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sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Carlos Cardoso 4

Quando eu era miúdo
costumava jogar à bola com a malta da rua
"Foi falta".
"Não foi não senhor".
"Claro que foi".
Mas tínhamos sempre solução
para que o jogo continuasse.
E sempre o jogo continuava.
Até que um dia
um árbitro
nos veio estragar
o encanto democrático
dos nossos desentendimentos
infantis.

Carlos Cardoso 

(Carlos Cardoso nasceu em 1951. Morreu no dia 22 de Novembro de 2000.)

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Carlos Cardoso 3

Nus 

... por tudo isto, as pessoas que registam devem merecer pelo menos o nosso apreço. São elas que projectam, para lá das fronteiras etárias e sociais, a trajectória que hoje traçamos no éter. Deixá-las registar, bem ou mal, até mesmo os mal - intencionados, que acabam por não ser mais do que o registo de si próprios.
Esconder o quê? Andamos nus. E quanto mais nos desnudarmos, mais as gerações vindouras saberão, em silêncio, respeitar a intimidade com que nos demos, entre nós e à Natureza.
Nada se esconde por muito tempo. Nada. Os reis de outrora, tão convencidos que estavam da sua altivez, dos seus adornos de poder, da sua distância em relação aos humildes, são hoje examinados por historiadores, por jornalistas, por «homens comuns», tal como os ratos são examinados num laboratório.
O pudor, as razões de estado, coisas tão importantes num dado momento, depressa passam à periferia da importância à medida que actos de outros, nossos filhos, trazem ao tempo novas definições do que é actual. É preciso muita coragem, e a lucidez de que andamos nus, para que uma nova geração adquira e sintetize, nas suas experiências, as experiências da velha geração. Para que isso aconteça é preciso darmos-lhes tudo, as nossas virtudes e medos, as nossas hesitações, o nosso heroísmo calculado ou de loucura, as nossas lágrimas, o nosso sexo inteiro com o nosso tempo. E dizer-lhes: "Aqui nos têm, nus. Tudo vos demos. Todos os nossos segredos são agora vosso património público. Não ficou nada por vos contar. Tudo aquilo que nos encheu de riqueza a vida vos transmitimos e agora partimos vazios e leves para o túmulo, enfim libertos de qualquer sentimento medíocre de propriedade. Tomem tudo isso e façam de tudo isso prancha do vosso voo para maiores e mais duradoiras felicidades".
Ah! que geração fantástica seria essa, nascida já como professores, como generais, sem terem que descobrir do nada as coisas ridículas que o nosso sentimento de propriedade lhes esconde. Como ela partiria, grávida de dignidade, rasgando novos horizontes espirituais e inventando um mundo ainda hoje inimaginável de vida social.
Quando penso nestas coisas, por vezes tenho que parar porque, de tão belas, se transformam em dor. Especialmente porque aqui neste país há homens e mulheres de rara beleza, gente que de muito sofrer e muito lutar, muito amou. Gente que iniciou a inversão da História, gente que passou a fazer História sabendo isso, sentido isso, em vez de ser apenas produto dela. Sei que esse salto se transmite nas mais pequenas coisas, desde o encontro casual ao comício de massas. Mas falta o resto.
Nós, os que viemos depois, seremos, ou não, as vossas flechas e vocês serão, ou não, o arco que nos projectou.
Contem-nos tudo. Tudo. Contem-nos até as injustiças que praticaram que ninguém vos condenará por isso porque a justiça que semearam é muito maior. E nós contaremos aos outros que virão aquilo que vocês foram e aquilo em que vocês se trasformaram ao enterrarem-se inteiros nos nossos corações e cérebros. Não. Vocês não têm o direito de ficar enterrados no anonimato das vossas próprias memórias.

Carlos Cardoso 

(Carlos Cardoso nasceu em 1951. Morreu no dia 22 de Novembro de 2000.)

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Carlos Cardoso 2

É preciso saber rir

É preciso saber rir.

A boca deve estar levemente suspensa
como no terceiro minuto do amor. 
Entreabertos e agitados
os lábios deixam espreitar os dentes atentos.

Depois,
rir deve ser o prenúncio da tempestade.

Deixa trepar o esófago o estampido do estômago.
O coração estremece,
os pulmões hirtam-se como águia de bico em flecha
e os braços arrancam do abdómen
o primeiro estrondo da tempestade.

Finalmente,
a cabeça separa-se do corpo
e irrompe por aí
desfeita em gargalhada.

Carlos Cardoso 

(Carlos Cardoso nasceu em 1951. Morreu no dia 22 de Novembro de 2000.)

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Carlos Cardoso

Cidade

De manhã quando acordo
em Maputo
o almoço é uma esperança.
Mãe tenho fome
marido tenho bicha

e mil malárias me disputando a vontade.
 

De manhã quando acordo
em Maputo
o jantar é uma incerteza
o serviço uma militância política
do outro lado do sono incompleto
e o chapa-cem um regulado impiedoso
no quatro barra oitenta sem contra-argumento.


De manhã quando acordo
em Maputo
o vizinho já candongou o que me roubou
a estomatologia não tem anestesia
a chuva abriu dialecticamente mais um buraco na estrada
e o conselho executivo continua desdentado de iniciativas.

 
De manhã quando acordo
em Maputo
Porra para a vizinha que estoirou a torneira do rés-do-chão
Porra para o guarda que não ligou a bomba quando veio a água
Porra para as cem gramas de carne apodrecidos
no silêncio desenergético de Komatipoort
mais as ó eme emes sem dê efes
e o soldado que ainda não ouviu dizer que os passeios
são lugares públicos
e os fulanizados exploradores de outrora
que se preparam para cuspir na tua campa, ó Mataca,
as ordens de um Mouzinho boer.

 
Mas ao anoitecer me percorro

em Maputo
enfio ominosamente o cérebro numa competentíssima paciência
desembainho felinamente mais uma mentira diplomática
e aguardo a lucidez companheira me leia
nas acácias em sangue

nos jacarandás estalando sob a sola epidérmica do povo
que este é ainda o eco estridente do Chai
até que Botha seja farmeiro e Mandela Presidente.

 
Então,
com a raiva intacta resgatada à dor
danço no coração um xigubo guerreiro
e clandestinamente soletro a utopia invicta.

 
À noite quando me deito
em Maputo
não preciso de rezar.
Já sou herói.

Carlos Cardoso

(Carlos Cardoso nasceu em 1951. Morreu no dia 22 de Novembro de 2000.)