Autobiografia
Nasci sob o signo de São Bento José Labre.
Pedi esmola na porta de Notre Dame,
E fui encontrado morto numa rua de Madrid.
O primeiro hino foi meu, o primeiro canto,
Que comoveu a alma de Francesca de Rímini.
Fui monge, amei a virgem.
Fui marinheiro, estive no oriente.
Mais tarde, pertenci ao grupo dos poetas malditos,
E escrevi o meu último poema para uma menina espanhola.
"O Tempo da Solidão", Walflan de Queiroz
(Walflan de Queiroz nasceu no dia 31 de Maio de 1930. Morreu em 1995.)
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sexta-feira, 31 de maio de 2019
Walflan de Queiroz 3
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Walflan de Queiroz
sábado, 23 de junho de 2018
António Jacinto 5
Autobiografia
O teu sorriso
espelhado em meus olhos, Mãe;
Um pouco de Poesia
a ilimitar todo o presente;
E a Vida sorrindo também
ao futuro humano que se pressente.
"Poemas", António Jacinto
(António Jacinto nasceu no dia 28 de Setembro de 1924. Morreu no dia 23 de Junho de 1991.)
O teu sorriso
espelhado em meus olhos, Mãe;
Um pouco de Poesia
a ilimitar todo o presente;
E a Vida sorrindo também
ao futuro humano que se pressente.
"Poemas", António Jacinto
(António Jacinto nasceu no dia 28 de Setembro de 1924. Morreu no dia 23 de Junho de 1991.)
domingo, 15 de abril de 2018
Jorge Medauar 2
Autobiografia
Meu nome todo é Jorge Emílio Medauar
Filho de imigrantes árabes
Tenho ficha na polícia cidadão indesejável elemento agitador.
E amo gatos bichinhos miúdos sem importância
Nunca matei passarinho (uma vez fui, a mão tremeu)
Amo amizades construídas em bar esquina cabaré
O rio de minha terra
O mar onde pulo em mergulhos
Onde vejo barcos gaivotas penso em piratas heróis da infância
Penso em viagens conhecer tudo quanto é canto do mundo
Amo as noites luarinas gatos miando pelos telhados
Amo meus livros meu quarto os retratos da mãe e do líder que me fitam
Amo até porque compreendo os que me magoam
Quando nasci em Água Preta meu pai como qualquer pai
Se alegrou deu dinheiro aos pobres
Farinha e carne seca aos cegos da feira
Minha mãe fez promessa prometeu meu nome a São Jorge meu protetor
Também fui batizado crismado como cristão
Cresci aprendi sofri amei
Amei tanto que virei poeta para amar também
Esta coisa que me espreme o coração
Isto que me dá de noite de manhã e a qualquer momento
Que me põe na mesa me obriga a chorar
Ao ver letras tremendo em minha frente
Gota de lágrima escorrendo pelo rosto borrando a página.
Por hoje
- Adeus
Meu nome todo é Jorge Emílio Medauar
Filho de imigrantes árabes
Tenho ficha na polícia cidadão indesejável elemento agitador.
E amo gatos bichinhos miúdos sem importância
Nunca matei passarinho (uma vez fui, a mão tremeu)
Amo amizades construídas em bar esquina cabaré
O rio de minha terra
O mar onde pulo em mergulhos
Onde vejo barcos gaivotas penso em piratas heróis da infância
Penso em viagens conhecer tudo quanto é canto do mundo
Amo as noites luarinas gatos miando pelos telhados
Amo meus livros meu quarto os retratos da mãe e do líder que me fitam
Amo até porque compreendo os que me magoam
Quando nasci em Água Preta meu pai como qualquer pai
Se alegrou deu dinheiro aos pobres
Farinha e carne seca aos cegos da feira
Minha mãe fez promessa prometeu meu nome a São Jorge meu protetor
Também fui batizado crismado como cristão
Cresci aprendi sofri amei
Amei tanto que virei poeta para amar também
Esta coisa que me espreme o coração
Isto que me dá de noite de manhã e a qualquer momento
Que me põe na mesa me obriga a chorar
Ao ver letras tremendo em minha frente
Gota de lágrima escorrendo pelo rosto borrando a página.
Por hoje
- Adeus
Jorge Medauar
(Jorge Medauar nasceu no dia 15 de Abril de 1918. Morreu em 2003.)
terça-feira, 14 de março de 2017
Abdias Nascimento
Autobiografia
EITO que ressoa no meu sangue
sangue do meu bisavô pinga de tua foice
foice da tua violação
ainda corta o grito de minha avó
LEITO de sangue negro
emudecido no espanto
clamor de tragédia não esquecida
crime não punido nem perdoado
queimam minhas entranhas
PEITO pesado ao peso da madrugada de chumbo
orvalho de fel amargo
orvalhando os passos de minha mãe
na oferta compulsória do seu peito
PLEITO perdido
nos desvãos de um mundo estrangeiro
libra... escudo... dólar... mil-réis
Franca adormecida às serenatas de meu pai
sob cujo céu minha esperança teceu
minha adolescência feneceu
e minha revolta cresceu
CONCEITO amadurecido e assumido
emancipado coração ao vento
não é o mesmo crescer lento
que ascende das raízes
ao fruto violento
PRECONCEITO esmagado no feito
destruído no conceito
eito ardente desfeito
ao leite do amor perfeito
sem pleito
eleito ao peito
da teimosa esperança
em que me deito
Abdias Nascimento
(Abdias Nascimento nasceu no dia 14 de Março de 1914. Morreu em 2011.)
EITO que ressoa no meu sangue
sangue do meu bisavô pinga de tua foice
foice da tua violação
ainda corta o grito de minha avó
LEITO de sangue negro
emudecido no espanto
clamor de tragédia não esquecida
crime não punido nem perdoado
queimam minhas entranhas
PEITO pesado ao peso da madrugada de chumbo
orvalho de fel amargo
orvalhando os passos de minha mãe
na oferta compulsória do seu peito
PLEITO perdido
nos desvãos de um mundo estrangeiro
libra... escudo... dólar... mil-réis
Franca adormecida às serenatas de meu pai
sob cujo céu minha esperança teceu
minha adolescência feneceu
e minha revolta cresceu
CONCEITO amadurecido e assumido
emancipado coração ao vento
não é o mesmo crescer lento
que ascende das raízes
ao fruto violento
PRECONCEITO esmagado no feito
destruído no conceito
eito ardente desfeito
ao leite do amor perfeito
sem pleito
eleito ao peito
da teimosa esperança
em que me deito
Abdias Nascimento
(Abdias Nascimento nasceu no dia 14 de Março de 1914. Morreu em 2011.)
quinta-feira, 24 de novembro de 2016
António Gedeão 4
Autobiografia
Enquanto comia
num gesto tranquilo,
comia e ouvia
falar-se daquilo.
Domia e ouvia
solicitamente,
como se presente
presente estaria.
E enquanto comia,
comia e ouvia,
a frágil menina
que no fundo habita,
que chora e que grita
saía de mim.
Saía de mim
correndo e chorando
num gesto revolto,
cabelinho solto,
roupa esvoaçando.
Ia como louca,
chorava e corria,
enquanto eu metia
comida na boca.
Fugia-lhe a estrada
debaixo dos pés,
a estrada pisada
que o luzeiro doira,
serpentina loira
que vai ter ao mar.
Corria a menina
de braços erguidos,
seus brancos vestidos
pareciam luar.
Por dentro ia a noite,
por fora ia o dia.
A vida estuava,
a maré subia.
Caiu a menina
na praia amarela,
logo um modelo de algas
se apoderaram dela.
Se apoderou dela
carinhosamente,
que as algas são gestos
mas não são de gente.
Caiu e ficou-se
deitada de bruços,
desfeita em soluços
sem forma nem lei.
Ó minha aguazinha
faz com que eu não sinta,
faz com que eu não minta,
faz com que ue não odeie!
Aguazinha querida,
compromisso antigo,
dissolve-me a vida,
leva-me contigo.
Leva-me contigo
no berço das algas;
que o sal com que salgas
seja o meu vestido.
Ficou-se a menina
desfeita em soluços,
seu corpo, de bruços,
com o mar a cobri-lo,
enquanto eu, sentado,
sentado comia,
comia e ouvia,
falar-se daquilo.
António Gedeão
(Rómulo de Carvalho nasceu no dia 24 de Novembro de 1906. Morreu em 1997.)
Enquanto comia
num gesto tranquilo,
comia e ouvia
falar-se daquilo.
Domia e ouvia
solicitamente,
como se presente
presente estaria.
E enquanto comia,
comia e ouvia,
a frágil menina
que no fundo habita,
que chora e que grita
saía de mim.
Saía de mim
correndo e chorando
num gesto revolto,
cabelinho solto,
roupa esvoaçando.
Ia como louca,
chorava e corria,
enquanto eu metia
comida na boca.
Fugia-lhe a estrada
debaixo dos pés,
a estrada pisada
que o luzeiro doira,
serpentina loira
que vai ter ao mar.
Corria a menina
de braços erguidos,
seus brancos vestidos
pareciam luar.
Por dentro ia a noite,
por fora ia o dia.
A vida estuava,
a maré subia.
Caiu a menina
na praia amarela,
logo um modelo de algas
se apoderaram dela.
Se apoderou dela
carinhosamente,
que as algas são gestos
mas não são de gente.
Caiu e ficou-se
deitada de bruços,
desfeita em soluços
sem forma nem lei.
Ó minha aguazinha
faz com que eu não sinta,
faz com que eu não minta,
faz com que ue não odeie!
Aguazinha querida,
compromisso antigo,
dissolve-me a vida,
leva-me contigo.
Leva-me contigo
no berço das algas;
que o sal com que salgas
seja o meu vestido.
Ficou-se a menina
desfeita em soluços,
seu corpo, de bruços,
com o mar a cobri-lo,
enquanto eu, sentado,
sentado comia,
comia e ouvia,
falar-se daquilo.
António Gedeão
(Rómulo de Carvalho nasceu no dia 24 de Novembro de 1906. Morreu em 1997.)
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