Mostrar mensagens com a etiqueta Lavoura Azul. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Lavoura Azul. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

José Chagas 3

[Por trás do poema]

Por trás do poema
não se respira

Ventos se quebram
rolam onde o chão trabalha
um verde de outra cor

Por trás do poema
devemos estar mortos
inoticiados

Palavras emigram
vão para o labor de espessas
emoções

Por trás do poema
as chuvas se gastam
gastam-se os vôos os frutos
a alegria branca das praias

O tempo inicia seus escombros
por trás do poema

Uma rua de estátuas
cai sua cinza
cai o seu nada
de muitos séculos

E um rio em si mesmo se afoga
seca em suas areias
a vontade de mar

Não olheis nunca por trás do poema

podem vossos olhos
em sal tornar-se


"Lavoura Azul", José Chagas

(José Chagas nasceu no dia 29 de Outubro de 1924. Morreu em 2014.)

domingo, 29 de outubro de 2017

José Chagas 2

Lavoura azul

Trabalho nuvens como quem trabalha
o chão que é seu, mas eu não tenho chão.
Cultivador da natureza falha,
planto no azul o que de azul me dão.

Sobre o campo de nuvens cresce a palha
de sonho e cobre a minha solidão.
E esse abrigo de sonhos me agasalha
contra os falsos azuis que vêm e vão.

Minha roça no ar produz estrelas,
mas eu não tenho mãos para colhê-las,
nesta safra de azul que é nova e antiga.

Sou lavrador do quanto não se lavra
e preciso que eu ceife na palavra
o maduro do azul e a sua espiga.


"Lavoura Azul", José Chagas

(José Chagas nasceu no dia 29 de Outubro de 1924. Morreu em 2014.)