sábado, 7 de novembro de 2020

Alô, alô, Senhora Rosa, Senhora Rosa, Senhora Rosa, alô, alô!

Sócrates não "interviu", diz a Smooth FM
O rapaz que lê as notícias na rádio Smooth FM nunca me deixa ficar mal. Diz-me ele esta manhã (às 9h30 e às 10 horas) que "José Sócrates garante que nunca "interviu" na Caixa Geral de Depósitos para que fosse concedido qualquer crédito". Pois não "interviu", não. Aliás, como é que o antigo primeiro-ministro poderia "interver"?...
 
E se fossem traduzir o... Jorge Jesus?
Julen Lopetegui, o basco, chega à famosa "zona da flash interview", no final do jogo com o SC Braga. Nos estúdios da rádio Antena 1, o pivot da emissão avisa que vai traduzir as declarações do treinador do FC Porto. Lopetegui, o estrangeiro, diz: "Esta noite estoi muito muito orgulhoso pelos meus jogadores, muito orgulhoso de nuestros adeptos, isto és el Porto, és el Porto, dentro e fuera de campo". Da cabine de Marechal Gomes da Costa, em Lisboa, sai a tradução simultânea e  reveladora, legendas sonoras em português suave: "Esta noite estou muito muito orgulhoso pelos meus jogadores, muito orgulhoso dos nossos adeptos, isto é o Porto, é o Porto, dentro e fora do campo". Extraordinário! Sem a ajuda da Antena 1, como é que teríamos percebido?
 
O cantor Gershwin, anunciava a rádio
Ouço rádio. Prefiro a rádio à televisão e os jornais em papel ao online. Prefiro os dicionários encadernados à Wikipédia e os livros de uma forma geral às séries "de culto". Tirando David Ferreira, o futebol e a meia hora a seguir ao meio-dia, que me ligam religiosamente à Antena 1, a minha rádio é a Smooth FM. Gosto da música que por lá passa, música da minha idade, e rio-me com o que dizem os locutores. Ignorância em frequência imoderada é ali - das bojardas gramaticais nas "notícias" aos spots publicitários que primam pela asneira. O último, de promoção ao concerto de Anthony Strong aprazado para o dia 28 de Outubro no lisboeta Centro Cultural de Belém, diz assim:
"Anthony Strong em Portugal, num tributo às grandes vozes masculinas do jazz. Anthony Strong: Tribute To The Great Male Jazz Vocalist Of All Times. Entre os quais, Louis Armstrong, Chet Baker, Gershwin e muitos mais, numa noite memorável". Exactamente, sobretudo Gershwin...
 
Radiofonicamente falando
Tinha dois rádios muito jeitosos. Depois de um acidente em Vigo, o rádio do braço esquerdo, coitadinho, só apanha a onda curta.
 
Entre átonas e tónicas, a Antena 1 não sabe
Dizer que. Já tinham o Trófense, por causa de ser da Trofa, e agora inventaram os ávenses, derivado a serem das Aves. Os rapazes do desporto da Antena 1, que é praticamente a única rádio que eu ouço, e gosto, têm um problema, eventualmente uma disfunção, com a maneira de dizer palavras. Eles, cuja profissão é, fino modo, dizer palavras. Um destes dias ainda os escutarei a falarem dos fárenses, por serem de Faro, dos pôrtuenses por serem do Porto, dos brácarenses por serem de Braga, dos pácenses por serem de Paços de Ferreira ou, puxando a brasa à minha sardinha, dos fáfenses, por serem de Fafe.
É o falso dilema entre sílabas átonas e tónicas. Eu resolvo-o com gin.
 
Já me tinhas dito!
E diz o repórter: "As urnas fecharam e a contagem dos votos começou há cerca de dois minutos atrás". Ah!, sim, o rigor na informação! É que a contagem podia ter começado "há cerca de dois minutos à frente". E não era a mesma coisa. 
 
Felizmente dispensa apresentações
O anúncio da rádio Smooth FM atira à queima-roupa: "Um dos maiores guitarristas contemporâneos, dispensa apresentações. Al Di Meola ao vivo. [blá... blá... blá...] Al Di Meola, uma extraordinária fusão de sons latinos e jazz. Al Di Meola. Ao vivo."
"Dispensa apresentações". Al Di Meola! Exactamente o grande Al Di Meola. Tomem nota: o extraordinário Al Di Meola,"um dos maiores guitarristas contemporâneos", alquimista do riff, sumo-sacerdote da "fusão de sons latinos e jazz". Ainda bem que Al Di Meola não precisa de apresentações...
O anúncio é como o outro, o que diz "Não há palavras" e depois passa meia hora a perorar sobre o assunto. E ai de quem lhe tente tirar o microfone das unhas!...
 
(Moral da história: quando não se quer falar, o melhor é estar calado.)
 
Conduza com cuidado, aproveite para namorar!
Antena 1, a nossa rádio pública, pouco depois das 21h15 de ontem, Dia de São Valentim. O locutor, voz excelentíssima, põe ao lume os chouriços do costume, prepara a entrada de Sérgio Godinho mas escorrega na burilada bucha de ligação. Diz ele: "Se vai na estrada, conduza com cuidado. Olhe, aproveite para namorar"...
 
Bienal, como o próprio nome indica
Era a melhor das intenções. Na sua voz maviosa, a locutora da rádio fazia o elogio e o convite à visita à Bienal de Cerveira - "há 17 anos" a levar ao Alto Minho a nata da arte plástica nacional e internacional. Pois. Dezassete anos, contas bem feitas, porque este ano é a décima sétima edição do evento e portanto não há que enganar. A locutora da voz maviosa (já disse que a voz era maviosa, não já?) ignora que a Bienal de Cerveira começou em 1978 - há 35 anos, assim é que está certo - e que as bienais, como o próprio nome indica, realizam-se de dois em dois anos. Mas isso são pormenores.
Perdoo a ignorância da locutora. Eu próprio já escrevi que Vila Nova de Cerveira perde muito por não fazer a Bienal todos os anos. Mas era uma laracha das minhas: tenho a mania da piada fina, não falo na rádio e raramente falo a sério. Perdoo a locutora por causa da sua voz definitivamente maviosa, minha companhia pelos nevoeiros matinais na beira-mar matosinhense, e porque a seguir ela me deu "Purple Rain", versão Urselle. Claro que era muito melhor o extraordinário original de Prince, mas se calhar não é suficientemente smooth.
 
Os mundialmente famosos pastéis de Oeiras
O relatador da Antena 1, rádio nacional, não se cansava de dizer, ontem à noite, directamente do Estádio do Dragão: "os azuis de Belém", "a equipa de Belém", "os homens de Belém". Do Restelo é que nunca, que ele tinha tudo pensado. Mal pensado. Eu também pensei, e concluí que "os azuis de Belém", "a equipa de Belém", "os homens de Belém" são um honrado grupinho de futebol de um grande clube que joga actualmente na 1.ª Divisão Distrital de Lisboa. Para não asnear, o relatador da Antena 1, rádio nacional, deveria ter dito, ontem à noite, directamente do Estádio do Dragão: "os azuis de Oeiras", "a equipa do Jamor", "os homens de Algés, Linda-a-Velha e Cruz Quebrada-Dafundo".

Meio-dia e meio?
Palavra de honra, pensava que esta calinada, esta em concreto, já estivesse erradicada das nossas rádios, mas afinal ainda não está. Ouvi um destes dias, na Star FM, e nem queria acreditar: forçando a nota local, dando conta do novo horário das bibliotecas de Valongo e Ermesinde, o locutor do noticiário fez questão de asnear com todo o garbo metendo lá pelo meio o inexplicável "meio-dia e meio". "Meio-dia e meio"? Mas que raio de hora é isso?
Cá vai, portanto, mais uma borla, esta directamente dirigida ao senhor locutor do noticiário da rádio Star FM. Quando diz "meio-dia e meio", o senhor locutor do noticiário está na verdade a dizer, das duas uma, ou 24 horas (isto é: meio-dia mais outro meio-dia) ou 18 horas (isto é: meio-dia mais meio meio-dia), e não 12h30.
O senhor locutor do noticiário, falando de horas, nunca diz onze e meio, nem duas e meio, ou diz? O que diz é: onze e meia e duas e meia. Pois tome nota: com o meio-dia é exactamente a mesma coisa: meio-dia e meia. Isto é, meio-dia (12 horas) mais meia hora. Isto é, 12h30. Estamos entendidos? Meio-dia e meia! E meia!!
 
A problemática da sinalética
Não sei em que ponto exacto da moderna história do desporto e do jornalismo nacionais o sinal foi substituído pela sinalética. Mas sei que, como todas as asneiras, a sinalética pegou de estaca e hoje em dia até parece mal dizer outra coisa. Agora, segundo os nossos doutos comentadores e relatadores desportivos, os árbitros e os jogadores de futebol, por exemplo, já não fazem sinais uns aos outros ou uns para os outros - fazem ou dão sinalética.
Ouvi ontem na Antena 1: "Rui Patrício levanta os dois braços, dando sinalética aos seus companheiros". Dando sinalética? A rádio é para imaginar, e portanto eu imaginei o jovem guarda-redes do Sporting a desembrulhar-se com brilhantismo no uso da complexa mas bonita linguagem gestual, fazendo manguitos atrás de manguitos até ser compreendido pelo colegas.
E mais à frente ouvi: "O árbitro auxiliar a ter que dar sinalética". E veio-me à cabeça a imagem de um homenzinho em calções, munido não com uma mas com duas bandeirinhas, uma em cada mão, a fazer sinais ao navio-almirante, anunciando a iminente invasão das Berlengas.
Já que não há quem os ensine ou corrija, recomenda-se aos nossos comentadores e relatadores desportivos uma visita, ainda que breve, a um dicionário. Qualquer um, por mais modesto que seja, lhes demonstrará que um sinal continua a ser um sinal: uma indicação, um aviso, um meio de transmitir, à distância mas à vista, ordens ou avisos. E que a sinalética, quando muito e neste contexto, é um conjunto de sinais, o uso de sinais.
Daqui para a frente, e para nunca mais asnearem, peço aos nossos queridos comentadores e relatadores desportivos que se lembrem sempre da Lena d'Água, a cantora filha do mítico José Águas e irmã do famoso Rui Águas, figuras grandes do Benfica. Lembrem-se das primeiros versos da cantiga e vejam lá se isto tem algum jeito: "Sempre que o amor me quiser, basta fazer-me uma sinalética".
Estão a ver? Tem algum jeito? Sinalética? Até parece badalhoquice, pouca-vergonha. Faz-me uma!, disse o outro...
 
A capella, ma non troppo
A rádio Smooth FM anunciava a vinda a Portugal dos Manhattan Transfer. Fazia a apresentação, e é justo, de "um dos mais famosos grupos de jazz a cappella". Em fundo passava um jingle: os Manhattan Transfer, "um dos mais famosos grupos de jazz a cappella", cantando muito bem acompanhados por orquestra. Perdoa-lhes, Senhor, eles não sabem o que é cantar a capella... 
 
Topo da hora, o raio que os parta
Ora cá está mais uma interessantíssima problemática. A problemática do "topo da hora", esse escusado e equívoco bordão radiofónico que hoje me proponho dissecar com a seriedade intelectual e a profundidade filosófica do costume. 
Na rádio, o "topo da hora" é o sítio onde estão colocados os noticiários. Os noticiários alargados, entenda-se, porque também há as edições apertadinhas, às meias... doses. "Notícias no topo da hora", costumam dizer-nos os locutores ou jornalistas, remetendo-nos, por exemplo, para as 11 horas, para o noticiário das 11 horas. E aqui é que bate o ponto. Porque (sigam o meu raciocínio, por favor), se o noticiário das 11 horas for no "topo da hora", ele deverá ir para o ar às 11h59m59s, porque aí é que é o topo da hora 11. Isto é: para estarem no "topo da hora", as notícias das 11 só são ao meio-dia; porque, na verdade, as 11 são o topo da hora, mas das 10, da hora 10. O que quer dizer que temos andado estes anos todos com os noticiários trocados.
Que não restem dúvidas: topo, neste contexto, quer dizer a parte mais elevada, o cume. E o cume de uma hora é o último segundo antes de ela entrar na hora seguinte. É certo que topo também pode significar extremidade, mas, se forem por aí, recomenda-se aos senhores locutores e jornalistas que apontem sempre as notícias para o topo de baixo.
 
Quantos são exactamente cerca de 44?
Ouvi esta manhã na rádio que "cerca de 44 senadores" já tinham votado a favor da destituição de Dilma Rousseff do cargo de presidente da República do Brasil (o tal de impeachment, em brasileiro correcto). Gostaria de pedir ao rapaz que lê as notícias na Smooth FM que, por favor, e se possível, fosse um bocadinho mais preciso. Isto é: quantos são exactamente "cerca de 44 senadores"? Serão 43,75 senadores? Serão 44,15?...

P.S. - Apontamentos originalmente publicados entre Agosto de 2011 e Fevereiro de 2020. Hoje, 7 de Novembro, é Dia do Radialista. No Brasil.

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