Envolta na bruma das
lendas, adornada pela magia das superstições e abonada por insondáveis
espantos, impera há séculos no coração do povo das Ilhas a devoção ao
Senhor Espírito Santo. Uma contínua, sempre renovada e abrangente
procissão de beatos, fiéis, crentes, simpatizantes e até incréus vela por
que não se extingam os sinais singulares desta tradição santa-profana
que individualiza os Açorianos, na sua terra ou pelas lonjuras da
diáspora.
Esta é uma crença muito antiga. As folias ao
Espírito Santo, ainda que aparentem uma origem pagã no druidismo, ou na
superstição grega, chegam a Portugal pelas mãos da Rainha Santa Isabel e
são levadas para os Açores logo pelos primeiros povoadores. Convertidas
na maior devoção e piedade, conservam-se até aos nossos dias:
chamam-se, ali e agora, os impérios do Espírito Santo.
Os
Açorianos são uma gente católica, extremamente crente e devota, e mesmo
os mais fundamentalistas em matéria religiosa ou os ateus desobrigados
fazem fé nos casos relacionados com o Divino Espírito Santo e temem as
Suas "vinganças". É, como quem diz, uma questão de respeito.
Infinito
é o rosário das salvações, grandes assombros ou modestos arranjos que o
povo atribui à intervenção providencial do Divino - como gosta de
chamar-Lhe, carinhoso, numa antiga e meiga confiança de nome próprio.
Crises sísmicas e vulcões, pestes, o ror de maleitas e apertos do
dia-a-dia, a vida difícil e o isolamento congregaram os ilhéus numa
devoção que depressa se espalhou por todas as cidades, vilas e aldeias. E
recorre-se-Lhe por tudo, coisa assim pataqueira ou missão a meio do
impossível: simplesmente implorando saudinha em pró-forma de clínica
geral ou prescrevendo cirúrgico tratamento de especialista; requerendo
que o filho atine com os livros ou suspirando que calhe indulgência aos
professores; convocando bênção para casamento novo ou clamando por
intervenção de emergência em avaria conjugal; pedindo feliz termo para a
viagem, que culturas e gado medrem, que as vinhas farturem, que o
negócio corra, que o dinheirinho não falte. Tudo, edecétrea atrás de
edecétera, até aos limites de encomendas de alto lá com elas. O Divino
por tudo olha, tudo remedeia - que não é Pessoa, e isto é o povo a fazer
constar, de desmanchar contratos.
P.S. - Sou apaixonado pelos Açores e mantenho uma relação muito especial
com a ilha Terceira. Reencontrei este texto, que escrevi talvez em
1992 ou 1993, a propósito das famosas festas do Espírito Santo. Claramente
datado, e generosamente adjectivado, republiquei-o aqui, numa mancheia de fascículos, em Julho de 2011, e repeti-o em Agosto de 2014, para
matar saudades. O que está aí em cima é apenas o princípio. Se quiserem, procurem o resto. Mas ao que vem a repetição da repetição? Ora bem: hoje é exactamente Dia do Espírito Santo. Isto é, se todos morarmos no Brasil.
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sexta-feira, 31 de maio de 2019
domingo, 17 de dezembro de 2017
Delícias do mar
Areia macia e morna, água, o sal da terra, cheiro a argaço, sol quando Deus quer, a brisa nas ventas, o falar das ondas, o silêncio do horizonte a ganhar de vista, madrugadas de pés molhados, ocasos de fogo, Apúlia, um fino bem tirado, pescadores, peixeiras, surfistas, parassurfistas, ciclistas e todos os tipos de nudistas, a Foz, Matosinhos, a ver navios, os números do Porto de Leixões, camarão da costa, gambas no Peixoto de Fafe, cracas em São Mateus, alcatra de peixe no Boca Negra, lapas em casa do Victor e da Ana, ilha Terceira, ilha Terceira, ilha Terceira, ecos de Nemésio, mexilhões de vinagreta, masoquistas esturricando agosto e areando os entrefolhos, amêijoas à Bulhão Pato no portinho de Âncora, o bacalhau assado na brasa do Senhor Álvaro em Valença, o bacalhau assado no forno pela minha mãe, o bacalhau de quarto da minha avó de Basto, os bolinhos de bacalhau da minha avó da Bomba, a punheta de bacalhau do meu cunhado Álvaro, as trutas "do Coura" do querido amigo Vilaça Pinto, que, palavra de honra, era como se fossem marítimas, polvo de molho-verde, as lulas recheadas da minha sogra, as sardinhas da Dona Dina, navalhas na chapa, arroz de tomate com petinga, ou com jaquinzinhos, ou arroz de grelos com, ou arroz de feijão com, mas malando, malandro, malandro, ou, supra-sumo dos supra-sumos, o arroz de feijão vermelho com grelos e bacalhau frito da minha cunhada Isabel, fanecas, biqueirão, pescadinha de rabo na boca, filetes de peixe-galo, a raia frita do Salta o Muro aqui à porta, a lagosta da ilha de São Jorge comida à ganância e à moina, as percebes da ilha do Sal, as bandejas das rias galegas, carapaus grelhados no quintal do meu sogro, ostras de Setúbal degustadas em Bordéus, os tremoços da Marrequinha da Recta. Isto são delícias do mar. Outra coisa não:
Fitas de nastro tingidas de cor-de-rosa gomitado, cortadas em palitos empacotados em vácuo e refrigerados não são, por mais que lhes chamem, delícias do mar!
Fitas de nastro tingidas de cor-de-rosa gomitado, cortadas em palitos empacotados em vácuo e refrigerados não são, por mais que lhes chamem, delícias do mar!
| Foto Hernâni Von Doellinger |
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