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quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Espero que ao receberes esta 2

                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 7 de janeiro de 2017

Lugares-(in)comuns 232

                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 18 de dezembro de 2016

Onomástica, toponímia & outros nomes esquisitos 12

                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

Um bobsleigh em segunda mão. No tempo dos sonhos eu tive um: comprar um bobsleigh em segunda mão, pegar na mulher, no filho e no futuro e mudarmo-nos os quatro para Santiago de Compostela, que era o estrangeiro que me estava mais à mão e nós gostávamos razoavelmente derivado às ruinhas, às tapas e às cañas e por a bem dizer nem ser estrangeiro. Melhor dito, gostamos muito. Mas hoje em dia: a Galiza anda tão à rasca como a gente, já não é oficialmente estrangeiro e saraiva por mais que saraive, ainda que em galego, não é neve nem embala. Ia fazer o quê com o bobsleigh na Praça do Obradoiro? Do Obradoiro, que nome extraordinário. Ainda por cima, os gandulos do lado de cá cortaram-me as vazas, entesaram-me até ao cutão. Desisti portanto do bobsleigh e tirei o passe do metro para a Senhora da Hora. Segundo julgo saber, na Senhora da Hora não neva há variados anos por uma questão de princípio. Que se segue: de bolsos vazios e sonhos roubados, fico olimpicamente em casa à espera do Verão de que não gosto. Sem bobsleigh, sem ruinhas, sem tapas e sem cañas. Uma seca que só visto.
Sou dado a invernos. Melhor que chova em Santiago. E que neve e que gele. Ou então nada disso, que ao ponto a que chegámos também não interessa, mas Santiago, sempre Santiago, mesmo sem bobsleigh e ainda que faça sol. Um dia destes lá iremos, eu, a mulher, o filho e o futuro - pobres e a pé, se Deus quiser, mas vamos. E tem de ser rápido, antes que uns certos e determinados bandalhos nos matem à fome em primeira mão.

A extraordinária roseira do coveiro Gusto Sardão. No quintal dos meus sogros há meia dúzia de roseiras razoavelmente produtivas e formiguentas. As flores vêm cá para casa, as formigas às vezes também. Cinco das seis roseiras do quintal dos meus sogros dão rosas vermelhas, mas daquele vermelho sanguíneo, belíssimo, rosas de livro e de filme, e cheiram a nada, como se fossem de supermercado, de plástico. A outra roseira, exemplar único, logo à entrada, dá umas rosas cor-das-mesmas, numa corzinha envergonhada e pálida, maricas, e porém manda-me cá para fora um perfume que inebria a léguas.
A roseira perfumosa, extraordinária, foi oferecida ao meu sogro, há muitos muitos anos, pelo Gusto Sardão, então coveiro titular do cemitério da então freguesia de Nevogilde, concelho do Porto. Para os registos: Augusto Francisco da Costa Almeida, enterrador de categoria e decilitrador condecorado, creio que uma coisa tem a ver com a outra. O Senhor Augusto - Senhor, para mim, com todo o respeito - tinha a voz mais bagaceira que Deus ao mundo botou, muito mais completa do que a do Bruno de Carvalho do Sporting, parece que ainda o estou a ouvir, o que é tecnicamente impossível. Com efeito, um dia o Senhor Augusto resolveu seguir os passos da clientela, faleceu ele próprio para não empecilhar o negócio, e actualmente confraterniza com os seus antigos ossos do ofício. Isto é: continua ao serviço, mas agora do lado de dentro. Não sei como nem quem lhe paga a féria...
Mas a roseira. A roseira extraordinária, delicada e odorosa, veio exactamente do cemitério, e isso é que eu ainda não tinha contado, e isso é que a torna realmente extraordinária. Do cemitério de Nevogilde, lugar do "santo" Menino Quim, de bruxedos ao portão e de outros espantos. As rosas, por exemplo: que não alcançam a exuberância cardiofálica e escandalosa dos antúrios de ficção do fotógrafo Jorge Tadeu, na telenovela brasileira Pedra Sobre Pedra, mas que, na sua modéstia, se oferecem abertas e feminis, reais, a quem as queira e saiba desfrutar.
Abençoado cemitério que semelhantes rosas dá. Abençoado. Um cemitério assim é uma provocação, um desafio lançado a quem não acredita em nada para além da óbito. Um cemitério como o do coveiro Gusto Sardão dá sentido e utilidade ao pós-morte, mesmo ao pós-vida dos incréus. Deve ser um conforto morrer sabendo que ao menos seremos estrume. E de rosas. Rosas subtis e perfumadas, rosas extraordinárias. 

sábado, 26 de novembro de 2016

Lugares-comuns 446

                                                                                                                    Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Nem para segurar a perna manca da mesa da sala?

                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

Lugares-comuns 433

                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Lugares-comuns 429

                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Nem dou nem tiro (horas?)

                                                                                                                  Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 20 de agosto de 2016

Lugares-comuns 395

                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Histórias de cemitérios e rosas, senhores

No quintal dos meus sogros há meia dúzia de roseiras razoavelmente produtivas e formiguentas. As flores vêm cá para casa, as formigas às vezes também. Cinco das seis roseiras do quintal dos meus sogros dão rosas vermelhas, mas daquele vermelho sanguíneo, belíssimo, rosas de livro e de filme, e cheiram a nada, como se fossem de supermercado, de plástico. A outra roseira, exemplar único, logo à entrada, dá umas rosas cor-das-mesmas, numa corzinha envergonhada e pálida, maricas, e porém manda-me cá para fora um perfume que inebria a léguas.
A roseira perfumosa, extraordinária, foi oferecida ao meu sogro, há muitos muitos anos, pelo Gusto Sardão, então coveiro titular do cemitério da então freguesia de Nevogilde, concelho do Porto. Para os registos: Augusto Francisco da Costa Almeida, enterrador de categoria e decilitrador condecorado, creio que uma coisa tem a ver com a outra. O Senhor Augusto - Senhor, para mim, com todo o respeito - tinha a voz mais bagaceira que Deus ao mundo botou, muito mais completa do que a do Bruno de Carvalho do Sporting, parece que ainda o estou a ouvir, o que é tecnicamente impossível. Com efeito, um dia o Senhor Augusto resolveu seguir os passos da clientela, faleceu ele próprio para não empecilhar o negócio, e actualmente confraterniza com os seus antigos ossos do ofício. Isto é: continua ao serviço, mas agora do lado de dentro. Não sei como nem quem lhe paga a féria...
Mas a roseira. A roseira extraordinária, delicada e odorosa, veio exactamente do cemitério, e isso é que eu ainda não tinha contado, e isso é que a torna realmente extraordinária. Do cemitério de Nevogilde, lugar do "santo" Menino Quim, de bruxedos ao portão e de outros espantos. As rosas, por exemplo: que não alcançam a exuberância cardiofálica e escandalosa dos antúrios de ficção do fotógrafo Jorge Tadeu, na telenovela brasileira Pedra Sobre Pedra, mas que, na sua modéstia, se oferecem abertas e feminis, reais, a quem as queira e saiba desfrutar.
Abençoado cemitério que semelhantes rosas dá. Abençoado. Um cemitério assim é uma provocação, um desafio lançado a quem não acredita em nada para além da óbito. Um cemitério como o do coveiro Gusto Sardão dá sentido e utilidade ao pós-morte, mesmo ao pós-vida dos incréus. Deve ser um conforto morrer sabendo que ao menos seremos estrume. E de rosas. Rosas subtis e perfumadas, rosas extraordinárias.

P.S.: Contava o JN que - "Um homem, de 38 anos, apresentou queixa na GNR em Felgueiras contra a ex-companheira, por acreditar que esta realizou uma feitiçaria, com terra de cemitérios, que lhe faz encolher o sexo. Para evitar que o pénis desapareça, o indivíduo envolve-o com fita-cola."
Portanto, terra de cemitério usada para o mal. Na história que aqui vos contei no passado dia 5 de Janeiro de 2016, então com o título "A extraordinária roseira do coveiro Gusto Sardão", a terra de cemitério, de um certo cemitério, tem serventia para o bem. Repito-a hoje aí em cima.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Quer o Céu? Tire a senha, se faz favor...

Foto Hernâni Von Doellinger

No chão de cimento do cemitério jaz, abandonada e fria, uma senha de vez. O famigerado ticket, ou tiquê, como nos dá muito mais jeito dizer, e dá-nos sempre muito mais jeito dizer mal, não é? "Puxe", manda a senha número E29. "Puxe". Pensei: poderia dar-se o caso de ser esta a solução desenterrada por espertos sepultadores para organizar as dezenas ou centenas de defuntos que diariamente se acotovelam aos portões dos cemitérios sobrelotados, à espera de vez, à espera de vaga. (Os mortos portugueses têm geralmente medo de serem queimados vivos e, como resultado, num país com apenas 92 mil quilómetros quadrados, os nossos campos-santos rebentam pelas costuras, as campas não chegam para as encomendas.) Mas não: a coisa não é assim tão terrena, pensei melhor, isto vem, upa, upa, lá de cima. É assunto de almas e não de corpos. É. O Céu está equipado com pelo menos um dispensador de senhas de vez, tive a certeza e tinha a prova. Percebi tudo. Quer a salvação eterna? Tire o número e vá para a fila, essa é que é essa! "Mas que bizarra epifania, lá se me foram os fundamentos" - lamuriei-me, rangendo os dentes. - "Até Tu, meu Deus?! Que tristeza! Onde o negócio e a burocracia já chegaram"...

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

A extraordinária roseira do coveiro Gusto Sardão

                                                                                         Foto Hernâni Von Doellinger

No quintal dos meus sogros há meia dúzia de roseiras razoavelmente produtivas e formiguentas. As flores vêm cá para casa, as formigas às vezes também. Cinco das seis roseiras do quintal dos meus sogros dão rosas vermelhas, mas daquele vermelho sanguíneo, belíssimo, rosas de livro e de filme, e cheiram a nada, como se fossem de supermercado, de plástico. A outra roseira, exemplar único, logo à entrada, dá umas rosas cor-das-mesmas, numa corzinha envergonhada e pálida, maricas, e porém manda-me cá para fora um perfume que inebria a léguas.
A roseira perfumosa, extraordinária, foi oferecida ao meu sogro, há muitos muitos anos, pelo Gusto Sardão, então coveiro titular do cemitério da então freguesia de Nevogilde, concelho do Porto. Para os registos: Augusto Francisco da Costa Almeida, enterrador de categoria e decilitrador condecorado, creio que uma coisa tem a ver com a outra. O Senhor Augusto - Senhor, para mim, com todo o respeito - tinha a voz mais bagaceira que Deus ao mundo botou, muito mais completa do que a do Bruno de Carvalho do Sporting, parece que ainda o estou a ouvir, o que é tecnicamente impossível. Com efeito, um dia o Senhor Augusto resolveu seguir os passos da clientela, faleceu ele próprio para não empecilhar o negócio, e actualmente confraterniza com os seus antigos ossos do ofício. Isto é: continua ao serviço, mas agora do lado de dentro. Não sei como nem quem lhe paga a féria...
Mas a roseira. A roseira extraordinária, delicada e odorosa, veio exactamente do cemitério, e isso é que eu ainda não tinha contado, e isso é que a torna realmente extraordinária. Do cemitério de Nevogilde, lugar do "santo" Menino Quim, de bruxedos ao portão e de outros espantos. As rosas, por exemplo: que não alcançam a exuberância cardiofálica e escandalosa dos antúrios de ficção do fotógrafo Jorge Tadeu, na telenovela brasileira Pedra Sobre Pedra, mas que, na sua modéstia, se oferecem abertas e feminis, reais, a quem as queira e saiba desfrutar.
Abençoado cemitério que semelhantes rosas dá. Abençoado. Um cemitério assim é uma provocação, um desafio lançado a quem não acredita em nada para além da óbito. Um cemitério como o do coveiro Gusto Sardão dá sentido e utilidade ao pós-morte, mesmo ao pós-vida dos incréus. Deve ser um conforto morrer sabendo que ao menos seremos estrume. E de rosas. Rosas subtis e perfumadas, rosas extraordinárias.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Agora escolha

                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 4 de outubro de 2015

O povo vai votar de Jaguar

Assisti hoje a uma extraordinária concentração de mercedes, bê-eme-dablios, maseratis, porsches, jaguares e ferraris. Era o povo a votar na portuense ex-freguesia de Nevogilde.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O Menino Jesus morreu sozinho. Tinha 84 anos.

Morreu o Menino Jesus. Tinha 84 anos. O corpo foi encontrado ontem, rodeado de solidão e lixo, na casa onde resolveu fechar-se ninguém sabe dizer-me há quanto tempo. As autoridades sanitárias, que não têm culpa do nome que lhes puseram nem da gramática que lhes deram, suspeitam que o óbito terá ocorrido há pelo menos cinco dias. Azar do caraças: dois dias a mais. Ao terceiro safou-se o Outro.
Estão a ver? Estão a ver aquele senhor esquisito e careca que vestia sempre um casaco de cabedal preto quase até aos pés, tipo Gestapo, Deus lhe perdoe, pasta na mão e calças zangadas com os sapatos? O que apanhava, em Nevogilde, o autocarro que vai do Castelo do Queijo até à Baixa? Estão a ver? Exactamente: era esse o Menino Jesus, que também ninguém sabe dizer-me porque se chamava assim, só se fosse por ser um bocado extraordinário como o Outro.
O Menino Jesus foi engenheiro e solteiro. Viveu sempre com a mãe, mas a mãe morreu antes dele e isso fez-lhe diferença. São tragédias a que raramente ligamos, porque, adultos como somos, achamos que as mães só fazem falta às criancinhas criancinhas, erro crasso. Quando passou a viver sozinho, há mais de vinte anos, o Menino Jesus preferiu desviver até ao fim. Ali mesmo, num dos largos mais ruralmente nobres da cidade do Porto, zona de ricos.
Sou pobre, mas passo lá quase todos os dias. Vi uma vez uma equipa da polícia a bater-lhe à porta. A PSP e a GNR andam a fazer um trabalho inestimável de identificação e encaminhamento dos idosos que moram sós e em risco. Acredito que têm salvo muitas vidas e só peço que se lembrem de mim se chegar a minha vez. Mas sei que a porta do Menino Jesus nunca se abriu.
O Menino Jesus morreu sozinho. E não devia. Não por ser Menino Jesus e "rico", mas porque ninguém deve morrer sozinho. Já basta o que basta. E tenho de confessar que não sei se o Menino Jesus tinha exactamente 84 anos. Os jornais de mais logo darão a idade certa do homem, porque às vezes falam verdade nas notícias pequenas. Ou então morreu apenas mais um octogenário.

(Texto escrito e publicado originalmente no dia 9 de Maio de 2012)