De repente na treva sulcou uma centelha.
Crer-se-ia que fora ferida uma pederneira.
A faísca inoculou-se, tomou corpo, distendeu as formas e logo depois uma língua de fogo serpenteou rápida, crepitou momentos lutando com regelo atmosférico e, ao fim, uma labareda flutuou os ígneos penachos.
Meia hora decorrida a ourela dos matos da serra Geral forma uma faixa luminosa.
Então distinguiram-se vultos que cruzavam o ambiente iluminado.
Acerquemo-nos.
Dois homens estão junto a uma das fogueiras. Tomavam mate.
"O Vaqueano", Apolinário Porto-Alegre
(Apolinário Porto-Alegre nasceu no dia 29 de Agosto de 1844. Morreu em 1904.)
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quarta-feira, 29 de agosto de 2018
terça-feira, 29 de agosto de 2017
Apolinário Porto-Alegre 4
Caía neve em flocos. O frio, intenso. O mistério daquela natureza recolhida e inânime, profundo e terrível. Não tinha só a melancolia do deserto, o vago e indefinido, que coam na alma as savanas e matas americanas, tinha mais o tom baço, a desoladora taciturnidade, a paralisia, a inércia, a aparência de cadáver, que ressaltam da quadra hibernal. Só quem viajou por noites assim através do ermo selvagem pode compreender a expressão aziaga que lhe é própria, os sentimentos inefáveis que ele desperta, expressão e sentimentos que jamais a linguagem conseguiria reproduzir, são tão indescritíveis! Então cada folha, cada filamento de relva, cada seixo parece ter um segredo medonho a contar um cochicho de torva ameaça! Tudo se anima, tudo fala.
O rochedo agita-se, caminha, rodeia-nos e solta uma gargalhada de infrene sarcasmo. A árvore tem o gesto iracundo. O vendaval ruge uma blasfêmia em cada lufada. E o viajante acha-se cercado de calibans e pavorosas lâmias. A noite, o inverno e a solidão o amesquinham à face do mundo e à face de Deus. Ao resfriamento do corpo aduna-se o resfriamento da moral.
O rochedo agita-se, caminha, rodeia-nos e solta uma gargalhada de infrene sarcasmo. A árvore tem o gesto iracundo. O vendaval ruge uma blasfêmia em cada lufada. E o viajante acha-se cercado de calibans e pavorosas lâmias. A noite, o inverno e a solidão o amesquinham à face do mundo e à face de Deus. Ao resfriamento do corpo aduna-se o resfriamento da moral.
"O Vaqueano", Apolinário Porto-Alegre
(Apolinário Porto-Alegre nasceu no dia 29 de Agosto de 1844. Morreu em 1904.)
segunda-feira, 29 de agosto de 2016
Apolinário Porto-Alegre 3
O sino
O sino se balança
E lança
Nos espaços a voz,
Que freme
E geme
Ora doce, ora atroz.
Falando à branda brisa,
Que frisa
A lisa tez do mal,
E manso
Remanso
Que convida a cismar.
Falando à ventania
Que alia
Perigos ao terror,
Bimbalha,
Espalha
Seu ingente clamor.
Se tange o triste dobre
Por pobre
Que da vida se alou,
Dolente
Se sente
A mágoa que o passou,
Se em festas se despica,
Repica
Gratos, festivos sons,
E na alma
Espalma
A flor dos ricos dons.
Se a matinas convoca,
Evoca
O canto que seduz,
Que implora,
Na aurora,
A Deus, a eterna luz.
Ao toque das Trindades,
Saudades
Nos peitos faz pungir;
Se abisma
Na cisma
Quem pensa no porvir.
Esta hora que magoa,
Reboa
Bem lá no coração,
Quais notas
Remotas
De tempos que não são.
Quando em negro horizonte
A fronte
Pender-me ao por do sol,
Derrama
A gama
Das aves no arrebol.
Não quero luto e pranto
Que o encanto
Perdera o festival,
Sim, quero
E espero
Alegre funeral.
Saúda a renascença
Da crença
Da vida em novo ser,
E a escala
Badala
Em notas de prazer.
"Flores da Morte", Apolinário Porto-Alegre
(Apolinário Porto-Alegre nasceu no dia 29 de Agosto de 1844. Morreu em 1904.)
O sino se balança
E lança
Nos espaços a voz,
Que freme
E geme
Ora doce, ora atroz.
Falando à branda brisa,
Que frisa
A lisa tez do mal,
E manso
Remanso
Que convida a cismar.
Falando à ventania
Que alia
Perigos ao terror,
Bimbalha,
Espalha
Seu ingente clamor.
Se tange o triste dobre
Por pobre
Que da vida se alou,
Dolente
Se sente
A mágoa que o passou,
Se em festas se despica,
Repica
Gratos, festivos sons,
E na alma
Espalma
A flor dos ricos dons.
Se a matinas convoca,
Evoca
O canto que seduz,
Que implora,
Na aurora,
A Deus, a eterna luz.
Ao toque das Trindades,
Saudades
Nos peitos faz pungir;
Se abisma
Na cisma
Quem pensa no porvir.
Esta hora que magoa,
Reboa
Bem lá no coração,
Quais notas
Remotas
De tempos que não são.
Quando em negro horizonte
A fronte
Pender-me ao por do sol,
Derrama
A gama
Das aves no arrebol.
Não quero luto e pranto
Que o encanto
Perdera o festival,
Sim, quero
E espero
Alegre funeral.
Saúda a renascença
Da crença
Da vida em novo ser,
E a escala
Badala
Em notas de prazer.
"Flores da Morte", Apolinário Porto-Alegre
(Apolinário Porto-Alegre nasceu no dia 29 de Agosto de 1844. Morreu em 1904.)
sábado, 29 de agosto de 2015
Apolinário Porto-Alegre 2
Era no dia 14 de julho.
O sol cambava. O raio do crepúsculo, círio que vela um ataúde, lambia a face da Terra. Expressão de agonia, lampejo precursor da morte, ia deitar-se o pai da natureza.
Quem então o visse diria que buscava o leito de descanso, numa sepultura imensa como ele próprio, às profundezas do infinito. O cenário sobre que pairamos não recendia menos tristeza.
Eram os campos de Vacaria.
Ao norte o rio Pelotas arquejava, descontando, febrilmente, um réquiem, ao sul o Taquari o acompanhava em notas não menos lúgubres; de um lado o lombro verde-negro da serra Geral, interceptando o horizonte; do outro o Mato Português, cuja respiração simulava o paroxismo cruel de leviatãs que estrebucham. O teto - o céu, cujas fímbrias eram as brumas alvacentas de leve coloridas.
Ajuntai o efeito dos troncos quase desnudos de roupas em pé no lusco-fusco da tarde, fantasmas dos séculos estendendo longos e musculosos braços para todas as direções, sacudindo, ao sopro do pálido arrebol, as barbas grisalhas e venerandas, ajuntai mais o mio, ora profundo e cavernoso da onça, ora estrídulo e agudo da jaguatirica, o solfejo áspero e atroador do itanha, o piar agoureiro das corujas, o bramido do minuano que fazia ranger os estípites e galhada da selva, que revolvia os capinzais como oceanos, e tereis o quadro senão completo, em miniatura ao menos.
"O Vaqueano", Apolinário Porto-Alegre
(Apolinário Porto-Alegre nasceu no dia 29 de Agosto de 1844. Morreu em 1904.)
O sol cambava. O raio do crepúsculo, círio que vela um ataúde, lambia a face da Terra. Expressão de agonia, lampejo precursor da morte, ia deitar-se o pai da natureza.
Quem então o visse diria que buscava o leito de descanso, numa sepultura imensa como ele próprio, às profundezas do infinito. O cenário sobre que pairamos não recendia menos tristeza.
Eram os campos de Vacaria.
Ao norte o rio Pelotas arquejava, descontando, febrilmente, um réquiem, ao sul o Taquari o acompanhava em notas não menos lúgubres; de um lado o lombro verde-negro da serra Geral, interceptando o horizonte; do outro o Mato Português, cuja respiração simulava o paroxismo cruel de leviatãs que estrebucham. O teto - o céu, cujas fímbrias eram as brumas alvacentas de leve coloridas.
Ajuntai o efeito dos troncos quase desnudos de roupas em pé no lusco-fusco da tarde, fantasmas dos séculos estendendo longos e musculosos braços para todas as direções, sacudindo, ao sopro do pálido arrebol, as barbas grisalhas e venerandas, ajuntai mais o mio, ora profundo e cavernoso da onça, ora estrídulo e agudo da jaguatirica, o solfejo áspero e atroador do itanha, o piar agoureiro das corujas, o bramido do minuano que fazia ranger os estípites e galhada da selva, que revolvia os capinzais como oceanos, e tereis o quadro senão completo, em miniatura ao menos.
"O Vaqueano", Apolinário Porto-Alegre
(Apolinário Porto-Alegre nasceu no dia 29 de Agosto de 1844. Morreu em 1904.)
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
Apolinário Porto-Alegre
O inverno desatava as madeixas emperladas de gelo, tão triste que magoava o coração e despertava idéias sombrias, como céus e e terras.
Não sei que íntima e mística afinidade existe entre a natureza e a alma humana, que a morte-cor de uma se reflete na outra como em bacias de límpidas águas, que o múrmur surdo e merencório desta, como num tímpano, encontra ecos naquela.
O inverno é um cemitério! Sazão de morte que não poupa a terna vergôntea, nem as catassóis da asa do colibri! Por isso o calafrio que se sente quando ele se aproxima, o terror que vaga na floresta e na campina, a palidez do manto de verduras, a ausência dos cantores plumosos... e depois o minuano! Como é cruel, ele que fustiga a árvore secular, que aspergia doce sombra no ardor da sesta, até lhe arrancar uma por uma as folhas de seu diadema! Que cresta a várzea há pouco vicejante alfombra! que torna a linfa de onda argentina e anodina, fria como uma geleira, silenciosa como um ermo, ingrata ao lábio na exsicação da sede!
Quem pode amar-te quadra sem sombras, brisas, cantos e flores? Período que espasma a vida e congela a flor das alegrias?
"O Vaqueano", Apolinário Porto-Alegre
(Apolinário Porto-Alegre nasceu no dia 29 de Agosto de 1844. Morreu em 1904.)
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