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segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Abel Botelho 7

Devia de ser rapaz quem ele procurava; porque os olhos deste homem alto e seco poisavam de preferência nas faces imberbes, levemente penujosas, dos adolescentes. Fitava-os um instante, com uma fixidez gulosa e sombria, e desandava logo para outro lado. Percebia-se mesmo, ao cabo de alguns minutos de observação, que ele não procurava determinadamente alguém. Ao contrário, parecia comparar, confrontar, escolher. Se havia garotos por junto dos quais passava rápido, após um olhar furtivo, havia também outros a cuja descoberta lhe arrepanhava as faces a mais pungente sensualidade. E então, com estes, não havia meio que não empregasse para lhes ferir a atenção. Roçava-os de leve com o braço; tocava-lhes a coxa com a bengala, como distraído; postava-se-lhes ao lado, fitando-os com o olhar seco e vítreo, persistente; soprava-lhes na nuca uma baforada de fumo, ao passar. Todo este jogo, - é de saber -, feito sempre sonsamente, com cautelas de hipócrita, com astúcias felinas, todo sabiamente intervalado com olhares perscrutadores em torno... não fosse por aí aparecer e surpreendê-lo alguém conhecido.
E, de cada vez que o jovem interpelado se afastava, aborrecido ou indiferente, o noctívago caçador de efebos lá seguia em cata de outro, cortando os grupos, atravessando a rua, numa incoerência de vertigem, não se sabia bem se tiranizado por um vício secreto, se esmagado por uma feroz melancolia.

"O Barão de Lavos", Abel Botelho 

(Abel Botelho nasceu no dia 23 de Setembro de 1854. Morreu em 1917.)

domingo, 23 de setembro de 2018

Abel Botelho 6

Simultaneamente com esta clandestina conspirata nos promíscuos desvãos da locanda do Zé Pequeno, ali a não muitos metros dela, em casa de Afonso de Carvalho Meireles, o arrogante senhor da fábrica do Almargem, se retinira também a pequena sociedade habitual. Numa aparatosa antessala, austera e fria, - té meia altura vestida do seu rodapé de azulejos, para cima um carcomido forro de preciosos gobelins, em capelas, paveias, listrões de flores, mal amparados erguendo-se a entestar com a bisarma piramidal do negro teto apainelado, - abancavam, como de habito, a uma quina, em volta ao grande bufete de ébano torcido: o velho Meireles e a mulher, o comendador Sulpício, o Bernardo Gonzaga, o padre Sebastião. E um pouco a distancia, no outro extremo da diagonal, Adriana, a patrícia filha dos donos da casa, distraída bedelhava ao piano, em vagos acordes, em fugazes e cérulas melodias.

"Amanhã", Abel Botelho 

(Abel Botelho nasceu no dia 23 de Setembro de 1854. Morreu em 1917.)

sábado, 23 de setembro de 2017

Abel Botelho 5

Havia primeiro uma sorte de pequeno pátio interior, ladrilhado a tijolo, com portas abrindo sobre imundas cafuas em esconso, que promiscuamente serviam de depósito de géneros e quartos de dormir. Uma outra porta, em frente da entrada, dava serventia para uma grande sala em osso, assimétrica e oblonga, o teto sem forro, nua ainda na sua provisoria aspereza a taipa escura das paredes, e onde a intensa absorção da luz, por efeito da ausência quase completa do branco, junta com um espesso véu de fumo sobrenadando, apagava as arestas, comia os contornos, emprestava aquele vasto cenário um ar fantástico, impedindo a nítida visionação das coisas.
Entretanto, via-se logo porção de gente abancada contra as duas compridas mesas paralelas, que longitudinalmente tomavam toda a quadra. Difusas, vivas, em todos os sentidos cruzavam-se as conversas; um estrupidante rumor de interesse reboava alto no recinto, por entre o alegre tilintar dos copos e o lento espiralar dos rolos de fumo dos cigarros. Da asna central do teto - cuja ossatura pelintra, a descoberto, acusava a grade irregular das vigas e permitia contar as telhas - pendia um varão de ferro, tendo nos extremos dois grandes candeeiros de petróleo com para-luz de folha pintado a verde. De roda, numa caótica confusão, vestindo as traves, pejando os cantos, em rima junto ás paredes, por toda a parte riscando cabalísticas sombras, apontavam vagos perfis de arados, ancinhos, foices, aduelas, arcos de pipas, talhas para azeite, rosários de cebolas, pilhas de lenha, um promontório enorme de batatas. Cheirava a feno e a peixe frito; respirava-se um ar morno e penetrante, cumulativo a tasca e a curral, a abegoaria e a caserna.

"Amanhã", Abel Botelho 

(Abel Botelho nasceu no dia 23 de Setembro de 1854. Morreu em 1917.)

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Abel Botelho 4

Quando entrou em casa, na saleta habitual dos serões, o barão proferiu, no tom frio e breve de quem se desobriga de um dever banal: - Boa noite, Vivi -, enquanto deixava cair maquinalmente um beijo nos crespos eriçados sobre a testa pequenina da baronesa, que lia com interesse Madame Bovary. Depois, logo a seguir, afundou-se pesadamente na macieza de um fauteuil.
- Boa noite... Então que tal? - retorquiu a baronesa, erguendo indolente os olhos do livro e sorrindo para o marido com uma indiferença amável.
- Uma sensaboria... Não volto lá tão cedo. Bem fizeste tu em preferir àquela palhaçada tão vista o conchego da tua casinha e a companhia leal dos teus livros.
- Ah! e então que livro, este!... - exclamou a baronesa num profundo acento admirativo, retomando com delícia a leitura interrompida.
- Gostas?
- Nunca li nada que me tocasse tanto! - e enovelou-se toda na cabeceira da chaise-longue, uma das pernas dobrada, colhida graciosamente sob o tronco, num gesto friorento de avezita; as mãos sobre o regaço, preguiçosas, deixando os dedos jogar distraidamente com os anéis; as pupilas traçando num vaivém rápido o paralelismo das linhas que iam devorando no livro, poisado sobre uma mesinha baixa de charão.
- Sabes tu quem eu vi?... - tornou o barão, querendo armar conversa. - Os Paradelas.
Porém a baronesa, cortando logo:
- Sim, sim, mas deixa-me ler.


"O Barão de Lavos", Abel Botelho 

(Abel Botelho nasceu no dia 23 de Setembro de 1854. Morreu em 1917.)

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Abel Botelho 3

Naquela noite de Março, desabrida e húmida, uma grande animação fervilhava alacremente ao fundo da Rua do Salitre. Era em 1867. Frente a frente, as Variedades e o Circo Price alinhavam os seus bicos de gás festeiros, a que as vergastadas do noroeste impunham um tremelilhar inquieto. Quinta-feira - noite de cabriolas com sobrescrito à fina sociedade. Enchente certa no Circo. De cada lado do portal da entrada, um semicírculo compacto de gente se agitava, tendo por centro cada um seu postigo de bilheteiro, e ambos por igual colados, premidos sofregamente contra a parede verdoenga do barracão, e arredondando pela rua fora, numa irregularidade gritada e confusa, a toda a largura do macadame. Tudo queria bilhete. Havia chapéus tombados, ombros que penetravam à cunha, braços arpoando vigorosamente os alizares castanhos dos postigos, mãos retirando triunfantes, muito erguidas, com um papelinho azul ao vento.
A cada minuto a agitação crescia. Pregoava-se água fresca, pastelinhos, tâmaras. Dum primeiro andar, com tabuinhas verdes, logo abaixo do Circo, meninas de batas brancas convidavam: - Psiu! não sobes, ó catitinha? - aos janotas que passavam. Rodopiava no ar, a cada estocada de vento, um cheiro pelintra a iscas e a refogado. A iluminação profusa dos dois teatros doirava, remoçava, erguia as caliças octogenárias das Variedades, acendia espelhamentos fulvos no basalto húmido da calçada, e fazia entrever na penumbra, pela rua acima, o renque tortuoso dos prédios que subiam. A espaços, um trem rodava; e, no seu rápido passar entre os dois teatros, uma dupla fita de fogo lhe corria na fluidez do polimento.
Um homem vagueava ali, contudo, que não parecia dar-se grande pressa em entrar. la e vinha, parava, esquadrinhava a multidão, passava automaticamente de grupo a grupo, nesta ansiedade tortuosa de quem procura com aferro alguém. No olhar, dilatado e teimoso, duma secura inflamada e vítrea, fulgurava a obstinação dum desejo; ao passo que na boca a brasa do charuto, num labirinto febril de pequeninos movimentos bruscos, denotava que os lábios e as maxilas eram nervosamente sacudidos por uma forte preocupação animal.

"O Barão de Lavos", Abel Botelho 

(Abel Botelho nasceu no dia 23 de Setembro de 1854. Morreu em 1917.)

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Abel Botelho

- Essa ceia está pronta? - perguntou enfastiado o Serafim, cuja figura esgalgada e curva, tendo vencido o último degrau da escada, assomava oscilando à porta da cozinha.
- Há que tempos! - respondeu-lhe, sem o olhar, uma mulherita atarracada e bruna, que no vão da chaminé, à esquerda da porta, mesmo junto à esquina, de candeia suspensa da mão esquerda mexia um tacho de barro fumando sobre e fogareiro. 
 - Bem... vamos então a aviar! - comandou o operário, numa leve impaciência, atirando o corpo descadeirado e longo para cima dum mocho de pinho, de encontro à mesa, do outro lado da porta de entrada, e projectando o chapéu com arremesso. 
- É pra já! - acudiu de salto a mulher, enquanto lhe vinha perto pendurar a candeia, dum grande prego enferrujado. A seguir, foi à chaminé, tornou, e fitando agora firme o Serafim, inquiria, com um significativo ar, quando na frente lhe punha, sobre a gorduragem gretada das tábuas ressequidas, o tacho fumegante: - Vens-lhe com gana hoje?...
- Mas gana de quê?... - logo repontou o Serafim, enviesando malevolamente os olhos.
- Ora de que há-de ser?... De tasquinhar. E ainda bem!
Dizendo, a ladina da Clara rodopiava ligeira na acanhado aposento, descendo do armário e dispondo na mesa dois pratos de barro, singelamente vidrados a branco e sua franja de azul nos bordos, depois colheres e garfos de chumbo, pão, um pires esbeiçado com azeitonas. E então, com o mesmo ar finório, as costas da mão sobre a mesa: 
- A não ser que tu... sim... lá tenhas outro sentido. - A cara patibular do Serafim torcia-se num sorrisinho implicante. E a mulher a insistir: - Não sei o que te acho! Estás-me assim a modo campeiro...
- E tu estás muito doutora...
- Cada um é como Deus o fez...
- Senta-te! - gritou com ímpeto o Serafim, fuzilando-lhe um relâmpago de cólera na abaçanada frouxidão dos olhos. E arrastou ainda, numa sorna de ameaça: - Nós temos festa... - Depois imperiosamente a repetir: - Então!?
Ao que a mulherita prontamente obedeceu, trazendo cadeira para junto do seu homem, e dando-lhe ao sentar-se um amorável repelão no braço: - Mostrengo!
Mas, insensível, o Serafim lançava do tacho para o prato e sorvia automaticamente, sem vontade, sem prazer, uma negra e triste aguadilha, mosqueada de olhitos de azeite, condensando na frialdade do ambiente um vapor nauseabundo, e de cuja dessorada fluidez a quando e quando emergia a ironia cortical dum feijão, ou a coriácea insipidez dalguma couve saloia. De sua banda a Clara imitava-o, atacando também, mas de longe, como quem se despacha duma fastidiosa obrigação, o sujo tacho requeimado; e para isto estendia o braço direito, todo longo, e sobre o antebraço esquerdo em repouso tinha o avental colhido no regaço.

"Amanhã", Abel Botelho

(Abel Botelho nasceu no dia 23 de Setembro de 1854. Morreu em 1917.)