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domingo, 24 de novembro de 2019

As árvores crescem sós. E a sós florescem.

Foto Hernâni Von Doellinger

António Gedeão 7

Vidro côncavo

Tenho sofrido poesia
como quem anda no mar.
Um enjoo.
Uma agonia.
Saber a sal.
Maresia.
Vidro côncavo a boiar.

Dói esta corda vibrante
A corda que o barco prende
à fria argola do cais
Se uma onda que a levante
vem logo outra que a distende.
Não tem descanso jamais.

"Movimento Perpétuo", António Gedeão

(António Gedeão nasceu no dia 24 de Novembro de 1906. Morreu em 1997.)

sábado, 24 de novembro de 2018

António Gedeão 6

Homem

Inútil definir este animal aflito.
Nem palavras,
nem cinzéis,
nem acordes,
nem pincéis
são gargantas deste grito.
Universo em expansão.
Pincelada de zarcão
desde mais infinito a menos infinito.


"Movimento Perpétuo", António Gedeão

(António Gedeão nasceu no dia 24 de Novembro de 1906. Morreu em 1997.)

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Eles não sabem que o sono...

Dormia, por norma, dezasseis ou dezassete horas, consoante fossem dias ímpares ou pares, respectivamente. Ia ao emprego marcar o ponto de saída e era alvo de todas as críticas, atacado por patrões, colegas e até pelo sindicato. Defendia-se, filosoficamente: - Vocês não sabem que o sono é uma constante da vida, tão concreta e definida como outra coisa qualquer?...

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

António Gedeão 5

Fala do homem nascido

Venho da terra assombrada,
do ventre de minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém.

Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui,
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci.

Trago boca para comer
e olhos para desejar.
Com licença, quero passar,
tenho pressa de viver.

Com licença, com licença,
que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo,
não tenho tempo a perder.


Minha barca aparelhada
solta rumo ao norte;
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada.

Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.

Quero eu e a natureza,
que a natureza sou eu,
e as forças da natureza
nunca ninguém as venceu.
Com licença, com licença,
que a barca se fez ao mar.
Não há poder que me vença,
mesmo morto hei-de passar.
Com licença, com licença,
com rumo à estrela polar.

"Teatro do Mundo", António Gedeão

(António Gedeão nasceu no dia 24 de Novembro de 1906. Morreu em 1997.)

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

António Gedeão 4

Autobiografia

Enquanto comia
num gesto tranquilo,
comia e ouvia
falar-se daquilo.

Domia e ouvia
solicitamente,
como se presente
presente estaria.

E enquanto comia,
comia e ouvia,
a frágil menina
que no fundo habita,
que chora e que grita
saía de mim.

Saía de mim
correndo e chorando
num gesto revolto,
cabelinho solto,
roupa esvoaçando.

Ia como louca,
chorava e corria,
enquanto eu metia
comida na boca.

Fugia-lhe a estrada
debaixo dos pés,
a estrada pisada
que o luzeiro doira,
serpentina loira
que vai ter ao mar.

Corria a menina
de braços erguidos,
seus brancos vestidos
pareciam luar.

Por dentro ia a noite,
por fora ia o dia.
A vida estuava,
a maré subia.

Caiu a menina
na praia amarela,
logo um modelo de algas
se apoderaram dela.

Se apoderou dela
carinhosamente,
que as algas são gestos
mas não são de gente.

Caiu e ficou-se
deitada de bruços,
desfeita em soluços
sem forma nem lei.

Ó minha aguazinha
faz com que eu não sinta,
faz com que eu não minta,
faz com que ue não odeie!

Aguazinha querida,
compromisso antigo,
dissolve-me a vida,
leva-me contigo.

Leva-me contigo
no berço das algas;
que o sal com que salgas
seja o meu vestido.

Ficou-se a menina
desfeita em soluços,
seu corpo, de bruços,
com o mar a cobri-lo,
enquanto eu, sentado,
sentado comia,
comia e ouvia,
falar-se daquilo.

António Gedeão

(Rómulo de Carvalho nasceu no dia 24 de Novembro de 1906. Morreu em 1997.)

terça-feira, 24 de novembro de 2015

António Gedeão 3

Poema da auto-estrada

Voando vai para a praia
Leonor na estrada preta.
Vai na brasa, de lambreta. 

Leva calções de pirata,
vermelho de alizarina,
modelando a coxa fina,
de impaciente nervura.
Como guache lustroso,
amarelo de idantreno,
blusinha de terileno
desfraldada na cintura. 

Fuge, fuge, Leonoreta:
Vai na brasa, de lambreta. 

Agarrada ao companheiro
na volúpia da escapada
pincha no banco traseiro
em cada volta da estrada.
Grita de medo fingido,
que o receio não é com ela,
mas por amor e cautela
abraça-o pela cintura.
Vai ditosa e bem segura. 

Com um rasgão na paisagem
corta a lambreta afiada,
engole as bermas da estrada
e a rumorosa folhagem.
Urrando, estremece a terra,
bramir de rinoceronte,
enfia pelo horizonte
como um punhal que se enterra.
Tudo foge à sua volta,
o céu, as nuvens, as casas,
e com os bramidos que solta
lembra um demónio com asas. 

Na confusão dos sentidos
já nem percebe Leonor
se o que lhe chega aos ouvidos
são ecos de amor perdidos
se os rugidos do motor. 

Fuge, fuge, Leonoreta
Vai na brasa, de lambreta.

"Máquina de Fogo", António Gedeão

(António Gedeão nasceu no dia 24 de Novembro de 1906. Morreu em 1997.)

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

António Gedeão 2

Lição sobre a água

Este líquido é água.
Quando pura
é inodora, insípida e incolor.
Reduzida a vapor,
sob tensão e a alta temperatura,
move os êmbolos das máquinas que, por isso,
se denominam máquinas de vapor.


É um bom dissolvente.
Embora com excepções mas de um modo geral,
dissolve tudo bem, bases e sais.
Congela a zero graus centesimais
e ferve a 100, quando à pressão normal.


Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,
sob um luar gomoso e branco de camélia,
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
com um nenúfar na mão.


"Linhas de Força", António Gedeão

(António Gedeão nasceu no dia 24 de Novembro de 1906. Morreu em 1997.)

domingo, 24 de novembro de 2013

António Gedeão

Pedra filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

"Movimento Perpétuo", António Gedeão

(Rómulo de Carvalho, que usava o pseudónimo literário de António Gedeão, nasceu no dia 24 de Novembro de 1906. Morreu em 1997.)