se. Em qualquer dos casos, o bom do Tony não fica bem no retrato. Vê-se que se calhar não se prepara, dá para desconfiar que não pesquisa, que não confirma. É uma celebridade, bebe uns copos e faz ele muito bem, fia-se nos informadores locais, assina por baixo e faz ele muito mal. Percebo agora porque é que comeu bifanas em Lisboa.
Curiosamente, até há quem defenda que a carne de porco à alentejana é um prato de origem algarvia, confeccionado, isso sim, com carne de animais alimentados no Alentejo, mas deslocalizá-lo para os Açores é ir longe demais. É meter muita água pelo meio. Já quanto às famigeradas tripas, fosse Bourdain aos seus arquivos pessoais e teria facilmente descoberto que, dez anos antes, elas lhe tinham sido apresentadas e explicadas no Porto, o local certo e de nascença.
Salvou-se a alcatra, que também saltou para a mesa do restaurante macaense. A alcatra, sim, pode ser entronizada como o grande contributo da cozinha açoriana para o património gastronómico da humanidade. A alcatra honesta, feita por mão sábia e em alguidar experiente, a alcatra do aroma que chama, do gosto como nenhum outro, da carne a desfazer-se na boca. A alcatra de Vitorino Nemésio, da festa e da fartura. Da partilha, em nome do Pai, do Filho e sobretudo do Espírito Santo.
Melhor do que a alcatra, só a alcatra de peixe. Exactamente, alcatra de peixe. Melhor ainda: a alcatra de peixe de um certo sítio em Porto Judeu, não muito longe de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira. Que mais querem saber? O Zé do Boca Negra trata os clientes todos por tu? Trata. Dá raspanetes à freguesia? Dá, mas é a única borla. É sportinguista? É, coitado. Fala pelos cotovelos? Fala, fala. Tem quatro. Quatro em cada braço. E a alcatra de peixe? É um fenómeno ainda maior.
P.S. - Texto publicado no dia 13 de Fevereiro de 2017, sob o título "Bourdain voltou ao Porto, talvez desta vez acerte". Anthony Bourdain morreu hoje.
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018
A mãe
| Foto do arquivo pessoal do ex-pára |
Tema composto em meados dos anos sessenta por António Policarpo Costa, do Conjunto Oliveira Muge. Foi um campeão dos discos pedidos em todos os programas dedicados às Forças Armadas.
Mãe, tu estás tão longe de mim
Mãe, sinto que estás a chorar
Não chores a minha ausência
Eu hei-de voltar
Não chores e pensa agora
Que o tempo passa depressa
Pede a Deus que te tire esse tormento
Que te abrande o sofrimento
Desse teu formoso rosto
Mamãe, não chores
Eu volto, mãe
sábado, 10 de fevereiro de 2018
Os pobres
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Ser pobre é fodido. Mas, para quem não sabe o que é a pobreza, "pobre" é apenas título de jornal, cinco caracteres sem pessoas dentro. Pessoas de pele e osso. O Público diz que os "pobres passam a ter acesso a refeições take away em 950 cantinas em todo o país". Vejam bem o que se escreve em Portugal e já vamos no século vinte e um, o tal que nem deveria existir se houvesse respeito pelas profecias: os "pobres" têm outra vez direito à senhazinha da sopa dos ditos. Se os pobres morrerem de fome é porque não deram o nome. Ou então porque não sabem o que quer dizer take away. Problema deles. Os pobres não são leitores do Público.
Havia o clero, havia a nobreza e havia o povo. E isto estava muito bem percebido. Depois apareceu a burguesia, que meteu um bocado de nojo, amantizando-se com o clero, com a nobreza e com o povo, consoante, porque a burguesia é muito dada a certas e determinadas promiscuidades. E a seguir, mas isto já foi um a seguir que demorou muito tempo e ainda está a doer, veio o proletariado, lá do fundo do fundo do clero, da nobreza, do povo e da burguesia que estava distraída a chá e torradas. E do sarro dos pés do proletariado, tipo cogumelos, renasceram os pobres, que aqui atrasado eram uns desgraçados que em dias certos batiam à porta da nossa casa, em Fafe, a pedirem "uma esmolinha, por alma de quem lá tem". Porque nós éramos pobres, mas menos pobres do que eles.
O Público titula que "pobres passam a ter acesso a refeições take away em 950 cantinas em todo o país". Os pobres. Nós. Os que, hoje em dia, não somos nem clero, nem nobreza, nem burguesia, nem povo, nem sequer proletariado, nem jornalistas. Nem somos os pobres que damos esmola. Somos os pobres que a pedimos. Somos outra vez os pobres de papel passado e, isto sim é notícia, vítimas do insulto patarata que também já esbordou da política para o alegado jornalismo.
Eu sou pobre e estou aqui, deste lado. A rapaziada que escreve as tolices que a mandam escrever e os tituladores que acham que são mais finos do que os outros, essa é gente que não sabe de que lado está. Um destes dias cortam-lhes as respectivas comissões de serviço de três meses, escravidão, recibo verde, pouca vergonha e pouca conversa. Talvez então a rapaziada e os tituladores pataratas percebam que afinal somos todos do mesmo: portugueses, pobres, na fila da sopa, apesar de uma vez na vida termos sido serralheiro especializado ou jornalista simpatizante.
(O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa não sabia que havia tantos sem-abrigo em Portugal. Mas devia saber, porque ele sabe tudo. E saberia se lesse o Tarrenego!, ele que lê tudo. Marquei-lhe falta. Mas, como sou boa alma, vamos lá recapitular, hoje com este desabafo escrito e publicado originalmente no dia 16 de Fevereiro de 2012.)
sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018
Laurindinha
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| Foto do arquivo pessoal do ex-pára |
Faz parte do cancioneiro popular português e foi gravada, nomeadamente, por António Mourão, há muitos anos, e Dulce Pontes, mais recentemente.
Ó Laurindinha
Vem à janela
Ver o teu amor
Ai ai ai, que ele vai prá guerra
Se ele vai prá guerra
Deixai-o ir
Ele é rapaz novo
Ai ai ai, ele torna a vir
Ele torna a vir
Se Deus quiser
Ainda vem a tempo
Ai ai ai, de arranjar mulher
De arranjar mulher
De casar contigo
Espera por ele
Ai ai ai, ele é teu amigo
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018
De volta à casa de partida
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Em Portugal há 450 mil casas sobrelotadas e 2,5 milhões de casas subaproveitadas. Há mais de 735 mil casas vazias, umas caindo de velhas, outras ainda por estrear. Em Portugal há cada vez mais portugueses sem dinheiro para pagarem ao banco a prestação da casa. Os portugueses devolvem a casa ao banco, sem ondas e sem suicídios. Em Portugal não há dinheiro. E há cada vez mais portugueses morando no olho da rua. O subsídio por morte também não compensa. O BES anda na China, na Rússia e no Brasil a vender as casas devolvidas em Portugal. E a Caixa Geral de Depósitos prontifica-se a pagar os impostos da transacção a quem lhe comprar casas devolvidas.
O meu banco manda-me mensagens para o telemóvel, assediando-me com a oferta de casas ao preço da uva mijona. São casas devolvidas por portugueses à rasca como eu. As casas que eram de pessoas vão a leilão. E eu sinto-me insultado com as SMS que me convidam a ser cúmplice no aproveitamento da desgraça alheia. Logo à primeira fui imediatamente ao balcão protestar o meu incómodo e exigir que a coisa acabasse ali. Que "Sim, senhor, tem toda a razão, vamos já tratar do assunto", foi o que diligentemente me responderam. E as mensagens continuam.
Também comprei casa, no meu tempo. Fui chulado durante 25 anos e sei de que lado estou. Não devo nada ao banco, não devo nada a ninguém. Decerto por causa disto é que o banco cuida que eu agora sou um dos seus. Não sou. Sou um dos outros.
(O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa não sabia que havia tantos sem-abrigo em Portugal. Mas devia saber, porque ele sabe tudo. E saberia se lesse o Tarrenego!, ele que lê tudo. Marquei-lhe falta. Mas, como sou boa alma, vamos lá recapitular, hoje com esta notazinha escrita e publicada no dia 27 de Novembro de 2012.)
quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018
Portugal de luxo, Portugal de lixo
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Leio num site oficial do Governo de Portugal: "A Pousada do Porto, instalada no Palácio do Freixo, acabou de entrar na prestigiada e exclusiva rede The Leading Hotels of the World. Só os mais luxuosos, prestigiados e sofisticados hotéis são admitidos na referida listagem de apenas 430 unidades em todo o mundo."
Cheguei à exclusiva, luxuosa, sofisticada e duas vezes prestigiada novidade com meia dúzia de dias de atraso. Mas sei que em Janeiro as notícias diziam que Portugal tinha cinco hotéis na lista dos 100 melhores do mundo, e que, em 2012, era português o melhor hotel da Península Ibérica e o melhor pequeno hotel de luxo da Europa era em Lisboa. Em Portugal há mais de 40 hotéis de luxo.
Há também mais de três milhões de pobres, meio milhão de trabalhadores a salário mínimo, um milhão e meio de desempregados e milhares e milhares e milhares de sem-abrigo. No Portugal de lixo multiplicam-se os chalés de luxo como o da foto acima. Ontem, no espaço de menos de cem metros, passei por três. E só espero que os deixem ficar. É o que resta a estes desgraçados: a ilusão de terem um tecto.
(O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa não sabia que havia tantos sem-abrigo em Portugal. Mas devia saber, porque ele sabe tudo. E saberia se lesse o Tarrenego!, ele que lê tudo. Marquei-lhe falta. Mas, como sou boa alma, vamos lá recapitular, hoje com este textinho escrito e publicado no dia 12 de Junho de 2014.)
Menina dos olhos tristes
| Foto do arquivo pessoal do ex-pára |
O poema é de Reinaldo Ferreira e a música é de Zeca Afonso. A canção foi gravada inicialmente, em 1964, por Adriano Correia de Oliveira.
Menina dos olhos tristes,
O que tanto a faz chorar?
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.
Senhora de olhos cansados,
Porque a fatiga o tear?
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.
Vamos, senhor pensativo,
Olhe o cachimbo a apagar.
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.
Anda bem triste um amigo,
Uma carta o fez chorar.
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.
A Lua, que é viajante,
É que nos pode informar
- O soldadinho já volta
Do outro lado do mar.
O soldadinho já volta,
Está quase mesmo a chegar.
Vem numa caixa de pinho.
Desta vez o soldadinho
Nunca mais se faz ao mar.
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terça-feira, 6 de fevereiro de 2018
O com-abrigo e o sem-abrigo
| Foto Hernâni Von Doellinger |
O com-abrigo abeirou-se misericordioso do sem-abrigo, levantou-lhe o cobertor que lhe defendia a cara e disse "Bom dia", o sem-abrigo respondeu estremunhado "Boa noite", passava um pouco do meio-dia e, pensei eu, era melhor princípio de conversa se se tivessem entendido acerca de "Boa tarde".
Via-se que o com-abrigo tinha tarimba, tirei-lhe logo a pinta, era um bom-samaritano nas horas vagas e por conta própria.
- Então, companheiro, como é que vai isso? - encarrilou o com-abrigo.
- Ia bem, obrigado, mas esteja quieto no cobertor... - resmungou o sem-abrigo, agarrando-se com unhas e dentes ao calorzinho que lhe roubavam.
- É assim mesmo, companheiro, positivismo acima de tudo, nada de pensamentos suicidas - acrescentou o com-abrigo.
- Pensamentos quê? - interrogou o sem-abrigo.
- Suicidas, companheiro, pensamentos suicidas, vontade de se matar... - explicou o com-abrigo.
- Eu conheço-o de algum lado? - inquiriu o sem-abrigo.
- Não nos conhecemos de lado nenhum, companheiro, mas estou aqui para o ajudar, limpe a cabeça de pensamentos suicidas... - disse o com-abrigo.
- Deixe então aí um ou dois euros, para um copinho de vinho - pediu o sem-abrigo.
- O importante é afastar os pensamentos suicidas, companheiro, não se deixe levar por eles... - disse o com-abrigo.
- E o eurito?... - quis saber o sem-abrigo.
- Os pensamentos suicidas podem ser-lhe fatais, companheiro, é preciso resistir... - disse o com-abrigo.
- Ouça lá - rebentou o sem-abrigo -, porque é que só fala dessa merda, dos pensamentos suicidas? Eu não quero morrer, quero dormir, caralho! Morra você, se gosta tanto! E, já agora, vá chamar companheiro à puta que o pariu...
Palavra de honra se não foi mesmo assim, ou quase exactamente assim.
(O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa não sabia que havia tantos sem-abrigo em Portugal. Mas devia saber, porque ele sabe tudo. E saberia se lesse o Tarrenego!, ele que lê tudo. Marquei-lhe falta. Mas, como sou boa alma, vamos lá recapitular, a começar por este texto escrito e publicado no dia 16 de Abril de 2016.)
Adeus, Guiné
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| Foto do arquivo pessoal do ex-pára |
A canção é de 1970 e foi um tremendo sucesso. Composta por Mário Ferreira e cantada pelo Conjunto Típico Armindo Campos, rezava assim:
Adeus Guiné vou-te deixar
Minha missão está cumprida
Eu digo-te adeus
Guiné tu bem sabes
Que sinto pelos meus
Que sinto pelos meus
Tão grandes saudades
Pensar de criança
Tenho, mas tenho com fé
Em Deus esperança
Em Deus esperança
Seres sempre Guiné.
Adeus Guiné
Tenho já dever cumprido
Não estou arrependido
De tanto por ti lutar
Adeus Guiné
Serás sempre Portugal
Mas se crescer o teu mal
Volto para te salvar
Foi no continente
Jurei pela vida
Lutar firmemente
Lutar firmemente
Pela Pátria querida
Quando te deixar
De mim a saudade sai
Porque eu vou abraçar
Porque eu vou abraçar
Minha mãe e meu pai
Adeus Guiné
Tenho já dever cumprido
Não estou arrependido
De tanto por ti lutar
Adeus Guiné
Serás sempre Portugal
Mas se crescer o teu mal
Volto para te salvar
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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018
Benfica, o quinto poder
Havia quatro poderes, três a sério (à séria, se lido na Segunda Circular) e outro de carregar pela boca. Os poderes a que estávamos habituados eram o Legislativo, o Executivo, o Judicial e, vamos supor, a Comunicação Social. Agora há mais um poder instituído, o poder do Benfica, que, se leio bem, "notifica comunicação social par travar notícias sobre emails"...
domingo, 7 de janeiro de 2018
O senhor guarda desapareça!...
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| Foto JOSÉ MANUEL RIBEIRO |
Uma vez era campanha eleitoral e saí do trabalho, na tripeiríssima Rua de Santa Catarina, para apanhar o autocarro 37 no Largo dos Lóios. E quando cheguei à Avenida dos Aliados, que é a meio caminho, esbarrei num enorme ajuntamento que rodeava e seguia um Carocha de tecto de abrir. Era muito povo, agitando bandeiras e gritando palavras de ordem tão desordenadas que eu não percebia o que as pessoas diziam. Aproximei-me, chamado pela curiosidade ou não sei por quê, furei pelo meio daquele fervor todo e consegui chegar ao carro. Quem é que lá estava de cabeça de fora e braço pré-presidencial em aceno à multidão? Mário Soares em pessoa. Era ele!
Eu fiquei a um metro do homem. E deixei-me ficar. O Volkswagen careca andava devagar. E eu deixei-me ir. Mas só percebi depois, muito depois. O cortejo desceu à Praça, subiu a Rua dos Clérigos, passou pelos Leões e pelo Hospital de Santo António, entrou na Rua D. Manuel II e quando dou fé Mário Soares está em frente ao Palácio de Cristal. O esquisito, o inexplicável, é que eu também lá estava. A um metro do homem. Eu fui atrás dele e não sabia.
Foi no ano de 1986 e é a história que eu costumo contar quando quero explicar o que é o carisma. Carisma é aquilo: aquele íman, aquele poder sobre as massas, mesmo sem abrir a boca, aquela força invisível que uns poucos têm de aglutinar e empolgar tudo e todos à sua volta, até a mim, que sou um cínico.
(A Vida, que me tem sido tão boa, concedeu-me vinte anos mais tarde, nas Presidenciais de 2006, a prenda extraordinária de poder acompanhar no terreno, profissionalmente, a última verdadeira campanha eleitoral de que Portugal deve ter memória. E com Mário Soares, que se borrifava cada vez mais para os soundbites, para os assessores de imprensa e até para o seu ausente director de campanha, que ele frequentemente não sabia muito bem quem era. Em vez de apelar ao voto, em vez de criticar a concorrência, Soares contava histórias em pequenos auditórios vagamente frequentados, falava de António Sérgio, de Álvaro Cunhal, de Agostinho da Silva, de Camilo Castelo Branco (lembro-me, em Famalicão), de Antero de Quental. Contava Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Irene Lisboa, José Gomes Ferreira, José Régio, Almada Negreiros, Vitorino Nemésio, Miguel Torga, Carlos Queiroz, Adolfo Casais Monteiro, Manuel da Fonseca, Sophia de Mello Breyner Andresen, Carlos Oliveira, Eugénio de Andrade, Mário Cesariny, Natália Correia, Alexandre O'Neill, David Mourão-Ferreira, Alberto Lacerda, Ruy Belo, amigos ou conhecidos em graus diversos. E eu regalado. Mário Soares morreu faz hoje um ano, e o textinho lá de cima foi então publicado por isso.)
sexta-feira, 20 de outubro de 2017
Sardinha luso-espanhola mete ano sabático
| Foto Hernâni Von Doellinger |
A ameaça era de quinze anos de nem vê-la, mas, vá lá, os cientistas do mar que aconselham a Comissão Europeia afinal exigem apenas que Portugal e Espanha deixem de pescar sardinha, nem uma!, durante um ano. Da maneira que as sardinhas andam, realmente uma merda, trinta anos se calhar também não estaria mal...
Mas depois há outro assunto: e os pescadores?...
terça-feira, 17 de outubro de 2017
sábado, 14 de outubro de 2017
domingo, 8 de outubro de 2017
Joana Schenker, a luso-alemã que é portuguesa
Na sexta-feira, o jornal desportivo online Maisfutebol: "Joana Schenker, a luso-alemã que está a fazer história no bodyboard". Hoje, o jornal desportivo online Maisfutebol, há minutos, depois de as coisas terem corrido satisfatoriamente, e de medalha no bolso: "Portuguesa Joana Schenker é campeã mundial de bodyboard". O jornalismo é uma coisa muito bonita...
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sábado, 7 de outubro de 2017
sábado, 8 de julho de 2017
Às armas, às armas! (roubaram-nos 34,4 mil euros)
O que verdadeiramente devia preocupar no lamentável episódio de Tancos é
o prejuízo. O roubo das armas é um escândalo, coisa de terceiro-mundo,
uma vergonha para Portugal. Deixámo-las ir de borla, como foi possível?
Nos países de primeiro-mundo, praticantes das mais avançadas e
inatacáveis técnicas de vigilância a paióis e paiolins, nunca semelhante
poderia ter acontecido. Não. Esses países cinco-estrelas, agora
aparentemente tão alarmados com o mais recente lusofiasco, vendem as
armas directamente aos terroristas, perseguem a mais-valia, e isso é que
é boa política, isso é que está certo...
P.S. - Texto escrito e publicado na passada quarta-feira, dia 5 de Julho. A novidade: raramente acontece, mas eu tinha razão. Diz hoje o jornal Diário de Notícias que o chefe do Estado-Maior do Exército, Rovisco Duarte, estima que "o valor do material roubado do paiol de Tancos há duas semanas ascendeu aos 34,4 mil euros". É dinheiro, dá quase para comprar um carro...
P.S. - Texto escrito e publicado na passada quarta-feira, dia 5 de Julho. A novidade: raramente acontece, mas eu tinha razão. Diz hoje o jornal Diário de Notícias que o chefe do Estado-Maior do Exército, Rovisco Duarte, estima que "o valor do material roubado do paiol de Tancos há duas semanas ascendeu aos 34,4 mil euros". É dinheiro, dá quase para comprar um carro...
quarta-feira, 5 de julho de 2017
Às armas, às armas!
O que verdadeiramente devia preocupar no lamentável episódio de Tancos é o prejuízo. O roubo das armas é um escândalo, coisa de terceiro-mundo, uma vergonha para Portugal. Deixámo-las ir de borla, como foi possível? Nos países de primeiro-mundo, praticantes das mais avançadas e inatacáveis técnicas de vigilância a paióis e paiolins, nunca semelhante poderia ter acontecido. Não. Esses países cinco-estrelas, agora aparentemente tão alarmados com o mais recente lusofiasco, vendem as armas directamente aos terroristas, perseguem a mais-valia, e isso é que é boa política, isso é que está certo...
terça-feira, 8 de novembro de 2016
Hotéis de luxo é connosco
| Foto Hernâni Von Doellinger |
"Há quatro hotéis portugueses entre os melhores hotéis de luxo da Europa", fiz o DN. São o Vintage House Hotel, no Pinhão, o Monte Rei Golf e a Casa Modesta, ambos no Algarve, e o Terra Nostra Garden, nos Açores.
Portugal continua a ser um must. Em Janeiro de 2014 já o nosso país tinha cinco hotéis na lista dos 100 melhores do mundo, e em 2012 era português o melhor hotel da Península Ibérica e o melhor pequeno hotel de luxo da Europa era em Lisboa.
Em Portugal há mais de 40 hotéis de luxo.
Há também mais de três milhões de pobres, meio milhão de trabalhadores a salário mínimo, um milhão e meio de desempregados e milhares de sem-abrigo. Vivemos portanto entre o Portugal do luxo e o Portugal do lixo. Que se há-de fazer, é a vida, não é?...
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