Mostrar mensagens com a etiqueta O Barão de Lavos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta O Barão de Lavos. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Abel Botelho 7

Devia de ser rapaz quem ele procurava; porque os olhos deste homem alto e seco poisavam de preferência nas faces imberbes, levemente penujosas, dos adolescentes. Fitava-os um instante, com uma fixidez gulosa e sombria, e desandava logo para outro lado. Percebia-se mesmo, ao cabo de alguns minutos de observação, que ele não procurava determinadamente alguém. Ao contrário, parecia comparar, confrontar, escolher. Se havia garotos por junto dos quais passava rápido, após um olhar furtivo, havia também outros a cuja descoberta lhe arrepanhava as faces a mais pungente sensualidade. E então, com estes, não havia meio que não empregasse para lhes ferir a atenção. Roçava-os de leve com o braço; tocava-lhes a coxa com a bengala, como distraído; postava-se-lhes ao lado, fitando-os com o olhar seco e vítreo, persistente; soprava-lhes na nuca uma baforada de fumo, ao passar. Todo este jogo, - é de saber -, feito sempre sonsamente, com cautelas de hipócrita, com astúcias felinas, todo sabiamente intervalado com olhares perscrutadores em torno... não fosse por aí aparecer e surpreendê-lo alguém conhecido.
E, de cada vez que o jovem interpelado se afastava, aborrecido ou indiferente, o noctívago caçador de efebos lá seguia em cata de outro, cortando os grupos, atravessando a rua, numa incoerência de vertigem, não se sabia bem se tiranizado por um vício secreto, se esmagado por uma feroz melancolia.

"O Barão de Lavos", Abel Botelho 

(Abel Botelho nasceu no dia 23 de Setembro de 1854. Morreu em 1917.)

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Abel Botelho 4

Quando entrou em casa, na saleta habitual dos serões, o barão proferiu, no tom frio e breve de quem se desobriga de um dever banal: - Boa noite, Vivi -, enquanto deixava cair maquinalmente um beijo nos crespos eriçados sobre a testa pequenina da baronesa, que lia com interesse Madame Bovary. Depois, logo a seguir, afundou-se pesadamente na macieza de um fauteuil.
- Boa noite... Então que tal? - retorquiu a baronesa, erguendo indolente os olhos do livro e sorrindo para o marido com uma indiferença amável.
- Uma sensaboria... Não volto lá tão cedo. Bem fizeste tu em preferir àquela palhaçada tão vista o conchego da tua casinha e a companhia leal dos teus livros.
- Ah! e então que livro, este!... - exclamou a baronesa num profundo acento admirativo, retomando com delícia a leitura interrompida.
- Gostas?
- Nunca li nada que me tocasse tanto! - e enovelou-se toda na cabeceira da chaise-longue, uma das pernas dobrada, colhida graciosamente sob o tronco, num gesto friorento de avezita; as mãos sobre o regaço, preguiçosas, deixando os dedos jogar distraidamente com os anéis; as pupilas traçando num vaivém rápido o paralelismo das linhas que iam devorando no livro, poisado sobre uma mesinha baixa de charão.
- Sabes tu quem eu vi?... - tornou o barão, querendo armar conversa. - Os Paradelas.
Porém a baronesa, cortando logo:
- Sim, sim, mas deixa-me ler.


"O Barão de Lavos", Abel Botelho 

(Abel Botelho nasceu no dia 23 de Setembro de 1854. Morreu em 1917.)

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Abel Botelho 3

Naquela noite de Março, desabrida e húmida, uma grande animação fervilhava alacremente ao fundo da Rua do Salitre. Era em 1867. Frente a frente, as Variedades e o Circo Price alinhavam os seus bicos de gás festeiros, a que as vergastadas do noroeste impunham um tremelilhar inquieto. Quinta-feira - noite de cabriolas com sobrescrito à fina sociedade. Enchente certa no Circo. De cada lado do portal da entrada, um semicírculo compacto de gente se agitava, tendo por centro cada um seu postigo de bilheteiro, e ambos por igual colados, premidos sofregamente contra a parede verdoenga do barracão, e arredondando pela rua fora, numa irregularidade gritada e confusa, a toda a largura do macadame. Tudo queria bilhete. Havia chapéus tombados, ombros que penetravam à cunha, braços arpoando vigorosamente os alizares castanhos dos postigos, mãos retirando triunfantes, muito erguidas, com um papelinho azul ao vento.
A cada minuto a agitação crescia. Pregoava-se água fresca, pastelinhos, tâmaras. Dum primeiro andar, com tabuinhas verdes, logo abaixo do Circo, meninas de batas brancas convidavam: - Psiu! não sobes, ó catitinha? - aos janotas que passavam. Rodopiava no ar, a cada estocada de vento, um cheiro pelintra a iscas e a refogado. A iluminação profusa dos dois teatros doirava, remoçava, erguia as caliças octogenárias das Variedades, acendia espelhamentos fulvos no basalto húmido da calçada, e fazia entrever na penumbra, pela rua acima, o renque tortuoso dos prédios que subiam. A espaços, um trem rodava; e, no seu rápido passar entre os dois teatros, uma dupla fita de fogo lhe corria na fluidez do polimento.
Um homem vagueava ali, contudo, que não parecia dar-se grande pressa em entrar. la e vinha, parava, esquadrinhava a multidão, passava automaticamente de grupo a grupo, nesta ansiedade tortuosa de quem procura com aferro alguém. No olhar, dilatado e teimoso, duma secura inflamada e vítrea, fulgurava a obstinação dum desejo; ao passo que na boca a brasa do charuto, num labirinto febril de pequeninos movimentos bruscos, denotava que os lábios e as maxilas eram nervosamente sacudidos por uma forte preocupação animal.

"O Barão de Lavos", Abel Botelho 

(Abel Botelho nasceu no dia 23 de Setembro de 1854. Morreu em 1917.)