Um prego
Cravava cuidadosamente um prego na parede, quando pressentiu que, como água dum cano que se rompesse, o futuro poderia jorrar de súbito na cal, uma substância na aparência cristalina mas em cujo seio as formas do presente se diluiriam todas, como se, com os seus contornos, igualmente se perdesse o seu sentido, e um sol se deslocasse, por pouco que fosse, do presente para o futuro, se esvaziasse então no céu, deixando atrás de si uma cicatriz imensa.
Luís Miguel Nava
(Luís Miguel Nava nasceu no dia 29 de Setembro de 1957. Morreu em 1995.)
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domingo, 29 de setembro de 2019
sábado, 29 de setembro de 2018
Luís Miguel Nava 3
Retrato
A pele era o que de mais solitário havia no seu corpo.
Há quem, tendo-a metida
num cofre até às mais fundas raízes,
simule não ter pele, quando
de facto ela não está
senão um pouco atrasada em relação ao coração.
Com ele porém não era assim.
A pele ia imitando o céu como podia.
Pequena, solitária, era uma pele metida
consigo mesma e que servia
de poço, onde além de água ele procurara protecção.
Luís Miguel Nava
(Luís Miguel Nava nasceu no dia 29 de Setembro de 1957. Morreu em 1995.)
A pele era o que de mais solitário havia no seu corpo.
Há quem, tendo-a metida
num cofre até às mais fundas raízes,
simule não ter pele, quando
de facto ela não está
senão um pouco atrasada em relação ao coração.
Com ele porém não era assim.
A pele ia imitando o céu como podia.
Pequena, solitária, era uma pele metida
consigo mesma e que servia
de poço, onde além de água ele procurara protecção.
Luís Miguel Nava
(Luís Miguel Nava nasceu no dia 29 de Setembro de 1957. Morreu em 1995.)
sexta-feira, 29 de setembro de 2017
Luís Miguel Nava 2
A fome
Aqui, onde a mão não
alcança o interruptor da vida, aqui
só brilha a solidão.
Desfazem-se as lembranças contra os vidros.
Aqui, onde a brancura
dum lenço é a brancura do infortúnio,
aqui a solidão
não brilha, apenas
se estorce.
A fome fala através das feridas.
"Vulcão", Luís Miguel Nava
(Luís Miguel Nava nasceu no dia 29 de Setembro de 1957. Morreu em 1995.)
Aqui, onde a mão não
alcança o interruptor da vida, aqui
só brilha a solidão.
Desfazem-se as lembranças contra os vidros.
Aqui, onde a brancura
dum lenço é a brancura do infortúnio,
aqui a solidão
não brilha, apenas
se estorce.
A fome fala através das feridas.
"Vulcão", Luís Miguel Nava
(Luís Miguel Nava nasceu no dia 29 de Setembro de 1957. Morreu em 1995.)
quinta-feira, 29 de setembro de 2016
Luís Miguel Nava
Paisagem citadina
A pele por fulgurantes
instantes muitas vezes abre-se até onde
seria impensável que exercesse
com tão grande rigor o seu domínio.
Não temos então dela senão rápidas
visões, onde os reclames
do coração se cruzam, solitários
e agrestes, reflectidos
por trás nos ossos empedrados.
Em certas posições vêem-se as cordas
do nosso espírito esticadas num terraço.
A roupa dói-nos porque, embora
nos cubra a pele, é dentro
do espírito que estão os tecidos amarrados.
"O Céu Sob as Entranhas", Luís Miguel Nava
(Luís Miguel Nava nasceu no dia 29 de Setembro de 1957. Morreu em 1995.)
A pele por fulgurantes
instantes muitas vezes abre-se até onde
seria impensável que exercesse
com tão grande rigor o seu domínio.
Não temos então dela senão rápidas
visões, onde os reclames
do coração se cruzam, solitários
e agrestes, reflectidos
por trás nos ossos empedrados.
Em certas posições vêem-se as cordas
do nosso espírito esticadas num terraço.
A roupa dói-nos porque, embora
nos cubra a pele, é dentro
do espírito que estão os tecidos amarrados.
"O Céu Sob as Entranhas", Luís Miguel Nava
(Luís Miguel Nava nasceu no dia 29 de Setembro de 1957. Morreu em 1995.)
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