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sexta-feira, 28 de setembro de 2018

António Jacinto 6

Bailarina negra 

A noite
(Uma trompete, uma trompete)
fica no jazz

A noite
Sempre a noite
Sempre a indissolúvel noite
Sempre a trompete
Sempre a trépida trompete
Sempre o jazz
Sempre o xinguilante jazz

Um perfume de vida
esvoaça
adjaz
Serpente cabriolante
na ave-gesto da tua negra mão

Amor,
Vénus de quantas áfricas há,
vibrante e tonto, o ritmo no longe
preênsil endoudece

Amor
ritmo negro
no teu corpo negro
e os teus olhos
negros também
nos meus
são tantãs de fogo
amor.

António Jacinto

(António Jacinto nasceu no dia 28 de Setembro de 1924. Morreu em 1991.)

sábado, 23 de junho de 2018

António Jacinto 5

Autobiografia

O teu sorriso
espelhado em meus olhos, Mãe;
Um pouco de Poesia
a ilimitar todo o presente;
E a Vida sorrindo também
ao futuro humano que se pressente.

"Poemas", António Jacinto

(António Jacinto nasceu no dia 28 de Setembro de 1924. Morreu no dia 23 de Junho de 1991.)

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

António Jacinto 4

Vadiagem

Naquela hora já noite
quando o vento nos traz mistérios a desvendar
musseque em fora fui passear as loucuras
com os rapazes das ilhas:
uma viola a tocar
o Chico a cantar
(que bem que canta o Chico!)

e a noite quebrada na luz das nossas vozes

Vieram também, vieram também
cheirando a flor de mato
- cheiro grávido de terra fértil -
as moças das ilhas
sangue moço aquecendo
a Bebiana, a Teresa, a Carminda, a Maria.


Uma viola a tocar
o Chico a cantar
a vida aquecida com o sol esquecido
a noite é caminho
caminho, caminho, tudo caminho serenamente negro
sangue fervendo
cheiro bom a flor de mato
a Maria a dançar
(que bem que dança remexendo as ancas!)


E eu a querer, a querer a Maria
e ela sem se dar


Vozes dolentes no ar
a esconder os punhos cerrados
alegria nas cordas da viola
alegria nas cordas da garganta
e os anseios libertados
das cordas de nos amordaçar


Lua morna a cantar com a gente
as estrelas se namorando sem romantismo
na praia da Boavista
o mar ronronante a nos incitar


Todos cantando certezas
a Maria a bailar se aproximando
sangue a pulsar
sangue a pulsar
mocidade correndo
a vida
peito com peito
beijos e beijos
as vozes cada vez mais bêbadas de liberdade
a Maria se chegando
a Maria se entregando
 

Uma viola a tocar
e a noite quebrada na luz do nosso amor...


"Poemas", António Jacinto

(António Jacinto nasceu no dia 28 de Setembro de 1924. Morreu em 1991.) 

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

António Jacinto 3

Monangamba

Naquela roça que não tem chuva
é o suor do meu rosto que rega as plantações;


Naquela roça grande tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue feitas seiva.

O café vai ser torrado,
pisado, torturado,
vai ficar negro, negro da cor do contratado!

Negro da cor do contratado!

Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:

Quem se levanta cedo? quem vai à tonga?
Quem trás pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de déndén?
Quem capina e em paga recebe desdém
fubá podre, peixe podre,
panos ruins, cinqüenta angolares
porrada se refilares?

Quem?

Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer
- Quem?

Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?

Quem faz o branco prosperar,
ter a barriga grande - ter dinheiro?
- Quem?

E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:
- Monangambéée...

Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras
Deixem-me beber maruvo, maruvo
e esquecer diluído nas minhas bebedeiras
- Monangambéée...
 

António Jacinto

(António Jacinto nasceu no dia 28 de Setembro de 1924. Morreu em 1991.) 

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

António Jacinto 2

Oração

Mãe
Agora que tu partiste que será do teu menino?
Quem rirá da minhas partidas
e travessuras?
Quem terá indulgências aos erros meus
e sentirá as minhas amarguras?
Quem me contará histórias de encantar
das fadas e do fantástico
- ainda preciso delas, Mãe -
Quem me ensinará as primeiras letras da Cartilha Maternal
me falará das estrelas
da África
da Europa do Atlântico do Universo
me ensinará amor pelas andorinhas e pelos humildes
e me ensinará humanidade?
Quem?
Agora que te foste embora
(quantas lágrimas por mim choraste,
e choraste por ti à partida?)
onde um regaço para pousar minha cabeça de cansaços?
Mãe
agora que partiste
o teu menino está perdido na floresta de gigantes maus
Escuta Mãe
o teu menino será forte
como quiseste
("come Antoninho"
"come Antoninho")
e saberá pelas estrelas
encontrar o caminho da nossa casa
Mãe
Agora que tu partiste
ainda estamos sempre juntos
(cordão umbilical inquebrável nos ligou)
ainda estamos juntos
a cada raio de sol
a cada revérbero de Lua no mar
a cada murmuro lamento da floresta no Golungo
- sempre juntos
Mãe.

"Sobreviver em Tarrafal de Santiago", António Jacinto

(António Jacinto nasceu no dia 28 de Setembro de 1924. Morreu em 1991.)  

sábado, 28 de setembro de 2013

António Jacinto

Carta de um contratado

Eu queria escrever-te uma carta
amor
uma carta que dissesse
deste anseio
de te ver
deste receio de te perder
deste mais que bem querer que sinto
deste mal indefinido que me persegue
desta saudade a que vivo todo entregue...

Eu queria escrever-te uma cara
amor
uma carta de confidências íntimas
uma carta de lembranças de ti
de ti
dos teus lábios vermelhos como tacula
dos teus cabelos negros como dilôa
dos teus olhos doces como macongue
dos teus seios duros como maboque
do teu andar de onça
e dos teus carinhos
que maiores não encontrei por aí...

Eu queria escrever-te uma carta
amor
que recordasse nossos dias na capôpa
nossas noites perdidas no capim

que recordasse a sombra que nos caía dos jambos
o luar que se coava das palmeiras sem fim
que recordasse a loucura
da nossa paixão
e a amargura da nossa separação...

Eu queria escrever-te uma carta
amor
que a não lesses sem suspirar
que a escondesses de papai Bombo
que a sonegasses a mamãe Kieza
que a relesses sem a frieza
do esquecimento
uma carta que em todo Kilombo
outra a ela não tivesse merecimento...

Eu queria escrever-te uma carta
amor
uma carta que te levasse o vento que passa
uma carta que os cajus e cafeeiros
que as hienas e palancas
que os jacarés e bagres
pudessem entender
para que se o vento a perdesse no caminho
os bichos e plantas
compadecidos de nosso pungente sofrer
de canto em canto
de lamento em lamento
de farfalhar em farfalhar
te levassem puras e quentes
as palavras ardentes
as palavras magoadas da minha carta
que eu queria escrever-te amor...

Eu queria escrever-te uma carta...

Mas ah meu amor, eu não sei compreender
por que é, por que é, por que é, meu bem
que tu não sabes ler
e eu - Oh! Desespero - não sei escrever também! 


"Poemas", António Jacinto

(António Jacinto nasceu no dia 28 de Setembro de 1924. Morreu em 1991.)