quinta-feira, 16 de julho de 2020

Bissexual

Era bissexual. Todos os dias. De manhã depois de acordar e à noite antes de dormir.

I want to ride my bicycle 102

Foto Hernâni Von Doellinger

Lobo aos pobres

Deram o lobo aos pobres. Tarde demais perceberam o lapso.

Também faço isto muito bem 441


Mário Dionísio 7

Complicação

As ondas indo, as ondas vindo - as ondas indo e vindo sem
parar um momento.
As horas atrás das horas, por mais iguais sempre outras.
E ter de subir a encosta para a poder descer.
E ter de vencer o vento.
E ter de lutar.
Um obstáculo para cada novo passo depois de cada passo.
As complicações, os atritos para as coisas mais simples.
E o fim sempre longe, mais longe, eternamente longe.

Ah mas antes isso!
Ainda bem que o mar não cessa de ir e vir constantemente.
Ainda bem que tudo é infinitamente difícil.
Ainda bem que temos de escalar montanhas e que elas vão
sendo cada vez mais altas. Ainda bem que o vento nos oferece resistência
e o fim é infinito.

Ainda bem.
Antes isso.
50 000 vezes isso à igualdade fútil da planície.


"Poemas", Mário Dionísio

(Mário Dionísio nasceu no dia 16 de Julho de 1916. Morreu em 1993.)

Vemos, ouvimos e lemos

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Nunca por amor

Já ia no sétimo matrimónio e garantia que nunca casara por amor. Por interesse então?, perguntavam-lhe. Que não. Apenas por dinheiro? Também não. Que casou sempre por acaso...

Também faço isto muito bem 440

Foto Hernâni Von Doellinger

Luísa Villalta 5

Modulación de Orfeu

Carexei na escuridade o teu cantar Eurídice
e o futuro devolveu o nome do meu propio arpexio.

Souben de ti por un can que xemeu manso
pola leve batedela do teu pé no río ao avanzares
e o ton ingrávido da luz no sangue
no momento de non poder ser xa quen son
senón a corda acróbata do desexo entre os meus dedos

Estaba o ar imposíbel tinxido en soños de paxaros
tal era a vontade de ascender as escalas das esferas
axudándonos só do propio timbre
medido contra o eco dos abismos

No teu andar pulsaba o corazón
E a idea loira do silencio te agardaba
con palabras sen esquinas
campo aberto a países encontrados
na redonda maravilla de si mesmos

A idea de nacer ao non morrer desde onde viñas
traía eu entre os compases dos meus pasos
percutidos sobre o ébano do tempo no violino:
o ritmo e a columna, o balanzo e o redemuíño
cara ao xogo da risa na Galiza liberada

Mas
na Fisterra do mundo onde o mar nos esperaba
cegoume o ruído infernal roto en instantes
de motores, en cristais de cidades sen orixe
rotos, en tempo roto a melodía desde sempre
rota, as palabras desfeitas entre os dentes
rotos de tantos seres rotos de almas rotas
na paisaxe dun povo que por roto marchaba
co son roto das árvores nos ollos

A melodía, e non eu nen a dor nen a saudade
quixo volver sobre si mesma até onde estabas
serpe arrolada no murmullo contínuo deste vento
que arrasa e volve e destrúe e levanta no deserto
as súas moreas de olvido como triunfos xa vencidos

Ao fundo, ao fundo volvo eu a non perderte
e ser agora eu Eurídice outra vez para esperarte.


Luísa Villalta 

(Luísa Villalta nasceu no dia 15 de Julho de 1957. Morreu em 2004.)  

Caminho 818

Foto Hernâni Von Doellinger

Henriqueta Lisboa 4

Divertimento

O esperto esquilo
ganha um coco.
Tem olhos intranquilos
de louco.
Os dentes finos
mostra. E em pouco
os dentes finca
na polpa.
Assim, com perfeito estilo,
sob estridentes
dentes,
o coco, em segundos, fica
todo oco.


"O Menino Poeta", Henriqueta Lisboa

(Henriqueta Lisboa nasceu no dia 15 de Julho de 1901. Morreu em 1985.)

Music was my first love 68

Foto Hernâni Von Doellinger

Anilda Leão 4

Poema das horas mortas
 
Esta noite eu conversei tristezas
e ouvi as horas mortas pisando de leve,
para não perturbar meu pranto.
Senti minh'alma desgarrar-se
e seguir outros rumos,
palmilhar caminhos estranhos,
em busca do meu sorriso
que se perdera no abismo da noite.
Esta noite eu conversei tristezas,
e teci saudades,
e magoei meus olhos,

lembrando coisas que já estavam mortas!


"Chão de Pedras", Anilda Leão

(Anilda Leão nasceu no dia 15 de Julho de 1923. Morreu em 2012.)

Mobiliário urbano (propriamente dito) 185

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 14 de julho de 2020

Serralves nunca mais

Estou indignado com Serralves. Nunca mais na vida ponho os pés em Serralves. Eu nunca pus os pés em Serralves. Mas agora é que nunca mais.

Eu mostro-vos...

Foto Hernâni Von Doellinger

Para os dois lados

Entre os pupilos do exército e as pupilas do senhor reitor, ele não sabia bem...

Também faço isto muito bem 439

Foto Hernâni Von Doellinger

Demóstenes Cristino 3

Sarampo... escola... pião...
Amor... sofrimento... lida...
Cabelos brancos... caixão...
Velas ardendo... eis a vida!


"Trovas", Demóstenes Cristino 

(Demóstenes Cristino nasceu no dia 14 de Julho de 1894. Morreu em 1962.)

E fui pássaro

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Quarteto de cordas

Eram um excelente quarteto de cordas: de sisal, de propileno, bamba e estática. As quatro acompanhavam regularmente a corda vocal. Quando assim, eram o Quinteto da Corda.

Também faço isto muito bem 438

Foto Hernâni Von Doellinger

Microcontos & outras miudezas 215

Volta a Portugal em bicicleta
- Volta a Portugal em bicicleta! - recomendaram-lhe. E ele voltou. Estava sem gasolina e sem dinheiro. Em Tui. Foi um tirinho...

Para o Guinness
E finalmente colocou a melancia em cima do bolo. Era um bolo para o Guinness, é preciso que se note...

Uns para os outros
José deu uma facada a António. António deu um tiro a José. É. Temos de ser uns para os outros.

Preto no branco
Dona Irene tinha uma empregada preta. Foi insultada e apedrejada na rua, derivado a escravatura, colonialismo e racismo, e só não lhe cortaram a cabeça porque não era uma estátua e isto ainda é um país de brandos costumes. Dona Irene é preta, insiste que é preta, é preta retinta, mas ninguém se acredita...

P.S. - A empregada preta da preta Dona Irene foi resgatada. Está finalmente desempregada, graças a Deus.

Insolvência
Dava-te um beijo. Mas não tenho...

A vida às vezes
Vivia incógnito num par de sapatos emprestados. Dera a gravata única e excessiva a um desconhecido, que se enforcou.

Os bois chamam-se pelos nomes
O porco é Ruço. A porca Vadia. A vaca Amarela. O boi Bonito. O touro Osborne. A turina Malhada. O cão Bobi. A cadela Cadela. O cachorro Kent. O gato Pantufas. A gata Gostosa. A cabra Cega. A ovelha Dolly. O cabrito Montês. O cavalo Silva. O burro Velho. O rato Mique. O coelho Branco. O leopardo Negro. A chinchila Mila. O furão Furão. A tartaruga Ninja. A mulher Alheia. O homem Erecto. O peixe Dourado. O surfista Prateado. A sardinha Biba. A pita Arisca. A periquita Alegre. O pombo Armando. O crocodilo Lontra. A lontra Pilantra. O pato Patola. O galo Badalo, a galinha Balbina, o pinto Jacinto e o peru Gluglu.
Assim se chamam os bois pelos nomes.

Banho ao cão

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 12 de julho de 2020

O dia do anho

Os domingos tinham esse pequeno problema, e quem for de Fafe e antigo sabe do que falo: tripas ou vitela assada? Era a verdadeira questão, o dilema do almoço dominical. Os fafenses, gente de bom comer e satisfatório beber, resolveram facilmente o assunto, há muito, muito tempo: isto é, em vez de tripas "ou" vitela assada, o almocinho de domingo passou a ser tripas "e" vitela assada. Nem Salomão, no seu ancestral e sábio critério, tomaria decisão mais acertada.
A vitelinha guiava-se em casa, com vagar e carinho, com as voltinhas todas, e as tripas, regra geral, iam-se buscar num tachinho à Esquiça ou à Pacata, consoante a ideia que cada um tinha acerca da sua própria posição social.
Começava-se portanto pelas tripas, e a seguir vinha a vitela. O apetite era gerido ao milímetro, mais ou menos um bocadinho daquelas, mais ou menos um bocadinho desta - porque, como determina o princípio da impenetrabilidade da matéria, dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo, e as vacas é que têm felizmente quatro estômagos. Ora bem: a malta nova, pouco dada à tripalhada, reservava-se para a chicha com batatinha de ouro e arroz de forno. Mas de quando em quando reservava-se mal. Como daquela vez em que o nosso Zé não tocou no feijão. Perguntaram-lhe se estava doente, se tinha fastio, se queria um caldinho branco, se queria meter o termómetro. Que não, que não, que não e que não, respondeu respectivamente, e explicou todo gaiteiro: - Estou a guardar-me para a vitela!
Naquele domingo não havia vitela. E as tripas já tinham saído da mesa...

Moral da história: contar com a vitela no cu da galinha, por assim dizer, e com licença de vossências, pode ser uma merda.

P.S. - Publicado originalmente no dia 16 de Setembro de 2018. Hoje, 12 de Julho de 2020, o dilema gastronómico creio que nem se coloca em Fafe. Ainda que não pareça, é dia da Senhora de Antime, da procissão que ajuizadamente não há, mas certamente à mesa das famílias não faltará o cabritinho assado e abençoado, como se as senhoras tivessem realmente passado. Gosto de contar assim: hoje é agnus day, quer-se dizer, dia do anho. E da vitela. E eventualmente das tripas, aquele meio tachinho que ficou guardado de ontem... E atenção: onde escrevi "tripas" e "vitela assada", deve falar-se "tripasss" e "bitela assada". À moda de Fafe. A vitela assada à moda de Fafe, quando bem trabalhada, é provavelmente a melhor vitela assada do mundo. A confraria da dita não veio ajudar nada, antes pelo contrário, mas veste que é uma categoria.

Já não há pilas como antigamente

Foto Hernâni Von Doellinger

No tempo em que Fafe era o Largo com árvores e o novo coronavírus ainda não tinha sido inventado, a Senhora de Antime e "os" 16 de Maio eram festas de rebimba o malho. Havia de tudo: cestinhas, aviões, carrinhos de choque, carrossel, farturas, fome, apalpões às moças, estaladas de resposta, barracas de matraquilhos com jukebox, poço da morte, mulher-serpente, água fresca com longínquo sabor a limão e açúcar amarelo, parrecas e rebuçados, procissões, promessas, anho assado no forno, corridas de jericos e pilas. Pilas principalmente.
O bom povo de Fafe jogava ao quino, pelo Natal, no Peludo. Jogavam maus meninos bem, todo o ano, toda a noite, no Club Fafense, desperdiçando sorrateiras fortunas de berço. Jogavam os novos cavalheiros da indústria, desalinhados e ricos a estrear, toda a noite, todo o ano, no Fernando da Sede, de porta respeitosamente fechada. Para entrar era preciso saber o santo-e-senha. Eu sabia, entrava, mas não jogava. Jogava-se aos pinhões em casa, jogava-se ao bilhar, ao dominó, aos flippers, à sueca, à lerpa, às copas, ao sete e meio, ao montinho e à malha em todo o lado, a dinheiro, a cerveja ou a vinho, e até se jogava ao pau e à bola, mas isso já era para predestinados. Em Fafe jogava-se forte e feio. A tudo. Mas o pilas estava à frente. E na Senhora de Antime era fatal. E nos 16 de Maio também. E não tenho a certeza se no Corpo de Deus amém.

O Serafim Lamelas é que era o verdadeiro homem do pilas - a História nunca o poderá negar. O Serafim Lamelas era o nosso Stanley Ho e também um bocadinho o nosso Vito Corleone. Tinha a sua famiglia. Montava casino em todas as festas, grandes feiras e romarias da região, bastavam-lhe uma esquina, uma quelha, um desvão de escada, onde calhasse e parecesse invisível. O Senhor Serafim reconhecia-me e respeitava-me, sendo eu apenas miúdo, mas sabendo ele de quem.
O pilas é, para quem eventualmente o ignore, um jogo de mesa e de rua, de sorte e azar. Sorte para o banqueiro, azar para o apostador. Regra geral. É também um jogo evidentemente proibido, e por isso é que se jogava tanto. Os músicos das bandas filarmónicas eram naquele antigamente os melhores clientes do pilas, mas eu estaria capaz de jurar que muitas das vezes eles andariam por ali feitos com a casa, só para chamar patos.
O casino do Serafim consistia num resumido cavalete manufacturado com ripas de madeira ultraleve sobre o qual era estendido, a modos de tampo, um cartão, um papelão, um papel qualquer, uma toalha de mesa, sempre que possível um rectângulo em cabedal, tudo material facilmente dobrável, enrolável e sobretudo escondível.
O tampo estava dividido em quadradinhos pintados e numerados de 1 a 6 com tinta vermelha e de uma forma que parecia intencionalmente tosca ou então andaria ali a mão de Picasso. Apostava-se num número apenas, "singelo", ou dividia-se a aposta por dois números ou até por quatro, se bem me lembro, bastando para isso colocar o dinheiro da aposta em cima das setinhas que indicavam as múltiplas.
Havia depois o copo de plástico, dos de lavar os dentes, e o dado, provavelmente amestrado, que saíam como que por magia de um dos bolsos interiores do larguíssimo casaco do Serafim. O copo era agitado por mãos experimentadas, rápidas e enganadoras, virado ao contrário, suspense, saía o dado cansado, gasto, desilusão, este já está, não há nada para ninguém, só para mim, nova corrida, nova viagem. O Serafim era ainda o nosso Luís de Matos.
O imenso casaco do Serafim Lamelas servia também para guardar o dinheiro da banca, num enchumaço que engrossava cada vez mais. E ninguém me tira da ideia: lá dentro estavam escondidas navalhas, pistolas e até metralhadoras, daquelas de carregadores redondos.

Aquando da Senhora de Antime ou pelos 16 de Maio, que eram dois dias, e daí decerto tão singular plural, o Serafim chegou a instalar-se encostadinho às escadas da Arcada, do lado mais esquerdo de quem desce, curiosamente o local onde ele e a mulher tinham lugar de feira, às quartas. Os jogadores apareciam ali num repente, como moscas não se sabe vindas donde. Amagotavam-se à volta da mesa, numa arriscada luta de cotovelos encasacados, nervosos, cheios de vício e de pressa, um olho nos números e o outro nas costas, não se desse o caso. O Serafim, que tinha mais olhos do que o Bruno de Carvalho, soberano no lugar de honra, reclamando espaço para a função, exibia molhos de notas dobradas no meio dos dedos lestos e, para desviar atenções, exercitava a lábia, muita lábia, debitando ladainhas encantatórias. Os seus lugares-tenentes à coca, um em cada dobrar de rua, tomando conta da polícia, que estava careca de saber daquilo tudo. Um polícia chegava a correr, dizia, num susto, "Vinte escudos no 3, rápido, rápido!", saía o 3, mas é claro que saía o 3, e o polícia desaparecia dali com os bolsos cheios e como se nunca lá tivesse estado.
Se a polícia fosse a sério, o Lamelas e seus acólitos desmontavam a banca num relâmpago e evaporavam-se com todo o dinheiro que estivesse em cima da mesa. Quando o dia estava a correr mal, faziam este número as vezes que lhes desse jeito. Fingiam que fugiam e mudavam de poiso. E os clientes ficavam num desconsolo burgesso, sem os cinquenta paus da quase aposta, sem o prémio que agora é que era e, não vamos mais longe, porventura também sem a carteira. Era um golpe bem ensaiado. E cinquenta escudos davam realmente para muito vinho naquela altura. Uma tragédia!
Outras vezes, por malandragem, era comum ouvir-se gritar de cima da Arcada, anonimamente, "Olha a polícia!", só para se meterem com o Serafim, e o Serafim, molageiro, aproveitava a deixa ou não, consoante sentisse o enchumaço do supercasaco.
Embora possa parecer que não, o pilas era um jogo muito completo. Para além do Lamelas e dos seus soldados, do cavalete e dos números, do copo e do dado, da polícia e do engano, revestia-se amiúde de pancadaria, navalhadas e tiros. Mortes, não posso jurar.
Eu joguei uma vez ao pilas. Em adulto praticamente. Apostei cinco coroas, mas partidas ao meio para dois números. Saíram-me cinco coroas. Do bolso.

P.S. - Publicado originalmente no passado dia 16 de Maio. Hoje, 12 de Julho de 2020, é dia da Senhora de Antime. Por causa do coronavírus, não há arraial, não há romaria e não há procissão - o que é profundamente triste mas sensato. Ao pilas já não o vejo há muito, e não me faz diferença, mas ficar sem procissão é-me uma verdadeira dor de alma. Deus queira que para o ano! Entretanto: cinco coroas eram vinte cinco tostões ou dois escudos e meio, uma bela moedinha prateada com caravela. Os matraquilhos foram inventados pelo galego Alexandre Campos Ramires ou Alexandre de Fisterra, que também era editor e escritor. O nome mais bonito dos matraquilhos é pseberico.

Troquem a alma por asas abstractas

Foto Hernâni Von Doellinger

As duas senhoras

- Bom dia, Senhora da Misericórdia!...
- Olá, Maria das Dores, há um ano que não nos víamos...
- Saio pouco, enjoo na viagem...
- E eu também, são estes solavancos, estes salamaleques, estas ladainhas altifalantadas, estes tambores, este sol, este povo...
- O nosso povo, não é?
- No dia do anho parece que sim, de resto nunca sei dele...
- Mas a senhora está muito bem.
- E a senhora também.
- Porém os anos...
- A quem o diz...
- Por falar nisso, tinha qualquer coisa para lhe dizer...
- E eu também, mas não me lembro...
- Bem, vou-me lá...
- Realmente, são que horas, vá indo que eu vou do meu vagar...
- Então adeus, até para o ano...
- Se Deus quiser. Adeus.

P.S. - Publicado originalmente no dia 8 de Julho de 2018. Hoje, segundo domingo de Julho de 2020, é dia da Senhora de Antime. Mas, por causa do coronavírus, não há arraial nem romaria. Nem sequer procissão - uma decisão triste mas imperiosamente sensata. Portanto também não há o encontro das duas senhoras. A procissão da Senhora de Antime, digo-o aqui para quem não sabe, é provavelmente a melhor procissão do mundo. É o povo que desce inteiro com as senhoras, primeiro à vila, agora à cidade. É uma procissão tremenda e comovente, multitudinária e única, uma procissão a sério - A Procissão -, como costumo explicar aqui aos meus vizinhos que ficam banzados com a meia dúzia de almas penadas e a dúzia e meia de cabeçudos da Câmara que todos os anos acompanham a imagem do Senhor de Matosinhos pelas ruas da cidade, num deserto que só visto. Pode ser que para o ano...

Caminho 817

Foto Hernâni Von Doellinger

Manuel Antonio 4

Os cóbados no varandal

Atopamos esta madrugada 
na gaiola do Mar 
unha illa perdida

Armaremos de novo a gaiola
Vai a saír o Sol
improvisado e desorientado


Xa temos tantas estrelas
e tantas luas submisas
que non caben no barco nin na noite


Xuntaremos paxaros sen xeografía
para xogar cas distancias
das suas áas amplexadoras


E os adeuses das nubes 
mudos e irremediabes

E armaremos unha rede de ronseles
para recobrar as saudades
coa sua viaxe feita
polos océanos do noso corazón.


"De Catro a Catro", Manuel Antonio

(Manuel Antonio nasceu no dia 12 de Julho de 1900. Morreu em 1930.)

Também faço isto muito bem 437

Foto Hernâni Von Doellinger

Funcionário brilhoso

Profissional de mão-cheia, empenhava-se a cem por cento no emprego. Fazia tudo e fazia tudo bem. "Tenho muito brilho no meu trabalho", costumava dizer.

Navego-te as margens, mar

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 11 de julho de 2020

Do sexo oral à prova escrita

Ele não gostava de sexo oral, embora nunca tivesse provado. Achava que era só paleio, tipo "fodia-te toda, ó bem boa!", e acção nenhuma. Até que um dia lhe mostraram um livro que explicava tudo...

Só destes, tenho sete 139

Foto Hernâni Von Doellinger

O cantor Gershwin, anunciava a rádio

Ouço rádio. Prefiro a rádio à televisão e os jornais em papel ao online. Prefiro os dicionários encadernados à Wikipédia e os livros de uma forma geral às séries "de culto". Tirando David Ferreira, o futebol e a meia hora a seguir ao meio-dia, que me ligam religiosamente à Antena 1, a minha rádio é a Smooth FM. Gosto da música que por lá passa, música da minha idade, e rio-me com o que dizem os locutores. Ignorância em frequência imoderada é ali - das bojardas gramaticais nas "notícias" aos spots publicitários que primam pela asneira. O último, de promoção ao concerto de Anthony Strong aprazado para o dia 28 de Outubro no lisboeta Centro Cultural de Belém, diz assim:
"Anthony Strong em Portugal, num tributo às grandes vozes masculinas do jazz. Anthony Strong: Tribute To The Great Male Jazz Vocalist Of All Times. Entre os quais, Louis Armstrong, Chet Baker, Gershwin e muitos mais, numa noite memorável". Exactamente, sobretudo Gershwin...

P.S. - Publicado originalmente no dia 23 de Agosto de 2017. George Gershwin, nascido Jacob Gershowitz, morreu no dia 11 de Julho de 1937.

Music was my first love 67

Foto Hernâni Von Doellinger

Peter Murphy, o princípio e a lei (respectivamente)

O cantor e compositor britânico Peter Murphy, mítico vocalista dos Bauhaus, nasceu no dia 11 de Julho de 1957. Portanto faz hoje 63 anos. Para além disso, continua a acumular o princípio e a lei. O que é de realçar.

Mobiliário urbano (propriamente dito) 184

Foto Hernâni Von Doellinger

Lélia Coelho Frota 4

Liberdade

Passo pelo fio
de pérolas do Rossio:
não quero comprar flores
quero ver o rio.


Lélia Coelho Frota

(Lélia Coelho Frota nasceu no dia 11 de Julho de 1938. Morreu em 2010.)

À espera... 2

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Vasco "Koniec" Granja (a propósito de)

Desenhos assim-assim
Há os desenhos animados e há os desenhos mortiços. É como tudo.

Walt Disney, o da carona
Conheci muito bem Walt Disney. Falava brasileiro e dava aos sábados ou domingos à tarde no televisor a preto e branco do café. Nos livros aos quadradinhos é que já era a cores e ensinou-me a palavra carona, de que eu gostava muito, quase tanto como da palavra parreca, que eu já sabia das feiras e romarias. Se fosse vivo, o velho Walt teria hoje 118 anos, o que, convenhamos, constituiria façanha digna de registo.

Professor Pardal
Antes de ser o guia espiritual dos novecentos homens mais poderosos de Portugal, também chamados motoristas de matérias perigosas, Pardal era professor, vivia na fantasia dos livros aos quadradinhos da Walt Disney e falava brasileiro. O Professor Pardal era um garnizé em forma de homem, um supergénio, o maior inventor do mundo. Tinha um chapéu pensador e o Lampadinha, o seu melhor ajudante. O Professor Pardal era bom e amigo das pessoas, embora às vezes as suas invenções dessem, sem querer, para o torto. Quanto ao Pardal local, bateu asas e voou...

P.S. - Vasco Granja, lenda da velha RTP, cineclubista e extraordinário divulgador de cinema de animação e banda desenhada em Portugal, nasceu no dia 10 de Julho de 1925.

Também faço isto muito bem 436

Foto Hernâni Von Doellinger

Bruxedos à moda do Porto

Durante uma semana, um alguidar contendo um enorme galo sem cabeça e outras miudezas feiticeiras esteve em exposição no passeio junto ao portão de um dos cemitérios da cidade do Porto. O bruxedo apareceu ali da noite para o dia, toda a gente se queixou, toda a gente se desviou e ninguém teve coragem de mexer na coisa, de a mandar para o lixo. Nem o padre da igreja ao lado nem os coveiros. Trabalhar com almas e mortos está bem, desafiar maus-olhados é que não.
Passou-se um, passaram-se dois, três, quatro, cinco dias, e o galo ali, possivelmente já com o serviço feito e portanto sem mais poderes, mas nem assim alguém ousou tocar-lhe. O pessoal da Junta de Freguesia foi unânime, cada um passava a encomenda para o que vinha atrás, "Eu não, bruxedos não", até que a vizinhança viva reclamou (ciciando padres-nossos e ave-marias, de terço na mão e muitos sinais da cruz) que já não aguentava com o fedor.
Ora, o fedor, como toda a gente sabe, é problemática que sobe à alçada camarária. Em conformidade, foram requisitados os serviços de limpeza da cidade, que chegaram ao local e resolveram o assunto em três penadas. Isto é: "Eu também não, bruxedos não"...
Perante o impasse, alguém tirou a mola de roupa do nariz e alvitrou que se chamassem os Comandos da Amadora ou o Grupo de Intervenção de Operações Especiais da GNR, um pediu a presença da Brigada de Minas e Armadilhas da PSP e outra ainda sugeriu que se mandasse vir o Bruxo de Fafe para fazer marcha-atrás à coisa, tornando seguro o seu manuseamento. Mas a Junta não dispunha de verba orçamentada para pagar a especialistas.
Foi quando um dos da Câmara se lembrou que o Canil Municipal tem um camião com um gancho, uma espécie de braço mandado que podia solucionar mecanicamente, com os homens de longe e sem risco de agoiros, aquele problema bicudo. E ao sexto dia o todo-poderoso veículo veio e levou a coisa, para sossego enfim de todos os moradores, vivos e mortos, amém.
Esta história tão antiga foi na semana passada.

P.S. - Publicado originalmente no dia 29 de Novembro de 2011. 
De acordo com a mitologia nórdica, hoje, 10 de Julho, é Dia de Holda, senhora das bruxas.

Caminho 816

Foto Hernâni Von Doellinger

Borobó 3

Ailaralá, ailaralaila...
 

Ai que ledicia
mirar a Galicia
vestida de ouro!

Galiza castrexa
de flores de xesta.
Na primavera

agroman da terra
os tesouros

soterrados
dos mouros.
As xestas e os toxos
douran as brañas,
bouzas e os corarelos,
co ouro vello dos mouros,
dos mouros labregos
dos castros e castelos.

[...]

Borobó

(Borobó nasceu no dia 10 de Julho de 1916. Morreu em 2003.)

Só destes, tenho sete 138

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 9 de julho de 2020

O futebol e a noite

Convêm-me os jogos de futebol que começam em directo na televisão às nove e meia da noite. Como me deito às nove, na manhã do dia seguinte é tudo novidade para mim...

Soltem o prisioneiro!

Foto Hernâni Von Doellinger

O adeus às armas

Piopardo ao saco!
A caça ao gambozino é uma excelente e pacífica alternativa por exemplo à caça ao elefante ou à montaria ao javali. Mantém-se o lado lúdico e ecuménico, o são convívio, o almocinho e a merenda, a sacramental troca de mentirolas, mas poupa-se em perigo e em munições, dando-se uma mãozinha, por outro lado, à indústria nacional da serapilheira. Como se sabe, na caça ao gambozino os caçadores não usam armas de fogo, mas sacos e chibatas, e gritam: - Piopardo ao saco!... 

Duelo à sombra
"Ainda nos havemos de rir disto", disse o duelista com bigode ao duelista sem suíças, e puxou o gatilho.

P.S. - Hoje, 9 de Julho, é Dia Mundial pelo Desarmamento.

Também faço isto muito bem 435

Foto Hernâni Von Doellinger

Microcontos & outras miudezas 214

E assim nasceu Portugal
Afonso Henriques, esse gabiru de estilo motoqueiro que gostava de vestir saias e há quem diga que batia na mãe, tinha uma espada que pesava toneladas e não cabia no guarda-vestidos e nem sequer existiu. O espadalhão. Já o jovem Afonso ficou na história da moda por ter sido o criador da maxissaia. Morava geralmente no austero Castelo de Guimarães e tinha um anexo charmoso chamado Paço dos Duques onde dava as suas festas que eram sobremaneira constadas. No dia 24 de Junho de 1128, faz hoje anos, depois de uma dessas iglantónicas farras, noitada de São João ainda por cima, Afonsinho do Condado acordou digamos maldisposto, bebeu um copo de água da mina com bicarbonato, mandou chamar o pessoal e derrotou a progenitora, Dona Teresa de Leão, mailo seu amante galego, Fernão Peres de Trava, na Batalha de São Mamede, levada a efeito ali mesmo nas redondezas.
Isto explica mais ou menos o que ouvi uma vez no Parque da Cidade do Porto. Foi apenas um momento, o tempo de nos cruzarmos, mas deu para perceber que a conversa ia animada. De mão dada com a mãe, o miúdo, de seis ou sete anos se tanto, perguntou, cheio de certeza na resposta: - Ó mãe, a Espanha já deve ter sido de Portugal, porque D. Afonso Henriques ganhou a Espanha, não é? Já não escutei o que lhe respondeu a mãe, mas deve-lhe ter dito que não, que não é bem assim. E no entanto...

Oportunidade
Não perca a morte. Ela vem só uma vez. 

Distância
Levava muito a sério as recomendações das autoridades sanitárias a propósito do afastamento físico. Mantinha a própria sombra a pelo menos metro e meio de distância.

O futuro está no teletrabalho
Tem sido um sucesso o apoio domiciliário em teletrabalho a idosos sozinhos e acamados. O Governo pretende alargar a experiência aos transportes públicos e à construção civil.

Na sombra
Fechou-se em casa, com medo de ser contaminado. E manda a sombra fazer-lhe os recados.

Como quem demolha bacalhau
Com a pressa de acabar o campeonato de futebol dentro do prazo, as equipas são obrigadas a jogar praticamente de 72 em 72 horas. Como quem demolha lombos de bacalhau de quatro quilos.

A Coca faz-me falta
A pandemia quase que me tira a fé. Fátima foi o que foi e mesmo assim deu para o torto, o Senhor de Matosinhos andou por aqui a passear de atrelado, não sei como vai ser agora com a Senhora de Antime, em Fafe, mas sobretudo fez-me falta a Coca. A Festa da Coca de Monção, que coincide com o Corpo de Deus, também ficou sem efeito este ano derivado ao coronavírus. Eu estava habituado, gosto da Coca - para que é que hei-de mentir? Gosto. E a seguir, uma boa foda.

À espera...

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Genericamente falando

Fui à farmácia comprar o antibiótico. A senhora doutora farmacêutica perguntou-me:
- Marca ou genérico?
- O mais barato, se faz favor. Pode ser de saldo, se tiver, ou mesmo em segunda mão, se for em conta - respondi.
Veio o antibiótico. Genérico.
- São seis euros e setenta e nove - informou-me a senhora doutora farmacêutica.
- Seis euros e setenta e nove? - espantei-me. - Mas o senhor doutor médico escreveu aqui na receita que, e passo a citar, "esta prescrição custa-lhe, no máximo, 77 cêntimos, a não ser que opte por um medicamento mais caro"...
- Pois, mas não ligue a isso. É o que eles têm lá no sistema. O preço muda ao fim de três meses - disse-me a senhora doutora farmacêutica.
- Mas a receita é de hoje, fresquíssima - atalhei.
- Pois, mas é o sistema - reiterou a senhora doutora farmacêutica.
- E o sistema "deles" não é o mesmo sistema das farmácias? Entre 77 cêntimos e seis euros e setenta e nove vai uma diferença de quase dez vezes mais, como é que isto é possível? - inquiri e tornei a inquirir.
- Faça o favor de ver aqui no computador. Na verdade há mais barato, este de três euros e quinze, mas que hoje, por acaso, até já custa cinco euros e trinta e sete, e não temos - explicou-me a senhora doutora farmacêutica.
- Mas a custar 77 cêntimos é que nada - insisti.
- Nem de perto nem de longe, é o sistema - insistiu, por seu lado, a senhora doutora farmacêutica.
- E os senhores doutores médicos sabem? - eu.
- Sabem, sabem - a senhora doutora farmacêutica.
- Desculpe voltar ao mesmo: mas então porque é que os senhores doutores médicos escrevem estes preços nas receitas se sabem que estão a enganar os doentes?
- É para pressionar as farmácias - segredou-me a senhora doutora farmacêutica, chegando-se-me ao ouvido.
- E tem resultado, não tem? - devolvi-lhe eu, no mesmo tom confidencial. 


P.S. - Publicado originalmente no dia 16 de Agosto de 2014, então sob o título "Os médicos, as farmácias e o sistema". Os medicamentos genéricos começaram a ser vendidos em Portugal no dia 8 de Julho de 1992. A propósito: em Fevereiro de 2015 os jornais noticiaram que a Administração Regional de Saúde do Norte descobriu que havia "farmácias a vender genéricos demasiado caros". Vamos em 2020 e as farmacêuticas continuam comerciando à Lagardère com a saúde das pessoas. Mas porque é que ninguém me pergunta?...

El Zorro

Foto Hernâni Von Doellinger

Caixa de Evaristo

Quando abriram a caixa de Pandora, estava lá dentro o Evaristo. Foi um escândalo!

Também faço isto muito bem 434

Foto Hernâni Von Doellinger

Laurindo Rabelo 6

A menina do banqueiro

O diabo da menina
Comigo se enrabichou
De tal modo que por mim
Um banqueiro abandonou.

Dava-lhe o rico banqueiro
Seiscentos mil réis mensais,
Eu por dia dou-lhe cinco,
A menina pede mais.

Pede mais, mas não me deixa
Gosta mais do meu dinheiro,
Acha mais gosta nas minhas
Que nas notas do banqueiro.

Trata as minhas com apreço,
Trata as dele com desdém,
Eu não sei, ela é quem sabe
As minhas que gosto têm.

O banqueiro é um labrego
Grosseiro por natureza,
Talvez que as notas nem saiba
Dar-lhe com delicadeza.

Ele dá notas mensais,
Eu dou as minhas por dia,
Com toda a delicadeza,
Com toda a diplomacia.

Às vezes eu dou-lhe as notas
Com jeitos e modos tais,
Que em suspiros dá-me em troca
Ternas notas musicais.

Feito o troco, diz, tremendo
A bolsa do meu dinheiro,
Quem é que troca esta bolsa
Pelo banco dum banqueiro.

Laurindo Rabelo

(Laurindo Rabelo nasceu no dia 8 de Julho de 1826. Morreu em 1864.)

Mobiliário urbano (propriamente dito) 183

Foto Hernâni Von Doellinger

Fausto Wolff 6

Os cavalos não correm
para vencer.
Correm para correr,
pois para isso
foram desenhados.
Também não vivo
para vencer.
Vivo para viver,
pois para isso
me desenhei. 

"Cem Poemas de Amor e Uma Canção Despreocupada", Fausto Wolff

(Fausto Wolff nasceu no dia 8 de Julho de 1940. Morreu em 2008.)

Music was my first love 66

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 7 de julho de 2020

O casal Carter e o casal Garcia

O casal Carter, Jimmy e Rosalynn, comemora hoje 74 anos de casamento, tantos quantos contam de vida o pândego Donald Trump e George W. Bush, o inventor das armas químicas do Iraque. Jimmy Carter e Rosalynn Smith Carter têm o matrimónio mais duradouro de toda a história presidencial dos Estados Unidos. E os americanos estão todos contentes, porque acham sempre que são os maiores. Eles não sabem que, em Portugal, o Casal Garcia, since 1939, é só fazer as contas, já vai em 81 anos...

In american way 14

Foto Hernâni Von Doellinger

O melhor actor do mundo

A conversa já tem alguns anos. Ao balcão do salão de bilhares, o empregado do bar e alguns clientes ligados à famosa "segurança da noite" nortenha discutem animadamente sobre uma questão fundamental: quem é o melhor actor do mundo - Sylvester Stallone, Arnold Schwarzenegger ou Jean-Claude Van Damme? As opiniões dividem-se, ameaçam-se. E eu, ao lado, penso: evidentemente esqueceram-se do Steven Seagal e do Chuck Norris. 

P.S. - No Canal Hollywood, da televisão por cabo, Julho é "Mês do Steven Seagal". Um mês inteiro! De Steven Seagal! Que mal é que fizemos a Deus?...

I want to ride my bicycle 101

Foto Hernâni Von Doellinger

Super Pop Limão Reserva 2017

Era um escanção com um paladar e um olfacto apuradíssimos, premiados. Até adivinhava o detergente que lavara os copos...

Offshore, se fashavore 259

Foto Hernâni Von Doellinger

Os Bítalas

Os Bítalas eram um conjunto e cantavam obladi oblada. Eram quatro, sendo que o do bombo tinha cara de morcão, e chamavam-se Bítalas exactamente por terem cabelo grande, mas que afinal não era assim tão grande, como os hippies vieram depois a demonstrar - era apenas um cabelinho amaricado, aparadinho, muito anos vinte, muito tipo Beatriz Costa. Os Bítalas eram ingleses de Liverpool e do mundo. Em Portugal, no tempo em que imperava o corte à tigela (ou malga, consoante a parte do país), quem tivesse o cabelo a roçar as orelhas era Bítala. Eu fui, mas cantava num orfeão e por isso passei ao lado de uma grande carreira.

P.S. - Publicado originalmente no dia 19 de Maio de 2016. Richard Starkey, aliás Ringo Starr, o baterista dos Beatles, nasceu no dia 7 de Julho de 1940.

Também faço isto muito bem 433

Foto Hernâni Von Doellinger

Artur Azevedo 6

Miserável

O noivo, como noivo, é repugnante:
materialão, estúpido, chorudo,
arrotando, a propósito de tudo,
o ser comendador e negociante.

Tem a viuvinha, a noiva interessante,
todo o arsenal de um poeta guedelhudo:
alabastro, marfim, coral, veludo,
azeviche, safira e tutti quanti.

Da misteriosa alcova a porta geme,
o noivo dorme num lençol envolto...
Entra a viuvinha, a noiva... Ó céu, contém-me!

Ela deita-se... espera... Qual! Revolto,
o leito estala... Ela suspira... freme...
e o miserável dorme a sono solto!...


Artur Azevedo 

(Artur Azevedo nasceu no dia 7 de Julho de 1855. Morreu em 1908.)

Music was my first love 65

Foto Hernâni Von Doellinger

Fino como um alho

Burro como um soco. Duro como um corno. Bêbado como um cacho. Quer-se dizer: o soco, o corno e o cacho, que culpa é que têm?...

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Dois bons: o Nestinho e o Seninho

Foto PURO PORTISTA

Ennio Morricone (1928-2020)

Sou dos filmes de cobóis desde pequenino e particular consumidor dos spaghetti de Sergio Leone com molho de Ennio Morricone. Tenho-os na despensa, a colecção completa e indispensável. Gosto. Gosto e assobio. Vejo-os sempre que me apetece, e se dão na televisão (como dão de vez em quando na RTP 2, cada vez menos, ou agora nestes canais que nos saem do bolso, como por exemplo no Fox Movies ainda aqui atrasado), não mando ninguém ver por mim. Vejo. Vejo e assobio. Porém, ao fim destes anos todos e após milhões de sessões, devo confessar o seguinte: continuo sem perceber a morte dos bandidos. Há ali qualquer coisa que não bate certo. Quer-se dizer - os bandidos é como tordos, morrem uns atrás dos outros até chegar ao chefe, e assim é que está bem, mas já repararam à custa e ao fim de quantos balázios? Já contaram quantas balas são precisas para matar um bandido, um só, nem que seja um simples soldado raso, figurante praticamente? Mais de dezasseis e todas na muche, até que o estafermo do bandido, um só, aceite esticar de vez o pernil, deixando o filme avançar. É muita despesa e má propaganda à inquestionável pontaria, por exemplo, de um atirador da marca de Clint Eastwood. Em contrapartida, quando a coisa é resolvida à facada, o mau da fita morre logo à primeira. Tiro e queda, já viram?
Acho mal. E no entanto assobio. Ennio Morricone é que sabe...

Sergio Leone morreu no dia 30 de Abril de 1989, aos 60 anos. Fiquei entretanto a saber que, na escola primária, Leone foi companheiro de Ennio Morricone, e daí decerto é que vem a rima. Quanto a Morricone, nos últimos tempos andava a despedir-se, em concertos, depois de dar música a mais de 500 filmes e programas de televisão. Não digo adeus Morricone, digo viva Morricone, porque Morricone não vai, Morricone fica. No ouvido. No meu cinema paraíso. E eu assobio...
 
P.S. - Publicado originalmente no dia 23 de Março de 2013. Ennio Morricone morreu hoje, em Roma, aos 91 anos.

Só destes, tenho sete 137

Foto Hernâni Von Doellinger

A vida às vezes

Vivia incógnito num par de sapatos emprestados. Dera a gravata única e excessiva a um desconhecido, que se enforcou.

As crianças vão sempre à frente

Foto Hernâni Von Doellinger

Num beijo

Insolvência
Dava-te um beijo. Mas não tenho...

Num beijo
Num beijo nada! - queixava-se. E realmente.

O auto-suficiente
Beijo-me e desejo-me - dizia.

Como se...
Era efectivamente um poeta. Segredava-lhes ao ouvido, de voz pisca e olhos tremelicantes: - Beijo-te como se te beijasse...

P.S. - Hoje, 6 de Julho, é Dia Internacional do Beijo. E também foi a 13 de Abril. Tanta fartura, para depois desrecomendar. Que seca!...

Também faço isto muito bem 432

Foto Hernâni Von Doellinger

João Abel 4

Apontamento

curvada ao peso
ao peso brutal
dos blocos de pedra
e os olhos no chão
os olhos na terra
anda na obra
levando o cimento
a pedra e a cal
ao mestre pedreiro

e curvada ao peso
ao peso da vida
de lágrimas secas
e sangue sem vida
traz o seu filho
preso nos panos
nas costas curvadas
ao peso brutal
do cimento e da areia
que leva cantando
ao mestre pedreiro


"Bom Dia", João Abel

(João Abel nasceu no dia 6 de Junho de 1938)

Mobiliário urbano (propriamente dito) 182

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 5 de julho de 2020

Preto no branco

Dona Irene tinha uma empregada preta. Foi insultada e apedrejada na rua, derivado a escravatura, colonialismo e racismo, e só não lhe cortaram a cabeça porque não era uma estátua e isto ainda é um país de brandos costumes. Dona Irene é preta, insiste que é preta, é preta retinta, mas ninguém se acredita...

P.S. - A empregada preta da preta Dona Irene foi resgatada. Está finalmente desempregada, graças a Deus.

T5 mobilado e equipado

Foto Hernâni Von Doellinger

Os bois chamam-se pelos nomes

O porco é Ruço. A porca Vadia. A vaca Amarela. O boi Bonito. O touro Osborne. A turina Malhada. O cão Bobi. A cadela Cadela. O cachorro Kent. O gato Pantufas. A gata Gostosa. A cabra Cega. A ovelha Dolly. O cabrito Montês. O cavalo Silva. O burro Velho. O rato Mique. O coelho Branco. O leopardo Negro. A chinchila Mila. O furão Furão. A tartaruga Ninja. A mulher Alheia. O homem Erecto. O peixe Dourado. O surfista Prateado. A sardinha Biba. A pita Arisca. A periquita Alegre. O pombo Armando. O crocodilo Lontra. A lontra Pilantra. O pato Patola. O galo Badalo, a galinha Balbina, o pinto Jacinto e o peru Gluglu.
Assim se chamam os bois pelos nomes.

P.S. - Publicado originalmente no dia 28 de Março de 2019. A ovelha Dolly nasceu, por assim dizer, no dia 5 de Julho de 1996. Foi o primeiro mamífero clonado com sucesso a partir de uma célula adulta. E faleceu em Fevereiro de 2003.

Também faço isto muito bem 431

Foto Hernâni Von Doellinger

Álvaro Feijó 4

Poema

Fundiu-se o olhar do poeta em lágrimas salgadas
e o poeta não quis cantar o que os seus olhos viram.
É que o poeta só cantava
para as meninas dos balcões floridos
de cactos e de cravos,
para aquelas
que sonham com estrelas
e príncipes de lenda.
- E preferiu cegar.
Fechar os olhos ao vaivém da rua
e continuar morando em sua Torre de Marfim.

Ah! Poeta inútil!
Enrouqueceu a cantar as líricas inúteis
aos cravos das janelas
das meninas fúteis
e ninguém mais se lembrará de ti.
Mas se cantares a rua, a fome, o sofrimento,
se abrires os olhos sobre o nosso mundo,
se conseguires que toda a gente o veja
e o sinta, e sofra, só de ver sofrer,
ninguém se lembrará de ti, poeta,
mas terás feito a tua luta,
e, nela,
justificado uma razão de ser.


Álvaro Feijó

(Álvaro Feijó nasceu no dia 5 de Julho de 1916. Morreu em 1941.)