terça-feira, 17 de novembro de 2020

De pé, ó vítimas da estrada!

Quase faleci derivado a um praticamente trágico equívoco rodoviário
Vamos supor que era a Grand Central Terminal de Nova Iorque e estávamos no quentinho do cinema. Mas na verdade estávamos em Vila do Conde à chuva e era um tanque público no quarteirão da Santa Casa da Misericórdia. Eu passando. Um carrinho de bebé sem condutor sai lentamente do lavadouro, primeiro em câmara lenta como nos filmes e depois, rapidamente embalado pela força da realidade, adeus passeio, vou para a estrada da morte que se faz tarde. Ia. Naquele momento exacto sinto o primeiro e único impulso de heroísmo de toda a minha vida, voo para o carrinho a pensar na CMTV, na TVI, no YouTube, em Marcelo Rebelo de Sousa, na medalha do 10 de Junho, na reforma vitalícia (pensa-se em muita merda numa fracção de segundos), rezo a Nosso Senhor e a Nossa Senhora e a Santiago, meu padrinho e protector, falta-me o ar de repente, é o coração que me entope cobardemente a garganta, as pernas tremem-me como varas verdes mas desta vez não falham, voo para o carrinho e agarro-o já no milagroso resvés com um Toyota Yaris que passa nas horas e me enche de nomes, mas é o menos. Graças a Deus. Respiro. A mãe grita, de mãos espetadas na cabeça desgrenhada, Ai o carrinho, e o pai berra Olha o carrinho, e dá mais uma puxa no paivante.
O carrinho?, interpelo eu e repito, mais fodido do que outra coisa, O carrinho? E a criança, caralho?, A criança?, as palavras saem-me aos soluços e eu preciso de uma cadeira para morrer ali sentado. Mas qual criança?, dizem-me os dois, com caras combinadas de quem me manda à merda com a senha número um e portanto sem cadeira, Qual criança?, e riem-se afinadíssimos da minha agonia. Tinham praticamente razão: olhei para o carrinho que mantinha nas mãos cerradas e aflitas, o bebé eram quatro passadeiras lavadas, enroladas e ainda pingantes - as quatro filhas da puta pelas quais eu só não faleci prematuramente porque sou um gajo cheio de sorte.  


Nota final. A famosa cena do carrinho de bebé descendo a escadaria, com a criança dentro, no meio do tiroteio, em "Os Intocáveis", de 1987, já tinha sido vista em "O Couraçado Potemkine", de 1925.

Espírito de contradição
Ao contrário de todos os outros ciclistas, ele gostava de correr da frente para trás. Provocava muita confusão e inúmeros acidentes, realmente, mas, lá está, cada um é como cada qual.

Perigo na estrada
Há um novo perigo nas estradas portuguesas: as cadeiras de rodas eléctricas. Elas andam aí, são cada vez mais e cada vez mais metediças. Ainda no outro dia me apareceu uma disparada a atravessar a EN 14, em Celeirós, Braga, junto ao nó para as auto-estradas, e só não acabou em desastre porque um de nós travou a tempo e não foi o condutor da cadeira. Cujo, já agora, agradeceu a sorte com um enorme sorriso (vá lá!) e não tinha capacete.
As novas máquinas do asfalto alcançam a velocidade furiosa de 12 km/hora, o que não é brincadeira nenhuma para atravessar uma estrada nacional, fora de passadeira e saídas do nada. Ainda por cima está na moda o tuning, que transforma algumas delas em verdadeiras bombas, como a daquele acelera brasileiro que, no ano passado, foi apanhado pela polícia a mais de 60km/hora, depois de ter artilhado a sua cadeira de rodas com um motor de motorizada.
Creio que se impõe uma análise série e aprofundada ao fenómeno, no seio de uma comissão governamental com amplos poderes para alterar, nomeadamente, a legislação referente às escolas de condução, introduzindo a especialidade de cadeiras de rodas, e o próprio Código da Estrada. A sinalética de trânsito vigente tem de ser revista e aumentada, não sendo de desprezar a possibilidade de implementar corredores específicos para cadeiras de rodas na rede de auto-estradas nacional. Com isenção de pagamento de portagens, evidentemente.

Isto das idades
O quarentão é a média de todos nós. O cinquentão começa a desconfiar da vida. O sexagenário passa a constar das notícias. O septuagenário anda em contramão na auto-estrada. O octogenário é porque se safou no acidente. O nonagenário quer que os quarentões, os cinquentões os sexagenários, os septuagenários e os octogenários se fodam e refodam. O centenário só se realiza de cem em cem anos, e está certo.

A crise salva vidas na estrada. O perigo é à mesa.
Os números reportam-se a 2012, tempo do Governo de Passos Coelho e Cavaco Silva. Segundo dados oficiais, nos primeiros três meses daquele ano morreram nas estradas portuguesas menos 50 pessoas do que em igual período de 2011. Especialistas contactados pelo jornal Público explicaram então que a diminuição da sinistralidade não significava uma maior consciencialização dos automobilistas, mas era uma consequência directa da crise financeira, que tirou ao pé-rapado dinheiro para a gasolina e para o passeio de braço de fora. De acordo com as últimas informações, o Governo de António Costa e Rebelo de Sousa estará agora a dar o seu melhor para reduzir a mortalidade rodoviária a zero. Infelizmente, o lado bom da crise também tem um lado mau: com as estradas tão seguras e às moscas, vamos provavelmente morrer à mesa. De fome.

Certidão de óbvio
As autoridades compareceram no local e confirmaram o óbvio: o morto já se encontrava cadáver. É daí que vem.

Nossa Senhora nos livre dos desastres em que nos metemos
Mas as excursões. Eram viagens épicas, cheias de cheirinho bom a merendeiro e muitas paragens para "mudar a água às azeitonas", enjoos e borracheiras de caixão à cova. Cheiravam também a gomitado, a  naftalina, a sapatos novos, a botas ensebadas de fresco, a chulé, a urina, a tabaco, a suor, a desodorizante Lander, a perfume barato, a brilhantina, a laca, a mundo. A coberto da noite soltavam-se uns traques enfeitados com risinhos solertes que ajudavam à festa. A camioneta avariava, pessoas perdiam-se. Cantava-se o "Treze de Maio", o "Queremos Deus" e "O carrapito da Dona Aurora". Rezava-se o terço ao passar a Ponte de Fão, sobre o rio Cávado, porque constava que a estrutura estava a cair de podre. Morreríamos todos muito bem. Na paz do Senhor...

É um perigo ter tanto cuidado
Nevoeiro no alto da A28, entre Viana do Castelo e Caminha. Um jovem casal pára o carro, sai com toda a calma, cada um por sua porta, e troca de lugares: ele toma conta do volante e ela vai para pendura. O carro arranca, anda pouco mais de um quilómetro, deixa o nevoeiro para trás e torna a parar. O jovem casal sai novamente com toda a calma, cada um por sua porta, e volta à primeira forma: ela ao volante e ele ao lado. Realmente, em plena auto-estrada todos os cuidados são poucos...

Requisitos necessários
Era um imprestável candidato a condutor de tuque-tuques. Nem sequer sabia tocar trombone de varas.

Uma ciclovia só para peões
É de uma utilidade extrema a ciclovia catitamente instalada no Passeio Atlântico da marginal de Matosinhos. É o último refúgio e única protecção dos peões contra as bicicletas que andam por todo o lado, pela ciclovia é que não. Mas ainda não morreu ninguém. Que eu saiba.

O agente da autoridade
- Boa tarde, senhor condutor.
- Boa tarde, senhor agente, mas eu não sou condutor...
- Pois. Documentos, se faz favor, senhor condutor...
- Que documentos, senhor agente? E, palavra de honra, eu não sou condutor...
- Pois. Carta de condução, se faz favor, senhor condutor...
- Não tenho, senhor agente. Porque a verdade é mesmo esta: eu não sei conduzir, eu nunca na vida conduzi, eu não sou condutor...
- Pois. Livrete, se faz favor, senhor condutor...
- Não tenho, senhor agente, eu nem sequer tenho carro. É como digo: eu não sou condutor...
- Pois. Seguro do veículo, se faz favor, senhor condutor...
- Não tenho, senhor agente. Nem veículo, já disse... E não sou condutor...
- Pois. Então, se faz favor, o que é que o senhor condutor está a fazer aí sentado?...
- Aqui sentado? Ó senhor agente, estou aqui na esplanada a apanhar um bocadinho de sol e a beber uns fininhos com este amigo...
- Pois. Ora vamos lá fazer o teste do balão, se faz favor...

P.S. - Domingo passado - o terceiro do mês - foi Dia Mundial em Memória das Vítimas da Estrada. De acordo com a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, em 2019 foram contabilizados em Portugal 35.704 acidentes com vítimas, que provocaram 626 mortos, 2.168 feridos graves e 43.183 feridos ligeiros.

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