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quarta-feira, 17 de outubro de 2018

António Ramos Rosa 8

[Viste o cavalo varado a uma varanda?]

Viste o cavalo varado a uma varanda?
Era verde, azul e negro e sobretudo negro.
Sem assombro, vivo da cor, arco-íris quase.
E o aroma do estábulo penetrando a noite.

Do outro lado da margem ascendia outro astro
como uma lua nua ou como um sol suave
e o cavalo varado abria a noite inteira
ao aroma de Junho, aos cravos e aos dentes.

Uma língua de sabor para ficar na sombra
de todo um verão feliz e de uma sombra de água.
Viste o cavalo varado e toda a noite ouviste
o tambor do silêncio marcar a tua força

e tudo em ti jazia na noite do cavalo.


"Ciclo do Cavalo", António Ramos Rosa 

(António Ramos Rosa nasceu no dia 17 de Outubro de 1924. Morreu em 2013.)

domingo, 23 de setembro de 2018

António Ramos Rosa 7

Para um amigo tenho sempre

Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.


"Viagem Através de Uma Nebulosa", António Ramos Rosa
 
(António Ramos Rosa nasceu no dia 17 de Outubro de 1924. Morreu no dia 23 de Setembro de 2013.)

terça-feira, 17 de outubro de 2017

António Ramos Rosa 6

[Mas agora estou no intervalo em que]

Mas agora estou no intervalo em que
toda a sombra é fria e todo o sangue é pobre.
Escrevo para não viver sem espaço,
para que o corpo não morra na sombra fria.


Sou a pobreza ilimitada de uma página.
Sou um campo abandonado. A margem
sem respiração.


Mas o corpo jamais cessa, o corpo sabe
a ciência certa da navegação no espaço,
o corpo abre-se ao dia, circula no próprio dia,
o corpo pode vencer a fria sombra do dia.


Todas as palavras se iluminam
ao lume certo do corpo que se despe,
todas as palavras ficam nuas
na tua sombra ardente.


"A Construção do Corpo", António Ramos Rosa 

(António Ramos Rosa nasceu no dia 17 de Outubro de 1924. Morreu em 2013.)

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

António Ramos Rosa 5

Sóbrio o teu corpo

Sóbrio o teu corpo me pede
penetração: nomes puros:
os de boca, braços, mãos
sobre a terra e sobre os muros.


Sóbrio o teu corpo me pede
nomes justos, nomes duros:
os de terra, fogo e punhos,
claros, acres, escuros.


"Ocupação do Espaço", António Ramos Rosa 

(António Ramos Rosa nasceu no dia 17 de Outubro de 1924. Morreu em 2013.)

sábado, 17 de outubro de 2015

António Ramos Rosa 4

Este poema é absolutamente desnecessário
 
Este poema é absolutamente desnecessário
pela simples razão de que poderia nunca ser escrito
e ninguém sentiria a sua falta
Esta é a sua liberdade negativa a sua vacuidade dinâmica
e o movimento da sua abolição
a partir do seu vazio inicial
Mas qual é a sua matéria qual o seu horizonte?
Traçará ele uma linha em torno da sua nulidade
e fechar-se-á como uma concha de cabelos ou como um útero do nada?
Ou será a possibilidade extrema de uma presença inesperada
que surgiria quando chegasse a essa fronteira branca
que já não separaria o ser do nada e no seu esplendor absoluto
revelaria a integridade do ser antes de todas as imagens
a sua violência inaugural a sua volúvel gestação?
 


"Deambulações Oblíquas", António Ramos Rosa 

(António Ramos Rosa nasceu no dia 17 de Outubro de 1924. Morreu em 2013.)

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

António Ramos Rosa 3

Corpo de aroma

Se foste corola ou barco,
mas quando?
minha irmã,
minha leve amante, minha árvore,
que o mundo levantava
na inocência absoluta
do instante.
Alta estavas no amplo e recolhida
como uma lâmpada,
alta estavas na varanda branca.
Se acaso ainda podes ser aroma
dos meus olhos,
corpo no corpo,
retiro e substância,

linha alta
da delícia,
nada te pedirei na minha ânsia
de puro espaço,
de azul imediato,
de luz para o olvido e o deserto.


António Ramos Rosa

(António Ramos Rosa nasceu no dia 17 de Outubro de 1924. Morreu em 2013.)

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

António Ramos Rosa 2

A Festa do Silêncio

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se de ondas silenciosas.

É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.

Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.


Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.

No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.


"Volante Verde", António Ramos Rosa

(António Ramos Rosa nasceu no dia 17 de Outubro de 1924. Morreu nem há um mês.)

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

António Ramos Rosa (1924-2013)

Não posso adiar o coração

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração


"Viagem Através de Uma Nebulosa", António Ramos Rosa