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sábado, 27 de outubro de 2018

Graciliano Ramos 6

Lembrou-se dos filhos, da mulher e da cachorra, que estavam lá em cima, debaixo de um juazeiro, com sede. Lembrou-se do preá morto. Encheu a cuia, ergueu-se, afastou-se, lento, para não derramar a água salobra. Subiu a ladeira. A aragem morna acudia os xiquexiques e os mandacarus. Uma palpitação nova. Sentiu um arrepio na catinga, uma ressurreição de garranchos e folhas secas.
Chegou. Pôs a cuia no chão, escorou-a com pedras, matou a sede da família. Em seguida acocorou-se, remexeu o aió, tirou o fuzil, acendeu as raízes de macambira, soprou-as, inchando as bochechas cavadas. Uma labareda tremeu, elevou-se, tingiu-lhe o rosto queimado, a barba ruiva, os olhos azuis. Minutos depois o preá torcia-se e chiava no espeto de alecrim.


"Vidas Secas", Graciliano Ramos

(Graciliano Ramos nasceu no dia 27 de Outubro de 1892. Morreu em 1953.)

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Graciliano Ramos 5

Um amigo em talas

O meu antigo companheiro de pensão Amadeu Amaral Júnior, um homem louro e fornido, tinha costumes singulares que espantavam os outros hóspedes.
Para falar com propriedade, aquilo não era exatamente pensão, mas isto não tem importância: com um pouco de esforço podíamos admitir que estávamos numa pensão de gente bem comportada. Bocejávamos em demasia, contávamos as pessoas que subiam ou desciam um morro próximo, dormíamos cedo e recebíamos com regularidade a visita do gerente do estabelecimento, o major Nunes, ótima criatura que deixou o cargo por lhe faltar o espírito do negócio.
Amadeu Amaral Júnior vestia-se com sobriedade: usava uma cueca preta e calçava medonhos tamancos barulhentos. Fora isso, o que tinha em cima do corpo era a barba, economicamente desenvolvida, uma barba enorme. Parecia um troglodita. Alimentava-se mal, espichava-se na cama, roncava o dia inteiro e passava as noites acordado, passeando, agitando o soalho, o que provocava a indignação dos outros pensionistas. Quando se cansava, sentava-se a uma grande mesa ao fundo da sala e escrevia o resto da noite. Leu um tratado de psicologia e trocou-o em miúdo, isto é, reduziu-o a artigos, uns quarenta ou cinquenta, que projetou meter nas revistas e nos jornais e com o produto vestir-se, habitar uma casa diferente daquela e pagar ao barbeiro.
[...]

"Linhas Tortas", Graciliano Ramos
 
 
(Graciliano Ramos nasceu no dia 27 de Outubro de 1892. Morreu em 1953.)

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Graciliano Ramos 4

Naquela noite de lua cheia estavam acocorados os vizinhos na sala pequena de Alexandre: seu Libório, cantador de emboladas, o cego preto Firmino e Mestre Gaudêncio curandeiro, que rezava contra mordedura de cobras. Das Dores, benzedeira de quebranto e afilhada do casal, agachava-se na esteira cochichando com Cesária.
- Vou contar aos senhores... principiou Alexandre, amarrando o cigarro de palha.
Os amigos abriram os ouvidos e Das Dores interrompeu o cochicho:
- Conte, meu padrinho.
Alexandre acendeu o cigarro ao candeeiro de folha, escanchou-se na rede e perguntou:
- Os senhores já sabem porque é que eu tenho um olho torto?
Mestre Gaudêncio respondeu que não sabia e acomodou-se num cepo que servia de cadeira.
- Pois eu digo, continuou Alexandre. Mas talvez nem possa escorrer tudo hoje, porque essa história nasce de outra, e é preciso encaixar as coisas direito. Querem ouvir? Se não querem, sejam francos: não gosto de cacetear ninguém.
Seu Libório cantador e o cego preto Firmino juraram que estavam atentos. E Alexandre abriu a torneira:
- Meu pai, homem de boa família, possuía fortuna grossa, como não ignoram. A nossa fazenda ia de ribeira a ribeira, o gado não tinha conta e dinheiro lá em casa era cama de gato. Não era, Cesária?
- Era, Alexandre, concordou Cesária. Quando os escravos se forraram, foi um desmantelo, mas ainda sobraram alguns baús com moedas de ouro. Sumiu-se tudo.
Suspirou e apontou desgostosa a mala de couro cru onde seu Libório se sentava:
- Hoje é isto. Você se lembra do nosso casamento, Alexandre?
- Sem dúvida, gritou o marido. Uma festa que durou sete dias. Agora não se faz festa como aquela. Mas o casamento foi depois. É bom não atrapalhar. 

"Alexandre e Outros Heróis", Graciliano Ramos

(Graciliano Ramos nasceu no dia 27 de Outubro de 1892. Morreu em 1953.)

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Graciliano Ramos 3

Na Terra do Fogo as coisas estão frias 

Conforme telegrama publicado, há dias, em um dos nossos melhores jornais, há uma grande carência de mulheres na Terra do Fogo. Semelhante fato, coisa que não acontece com frequência, felizmente, constitui - não há sombra de dúvida - uma calamidade para um povo. Pudesse alguém interrogar os colonos portugueses das primeiras expedições que vieram ao Brasil... Mas, se vão longe esses tempos indecisos da Idade Média, ainda se não apagaram do espírito de alguns cariocas os dias agitados de 93, o período em que a República lutava contra a fúria da revolução. Houve então aqui um considerável decrescimento do número das mulheres, o que determinou, segundo a opinião do dr. Pires de Almeida, profunda corrupção nos costumes da cidade. A judiciosa asserção do ilustre clínico leva a gente a pensar que os habitantes da Terra do Fogo não devem estar em situação muito agradável. Mas quais seriam os motivos de haverem as gentis representantes do sexo frágil abandonado essa ilha tão fria que tem um nome tão quente? Terá havido por lá alguma extraordinária epidemia que se haja limitado a atacar apenas a constituição delicada dessas encantadoras criaturas? Terão os gelos das proximidades do Polo Sul arrefecido o caráter de seus compatriotas a ponto de, sentindo-se desprezadas, terem as pobrezinhas a necessidade de bater a linda plumagem? Ou continuarão os homens de lá com aquele hábito de que fala Darwin - o péssimo costume de, em tempo de penúria, comer as mulheres, porque as consideram inferiores aos animais? Se esta última hipótese é verdadeira, devem agora os habitantes da Terra do Fogo estar arrependidos de sua voracidade, porque se privaram, por não haverem sido mais sóbrios, do único meio que tinham de perpetuar o alimento das ocasiões difíceis. Mas não se pode atinar com a causa do desaparecimento das pobres flores da vida na grande ilha do sul. E a gente vê, pela tristeza do telegrama, que os homens estão angustiados, estão aflitos, vítimas de uma viuvez geral. Mas caso é para uma pessoa pôr-se a pensar tristemente nas grandes desigualdades que há neste mundo. Desapareceram as mulheres ali, e aqui promanam mulheres em quantidade. Parece até uma injustiça. Bem se está vendo que os bens da terra não foram feitos para todos...

"Garranchos", Graciliano Ramos

(Graciliano Ramos nasceu no dia 27 de Outubro de 1892. Morreu em 1953.)

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Graciliano Ramos 2

Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala.
Arrastaram-se para lá, devagar, Sinha Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça, Fabiano sombrio, cambaio, o aió a tiracolo, a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão, a espingarda de pederneira no ombro. O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atrás.
Os juazeiros aproximaram-se, recuaram, sumiram-se. O menino mais velho pôs-se a chorar, sentou-se no chão.
- Anda, condenado do diabo, gritou-lhe o pai.
Não obtendo resultado, fustigou-o com a bainha da faca de ponta. Mas o pequeno esperneou acuado, depois sossegou, deitou-se, fechou os olhos. Fabiano ainda lhe deu algumas pancadas e esperou que ele se levantasse. Como isto não acontecesse, espiou os quatro cantos, zangado, praguejando baixo.
A catinga estendia-se, de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram ossadas. O voo negro dos urubus fazia círculos altos em redor de bichos moribundos.
- Anda, excomungado.
O pirralho não se mexeu, e Fabiano desejou matá-lo. Tinha o coração grosso, queria responsabilizar alguém pela sua desgraça. A seca aparecia-lhe como um fato necessário - e a obstinação da criança irritava-o. Certamente esse obstáculo miúdo não era culpado, mas dificultava a marcha, e o vaqueiro precisava chegar, não sabia onde.

"Vidas Secas", Graciliano Ramos

(Graciliano Ramos nasceu no dia 27 de Outubro de 1892. Morreu em 1953.)

domingo, 27 de outubro de 2013

Graciliano Ramos

- Quer ouvir o meu projeto? segredou o menino sardento.
- Ah! sim. Ia-me esquecendo. Acabe depressa.
- Eu vou principiar. Olhe a minha cara. Está cheia de manchas, não está?
- Para dizer a verdade, está.
- É feia demais assim?
- Não é muito bonita não.
- Também acho. Nem feia nem bonita.
- Vá lá. Nem feia nem bonita. É uma cara.
- É. Uma cara assim assim. Tenho visto nas poças d’água. O meu projeto é este: podíamos obrigar toda a gente a ter manchas no rosto. Não ficava bom?
- Para quê?
- Ficava mais certo, ficava tudo igual.
Raimundo parou sob um disco de vitrola, recordou os garotos que mangavam dele.

A cigarra lá de cima interrompeu a cantiga, estirou a cabecinha. Era uma cigarra gorda e tinha um olho preto, outro azul.
- Qual é a sua opinião? Perguntou o sardento.
Raimundo hesitou um minuto:
- Não sei não. Eles bolem com você por causa de sua cara pintada?
- Não bolem. São muito boas pessoas. Mas se tivessem manchas no rosto, seriam melhores.
A aranha vermelha deu um balanço no fio e chegou ao disco da vitrola:
- Que história é aquela?
- Palavreado à-toa, explicou a dona da casa.
- À-toa nada! bradou o sardento. Cigarra e aranha não têm voto. Cada macaco no seu galho. Isto é assunto que interessa exclusivamente aos meninos.
- Eu aqui represento a indústria de tecidos, replicou a aranha arregalando o olho preto e cerrando o azul.
- E eu sou artista, acrescentou a cigarra. Palavreado à-toa.
Raimundo esfregou as mãos, constrangido, olhou os discos e as teias coloridas que se agitavam.
- Parece que elas têm direito de opinar. São importantes, são umas bichonas.
- Direito de dizer besteira! Resmungou o sardento.
- Não senhor. A cigarra tem razão. Palavreado à-toa.
- Então você acha o meu projeto ruim?
- Para falar com franqueza, eu acho. Não presta não. Como é que você vai pintar esses meninos todos?
- Ficava mais certo.
- Ficava nada! Eles não deixam.
- Era bom que fosse tudo igual.
- Não senhor, que a gente não é rapadura. Eles não gostam de você? Gostam. Não gostam do anão, de Fringo? Está aí. Em Cambará não é assim: aborrecem-me por causa da minha cabeça pelada e dos meus olhos. Tinha graça que o anão quisesse reduzir os outros ao tamanho dele. Como havia de ser?
- Eu sei lá! rosnou o sardento amuado. O caso de anão é diferente. Parece que ninguém me entende. Vamos procurar os outros?

"A Terra dos Meninos Pelados", Graciliano Ramos

(Graciliano Ramos nasceu no dia 27 de Outubro de 1892. Morreu em 1953.)