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sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Murilo Araújo 6

Sonho de herói 

Com um galho de bambu verde
e dois ramos de palmeira
eu hei de fazer um dia o meu cavalo - com asas!
Subirei nele, com vento, lá bem alto,
de carreira,
por sobre o arvoredo e as casas.

Voarei, roçando o mato,
as copas em flor das árvores,
como se cruzasse o mar…
e até sobre o mar de fato
passarei nas nuvens pálidas
muito acima das montanhas, das cidades, das cachoeiras,
mais alto que a chuva, no ar!

E irei às estrelas,
ilhas dos rios de além,
ilhas de pedras divinas,
de ribeiras diamantinas
com palmas, conchas, coquinhos nas suas praias também…
praias de pérola e de ouro
onde nunca foi ninguém…

"Poemas Completos de Murilo Araújo", Murilo Araújo

(Murilo Araújo nasceu no dia 26 de Outubro de 1894. Morreu em 1980.)

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Murilo Araújo 5

Toada do negro no banzo
 
Negro
quando cava, quando cansa,
quando pula, quando tomba,
quando grita, quando dança,
quando brinca, quando zomba
sente gana de chorá...


Negro
quando nasce, quando cresce,
quando luta, quando corre,
quando sobe, quando desce,
quando véve, quando morre
negro pena sem pará...


Negro, aponta o ponto -
ai Umbanda!
ginga tonto, tonto -
ai Umbanda!
Negro aponta: Oôu!


Negra nua, nua -
ai Umbanda!
toma a bença à lua -
ai Umbanda!
samba nua... Oôu!


Xangô!
Meu céu s'ecureceu.
Exú me despachou...
Calunga me prendeu...


Xangô! Xangô! Xangô!
Meu rancho se acabou...
Meu reino - mar levou...
Meu bem morêu... morreu.


Negro
negro chora, negro samba
na macumba do quilombo,
com malafo pra moamba
dando bumba no ribombo!
do urucungo e do ganzá!


Negro
cae no congo, cae no congo,
dos mirongas ao muganga,
todo o bando nesse jongo...
roda, negro - roda a tanga
chora banzo no gongá.


Negro aponta o ponto -
ai Umbanda!
ginga tonto, tonto -
ai Umbanda!
Negro aponta: Oôu!


Se Xangô chegasse...
ai Umbanda!
E me carregasse -
ai Umbanda!
Coisa boa... Oôu!


"As Sete Cores da Infância", Murilo Araújo
 
(Murilo Araújo nasceu no dia 26 de Outubro de 1894. Morreu em 1980.)

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Murilo Araújo 4

Visão

Tenho à noite a visão de que as estrelas de ouro
vão descendo ao meu sonho e vêm dançando em coro.

Sinto-as numa nevrose...
numa fascinação... numa alucinação!
– quer agonie ou goze -
eu as sinto nevoentas,
lânguidas e luarentas,
uma por uma dando o pálido clarão!

Uma diz: "chamo-me Apoteose!"
Outra diz: "chamo-me Afeição!"
Outra é, levíssima, a Confiança,
Outra - a Lembrança,
Outra - a Ambição...

E assim tenho a visão de que as estrelas de ouro
Vêm, dançando, ao meu sonho e vão descendo em coro.

Mas choro de aflição...
pois falta a estrela que procuro em choro,
falta a que foi na terra um vulto louro,
falta a que está nos céus e acha desdouro
descer e iluminar-me o coração!...

"Carrilhões", Murilo Araújo
 
(Murilo Araújo nasceu no dia 26 de Outubro de 1894. Morreu em 1980.)

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Murilo Araújo 3

Humoresco silvestre

O vento, chefe de esquadrão, comanda os pelotões do mato.

E no horto florestal - quartel das árvores -
os pinheiros e coqueiros
fazem ginástica
sueca.

Os castanheiros
com as flores de penacho
jogam peteca.

Sussurram pífanos e rufos na charanga dos bambus.
E as bananeiras
batendo as raquetas das palmas
batem pelota com a péla da lua.

Mas de repente
silêncio...

Pesa o repouso lunar.

Um grilinho clarina.
E o vento chefe de esquadrão ordena aos ramos "descansar".

"A Iluminação da Vida", Murilo Araújo

(Murilo Araújo nasceu no dia 26 de Outubro de 1894. Morreu em 1980.)

domingo, 26 de outubro de 2014

Murilo Araújo 2

Infância

À noite (e lá por fora ia a tormenta...)
eu pedia à Mamãe: Conta uma história!
E ouvia... Cabecinha sonolenta,
via os reinos de fadas - via a Glória.


(Havia a ventania e a merencória
chuvarada, nas telhas, barulhenta.)
- "Era uma vez..." É incenso na memória
aquela voz embaladora e lenta!


Hoje (que diferente é cada idade!)
Mamãe foi ver as fadas... foi talvez
morar no Reino da Felicidade!


Hoje sou homem, sou, vejam vocês.
Ai! vindo a noite e vindo a tempestade
só da Saudade escuto ERA UMA VEZ!


"Carrilhões", Murilo Araújo

(Murilo Araújo nasceu no dia 26 de Outubro de 1894. Morreu em 1980.)

sábado, 26 de outubro de 2013

Murilo Araújo

Canção da lua que lava

Lua, que lavas teus linhos,
sempre a lavar
numa lixívia de nuvens,
branca, branquinha de espuma,
e escorres tudo lá no alto
para secar;


lua que lavas teus linhos
pelos valados maninhos,
na serra onde vai nevar;


oh lua alagando o mundo
nesta espuma de cegar!


lua que lavas teus linhos
e que os enxáguas
e os pões em qualquer lugar -
nos terraços lajeados,
nos velhos muros caiados,
nos laranjais do pomar
ou nos campos orvalhados
onde estão a gotejar -


lua que lavas teus linhos
até nas praias do mar -


vem, lua, e lava minha alma!


Oh lava minha alma em lágrimas,
para que Deus, sol das almas,
venha a enxugar.


Murilo Araújo

(Murilo Araújo nasceu no dia 26 de Outubro de 1894. Morreu em 1980.)