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terça-feira, 28 de maio de 2019

José Craveirinha 6

Fábula

Menino gordo comprou um balão
e assoprou
assoprou com força o balão amarelo.

Menino gordo assoprou
assoprou
assoprou
o balão inchou
inchou
e rebentou!

Meninos magros apanharam os restos
e fizeram balõezinhos.


"Karingana Ua Karingana", José Craveirinha

(José Craveirinha nasceu no dia 28 de Maio de 1922. Morreu em 2003.)

segunda-feira, 28 de maio de 2018

José Craveirinha 5

Pena

Zangado
acreditas no insulto
e chamas-me negro.

Mas não me chames negro.

Assim não te odeio.
Porque se me chamas negro
encolho os meus elásticos ombros
e com pena de ti sorrio.

"Babalaze das Hienas", José Craveirinha 

(José Craveirinha nasceu no dia 28 de Maio de 1922. Morreu em 2003.)

domingo, 28 de maio de 2017

José Craveirinha 4

Um homem nunca chora

Acreditava naquela história
do homem que nunca chora.

Eu julgava-me um homem.

Na adolescência
meus filmes de aventuras
punham-me muito longe de ser cobarde
na arrogante criancice do herói de ferro.

Agora tremo.
E agora choro.

Como um homem treme.
Como chora um homem!

"Babalaze das Hienas", José Craveirinha 

(José Craveirinha nasceu no dia 28 de Maio de 1922. Morreu em 2003.)

sábado, 28 de maio de 2016

José Craveirinha 3

Gumes de névoa

Lágrimas? 

Ou apenas
dois intoleráveis 
ardentes gumes de névoa 
acutilando-me cara abaixo?

"Maria", José Craveirinha

(José Craveirinha nasceu no dia 28 de Maio de 1922. Morreu em 2003.)

quinta-feira, 28 de maio de 2015

José Craveirinha 2

Grito negro

Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.


"Karingana Ua Karingana", José Craveirinha

(José Craveirinha nasceu no dia 28 de Maio de 1922. Morreu em 2003.)

quarta-feira, 28 de maio de 2014

José Craveirinha

Quero ser tambor

Tambor está velho de gritar
Oh velho Deus dos homens
Deixa-me ser tambor
Corpo e alma só tambor
Só tambor gritando na noite quente dos trópicos.
 

Nem flor nascida no mato do desespero
Nem rio correndo para o mar do desespero
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.
 

Nem nada!
 

Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.

Eu
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala
Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.
 

Oh velho Deus dos homens
Eu quero ser tambor
E nem rio
E nem flor
E nem zagaia por enquanto
E nem mesmo poesia.
 

Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia
Dia e noite só tambor
Até à consumação da grande festa do batuque!
 

Oh velho Deus dos homens
Deixa-me ser tambor
Só tambor!


José Craveirinha

(José Craveirinha nasceu no dia 28 de Maio de 1922. Morreu em 2003.)