segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Offshore, se fashavore 274

Foto Hernâni Von Doellinger

Anderson de Araújo Horta 4

Variações sobre o amor

Se o teu amor é terra,
o meu amor é estrela.
Se o teu amor é sombra,
o meu amor é vida.
Se o teu amor é chuva,
o meu é arco-íris.
(O teu amor às vezes
são folhas coloridas
lambidas pelas chamas.)
Se o teu amor é noite,
o meu amor é dia.
Se o teu amor é dia,
o meu é madrugada.
O meu amor é tudo.
O teu é quase nada.


Anderson de Araújo Horta 

(Anderson de Araújo Horta nasceu no dia 30 de Novembro de 1906. Morreu em 1985.)

Uma gaivota

Foto Hernâni Von Doellinger

Pessoa colectiva

Fernando Pessoa, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Bernardo Soares. É daí que vem. 

P.S. - Fernando Pessoa morreu no dia 30 de Novembro de 1935, aos 47 anos.

Eu pedi a camisola do Ronaldo...

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 29 de novembro de 2020

Giroflé flá Fleming...

Alexander Fleming - médico, farmacologista, biólogo e botânico britânico - foi o inventor da penicilina e ganhou o Prémio Nobel da Medicina em 1945. A questão ainda não está devidamente estudada e as razões continuam incógnitas, mas a verdade é que, a dado passo, possivelmente em 1952, Alexander mudou o nome para Ian e desatou a escrever livros sobre o 007.
Entre uma coisa e outra, Fleming, então chamada Rhonda, Rhonda Fleming, nome artístico de Marilyn Louis, foi actriz de filmes de aventuras e cantora em Hollywood e seus arredores. Baptizada pela imprensa especializada da época como a "rainha do Technicolor", era famosa mais pela sua beleza do que pelos seus dotes artísticos.
Para além disso temos o Victor Fleming, um dos três realizadores de "E Tudo o Vento Levou", e John Ambrose Fleming, engenheiro electricista e físico britânico, aluno de Maxwell, consultor de Marconi e colaborador de Edison. De Flemings não estamos mal servidos, não senhor, mas as inscrições continuam abertas...

P.S. - John Ambrose Fleming, o das válvulas termiónicas, nasceu no dia 29 de Novembro de 1849.

Minho verde, Minho verde

Foto Hernâni Von Doellinger

O Tito da bola e a bala do Tito

Já lá vão mil novecentos e cinquenta anos, e lembro-me como se fosse hoje. Tito e as suas legiões romanas derrubaram a segunda muralha de Jerusalém. Lá dentro, os judeus à rasca fugiram à para a primeira muralha, mas os romanos, copiando o Porto de muitos séculos depois, construíram uma circunvalação, cortando vazas aos sitiados e todas as árvores num raio de quinze quilómetros, o que foi imediatamente considerado como um escândalo ambiental. A circunvalação de Tito era também conhecida como muralha de cerco, mais uma vez plagiando por antecipação a Invicta, mas sem bairro. Tito era o filho mais velho de Vespasiano e foi imperador entre 79 e 81. A mãe de Tito chamava-se Domitila, a Maior, para se diferenciar da filha Domitila, a Menor, irmã de Tito.
Tito dedicou-se com sucesso à construção civil em Roma, à guerrilha e à fundação e presidência da antiga Jugoslávia, enfim voltando-se para o futebol no Atlético, onde começou a dar os primeiros toques, em 1962. Esqueceu as obras e fez bem, aquilo está tudo em ruínas, disse adeus às armas e abandonou a política. Deixou a Tapadinha e apostou a sério na bola: mudou-se para o União de Tomar e depois, por quinhentos contos, dinheiro a sério, para o Vitória da Guimarães. É daí que o conheço.
Na década de setenta do século passado, Tito fez sete épocas na Cidade-Berço e marcou 82 golos. Era, e não sei se ainda é, o melhor marcador de sempre do Vitória na primeira divisão. Fisicamente falando, Tito pode ser visto como um monovolumezinho, baixote, entroncado da cabeça aos pés, uma espécie de Müller que os antigos percebem, uma espécie de Miccoli que os menos antigos sabem, e aos mais novos não sei o que lhes diga, a não ser que olhem para o Bruno César que anda agora pelo Penafiel. Mas em bom!
Tito, na área, era imperial. Fino. Franco-atirador. Até de cabeça. E de fora da área também. Mas não de cabeça. Como muitos craques de hoje em dia, Tito gostava de treinar livres e remates espontâneos atirados propositada e directamente à barra. E tinha uma elevada taxa de acerto. O extraordinário é que, mais difícil ainda, gostava de fazer o número também de costas para a baliza ou de olhos fechados. E acertava. Palavra de honra, acertava!
Claro, não havia YouTube. Conto assim tal qual porque eu vi. E de olhos bem abertos.

P.S. - Publicado originalmente no dia 30 de Maio. Por outro lado: Josip Broz Tito, mais conhecido como Marechal Tito, guerrilheiro e estadista, proclamou a constituição da República Socialista Federativa da Jugoslávia no dia 29 de Novembro de 1945.

É da biba! Olha a bibinha!...

Foto Hernâni Von Doellinger

Egas Moniz, o fazedor de cabeças

Egas Moniz sempre gostou de fazer a cabeça dos outros. Começou com o pequeno Afonso Henriques e deu-se mal. Depois generalizou e deram-lhe um Nobel. Ultimamente querem tirar-lho, por causa do abuso.

P.S. - Médico, neurologista, cientista, professor, político, escritor, ensaísta, industrial, criador da psicocirurgia e Prémio Nobel da Medicina e Fisiologia em 1949, pela descoberta da leucotomia pré-frontal (lobotomia), António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz nasceu, em Avanca, no dia 29 de Novembro de 1874.

A madrugada viaja de comboio

Foto Hernâni Von Doellinger

You motherfucker

E uma da faca, e duas da faca, e três da faca, e quatro da faca, e assim sucessivamente... 

Alouette, gentille Alouette 3

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 28 de novembro de 2020

O bom ladrão

Fafe, algures pelos finais da década de sessenta do século passado. Na sala de aula da agora desaparecida Escola da Feira Velha, no meio da parede, por cima do quadro negro, um Cristo crucificado. Carmona à direita da cruz, Salazar ironicamente à esquerda. Eu, que naquela altura já tinha umas luzes bíblicas, nunca percebi qual destes dois era o bom ladrão...

P.S. - Publicado originalmente no dia 26 de Julho de 2018. No dia 28 de Novembro de 1926 o general Óscar Carmona assumiu a Presidência da República, no âmbito da Ditadura Nacional saída do golpe militar de 28 de Maio.

Estou mesmo a ver o filme 114

Foto Hernâni Von Doellinger

O Leixões SC foi fundado no dia 28 de Novembro de 1907. Faz hoje vetustos e honrados 113 anos. E os adeptos marcaram a data na cidade.

Uma mão lava a outra

Uma mão lava a outra. E as duas lavam os pés. E lavam as pernas e os braços e os sovacos e a barriga e as costas e os tomates e ilhas adjacentes e o pescoço e as orelhas e a cara e o cabelo ou a careca. É. Uma mão lava a outra.

Também faço isto muito bem 528

Foto Hernâni Von Doellinger

Luiz Ruas 4

O porto é o relógio

O relógio está parado
Doce vestígio encalhado
Não marca o tempo de aqui.
Que o tempo já foi, já fui.
Nesta praia, apenas,
Sou:
 
Concha morta, azul vazio,
Róseo inútil,
Morto ser.
 
Mas quando sinto que o mar
- Ó esperança em azul -
Vem despertar esta praia,
Então, fabrico o meu barco
E parto - o porto é o relógio -
E volto pro mar fecundo
Eu, ressurgida criança,
Em palavras verde-azul.

"Poemeu", Luiz Ruas

(Luiz Ruas nasceu no dia 28 de Novembro de 1931. Morreu em 2000.) 

Outros tempos...

Foto Hernâni Von Doellinger

O hamster

Comprou um hamster e pôs-lhe nome: Damião. Era o hamster Dam.

Music was my first love 81

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

O regresso do Titan

Foto Hernâni Von Doellinger

Dia 12 de Abril de 2012. O superguindaste Titan, desactivadíssimo e declarado em avançado estado de degradação, estava a ser desmantelado no molhe sul do Porto de Leixões, junto ao terminal de cruzeiros em construção. Durante a operação, a cabina de uma grua caiu sobre uma conduta de gás, provocando várias explosões e um enorme incêndio. Morreu um trabalhador.
O Titan, símbolo de Leixões e de Matosinhos, desaparecia em tragédia dos nossos pores-do-sol. Considerado uma importante peça da arqueologia industrial, mesmo em frente à minha varanda se eu me puser de lado, os seus restos foram despejados e esquecidos num canto junto à Docapesca (foto de baixo).
Mas há novidades. As notícias contam que foi hoje apresentado "o projecto para o renascer do Titan no terminal de cruzeiros do Porto de Leixões", "aberto ao público, com data prevista para o próximo Verão."
Puxemos então de uma cadeira e sentemo-nos. É que. No final de Fevereiro de 2019 já tinha sido anunciado que uma réplica do Titan iria ser construída perto do sítio do guindaste original, bem "visível para todos, para quem vier ao terminal de cruzeiros ou simplesmente for passear nas praias", de acordo com Ana Paula Vitorino, então ministra do Mar. Esperemos portanto pelo próximo anúncio - talvez para o ano...

Foto Hernâni Von Doellinger

Se conduzir não conduza

Havia uma lei que proibia os condutores de falarem ao telemóvel... quando conduziam. Lembro-me disso. Agora há uma lei que obriga os condutores a escreverem e lerem mensagens, a tirarem e a verem fotografias, a actualizarem o Facebook, a consultarem a Wikipédia e a falarem ao telemóvel... quando conduzem. É assim, não é?

P.S. - Publicado originalmente no dia 18 de Setembro de 2014. Notícia do dia: o uso do telemóvel durante a condução vai passar a ter uma coima (que quer dizer multa) entre os 250 e os 1.250 euros, segundo as alterações ao Código da Estrada hoje aprovadas em Conselho de Ministros. É um agravamento de cerca de cem por cento. E vai ficar tudo na mesma, não vai?...

Senhores automobilistas

Foto Hernâni Von Doellinger

Dumas e doutras

Da fama pelo menos não se livrava. Sobre o grande escritor francês, constava que era Alexandre Dumas... e doutras.

P.S. - Alexandre Dumas, filho, francês e escritor como o pai, morreu no dia 27 de Novembro de 1895.

A última viagem

Foto Hernâni Von Doellinger

Um património sem mãos a medir

Levemos os furões à UNESCO
A moda é nova, mas, em Portugal, o fado, a dieta mediterrânica, o cante alentejano, os chocalhos e a olaria preta de Bisalhães já tinham sido elevados aos píncaros do Património Cultural Imaterial da Humanidade. Seguiram-se a falcoaria, a louça de Estremoz e os Caretos de Podence, até ver. Fixemo-nos, porém, na falcoaria. A falcoaria, numa das suas definições mais acessíveis, é a arte de treinar e cuidar de falcões e outras aves de rapina para a caça. Os falcões e colaterais contrafacções caçam, matam e comem, em geral, outras aves e pequenos quadrúpedos que não têm lóbi na UNESCO. Está certo: a UNESCO é uma organização das Nações Unidas que visa contribuir para a paz e segurança no mundo mediante a educação, a ciência, a cultura e as comunicações. Com a falcoaria ficámos irremediavelmente lançados. Eu, por mim, penso agora nos sapateiros, nas mulheres-a-dias, nos falsos licenciados, nos periquitos, nos tocadores de punhetas, nos perdigueiros e, andava com esta ferrada há que tempos, nos furões.

É património até dar com um pau
Por exemplo, o jogo do pau. Porque não? Ou o berlinde, a carica, o pião, o espeto, a macaca, o moche, o tene, a cabra-cega, o arranca-cebolas, o mamã-dá-licença, o esconde-esconde. Ou o jogo da malha. Ou o jogo da bisca. Ou o jogo Benfica-CUF de 22 de Março de 1959. Porque não?
Por exemplo, as Janeiras, os Reis, as novenas, o terço e a bênção do Santíssimo. Porque não? As marchas de Lisboa e as rusgas do Porto e o Pai das Orelheiras e o carnaval de Ovar e as "Velhas" da Terceira e as adufeiras de Monsanto e a Justiça de Fafe. Ou a cantiga no duche, ou a lengalenga do avô, ou a arenga de bêbado, ou o apita-o-comboio, ou o atirei-o-pau-ao-gato, ou o areias-era-um-camelo. Ou o canto pimba, ou o canto neiro. Porque não?
Por exemplo, os ranchos folclóricos, os conjuntos típicos, a Maria Albertina e o António Mafra, os grupos excursionistas, os motoclubes e as motosserras. Ou as bandas de música. Porque não? Ou os bandos de malfeitores. Ou os submarinos e os bancos, os salgados e os doces, da alheira de Mirandela ao pastel de Belém. Porque não?
Por exemplo, o manguito do Bordalo. Ou o caralho das Caldas. Porque não?
Por exemplo, o assobio. Porque não?
Com assinalável pertinácia, Portugal mete os dedos à boca e vomita património e material da omaninade por todos os lados. Um destes dias, sem darmos fé, estamos todos condecorados. Da cabeça aos pés.

A dieta mediterrânica e outras tretas
O que eu gosto mais na dieta mediterrânica, para além da comida propriamente dita, é o facto de se chamar dieta, o que me sossega sobremaneira a consciência, embora me alvoroce os intestinos. Uma dieta feita, paradigmaticamente, à base dos ossinhos da suã da Tasquinha da Alice, em Bobal, Mondim de Basto, como quem vai para as Fisgas de Ermelo, entalados, os ossinhos, entre salpicão caseiro e moiras encantadas e um naco de orelheira para desenfastiar e duas ou três costelinhas e meia dúzia de fatias de toucinho com o sal no ponto e batatas sabendo a terra e olhos de couves geadas pela madrugada e feijão vermelho da leira ao lado e por cima alho picado e azeite da fartura e do melhor mais um tintinho honesto e de malga para molhar a palavra. Produtos frescos, locais e produzidos em sintonia com os ciclos astrais e os ritmos da natureza, como muito bem preconiza a UNESCO. E eu, nestas coisas, respeito implacavelmente a UNESCO.

Depois gosto da denominação ela própria. Património Cultural Imaterial da Humanidade. Gosto da pomposidade das maiúsculas e gosto da palavra "Imaterial", porque, pensando bem, é uma palavra que, não sendo sólida nem líquida, resvala sorrateiramente para o domínio do "Gasoso" - o que, com vimos antes, confere...

P.S. - Faz hoje anos. O fado foi elevado a Património Cultural Imaterial da Humanidade no dia 27 de Novembro de 2011. O cante alentejano no dia 27 de Novembro de 2014.

O castelo é pedra e sonho

Foto Hernâni Von Doellinger

Temperaturas

Diz o Fahrenheit ao Celsius, quero dizer, diz o físico alemão Daniel Gabriel Fahrenheit ao astrónomo sueco Anders Celsius: - Andas a ferver em pouca água, pá!...

P.S. - Anders Celsius nasceu no dia 27 de Novembro de 1701.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Para o Céu? Tire a senha, se faz favor!

Foto Hernâni Von Doellinger

No chão de cimento do cemitério jaz, abandonada e fria, uma senha de vez. O famigerado ticket, ou tiquê, como nos dá muito mais jeito dizer, e dá-nos sempre muito mais jeito dizer mal, não é? "Puxe", manda a senha número E29. "Puxe". Pensei: poderia dar-se o caso de ser esta a solução desenterrada por espertos sepultadores para organizar as dezenas ou centenas de defuntos que diariamente se acotovelam aos portões dos cemitérios sobrelotados, à espera de vez, à espera de vaga. (Os mortos portugueses têm geralmente medo de serem queimados vivos e, como resultado, num país com apenas 92 mil quilómetros quadrados, os nossos campos-santos rebentam pelas costuras, as campas não chegam para as encomendas.) Mas não: a coisa não é assim tão terrena, pensei melhor, isto vem, upa, upa, lá de cima. É assunto de almas e não de corpos. É. O Céu está equipado com pelo menos um dispensador de senhas de vez, tive a certeza e tinha a prova. Percebi tudo. Quer a salvação eterna? Tire o número e vá para a fila, essa é que é essa! "Mas que bizarra epifania, lá se me foram os fundamentos" - lamuriei-me, rangendo os dentes. - "Até Tu, meu Deus?! Que tristeza! Onde o negócio e a burocracia já chegaram"...

P.S. - No dia 26 de Novembro de 1845 foi publicado o decreto de reorganização da saúde pública que proíbe o enterro nas igrejas e o impõe nos cemitérios.

Também faço isto muito bem 527

Foto Hernâni Von Doellinger

Microcontos & outras miudezas 229

Entre a herança e a falta de educação
Deixar a porta à Berta é uma coisa. Outra, bem diferente, é deixar a Berta à porta.

Gonçalves Zarco, cavaleiro do Infante
João Gonçalves Zarco, da nobre família dos Zarcos de Valdevez, foi um navegador português e cavaleiro fidalgo da Casa do Infante D. Henrique. O Infante, que vestia modelitos chiques e adorava festas e festinhas, encarregou Zarco de organizar o povoamento e administrar a zona funchalense da Ilha da Madeira enquanto Alberto João Jardim não chegasse. Dito e feito. Quando se reformou, o velho Zarco, que também não era tolo e tinha agasalhado uns cobres valentes, abriu uma escola em Matosinhos mas escolheu a Foz, no Porto, para morar, instalando-se desafogadamente na famosa Rotunda do Castelo do Queijo, a que também chamam Praça de Gonçalves Zarco exactamente em homenagem à estátua equestre de D. João VI que está lá no meio. 

O Infante Dom Henrique ou Infante Dom Henrique de Avis ou Príncipe Henrique, Duque de Viseu e Senhor da Covilhã, cavaleiro da Ordem da Jarreteira, administrador-geral da Ordem de Cristo, é também popularmente conhecido como Infante de Sagres ou O Navegador, embora nunca na vida tivesse embarcado derivado aos enjoos.

Arranha-céus e faz-lhes cócegas
Em Novembro de 2003 foi inaugurado em Taiwan o maior arranha-céus do mundo, com 508 metros de altura. Muitos parabéns! Dez anos depois, em Setembro de 2013, as notícias anunciavam que o primeiro arranha-céus invisível iria ser construído em Seul. O que é verdadeiramente extraordinário! Não sei se a obra foi mesmo feita e se o prédio já estará concluído, mas também ninguém sabe. E será bonito?

Sem papas na língua
Não tinha papas na línguas. Realmente não. Já era maior e vacinado, e há muito que comia sólido. Mas tinha papos. Papos, sim. Andava constantemente a trincar-se...

Somos a informar
A pedido da Associação dos Antibióticos Anónimos (AAA), informa-se: a habitual reunião das segundas passa habitualmente para as terças, já a partir de hoje, quarta.

Dia do Homem
- Hoje é Dia do Homem... - disse ele.
- Dói-me a cabeça! - disse ela.

Zangada, porquê?...

Foto Hernâni Von Doellinger

Álvaro Pacheco 4

Autobiografia

Há quarenta e tantos anos
meu pai pensou que eu ia nascer:

mas quem nasceu foi meu irmão mais velho
que hoje sofre de velhice e da doença de não saber de nada.

A esperança é branca
a morte é negra
o amor é pobre
a vida é fugaz

(eu sou arco-íris)
que nasceu dezesseis anos depois
calvo, sozinho, branco e preto,
às vezes no mundo vinte e tantos anos depois.

"Seleção de Poemas", Álvaro Pacheco

(Álvaro Pacheco nasceu no dia 26 de Novembro de 1933) 

Praticamente

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Batem leve, levemente

Os desempregados batem nas mulheres
São cada vez mais os casos sabidos de violência contra mulheres e crianças. Uma vez, corria Agosto de 2013, Deolinda Barata, da Sociedade Portuguesa de Pediatria, disse na televisão que a culpa é da crise. Os homens ficam desempregados e portanto batem nas mulheres. Os filhos levam por tabela.
Eu também sou contra o governo. Mas, palavra de honra, esperava dos alegados entendidos uma conclusão sensata e minimamente articulada sobre o assunto - e esta não é. O que a doutora Deolinda disse é o fácil, está à mão e é de esquerda, podia até ser dito por mim, esquerdista às vezes e incorrigível cultor do lugar-comum a tempo inteiro. Infelizmente, a questão da violência doméstica, sobre adultos ou menores, tem muito mais que se lhe diga. A crise não explica tudo. E não desculpa tudo. Falamos de filhosdaputa e isso é apenas o princípio da conversa...

O malhão, obviamente
A candidata presidencial Ana Gomes era eurodeputada socialista e num dia de Janeiro de 2013 dançou em Bruxelas "contra a violência contra as mulheres". Dançou. E eu dancei na cozinha pela paz no mundo inteiro e pelo amor pleno entre toda a humanidade. Dancei à volta de meio copo de vinho tinto e espero que resulte. A isto antigamente chamava-se "rezar", agora chama-se "dançar", meus fiéis companheiros índios...

Poder e onanismo
O exercício do poder é uma actividade profundamente solitária. A masturbação geralmente também.

Violência
Batata a murro apresenta queixa por violência doméstica.

Como uma porta
Bateu à porta e disse: agora vai fazer queixa à mãezinha.

Como duas portas
Chegou a casa e, como de costume, bateu à porta. Desta vez a porta da vizinha chamou a polícia.

Desarmado em parvo
Era tão pacifista, tão pacifista, tão objector de consciência, tão objector de consciência, tão não-violento, tão não-violento, que havia quem dissesse que ele andava constantemente desarmado em parvo. 

Sem desculpa
Errar é próprio do homem. A mulher não tem desculpa!

Fuja, mãe, que o pai vem bêbado
O miúdo enfiou a cabeça na porta do tasco e gritou:
- Ó pai, a mãe manda dizer prò pai vir pra casa!...
- Vai tu...
- Ó pai, a mãe mandar dizer que o comer está pronto!...
- Então vai, antes que arrefeça...
- Ó pai, a mãe manda dizer que, se o pai não vier já, mete-lhe a comida no balde do lixo!...
- E faz muito bem...
- Ó pai, a mãe...
- Moço!... Diz à tua mãe que eu mando dizer que me estou nos... tintos!

P.S. - Hoje, 25 de Novembro, é Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres.

Nem com uma flor

Foto Hernâni Von Doellinger

O 25 de Novembro

No dia 25 de Novembro de 1975 decorreu em Portugal o 25 de Novembro. O que é uma coincidência verdadeiramente extraordinária.

Se eu perder esse trem...

Foto Hernâni Von Doellinger

No fundo do desemprego

Viu um anúncio a pedir idiotas e lá foi ele. Estava no fundo do desemprego e respondia a todos os anúncios.

O jogo das cadeiras

Foto Hernâni Von Doellinger

Oswaldo Osório 4

Holanda

Holanda companheiros
chegámos
chegámos com barcos guildas nos olhos e desejo de vencer

chegámos intermináveis e actuais às docas
betão aço cargueiros e braços precisados
chegámos numa dimensão nova
(ah as roças de S.Tomé serviçal meu irmão)
e pusemos todo o nosso esforço
lubrificámos máquinas
alimentámos caldeiras
navegámos por oceanos de fogo e fiordes de gelo
mas foi nos mares da terra nova
no tempo em que de Boston a América mandava seus barcos baleeiros
para nos contratar
que ganhámos o bronze da nossa pele

The Best Sailors of the World

sob bandeiras estrangeiras brigámos guerras que não eram nossas
para agora amarmos ao ritmo de torno novo
e múltiplas bocas ao nos verem dizem

Let them get by

chegámos às docas companheiros
nas docas com barcos guildas nos olhos e nossa terra nos nossos sonhos
chegámos intermináveis para o match
e pusemos todo o nosso esforço na luta
pusemos esperança na nossa força de trabalho
e quando nos vêem chegar dizem

Let them get by

aqui ou ali passaremos sempre porque chegámos companheiros
a esperança transformada em actos nos nossos punhos

a seca o sol o sal o mar a morna a morte a luta o luto
ao nos verem passar dizem que ultrapassaremos os sonhos
e o match é em nossa terra que vai terminar

Oswaldo Osório

(Oswaldo Osório nasceu no dia 25 de Novembro de 1937) 

Caminho 855

Foto Hernâni Von Doellinger

Jenaro Marinhas del Valle 3

A cantiga da aboa

Arrincan os dedos da velha co piano
as notas doentes d'un canto lonjano
que lembralhe tempos que mortos son 
Esquencese a probe do seu pelo cano
na sua ilusíón!

Coída que vive ainda os anos da moza,
esquence o presente lembrando o pasado.
Os seus dedos tripan o branco tecrado,
nos seus beizos murchos o canto retoza
de novo lembrado...

Os netos na estancia se foron entrando,
- non viunos a aboa que sigue entoando,
feliz, a cantiga de sons morriñosos -
a ela quendinhol-os nenos, curiosos,
se van achegando.

- Que cantas? Perguntan con voces singelas.
S'ergue ela de súpeto; o espelho de prata
a face esquencida de velha retrata ... 
e roda unha bágoa nas suas meijelas.

Jenaro Marinhas del Valle

(Jenaro Marinhas del Valle nasceu no dia 25 de Novembro de 1908. Morreu em 1999.)

In american way 17

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Quando me mandaram tramar o Sócrates

Ano de 2004. O Presidente da República Jorge Sampaio despede o primeiro-ministro Pedro Santana Lopes, por indecente e má figura. Eleições legislativas são antecipadas e marcadas para 20 de Fevereiro de 2005. José Sócrates é o novo líder do PS e da oposição. Vai a votos. Durante a pré-campanha e campanha eleitoral, critica Santana Lopes, que se recandidata pelo PSD e promete não aumentar impostos.
O meu jornal manda-me "tramar" Sócrates. É preciso ligar-lhe imediatamente e perguntar-lhe se, caso ganhe as eleições, vai subir os impostos. Mas que pergunta inteligente! Que armadilha bem montada! Pincéis desta marca sobravam sempre para mim. Como já aqui contei, as pessoas de bem, ou as pessoas de mal que faziam questão de uma fachada de bem, recusavam-se a falar com o 24horas: tinham consciência de que, se abrissem a boca, tudo o que dissessem poderia ser usado contra elas. E geralmente era. Nem que lhes telefonássemos apenas para saber as horas, haveria de sair dali cagada da grossa. Nós depois ligávamos a ventoinha e espalhávamos a merda. Dito de outra forma: as pessoas minimamente informadas fugiam de conversar connosco como o diabo foge da cruz. Umas tinham vergonha na cara ou medo e outras desprezavam-nos simplesmente. Umas e outras sabiam que as nossas perguntas tinham quase sempre volta de foda. Se desse jeito, pedíamos a A para falar de B, para a seguir metermos A e B no mesmo saco e malharmos nos dois como se fossem um só. Por outro lado havia quem fizesse tudo para aparecer.
Portanto o meu jornal manda-me "tramar" José Sócrates. É só ligar-lhe, a ele que nunca atende o 24horas e que escorna os jornalistas em geral por uma questão de princípio. Ligo, ligo, ligo, o dia inteiro. E nada e nada e nada, o dia inteiro. Ao pôr-do-sol tento o inimaginável truque, o long shot, como Lisboa gosta de me dizer e eu só me rio: marco o número de Pedro Silva Pereira, o braço-direito de Sócrates, e sai-me do outro lado o Sócrates inteiro e desconfiado, num por acaso que me enche de adrenalina. Identifico-me, ele vai desligar de seguida, peço-lhe que não e faço-lhe a pergunta de um milhão de dólares: - Se vencer as eleições, se for para primeiro-ministro, vai subir os impostos?
José Sócrates não me manda àquela parte, mas podia, que eu não lhe levaria a mal. Ainda assim, empertiga-se, serigaita-se, despeita-se, esganiça-se e responde-me agressivamente: - Mas quem é que você é? E quem é que pensa que eu sou? Isso é uma pergunta ridícula. Acha mesmo que eu lhe vou responder? Sei muito bem o que quer, mas daqui não leva nada. Não lhe respondo. Acha que eu sou um principiante? E o senhor não tem nada de útil para fazer?...
Tenho. E faço. "Reformulo" e ponho pó de talco na pergunta: - Se o Senhor Engenheiro for o próximo primeiro-ministro, posto que ganhe as eleições, vai subir os impostos?
Sócrates quase que rebenta. Discutimos mais uns três minutos, tempo de um assalto no boxe, um a bater no ceguinho, o outro a agredir o invisual, eu não sabia que sabia discutir assim com cabeçudos, e ele desliga.
Saio dali exausto, nervoso e contente com a discussão. É ainda a adrenalina a mexer comigo. Geralmente o que (não) consegui é mais do que suficiente para ser a capa inteira do meu jornal no dia seguinte, em letras garrafais: "Sócrates entalado pelo 24horas" ou "24horas entala Sócrates" ou "Sócrates não responde ao 24horas" ou "Sócrates tem medo do 24horas" ou "24horas assusta Sócrates" ou.
Apresso-me a ligar para Lisboa. Conto a minha façanha, espero pelos parabéns. O chefe critica-me irritado "A resposta do gajo é inaceitável!", engulo em seco e explico ao chefe "Olha, foi o que eu disse ao gajo, que até ia da tua parte e que tu nunca na vida irias aceitar uma resposta assim, e que portanto ele que me dissesse mas é o que tu queres que ele diga, que até já tens o título feito e tudo, mas não adiantou..."
O meu textinho saiu a uma coluna numa página interior, provavelmente par. Do assunto da manchete não me lembro.

P.S. - Publicado originalmente no dia 18 de Maio de 2020. Era uma história prometida e com a qual concluí, para já, a série que dediquei ao falecido jornal 24horas. José Sócrates ganhou as eleições em questão, sacando a primeira maioria absoluta para o PS. O resto é o que se sabe e o que mais virá a saber-se. O 24horas nasceu em 1998 e morreu em 2010, um ano depois de os seus alegados responsáveis terem liquidado a Redacção do Porto, a sangue frio e pelas costas. Eram os primeiros dias de Maio quando nos despejaram no desemprego, e podem limpar as mãos à parede. Mas tinha piada o pasquim, que até chegou a ser bem feito, e é a bíblia do jornalismo que hoje se pratica em Portugal.

Teatro de sombras

Foto Hernâni Von Doellinger

Ó Senhor Engenheiro...

Que bem que se está no campo
Consultou a agenda: Outubro, 3, Dia do Dentista. Fechou a agenda, torceu o nariz e olhou uma eternidade para o espelho do toucador que a reflectia. Pensava pensativamente. Dentista, não! Hoje não. Hoje apetecia-lhe o Engenheiro Agrónomo. Num impulso ligou-lhe. E foi-se lavar.

O dia dela, enfim
Dois de Junho, amanhecendo. A velha prostituta, muito limpa e organizada, consultou a agenda praticamente vazia e leu baixinho, soletrando, acariciando as sílabas uma a uma: - O bombeiro às onze, o taxista ao meio-dia, o do talho às três da tarde e o que gosta que lhe chame engenheiro, e de levar umas chibatadas, logo após a merenda. Desarriscou-os um a um, meticulosamente, com gosto, a começar pelo engenheiro, e disse sorrindo, como se alguém a ouvisse e visse: - Vou tirar o dia para mim, só para mim!
E foi lavar-se.

Sem peneiras
Ali estava um tipo sem peneiras. Chamavam-lhe doutor, e ele não gostava. Era engenheiro, com efeito. Senhor Engenheiro, como preferia.

P.S. - E agora fora de brincadeiras: hoje, 24 de Novembro, é Dia Nacional do Engenheiro.

Offshore, se fashavore 273

Foto Hernâni Von Doellinger

António Gedeão 8

Poema de pedra lioz

Álvaro Gois,
Rui Mamede,
filhos de António Brandão,
naturais de Cantanhede,
pedreiros de profissão,
de sombrias cataduras
como bisontes lendários,
modelam ternas figuras
na lentidão dos calcários.

Ali, no esconso recanto,
só o túmulo, e mais nada,
suspenso no roxo pranto
de uma fresta geminada.
Mas no silêncio da nave,
como um cinzel que batuca,
soa sempre um truca... truca...
lento, pausado, suave,
truca, truca, truca, truca,
sob a abóbada romântica,
como um cinzel que batuca
numa insistência satânica:
truca, truca, truca, truca,
truca, truca, truca, truca.

Álvaro Gois,
Rui Mamede,
filhos de António Brandão,
naturais de Cantanhede,
ambos vivos ali estão,
truca, truca, truca, truca,
vestidos de surrobeco
e acocorados no chão,
truca, truca, truca, truca.

No friso, largo de um palmo,
que dá volta a toda a arca,
um cristo, de gesto calmo,
assiste ao chegar da barca.
Homens de vária feição,
barrigudos e contentes,
mostram, no riso dos dentes
o gozo da salvação.
Anjinhos de longas vestes,
e cabelo aos caracóis,
tocam pífaro celestes,
entre cometas e sóis.
Mulheres e homens, sem paz,
esgazeados de remorsos,
desistem de fazer esforços,
entregam-se a Satanás.

Fixando a pedra, mirando-a,
quanto mais o olhar se educa,
mais se estende o truca... truca...
que enche a nave, transbordando-a,
truca, truca, truca, truca
truca, truca, truca, truca.

No desmedido caixão,
grande senhor ali jaz.
Pupilo de Satanás?
Alma pura de eleição?
Dom Afonso ou Dom João?
Para o caso tanto faz.


"Teatro do Mundo", António Gedeão

(António Gedeão nasceu no dia 24 de Novembro de 1906. Morreu em 1997.) 

Alongamentos

Foto Hernâni Von Doellinger

Um toque de classe

O rectal pertence à classe dos toques. É, consequentemente, um toque de classe.

Se uma gaivota

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Incesto

Ele andava um farrapo. Deprimido, angustiado, pesaroso, cabisbaixo em todos os sentidos. Atormentava-o o terrível pensamento, a dúvida atroz: será incesto manter relações sexuais com a própria mulher?...

Autóctone até dar com um pau

Foto Hernâni Von Doellinger

Salvemos a floresta! A malandrice agradece...

Uma boa trancada
Fafe. No monte de São Jorge havia o Pionono, assim com maiúscula, é justo que se diga. Pionono era nome próprio, sítio, geografia. "Vou ao Pionono". Ia-se ao Pionono. E o Pionono era naquele tempo muito mais do que um acomodado cabeço, crescia sem fim à vista, misterioso, palpitante, labiríntico, agigantava-se floresta, cenário de filme, de livrinho de aventuras, de fantasia e crime. Ao Pionono ia-se aos pinheiros pelo Natal, ia-se esgaçar umas pernadas de carvalho para o trono da cascata do Santo António, ia-se aos fentos ou ao mato para o eido ou às giestas secas para espertar a lareira do chão da cozinha, ia-se brincar aos cobóis, ia-se cagar ao monte e ia-se dar umas trancadas, e o que eu gostava da palavra trancadas, mesmo sem conseguir então alcançar, coitadinho, o que ela quereria dizer.
O Pionono hoje é casas e está bem. Uma rua a descer para quem vem e, a mesma, a subir para quem vai. À merda. Monte é que... viste-lo?
E faz falta. Adaptando o meu Nobel Lobo Antunes, nem é homem nem é nada quem nunca deu uma boa trancada no monte. Eu já.

Branca e radiante
Branca de Neve brincava às casinhas com a casa dos sete anões. Com os anões brincava aos médicos, há quem diga. E a casa era na floresta.
Capuchinho Vermelho ia levar o merendeiro à Avozinha, mas apareceu-lhe o Lobo Mau que a queria comer a ela, Capuchinho. E a casa da Avozinha era no meio da floresta.
Se alguém souber dizer onde eram as casas dos Três Porquinhos, não me admiraria que fossem na floresta. E "porquinhos" porquê?...

P.S. - Hoje, 23 de Novembro, é Dia da Floresta Autóctone. Ou, melhor dizendo, Dia do Nestinho Quercus Pyrenaica, com todo o respeito e consideração (e quem quiser que faça a rima...).

Interlúdio olfáctico

Foto Hernâni Von Doellinger

Herberto Helder 8

Offshore, se fashavore 272

Foto Hernâni Von Doellinger

Álvaro Moreyra 3

Destino

Todo mundo ama porque
todo mundo sempre amou.
É só por imitação.
Todo mundo ama porque
ninguém ainda inventou,
desde a anedota de Adão,
coisa melhor para a gente
trocar por uma alegria
que vem e vai de repente
a pobre melancolia
que nunca mais deixa a gente...

"Lenda das Rosas", Álvaro Moreyra

(Álvaro Moreyra nasceu no dia 23 de Novembro de 1888. Morreu em 1964.) 

domingo, 22 de novembro de 2020

Os Bítalas

Nunca será demais dizê-lo: os Bítalas eram um conjunto e cantavam obladi obladá. Eram quatro, sendo que o do bombo tinha cara de morcão, e chamavam-se Bítalas exactamente por terem cabelo grande, mas que afinal não era assim tão grande, como os hippies vieram posteriormente a demonstrar - era apenas um cabelinho amaricado, aparadinho, muito anos vinte, muito tipo Beatriz Costa. Os Bítalas eram ingleses de Liverpool e do mundo. Em Portugal, no tempo em que imperava o corte à tigela (ou malga, consoante a parte do país), quem tivesse o cabelo a roçar as orelhas era Bítala. Eu fui, mas cantava num orfeão de manifesto pendor sacrista e por isso passei ao lado de uma grande carreira.

P.S. - Publicado originalmente no dia 19 de Maio de 2016. No dia 22 de Novembro de 1968 foi editado o primeiro LP duplo da história da música popular, o chamado "Álbum Branco" dos Beatles. O nome oficial do álbum é, não imagino porquê, The Beatles.

Interlúdio baterístico

Foto Hernâni Von Doellinger

A primeira vez

A primeira vez que aquilo aconteceu foi uma completa novidade. 

Caminho 854

Foto Hernâni Von Doellinger

Xohana Torres 5

Penélope

Declara o oráculo:

"Que á banda do solpor é mar de mortos,
incerta, última luz, non terás medo.

Que ramos de loureiro erguen rapazas.
que cor malva se decide o acio.

Que acades disas patrias a vindima.
Que amaine o vento, beberás o viño.

Que sereas sen voz a vela embaten.
Que un sumario de xerfa polos cons."

Así falou Penélope:

"Existe a maxia e pode ser de todos.
¿A que tanto novelo e tanta historia?

EU TAMÉN NAVEGAR."

"Tempo de Ría", Xohana Torres 

(Xohana Torres nasceu no dia 22 de Novembro de 1931. Morreu em 2017.)

Que os meus barquinhos, lá se foram eles!

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 21 de novembro de 2020

Nem tudo o que vem ao peixe é rede

Sardinhamente falando
Foi um bom ano. Óptimo! Em tempo de balanço, há que dizer com toda a frontalidade que as sardinhas da época 2020 foram excelentíssimas. Abençoada proibição. Finalmente, ao fim de quase dez anos, enfrentei-me com sardinhas competentes, maiores ou menores, sabendo e cheirando a mar e pingando no pão, como manda a tradição.
Por acaso eu às tradições até nem ligo. Cá em casa só começamos a assar sardinhas depois de passados os santos populares e tenho um contrato assinado com os meus amigos pescadores e com a minha querida peixeira que me proíbe de explicar porquê. Mas este ano comemos sardinhas assadas do nosso mar todas as sextas-feiras após o São João e até há coisa de três semanas, com Setembro e Outubro em grande forma, apesar de serem meses que "sardinhamente falando", padecem de "r".
É. A sabedoria popular ensina, e genericamente bem, que Maio, Junho, Julho e Agosto são os melhores meses para comer sardinha assada. Mas a Dona Dina, que Deus tem, dizia-me que de Junho a Dezembro eu podia comer as suas sardinhas à confiança, e eu comia e ela tinha razão. A Dona Dina era uma pessoa muito boa e a melhor assadeira de sardinhas do mundo. As sardinhas assadas da Dona Dina eram não mais do que douradas e traziam sempre o mar dentro.
Eu ando lá perto...

Uma vez, na peixaria da Dona Augusta, seria mês de Abril, uma senhora perguntava se "As sardinhas..." e foi logo interrompida pela minha peixeira, que lhe respondeu "Estão muito boas, as sardinhas ainda estão boas". É claro que não estavam, e logo em ano de colheita medíocre, mas a peixeira tem de fazer pela vida. Eu trouxe biqueirão.
Já experimentaram, decerto já, tirar a cabeça aos biqueirões, abri-los pela barriga retirando-lhes a espinha, que sai muito facilmente, temperar estas "costeletas" com sal, pimenta preta moída na hora, limão e um quase-nada de alho picado, e deixá-los neste preparo aí umas quatro horas, duas para cada lado? E depois passá-los por ovo e pão ralado e fritá-los sem deixar queimar? E fazer entretanto um arrozinho de bacalhau com trocinhos de tronchuda? Arroz carolino, já se sabe, que se transforma com o peixinho num verdadeiro manjar de deuses. Mas decerto já experimentaram.
Dica: as espinhas saem ainda mais facilmente se os biqueirões forem do dia anterior. Mas, para mim, peixe ou é do dia ou já não é peixe. Em miúdo, muito gostava eu de ouvir às peixeiras de Fafe o pregão "É da biba, olha a bibinha", e ficava-se logo também a saber que as sardinhas nesse dia seriam mais caras. Mas eram "como prata". Hoje tenho a sorte de morar em Matosinhos, a dois passos do porto de pesca e da lota. O mais das vezes trago para casa peixe vivo, literalmente vivo, que os pescadores dos barcos pequenos estão a acabar de entregar. O que me levanta alguns problemas, operacionais e... de consciência. Um dia tive com uma solha uma luta cujos pormenores não conto nem quero lembrar. Ganhei, mas portei-me mal. E só à mesa é que me perdoei.

Fanecamente falando
Bem boas que elas andam, as fanecas. Já repararam? Se calhar a mãe Natureza resolveu chamar à razão a nem sempre atinada lei das compensações, mas a verdade é que durante a quase década baixa da sardinha, uma desgraça, a faneca comportou-se sempre com uma categoria de que eu já nem me lembrava. Regalei-me.
Gosto delas fritas. Só com sal e passadas por farinha milha, à tasco, ou então mais à minha moda, tratadas também com pimenta e limão e depois envolvidas com farinha triga e ovo. Sem outros truques ou invenções. Há derivas que aceito e como, mas estão longe de me satisfazer. Insisto: a faneca só me enche as medidas quando na sua pureza original. Frita.
Uma vez há muitos anos, pela madrugada, deixei que me metessem num barco e fui à pesca da faneca com o grupo do meu saudoso amigo Adélio Santos. Quer-se dizer: eles foram à pesca e eu fui vomitar uma noite de copos e sem passagem pela cama. Não sei se a nojeira serviu de engodo, mas o certo é que aquilo era peixe até dar com um pau. Seríamos uns seis ou sete naquela companha de ocasião e toda a gente teve direito a um ou dois baldes cheios de fanecas e cavalas, até eu, que pelos vistos também tinha feito a minha parte e não sabia. Estava na idade da toléria e tão tolo era que desprezei então as cavalas, hoje em dia com lugar cativo na minha lista de pitéus.
Mas voltemos às fanecas. O meu amigo Lopes, que é tão fanequeiro como eu, diz, no seu mar de sabedoria, que "a faneca é um peixe muito honesto". E é. Em diversos sentidos e apesar de já ter andado por aí na boca da malandragem armada em carapau de corrida. A este respeito (ou a respeito da falta dele), torno a Fafe, à década de setenta do século vinte: quem é desse tempo e não se lembra de aproveitar a barafunda das quartas-feiras para passar por elas, pelas gajas, em Cima da Arcada, roçar-lhes o cotovelo pelas mamas como quem não quer a coisa, dizer-lhes entredentes "Ah, faneca, comia-te toda!" e levar um estalo na cara que acabava logo ali com todos os tesões? Quem não se lembra, nem era homem nem era nada. Ou então sofre de Alzheimer e está desculpado.
O Lopes tem razão: a faneca é um peixe muito honesto. Depois, há fanecas mais honestas do que outras. Em minha casa, por exemplo, só entram fanecas do alvor, pescadas já dentro da manhãzinha, como daquela vez com o Adélio mas agora por mãos que sabem. Um luxo. Mordomia matosinhense. São fanecas do mar que eu vejo da minha varanda. Madrugo também, compro-as vivinhas da silva, ainda sem terem passado pelo castigo do gelo e isentas de outras burocracias normalizadoras e estragativas, amanho-as eu, eu é que sei. Não menos importante: comemo-las no próprio dia. Exactamente. Elas andaram e andam bem boas, mas é preciso saber dar-lhes as voltas.

Matosinhos tresanda a Matosinhos
Agosto de 2019. Matosinhos cheira mal. Faz parte. E aos domingos mete nojo. Os restaurantes de peixe rebentam pelas costuras e pelas esplanadas, e isso é bom para o IVA, mas fedem e fumegam num alucinante aviso do que decerto será o fim do mundo de um modo geral. Aos domingos, Matosinhos cheira a sardinhas mal descongeladas e a grelhas que não vêem água desde a grande seca de 1948. Cheira também a lixo deitado alegremente à rua sem norma nem excepção. Cheira também aos escapes bronquíticos dos incendiários autocarros da Resende. Quer-se dizer: Matosinhos cheira mal, fede ao natural e ao gasóleo, tresanda a Matosinhos.
Com vista para o mar se me puser de lado, moro há mais de trinta anos ao dobrar da esquina da restaurantíssima e concorridíssima Rua Heróis de França, no epicentro exacto dos vapores e malinas gastronómicas matosinhenses. Por estes dias a Rua Heróis de França está praticamente impraticável, pelo menos desde Tomás Ribeiro até às funduras da Lota, mas suponho que depois da Lota continua. Ecopontos e contentores tresandam perigosamente, mesmo à distância: nauseabundam a comida estragada, a peixe podre, a vomitado, a fermentado, a ranço, a lavadura para porcos, a ácido, a tóxico, a bagaço, a estrume, a bosta. Matosinhos World’s Best Fish, iniciativa da Câmara Municipal para inglês ver, só pode ser um equívoco, uma piada. E o fedor corre pela rua e entranha-se nas casas e nas roupas. Nos pulmões.
O Senhor Varredor que se ocupa de Heróis de França e faz um trabalho impecável, e com quem dou, sempre que podemos, dois dedos de conversa, pediu-me que eu fosse deitando os olhos ali às redondezas dos ecopontos novinhos em folha, porque se calhar um destes dias lá estará ele estendido ao comprido, evidentemente gaseado por aquele fedor que não se aguenta.
Claro que Matosinhos não tem o melhor peixe do mundo. Tem um peixe honestinho, com que me vou regalando cá em casa, e não é peixe de restaurante. É outro peixe, de que a publicidade não sabe, e ainda bem para mim. Por outro lado, Matosinhos terá provavelmente o melhor pior fedor do mundo. Entre o peixinho e o fedor, às tantas nem me queixo. Na verdade, confesso, gosto de Matosinhos assim.

P.S. - Hoje, 21 de Novembro, é Dia Mundial da Pesca.

Portugal celebra com alegria o Dia Mundial do Oi!

Foto Hernâni Von Doellinger

Caro Amigo,
Lembrei-me de te escrever hoje. Há que tempos, não é? Andei a mexer nas gavetas, faço-o uma vez por ano, sei lá eu porquê, e no meio da papelada encontrei meia dúzia de abraços antigos mas ainda em razoável estado de conservação. É o que me resta. Acho que é uma pena deitá-los fora. Vou mandar-te um que já não me serve. Espero que te fique bem.

Paroles, paroles, paroles
Dizem-me que as palavras já não valem nada. Mentira. As palavras são cada vez mais poderosas, as palavras dominam as nossas vidas. As palavras até tomaram o lugar dos afectos, dos carinhos. Reparem: antigamente davam-se beijos, davam-se abraços; agora dizem-se beijos, dizem-se abraços. O gesto ancestral e puro foi substituído pela retórica etiquetada, o contacto físico acabou vergado ao esboço da intenção - à simulação. À dissimulação?
Dizemos "Beijinhos", dizemos "Abraço", dizemos olá de boca, e assim ficamos. Pelas palavras. Beijos e abraços são só vocábulos. Mantemos uma distância alegadamente higiénica entre nós, os alegados amigos uns dos outros. Dizemos. Ao telefone, por escrito, ao vivo na pressa da rua, na patetice dos emojis. Dar a sério (à séria, se lido em Lisboa) é que não. Ninguém dá nada a ninguém - nem sequer beijos, nem sequer abraços. Fazemos votos de. "O que lhe estimo é um beijo", "Desejo-lhe um excelente abraço"...
É. Olhem bem à volta: as palavras estão em alta, navegam de vento em popa. As palavras. O que verdadeiramente está em crise é a palavra, a palavra singular e definitiva, essa vaga memória de uma honra démodée que se arrasta pelas ruas da amargura - abandonada, pobre, cega e nua. Mas isto, claro, sou eu a dizer e são apenas... palavras, palavras, palavras.  

Devolveram-me o amplexo
O meu amigo fazia anos e eu mandei-lhe uma SMS: "Parabéns. Abraço."
O meu amigo respondeu-me, também por SMS: "Devolvo o abraço. Obrigado."
E eu pensei: o abraço teria defeito?

Saudações amigas?
Escrevi aí a uma criatura e, no final, mandei-lhe um "grande abraço". A criatura despachou-me e, no final, mandou-me, para a troca, "saudações amigas". Saudações amigas? Mas, Senhor Bispo, o que raio são saudações amigas? Evidentemente serão o contrário de saudações inimigas, mas o que são saudações inimigas? Abraço, eu sei: o abraço é sólido, palpável, vê-se, sente-se, dá-se, recebe-se, aperta-nos, aproxima-nos, humaniza-nos. Agora, saudações amigas...


Amigo é a solidão derrotada!, como dizia o O'Neill
Dá-me para isto ultimamente. Pergunto aos meus amigos: - Andas feliz? És feliz? Pergunto-lhes acerca do coração, dos afectos, do casamento, do divórcio, da mulher, da namorada, da mulher e das namoradas (há quem acumule), dos filhos, dos netos, dos irmãos, dos pais, dos sogros, da saúde, da fé, da filosofia, da poesia, de Deus, dos sonhos, da vida. Falamos de bondade, de amor, de compaixão, de vinho. "És feliz? Andas feliz?", é o que pergunto, exactamente da mesma maneira que pergunto em casa, à mesa, se a comidinha está a saber bem.
A vida para ter algum jeito também deve saber bem, não é? Os meus amigos são poucos e interessam-me muito e por isso é que são sem aspas e sem Facebook. Somos amigos cara a cara, de abraço de carne e osso. Deve ser da idade, ou então da falta de ar no armário, mas eu e os meus amigos andamos cada vez mais abraçadeiros uns com os outros. Os meus amigos sabem que eu cozinho e são meia dúzia deles. Às vezes frequentam-me a mesa ou o balcão da cozinha, por mor de umas fanecas com arroz de tomate ou de umas bifanas que me trazem quentinhas. E eu sou um felizardo por eles me frequentarem a vida.


Escrevo aqui sobre abraços desde Novembro de 2103. Os abraços são-me caros e saem-me baratos, mas quê?, agora temos ordens para abraçarmos os nossos amigos apenas por correspondência, derivado ao coronavírus. Vou guardá-los, aos abraços, talvez na quarentena do congelador, junto às ervilhas e ao bacalhau demolhado, e escrever muitos postais. Espero que não se estraguem no frigorífico, os abraços, porque a verdade é esta: fazem-me uma certa e determinada falta.

P.S. - Hoje, 21 de Novembro, é Dia Mundial do Olá. E já agora, para todos ucês, um grande oi! e múltiplos saravás!

Ocasos de fogo 18

Foto Hernâni Von Doellinger

Como seria o mundo sem televisão? Eventualmente melhor.

Redacção (exactamente: cção).
A televisão é muito importante. Gosto de ver na televisão as redacções das televisões porque nas redacções das televisões que dão na televisão não há cadeiras partidas. Trabalhei em muitas e variegadas redacções, na rádio e sobretudo na imprensa, mas nunca na redacção de uma televisão.
Nas redacções onde eu trabalhei as cadeiras eram todas mancas e andávamos à pancada por uma que se segurasse mais ou menos. O sobrevivente marcava a sua cadeira para toda a vida, mas quando virava costas já ela estava debaixo do cu do lado. E andávamos outra vez à pancada. Foi por isso que, quando chegou a altura, estávamos sem forças para irmos às ventas dos bandalhos que fazem profissão de destruir redacções e que têm cadeiras da televisão. Feitas de cortiça.
A televisão é muito boa porque dá na televisão. Eu gosto muito da televisão.

Grande momento de televisão
Uma vez à noite, na TVI, Janeiro de 2012. Marcelo Rebelo de Sousa pregava aos peixes, na sua habitual homilia dominical. Falava da troika e de Cavaco, de Passos Coelho e de Seguro, da UGT e da CGTP, da Grécia e da Alemanha, do Benfica e do Sporting, de carecas e de guedelhas, da fome e da fartura, de tudo e de nada. O costume. De repente, lá atrás no cenário da redacção vazia, passa a dona Alice das limpezas, de aspirador pela trela, logo seguida pela dona Amélia, com um caixote de lixo na mão, e da dona Matilde, que não resiste e acaricia com o pano do pó o tampo de uma das mesas de trabalho. Grande momento de televisão! Esqueci-me da arenga do Professor (na verdade os seus comentários nunca me interessaram para nada), e concentrei-me no desfile em fundo. Fiquei cliente do programa de variedades, mas infelizmente elas nunca mais apareceram...

Gosto muito de o ver na televisão
- Gosto muito de o ver na televisão!
- E que tal aqui ao vivo, hã?...
- Gosto muito de o ver na televisão.

As lágrimas do adepto
O adepto. O adepto anda quatro anos a poupar para acompanhar a selecção no Mundial. Ou então assalta um banco. Acompanhar a selecção no Mundial implica, às vezes, atravessar meio mundo e morar fora durante um mês - coisa para custar um dinheirão. O pão e água para toda a família, que fica em casa, justifica-se portanto como regime de emergência, e o assalto a bancos também. É o amor, é o país, é a selecção. Está certo.
Depois a selecção está a jogar miseravelmente e a levar três secos a dois minutos do fim e já com guia de marcha para casa. E o adepto entra numa depressão desgraçada, mãos esgadanhando a cabeça incrédula, lágrimas esborratando as pinturas de guerra, dei cabo da minha vida por esta merda, ai os meus ricos filhinhos, mais me valia morrer, uma tristeza que só vista. Exactamente. A televisão vê a tristeza do adepto - profunda, incrédula, esgadanhada e esborratada - e passa-a no ecrã gigante do estádio. Em câmara lenta e HD. As lágrimas do adepto, momento televisivo de rara beleza. O adepto vê que está a ser visto na televisão, e salta, e ri, e manda beijinhos, e faz caretas, e tira macacos do nariz, e fica tão feliz, tão feliz, tão feliz da vida, que se foda o desespero, que se foda a selecção, que se fodam os filhos, valeu bem a pena a fome que passaram durante quatro anos. Ou o assalto ao banco. Que está certo e também dá na televisão...

A chaga do trabalho infantil, que é duas, aliás três
O trabalho infantil é uma tragédia, uma vergonha, sobretudo se a criança ajudar no campo os pais pobres para haver alguma comidinha à mesa.
O trabalho infantil é muito bem, um orgulho, principalmente se a criança entrar numa telenovela ou se for modelo e der na televisão (esta parte da televisão é importantíssima!), enriquecendo os pais remediados.
Depois há ainda as crianças, estas são do piorio, que, órfãs de tudo, fazem sapatilhas de marca para as entrevistadoras e para os entrevistadores da televisão que entrevistam as crianças que entram nas telenovelas e nas passarelas e para os babados pais, que no fim pedem recibo.
Parece que a diferença está nisto, segundo percebi uma vez no programa Sociedade Recreativa da RTP: os miúdos das telenovelas e da moda têm "agente"; os moncosos do campo e das fábricas, não...

A sagrada comunhão
Ano 2019. A minha sogra estava a ver na televisão a missa do 13 de Outubro no Santuário de Fátima. A santinha, que graças a Deus não padece de fastio, antes pelo contrário, costuma almoçar cerca das 11h30, mas a missinha tomara realmente conta dela, ensimesmada numa tremenda devoção, sem sequer deitar os olhos ao aparelho. Resolvemos ainda assim perguntar-lhe num sussurro se queria comer à horinha ou se esperávamos pelo fim das cerimónias. - No fim da santa missa!, respondeu-nos com rispidez, como se por um segundo lhe tivéssemos interrompido o Céu. Pronto: a mesa podia esperar.
Os ponteiros do relógio andaram um quarto de hora, mas a televisão não: a missa continuava no mesmo sítio. A minha sogra agitava-se, os impasses incomodam-na sobremaneira, especialmente se meterem rancho. Levantou-se então do trono e ordenou: - Vamos mas é comer, que isto é povo que nunca mais acaba para a sagrada comunhão!...

Como a minha sogra engana o sono
A minha sogra deixou de se deitar após a digestão do almoço porque senão, diz ela, depois não dorme nada à noite. Portanto dorme toda a tarde no sofá da sala em frente à televisão ligada.
Com uma curta pausa para o lanche, evidentemente.

Adoro, adoro, adoro!...
Adoro ver na televisão o trabalho dos jovens e famosos chefs da nouvelle cuisine portuguesa. Adoro!
Adoro ver aquele modo de confecção improvável, os ingredientes inovadores, variados e mínimos, o requinte e a cerimónia, a delicadeza, a anorexia na dose, a obra de arte final, aquela espécie de ilha cubista no meio do prato em branco, adornada com bagas, com ervas inventadas, com salpicos e rabiscos de geleias coloridas. Salpicos e rabiscos aparentemente displicentes porém profundamente sábios. Adoro!
Adoro ouvir aquelas palavrinhas francesas, parecem palavras mágicas, nominhos de perlimpimpim. Adoro!
E a frescura?, ui, sobretudo muita frescura! Adoro!
Mal termina o programa, e enquanto ainda está fresco, salto para a cozinha, enfio dois bolinhos de bacalhau da véspera dentro de meio biju ressesso, bebo um copo de verde branco, atiro-me à galinha de arroba que a minha mãe me mandou de Fafe e faço a boa e ancestral arrozada de cabidela. A cabidela monumental e histórica. E vai para a mesa no panelão, fumegante como uma velha locomotiva a vapor. Ah, caralho!, então é que eu me regalo...

O futebol e a noite
Convêm-me os jogos de futebol que começam em directo na televisão às nove e meia da noite. Como me deito às nove, na manhã do dia seguinte é só novidades...

Na próxima, o Bitó tinha uma gaita
Quim Barreiros cantava, agarrado ao seu acordeão. Era a história simples, exemplar, da mulher que entrou no comboio sem bilhete nem dinheiro e que teve que ir "dar ao apito" com o revisor para se safar da multa. Enquanto o Quim cantava, e como não havia universitários bêbados nas redondezas, alguém pôs um grupo de crianças a fazer um comboiinho que passava e repassava em fundo. Eram crianças de infantário, de creche, de jardim-de-infância, de pré-primária, não sei como é que se diz agora. Pequeninas, isso eram. E serviam de cenário e figurantes à cantiga do Quim, "pó, pó, pó, o cumboio vai andar, pó, pó, pó, e vai sempre a apitar, pó, pó, pó, eu já lhe tinha dito que para andar no cumboio tinha que dar ao apito".
Foi há mais de dez anos, na Curia. Deu na televisão em directo, para o País e mundo inteiro. Foi no programa Verão Total, da manhã da RTP1, com Sónia Araújo e Jorge Gabriel. Foi há mais de dez anos e parece que só eu é que vi. Se calhar as audiências andavam certas.

reality show começou em Fafe
Quando eu era mocico e a ambulância acudia a um desastre com a sirene em altos berros, as pessoas de Fafe corriam para as escadas do hospital. Ali se plantavam, esperavam, prognosticavam, diagnosticavam, e finalmente assistiam ao espectáculo. Ao vivo. Em casos mais graves e raros, assistiam também ao morto. As escadas do hospital eram um palco de desgraças e caldeirão de emoções, cenário de reality show sem que Portugal sequer soubesse o que isso viria a ser. Eram também muito jeitosas para tirar fotografias de grupo a casamentos, bombeiros em festa e bandas de música, palavra de honra. Eram, portanto, o sítio mais in da vila e só estorvavam naquilo em que deveriam melhor servir, que era carregar macas com feridos e doentes por aqueles degraus acima ou por aqueles degraus abaixo, às vezes de cangalhas até ao chão.
Mas o espectáculo. A ambulância saía e o povo corria. O bom do Senhor Ferreira via-se à rasca para manter na ordem aquela gente toda e tola que fazia guerra por um lugar na primeira fila, sobretudo mulheres afogueadas e gordas, com os socos e o coração nas mãos ou enrodilhados no avental arregaçado. Faço notar que não foi por distracção que escrevi "a" ambulância. O artigo definido é aqui propositado e certo, porque, naquele tempo, dará para acreditar?, os Bombeiros de Fafe tinham apenas uma ambulância, uma velha Skoda vermelha que regularmente ficava sem travões no meio das descidas. Pois, como dizia, as pessoas de Fafe corriam para as escadas do hospital e regalavam-se de braços decepados e orelhas arrancadas e narizes esborrachados e fémures a céu aberto e pés desfeitos e tripas de fora e miolos ao léu e espinhelas partidas e... - Foi tiro?, Foi facada?, Foi sachola?, Foi o home?, Foi a amante? Foi desastre?, Foi o vinho? E muitos Uis! e muitos Ais! e muitos Coitadinhos! e muitos Valha-nos Deus! Estavam ali no relambório, a dar água sem caneco e a benzer-se na direcção da Igreja Nova, mas sem perder pitada. Vampiros mirones, iam ao sangue, queriam sobretudo molhanga, muita, vermelha vermelha como a ambulância que chegava enfim, esbaforida e ganinte. Era um fartote! Uma comoção!...
Agora as pessoas não precisam de ir a correr para as escadas do hospital. Sentam-se em casa, ligam a televisão e vêem na CMTV.

P.S. - Hoje, 21 de Novembro, é Dia Mundial da Televisão. Pedimos desculpa por esta interrupção, a vida segue dentro de momentos...