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sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Álvaro Guerra 3

As armas

[...]
Vem do céu, silvando, assobiando, um envenenado e gigantesco dedo de Deus, igual ao teu dedo que premiu um botão a mais de mil metros de altitude, vem do céu e tu vais longe já, voando sobre a terra onde começa a acender-se um clarão alaranjado que sobe em cogumelo e lentamente se desfaz sobre os campos e as cidades onde ninguém fica para te contar a morte à bomba.

"Memória", Álvaro Guerra

(Álvaro Guerra nasceu no dia 19 de Outubro de 1936. Morreu em 2002.)

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Álvaro Guerra 2

Lave mais branco!

[...]
Comunicamos o que podemos e estamos nisso, outros e inteiros, a caminho da morte em carne viva, com poesia, sexo e sonho. Sobre outro papel ejaculamos nossas potências e impotências e ficamos aliviados até logo, a afirmar que estamos vivos e que ninguém nos engana, a nós, os heróis capazes de aguentar a nossa cobardia.
"... vem mui respeitosamente rogar a Vossa Excelência se digne mandar passar a respectiva autorização. Pede deferimento. Lisboa, tantos do tal."
Recebemos o que imploramos. "Muito agradecidos a Vossa Excelência por já nos ser possível limpar o cu a papel vermelho; somos muitos a agradecer e estamos a pensar numa manifestação espontânea para, publicamente, demonstrarmos a nossa gratidão, se Vossa Excelência autorizar."
O Sol é fonte que brota nesta permanente fotossíntese em nós que andamos debaixo dele em cumpridora compostura, cheia de formas e cores. Mas nunca esquecemos a melhor forma e a melhor cor:
"Dê a volta ao Mundo!"
"Lave mais branco!"
Mas sim, claro, evidentemente, estamos tecnicamente bem preparados para:
"Coma o seu pão todos os dias! Se não tiver com que comprá-lo, roube!"
E assim vamos vivendo. Bem, muito obrigado.
 
"Memória", Álvaro Guerra

(Álvaro Guerra nasceu no dia 19 de Outubro de 1936. Morreu em 2002.)

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Álvaro Guerra

Quando eu chegava, a ameixoeira no canto do pátio estava a cobrir-se de pequenas flores brancas, no marçabril de cada ano, e era essa a maneira da Primavera se mostrar, ela que já vinha no vento seco e volúvel de rondar os quatro cantos da casa velha. Era quando a avó falava dos tremores de terra e acendia em azeite novo o pavio, diante da gravura de Santa Bárbara, de modo que a chama dançava no vidro da moldura a embaciar-se de calor e ranço. Então, também a prima punha olheiras azuis e começava o seu consumo de tónicos, ostentando sua magreza como um luxo de dama antiga, cortesã sem corte, livros entreabertos sobre os joelhos, folhas secas, olhar vago, suspiros, tonturas de período. Das suas insónias fui vítima e iniciado quando acordei de um sonho de punhais apontados à minha barriga por onde, afinal, passeavam os seus dedos febris, "Chiu, não faças barulho; está mais quentinho na tua cama; deixa-me dormir contigo", um sussurro, e os dedos em atrevimentos tecendo com os pêlos negros e recentes mornos formigueiros trabalhando a hipnose que me imobilizava no meio de um angustiante prazer que exigia mais, de maneira que ao acordar era como se ela me houvesse contagiado as olheiras azuis e a cama tinha um cheiro excitante de suor e sucos dos nossos corpos enredados.

"Memória", Álvaro Guerra

(Álvaro Guerra nasceu no dia 19 de Outubro de 1936. Morreu em 2002.)