Simultaneamente com esta clandestina conspirata nos promíscuos desvãos da locanda do Zé Pequeno, ali a não muitos metros dela, em casa de Afonso de Carvalho Meireles, o arrogante senhor da fábrica do Almargem, se retinira também a pequena sociedade habitual. Numa aparatosa antessala, austera e fria, - té meia altura vestida do seu rodapé de azulejos, para cima um carcomido forro de preciosos gobelins, em capelas, paveias, listrões de flores, mal amparados erguendo-se a entestar com a bisarma piramidal do negro teto apainelado, - abancavam, como de habito, a uma quina, em volta ao grande bufete de ébano torcido: o velho Meireles e a mulher, o comendador Sulpício, o Bernardo Gonzaga, o padre Sebastião. E um pouco a distancia, no outro extremo da diagonal, Adriana, a patrícia filha dos donos da casa, distraída bedelhava ao piano, em vagos acordes, em fugazes e cérulas melodias.
"Amanhã", Abel Botelho
(Abel Botelho nasceu no dia 23 de Setembro de 1854. Morreu em 1917.)
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domingo, 23 de setembro de 2018
sábado, 23 de setembro de 2017
Abel Botelho 5
Havia primeiro uma sorte de pequeno pátio interior, ladrilhado a tijolo, com portas abrindo sobre imundas cafuas em esconso, que promiscuamente serviam de depósito de géneros e quartos de dormir. Uma outra porta, em frente da entrada, dava serventia para uma grande sala em osso, assimétrica e oblonga, o teto sem forro, nua ainda na sua provisoria aspereza a taipa escura das paredes, e onde a intensa absorção da luz, por efeito da ausência quase completa do branco, junta com um espesso véu de fumo sobrenadando, apagava as arestas, comia os contornos, emprestava aquele vasto cenário um ar fantástico, impedindo a nítida visionação das coisas.
Entretanto, via-se logo porção de gente abancada contra as duas compridas mesas paralelas, que longitudinalmente tomavam toda a quadra. Difusas, vivas, em todos os sentidos cruzavam-se as conversas; um estrupidante rumor de interesse reboava alto no recinto, por entre o alegre tilintar dos copos e o lento espiralar dos rolos de fumo dos cigarros. Da asna central do teto - cuja ossatura pelintra, a descoberto, acusava a grade irregular das vigas e permitia contar as telhas - pendia um varão de ferro, tendo nos extremos dois grandes candeeiros de petróleo com para-luz de folha pintado a verde. De roda, numa caótica confusão, vestindo as traves, pejando os cantos, em rima junto ás paredes, por toda a parte riscando cabalísticas sombras, apontavam vagos perfis de arados, ancinhos, foices, aduelas, arcos de pipas, talhas para azeite, rosários de cebolas, pilhas de lenha, um promontório enorme de batatas. Cheirava a feno e a peixe frito; respirava-se um ar morno e penetrante, cumulativo a tasca e a curral, a abegoaria e a caserna.
"Amanhã", Abel Botelho
(Abel Botelho nasceu no dia 23 de Setembro de 1854. Morreu em 1917.)
Entretanto, via-se logo porção de gente abancada contra as duas compridas mesas paralelas, que longitudinalmente tomavam toda a quadra. Difusas, vivas, em todos os sentidos cruzavam-se as conversas; um estrupidante rumor de interesse reboava alto no recinto, por entre o alegre tilintar dos copos e o lento espiralar dos rolos de fumo dos cigarros. Da asna central do teto - cuja ossatura pelintra, a descoberto, acusava a grade irregular das vigas e permitia contar as telhas - pendia um varão de ferro, tendo nos extremos dois grandes candeeiros de petróleo com para-luz de folha pintado a verde. De roda, numa caótica confusão, vestindo as traves, pejando os cantos, em rima junto ás paredes, por toda a parte riscando cabalísticas sombras, apontavam vagos perfis de arados, ancinhos, foices, aduelas, arcos de pipas, talhas para azeite, rosários de cebolas, pilhas de lenha, um promontório enorme de batatas. Cheirava a feno e a peixe frito; respirava-se um ar morno e penetrante, cumulativo a tasca e a curral, a abegoaria e a caserna.
"Amanhã", Abel Botelho
(Abel Botelho nasceu no dia 23 de Setembro de 1854. Morreu em 1917.)
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
Abel Botelho
- Essa ceia está pronta? - perguntou enfastiado o Serafim, cuja figura esgalgada e curva, tendo
vencido o último degrau da escada, assomava oscilando à porta da cozinha.
- Há que tempos! - respondeu-lhe, sem o olhar,
uma mulherita atarracada e bruna, que no vão da
chaminé, à esquerda da porta, mesmo junto à esquina, de candeia suspensa da mão esquerda mexia
um tacho de barro fumando sobre e fogareiro.
- Bem... vamos então a aviar! - comandou o
operário, numa leve impaciência, atirando o corpo
descadeirado e longo para cima dum mocho de pinho, de encontro à mesa, do outro lado da porta de
entrada, e projectando o chapéu com arremesso.
- É pra já! - acudiu de salto a mulher, enquanto lhe vinha perto pendurar a candeia, dum
grande prego enferrujado. A seguir, foi à chaminé,
tornou, e fitando agora firme o Serafim, inquiria, com
um significativo ar, quando na frente lhe punha, sobre a gorduragem gretada das tábuas ressequidas, o
tacho fumegante: - Vens-lhe com gana hoje?...
- Mas gana de quê?... - logo repontou o Serafim, enviesando malevolamente os olhos.
- Ora de que há-de ser?... De tasquinhar. E ainda bem!
Dizendo, a ladina da Clara rodopiava ligeira na
acanhado aposento, descendo do armário e dispondo
na mesa dois pratos de barro, singelamente vidrados
a branco e sua franja de azul nos bordos, depois colheres e garfos de chumbo, pão, um pires esbeiçado
com azeitonas. E então, com o mesmo ar finório, as
costas da mão sobre a mesa:
- A não ser que tu... sim... lá tenhas outro sentido. - A cara patibular do Serafim torcia-se num
sorrisinho implicante. E a mulher a insistir: - Não
sei o que te acho! Estás-me assim a modo campeiro...
- E tu estás muito doutora...
- Cada um é como Deus o fez...
- Senta-te! - gritou com ímpeto o Serafim, fuzilando-lhe um relâmpago de cólera na abaçanada
frouxidão dos olhos. E arrastou ainda, numa sorna
de ameaça: - Nós temos festa... - Depois imperiosamente a repetir: - Então!?
Ao que a mulherita prontamente obedeceu, trazendo cadeira para junto do seu homem, e dando-lhe
ao sentar-se um amorável repelão no braço: - Mostrengo!
Mas, insensível, o Serafim lançava do tacho para
o prato e sorvia automaticamente, sem vontade, sem
prazer, uma negra e triste aguadilha, mosqueada de
olhitos de azeite, condensando na frialdade do ambiente um vapor nauseabundo, e de cuja dessorada
fluidez a quando e quando emergia a ironia cortical dum feijão, ou a coriácea insipidez dalguma couve saloia. De sua banda a Clara imitava-o, atacando
também, mas de longe, como quem se despacha
duma fastidiosa obrigação, o sujo tacho requeimado;
e para isto estendia o braço direito, todo longo, e sobre o antebraço esquerdo em repouso tinha o avental colhido no regaço.
"Amanhã", Abel Botelho
(Abel Botelho nasceu no dia 23 de Setembro de 1854. Morreu em 1917.)
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