Brasil
Não te verei, Brasil,
a grande pátria dos trópicos.
Não te verei, remido,
igualares o sonho
dos teus artistas e dos teus poetas.
Não te verei
abençoado por teus filhos,
Canaã prometida,
terra que mana leite e mel.
Mas estarei presente à tua glória
no sangue dos meus filhos
e dos netos dos meus netos.
Renato Castelo Branco
(Renato Castelo Branco nasceu no dia 14 de Setembro de 1914. Morreu em 1995.)
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sábado, 14 de setembro de 2019
sexta-feira, 31 de maio de 2019
Em nome do Espírito Santo
Envolta na bruma das
lendas, adornada pela magia das superstições e abonada por insondáveis
espantos, impera há séculos no coração do povo das Ilhas a devoção ao
Senhor Espírito Santo. Uma contínua, sempre renovada e abrangente
procissão de beatos, fiéis, crentes, simpatizantes e até incréus vela por
que não se extingam os sinais singulares desta tradição santa-profana
que individualiza os Açorianos, na sua terra ou pelas lonjuras da
diáspora.
Esta é uma crença muito antiga. As folias ao Espírito Santo, ainda que aparentem uma origem pagã no druidismo, ou na superstição grega, chegam a Portugal pelas mãos da Rainha Santa Isabel e são levadas para os Açores logo pelos primeiros povoadores. Convertidas na maior devoção e piedade, conservam-se até aos nossos dias: chamam-se, ali e agora, os impérios do Espírito Santo.
Os Açorianos são uma gente católica, extremamente crente e devota, e mesmo os mais fundamentalistas em matéria religiosa ou os ateus desobrigados fazem fé nos casos relacionados com o Divino Espírito Santo e temem as Suas "vinganças". É, como quem diz, uma questão de respeito.
Infinito é o rosário das salvações, grandes assombros ou modestos arranjos que o povo atribui à intervenção providencial do Divino - como gosta de chamar-Lhe, carinhoso, numa antiga e meiga confiança de nome próprio. Crises sísmicas e vulcões, pestes, o ror de maleitas e apertos do dia-a-dia, a vida difícil e o isolamento congregaram os ilhéus numa devoção que depressa se espalhou por todas as cidades, vilas e aldeias. E recorre-se-Lhe por tudo, coisa assim pataqueira ou missão a meio do impossível: simplesmente implorando saudinha em pró-forma de clínica geral ou prescrevendo cirúrgico tratamento de especialista; requerendo que o filho atine com os livros ou suspirando que calhe indulgência aos professores; convocando bênção para casamento novo ou clamando por intervenção de emergência em avaria conjugal; pedindo feliz termo para a viagem, que culturas e gado medrem, que as vinhas farturem, que o negócio corra, que o dinheirinho não falte. Tudo, edecétrea atrás de edecétera, até aos limites de encomendas de alto lá com elas. O Divino por tudo olha, tudo remedeia - que não é Pessoa, e isto é o povo a fazer constar, de desmanchar contratos.
P.S. - Sou apaixonado pelos Açores e mantenho uma relação muito especial com a ilha Terceira. Reencontrei este texto, que escrevi talvez em 1992 ou 1993, a propósito das famosas festas do Espírito Santo. Claramente datado, e generosamente adjectivado, republiquei-o aqui, numa mancheia de fascículos, em Julho de 2011, e repeti-o em Agosto de 2014, para matar saudades. O que está aí em cima é apenas o princípio. Se quiserem, procurem o resto. Mas ao que vem a repetição da repetição? Ora bem: hoje é exactamente Dia do Espírito Santo. Isto é, se todos morarmos no Brasil.
Esta é uma crença muito antiga. As folias ao Espírito Santo, ainda que aparentem uma origem pagã no druidismo, ou na superstição grega, chegam a Portugal pelas mãos da Rainha Santa Isabel e são levadas para os Açores logo pelos primeiros povoadores. Convertidas na maior devoção e piedade, conservam-se até aos nossos dias: chamam-se, ali e agora, os impérios do Espírito Santo.
Os Açorianos são uma gente católica, extremamente crente e devota, e mesmo os mais fundamentalistas em matéria religiosa ou os ateus desobrigados fazem fé nos casos relacionados com o Divino Espírito Santo e temem as Suas "vinganças". É, como quem diz, uma questão de respeito.
Infinito é o rosário das salvações, grandes assombros ou modestos arranjos que o povo atribui à intervenção providencial do Divino - como gosta de chamar-Lhe, carinhoso, numa antiga e meiga confiança de nome próprio. Crises sísmicas e vulcões, pestes, o ror de maleitas e apertos do dia-a-dia, a vida difícil e o isolamento congregaram os ilhéus numa devoção que depressa se espalhou por todas as cidades, vilas e aldeias. E recorre-se-Lhe por tudo, coisa assim pataqueira ou missão a meio do impossível: simplesmente implorando saudinha em pró-forma de clínica geral ou prescrevendo cirúrgico tratamento de especialista; requerendo que o filho atine com os livros ou suspirando que calhe indulgência aos professores; convocando bênção para casamento novo ou clamando por intervenção de emergência em avaria conjugal; pedindo feliz termo para a viagem, que culturas e gado medrem, que as vinhas farturem, que o negócio corra, que o dinheirinho não falte. Tudo, edecétrea atrás de edecétera, até aos limites de encomendas de alto lá com elas. O Divino por tudo olha, tudo remedeia - que não é Pessoa, e isto é o povo a fazer constar, de desmanchar contratos.
P.S. - Sou apaixonado pelos Açores e mantenho uma relação muito especial com a ilha Terceira. Reencontrei este texto, que escrevi talvez em 1992 ou 1993, a propósito das famosas festas do Espírito Santo. Claramente datado, e generosamente adjectivado, republiquei-o aqui, numa mancheia de fascículos, em Julho de 2011, e repeti-o em Agosto de 2014, para matar saudades. O que está aí em cima é apenas o princípio. Se quiserem, procurem o resto. Mas ao que vem a repetição da repetição? Ora bem: hoje é exactamente Dia do Espírito Santo. Isto é, se todos morarmos no Brasil.
sábado, 12 de janeiro de 2019
terça-feira, 1 de maio de 2018
José de Alencar 6
Refresca o vento.
O rulo das vagas precipita. O barco salta sobre as ondas; desaparece no horizonte. Abre-se a imensidade dos mares; e a borrasca enverga, como o condor, as foscas asas sobre o abismo.
Deus te leve a salvo, brioso e altivo barco, por entre as vagas revoltas, e te poje nalguma enseada amiga.
Soprem para ti as brandas auras; e para ti jaspeie a bonança mares de leite.
Enquanto vogas assim à discrição do vento, airoso barco, volva às brancas areias a saudade, que te acompanha, mas não se parte da terra onde revoa.
"Iracema", José de Alencar
(José de Alencar nasceu no dia 1 de Maio de 1829. Morreu em 1877.)
O rulo das vagas precipita. O barco salta sobre as ondas; desaparece no horizonte. Abre-se a imensidade dos mares; e a borrasca enverga, como o condor, as foscas asas sobre o abismo.
Deus te leve a salvo, brioso e altivo barco, por entre as vagas revoltas, e te poje nalguma enseada amiga.
Soprem para ti as brandas auras; e para ti jaspeie a bonança mares de leite.
Enquanto vogas assim à discrição do vento, airoso barco, volva às brancas areias a saudade, que te acompanha, mas não se parte da terra onde revoa.
"Iracema", José de Alencar
(José de Alencar nasceu no dia 1 de Maio de 1829. Morreu em 1877.)
sábado, 10 de fevereiro de 2018
O drama brasileiro
O verdadeiro drama brasileiro é este: milhões de pessoas ainda não sabem de que se vão despir no Carnaval.
terça-feira, 12 de dezembro de 2017
Brasil Pinheiro Machado 2
Brasil
A tarde é uma rede vermelha e mole
E os nervos da gente esticados como cordas de violão
Vibram no fluído de volúpia que a garoa devagarzinho
Das bandas meio escuras de onde o sol nasce...
Uma mariposa começa a enlouquecer
(de quem será que eu tenho tanta sodade).
Chorar... Ser homem! Não, homem não chora, não!
... a jabuticabeira se estorce
Ainda não arranjou posição pra dormir.
(A vida)
Aquele mato deve estar cheio de lobisôme...
De repente o primeiro apito da coruja!
Imobilidade.
(a gente suspira e pensa no destino...)
Silêncio.
Mistério;
Os fantasmas vestidos de luar dançam...
Nossa Senhora, que medo!
Brasil Pinheiro Machado
A tarde é uma rede vermelha e mole
E os nervos da gente esticados como cordas de violão
Vibram no fluído de volúpia que a garoa devagarzinho
Das bandas meio escuras de onde o sol nasce...
Uma mariposa começa a enlouquecer
(de quem será que eu tenho tanta sodade).
Chorar... Ser homem! Não, homem não chora, não!
... a jabuticabeira se estorce
Ainda não arranjou posição pra dormir.
(A vida)
Aquele mato deve estar cheio de lobisôme...
De repente o primeiro apito da coruja!
Imobilidade.
(a gente suspira e pensa no destino...)
Silêncio.
Mistério;
Os fantasmas vestidos de luar dançam...
Nossa Senhora, que medo!
Brasil Pinheiro Machado
(Brasil Pinheiro Machado nasceu no dia 12 de Dezembro de 1907. Morreu em 1997.)
quinta-feira, 12 de maio de 2016
Quantos são exactamente cerca de 44?
Ouvi esta manhã na rádio que "cerca de 44 senadores" já tinham votado a favor da destituição de Dilma Rousseff do cargo de presidente da República do Brasil (o tal de impeachment, em brasileiro correcto). Gostaria de pedir ao rapaz que lê as notícias na Smooth FM que, por favor, e se possível, fosse um bocadinho mais preciso. Isto é: quantos são exactamente "cerca de 44 senadores"? Serão 43,75 senadores? Serão 44,15?...
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série A língua portuguesa é muito traiçoeira,
Smooth FM
sábado, 12 de setembro de 2015
quarta-feira, 26 de agosto de 2015
domingo, 11 de janeiro de 2015
Oswald de Andrade 2
Brasil
O Zé Pereira chegou de caravela
E preguntou pro guarani da mata virgem
- Sois cristão?
- Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte
Teterê Tetê Quizá Quizá Quecê!
Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu!
O negro zonzo saído da fornalha
Tomou a palavra e respondeu
- Sim pela graça de Deus
Canhém Babá Canhém Babá Cum Cum!
E fizeram o Carnaval
Oswald de Andrade
(Oswald de Andrade nasceu no dia 11 de Janeiro de 1890. Morreu em 1954.)
O Zé Pereira chegou de caravela
E preguntou pro guarani da mata virgem
- Sois cristão?
- Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte
Teterê Tetê Quizá Quizá Quecê!
Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu!
O negro zonzo saído da fornalha
Tomou a palavra e respondeu
- Sim pela graça de Deus
Canhém Babá Canhém Babá Cum Cum!
E fizeram o Carnaval
Oswald de Andrade
(Oswald de Andrade nasceu no dia 11 de Janeiro de 1890. Morreu em 1954.)
quarta-feira, 9 de julho de 2014
O Mundial tal qual ele é 14
Brasil, 1 - Alemanha, 7. Dasse! O que vale é que eu sou alemão desde pequenino. Praticamente.
sexta-feira, 13 de junho de 2014
O Mundial tal qual ele é 4
Neymar: "Nunca imaginei fazer um golo na abertura do Mundial". Ó falsíssima modéstia!, claro que imaginou. Até eu imaginei marcar um golo (aliás, quatro) na abertura do Mundial, e não sei jogar futebol...
sexta-feira, 2 de maio de 2014
Lições de História 7: Sócrates
Sócrates começou como filósofo em Atenas e jogou na selecção brasileira. Anos mais tarde foi primeiro-ministro de Portugal. Estragou tudo.
sábado, 22 de fevereiro de 2014
Adeus tristeza, até depois
Ao meu ídolo fugiu-lhe o pé para a jogada de marketing. Relevo. Gosto dele e conta-me palavras como só mais um ou dois. Cá o espero, como sempre.
P.S. - Aos senhores jornalistas: leiam qualquer coisinha antes de escreverem de "emigrou" acima e de "emigrou" abaixo, assunto de que nem fazem ideia. De graça, leiam aqui, se quiserem.
P.S. - Aos senhores jornalistas: leiam qualquer coisinha antes de escreverem de "emigrou" acima e de "emigrou" abaixo, assunto de que nem fazem ideia. De graça, leiam aqui, se quiserem.
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
Uma língua que apodrece
"A minha pátria é a língua portuguesa", escreveu o nosso Fernando Pessoa. "A Pátria não é a raça, não é o meio, não é o conjunto dos aparelhos econômicos e políticos: é o idioma criado ou herdado pelo povo. Um povo só começa a perder a sua independência, a sua existência autônoma, quando começa a perder o amor do idioma natal. A morte de uma nação começa pelo apodrecimento da língua", escreveu Olavo Bilac, o brasileiro.
Bilac (1865-1918) e Pessoa (1888-1935). Não quero saber aqui quem é ovo ou quem é galinha, nem me interessa de momento o acordo ortográfico como assunto. Lembrei-me foi dos professores doutores da mula ruça, traidores à pátria, que enchem a boca de "periúdos", de "interésses", de "rúbricas", de "perzeveranças", de "mediúcres". Enchem a boca e apodrecem a língua. Apodrecem a língua e matam a nação.
Bilac (1865-1918) e Pessoa (1888-1935). Não quero saber aqui quem é ovo ou quem é galinha, nem me interessa de momento o acordo ortográfico como assunto. Lembrei-me foi dos professores doutores da mula ruça, traidores à pátria, que enchem a boca de "periúdos", de "interésses", de "rúbricas", de "perzeveranças", de "mediúcres". Enchem a boca e apodrecem a língua. Apodrecem a língua e matam a nação.
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
Puxem pelo Saci-Pererê e depois queixem-se
Querem ver o Saci-Pererê completamente passado? É mandá-lo ir num pé e vir no outro. Ui!, leva a mal, ninguém o atura...
sábado, 24 de agosto de 2013
Paulo Leminski
Aviso aos náufragos
Esta página, por exemplo,
não nasceu para ser lida.
não nasceu para ser lida.
Nasceu para ser pálida,
um mero plágio da Ilíada,
um mero plágio da Ilíada,
alguma coisa que cala,
folha que volta pro galho,
folha que volta pro galho,
muito depois de caída.
Nasceu para ser praia,
quem sabe Andrómeda, Antártida,
Himalaia, sílaba sentida,
nasceu para ser última
nasceu para ser última
a que não nasceu ainda.
Palavras trazidas de longe
pelas águas do Nilo,
pelas águas do Nilo,
um dia, esta página, papiro,
vai ter que ser traduzida,
vai ter que ser traduzida,
para o símbolo, para o sânscrito,
para todos os dialetos da Índia,
para todos os dialetos da Índia,
vai ter que dizer bom-dia
ao que só se diz ao pé do ouvido,
ao que só se diz ao pé do ouvido,
vai ter que ser a brusca pedra
onde alguém deixou cair o vidro.
onde alguém deixou cair o vidro.
Não é assim que é a vida?
"Distraídos Venceremos", Paulo Leminski
(Paulo Leminski nasceu no dia 24 de Agosto de 1944. Morreu em 1989.)
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quinta-feira, 25 de julho de 2013
As minhas divergências com o Papa 3
Francisco, de visita ao Brasil, alertou a juventude contra os "ídolos passageiros". Eu preferia que o Papa fosse contra os ídolos apenas - passageiros ou condutores. O Papa é um ídolo. E também gostava que não fosse preciso declarar estado de sítio para receber o homem da paz. Só em "segurança", a visita do presidente do Vaticano custa aos brasileiros onze mil militares e polícias e 30 milhões de euros. Se Jesus Cristo fosse vivo, rebentava com esta merda toda.
sexta-feira, 12 de julho de 2013
Orígenes Lessa
Não pense que eu tou querendo tirar onda de santa. Quero não. Desde cedo eu vi
que não era, não ia ser e tinha raiva de quem era. Cama é bom. Mas bom quando é
pela cama que a gente se deita com um cara que a gente gosta e aí vale tudo.
Tenho uma saudade desse tempo que você não imagina. Quando hoje eu vejo um cara
nu, em pé de guerra, moço, forte, bem bolado, às vezes um bacanaço de praia... –
cê pensa que eu fico de fogo? É muito raro... Eu fico é triste. Tenho saudade do
tempo em que eu olhava a mala de um magrinho de subúrbio e ficava doida pra
pegar. Não tinha era coragem. Eu namorava à toa, à toa. Queria era encostar. Me
fazia de besta, fingia não ser por maldade.
"Beco da Fome", Orígenes Lessa
(Orígenes Lessa nasceu no dia 12 de Julho de 1903. Morreu em 1986)
"Beco da Fome", Orígenes Lessa
(Orígenes Lessa nasceu no dia 12 de Julho de 1903. Morreu em 1986)
quinta-feira, 27 de junho de 2013
As minhas férias 2
Soubemos hoje. As únicas pessoas que eu e a minha mulher conhecemos que nunca foram ao Brasil somos nós. Mas já está resolvido. Para a semana, se Deus quiser, vamos outra vez à Póvoa.
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