quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

O meu reencontro com o grande Taborda

Encontrei ontem por acaso o Taborda, o velho Taborda, o grande Taborda - aos anos que não nos víamos! Recordámos os tempos antigos, falámos das nossas vidas, da família, dos filhos, dos netos, dos amigos que já morreram, do coronavírus, da eutanásia, do Marega, de projectos para o futuro. Enfim, pusemos a conversa em dia. Despedimo-nos calorosamente trocando abraços e números de telemóvel e apalavrando a marcação de um almoço, cada qual seguiu para o seu lado, e só então é que eu reparei que aquele não é o Taborda, nem sequer é parecido com o Taborda. Na verdade, tenho agora a certeza absoluta de que não conheço este indivíduo de lado nenhum. Em todo o caso, gostei muito de falar com o Taborda.

Interlúdio fotográfico 222

Foto Hernâni Von Doellinger

Pepetela vence Prémio Correntes d'Escritas

Num enorme salão deitado num caixão jaz um ditador africano. Está morto, mas vê, ouve e pensa. Assim estirado, aprisionado num corpo sem vida, mas na posse das suas faculdades intelectuais, só lhe resta entreter-se a recordar as peripécias vividas com muitos dos que lhe vieram dizer adeus, entre os quais se encontram diversos familiares, a primeira-dama (e as outras mulheres e namoradas), os numerosos filhos e as altas dignidades do Estado.
Ao relembrar a sua vida, o percurso que o levou a presidente e os muitos anos como chefe de Estado, vai-nos revelando os meandros do poder político, o nepotismo que o corrói e os vários abusos permitidos a quem o detém.

E, como percebe tudo o que se passa à sua volta, e é muito difícil a um ditador deixar de o ser, Sua Excelência não só vai tecendo considerações sobre os presentes e os seus interesses políticos, como tenta adivinhar os seus pensamentos e maquinações. Pois, mesmo morto, não deixará a sua sucessão em mãos alheias, e nela tentará imiscuir-se através do seu espião-de-um-olho-só, que lhe é tão fiel na morte como era em vida.

"Sua Excelência, de Corpo Presente", Pepetela

(O escritor angolano Pepetela foi hoje anunciado como vencedor do Prémio Literário Casino da Póvoa do Correntes d’Escritas 2020, com "Sua Excelência, de Corpo Presente")

Também faço isto muito bem 333

Foto Hernâni Von Doellinger

Do monólogo ao solilóquio

Tomou a palavra logo a seguir a si próprio, desvanecido com tamanha facúndia. Falou, falou, falou, até que a voz lhe doeu. Então sentou-se e aplaudiu-se entusiasticamente. 

Caminho 777

Foto Hernâni Von Doellinger

Xosé María Díaz Castro 8

Cortina

Diante él unha muller, doce feitura,
i un fillo criado, única vitória.
Tras dél fragas zuando, paus, loucura,
e mozas coma rosas, longa hestória.

Ei Farruco da Rolda: Dame lume.
Terma aínda da lus que antre nós arde.
Pro non! Non tento máis que pedra e fume,
i en toda cousa se metéu a tarde.

Nesa tarde cargada de lorbagas
véu o Siléncio. Xa tras dél as fragas,
perdidas coma ovellas, a zuar.
Tras dél o fillo, a casa i a muller.
Morréu. Os bois volveron a pacer
e trálo arado as pegas a brincar...

"Nimbos", Xosé María Díaz Castro

(Xosé María Díaz Castro nasceu no dia 19 de Fevereiro de 1914. Morreu em 1990.)

Offshore, se fashavore 283

Foto Hernâni Von Doellinger

À mesa

Isto devia ser ensinado desde os bancos da escola: o telemóvel não faz parte do talher. O talher é composto pelo conjunto de garfo, colher e faca e comando de televisão. Mais nada.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

O Zegolina e a Jigulina

Foto Tarrenego!

Vika Jigulina, nome artístico de Victoria Corneva, é uma cantora, compositora, DJ e produtora romena nascida na Moldávia no dia 18 de Fevereiro de 1986. E não me interessa para nada. Por outro lado: Armando Zegolina, sobrenome conquistado na rua pelo cidadão Armando Sousa, era um fafense excelentíssimo e campeão mundial da maledicência. Campeão invicto e ininterrupto, é preciso que se note. Em pequeno o Armando gostava muito de brincar esvaziando os pneus de todos os automóveis que lhe calhassem à mão de semear e longe da vista dos donos. Ele explicava que lhes estava a tirar a... zegolina. E daí o nome e a lenda. O nosso Zegolina jogou futebol até aos juniores na AD Fafe e, entre 1968 e 1971, foi pára-quedista e tratador-treinador de cães de guerra. Voluntário. Cumpriu oito meses de Guiné, durante os quais realizou 21 saltos, quase sempre em situações de combate. Foi operário têxtil evidentemente na Fábrica do Ferro, emigrante em França no ramo dos elevadores, e quando tornou a casa, em 1979, fez-se electricista por correspondência e montou negócio. Frequentávamos ambos o inevitável Peludo e acompanhámos depois a módica deslocalização do Peixoto, que foi só virar a esquina. Éramos amigos, eu e o Zegolina - mais o grande Manel Zebras, os três à mesa pária em que mais ninguém queria entrar. Éramos amigos. Amigos conversantes, confidentes, cúmplices e leais. E o Zegla até nem era nada disso de amizades derivado à língua, embora por detrás da língua desgovernada estivesse um homem generoso, bom rapaz, um pouco tímido até, como o da cantiga da Madalena Iglésias, mas ele não queria que se soubesse. Era ruim só da boca para fora.
O Zegolina morreu há anos, mas muito antes do prazo, com o corpo cobardemente escangalhado pela sorrateira doença dos pezinhos. E isso - digo-o a quem de direito - não se faz.

Com licença

Foto Hernâni Von Doellinger

Honestidade a toda a prova

Era um chef de uma franqueza que só vista. Tinha um aclamado programa televisivo, e não raras vezes, após confeccionar e provar os seus requintados pratos de assinatura, sentenciava, de colher a meia haste, olhos revirados e boca em biquinho de deleite e aprovação: - Hummm! Que merda!...

Olímpico

Foto Hernâni Von Doellinger

António Aleixo 8

Uma mosca sem valor
Poisa com a mesma alegria
Na careca de um doutor
Como em qualquer porcaria.

"Este Livro Que Vos Deixo...", António Aleixo

(António Aleixo nasceu no dia 18 de Fevereiro de 1899. Morreu em 1949.)

Descalça vai

Foto Hernâni Von Doellinger

Lêdo Ivo 3

Duração
 
Toda vida é breve
por mais que ela dure
entre a areia e o vento.

Todo amor é leve
mais leve que a neve
que cai sobre a relva.

Toda vida é treva
por mais que a ilumine
a luz de cem velas.

Todo fruto é amargo:
morde-o a morte com
seu único dente.

Toda eternidade
não dura um minuto
na manhã serena.


"Curral de Peixe", Lêdo Ivo

(Lêdo Ivo nasceu no dia 18 de Fevereiro de 1924. Morreu em 2012.)

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

A sesta do meu avô da Bomba

Foto Hernâni Von Doellinger

Eu ainda não sabia que aquela "meia horinha" se chamava assim, mas o primeiro adulto que eu vi a fazer a sesta foi o meu avô Manuel, o 17 da Bomba, que não era terrorista e ganhara a explosiva alcunha derivado a ser o bombeiro número 17 e quarteleiro dos bombeiros de Fafe. O meu avô morava no quartel dos bombeiros, que, para todos os efeitos, era a Bomba.
Naquela casa só se comia e bebia do bom e do melhor, embora regrado. Muito regrado. Depois do almoço, o meu avô descia até à camarata e estendia-se numa das camas, a primeira à entrada do lado esquerdo, tapando a cara com o Jornal de Notícias. O JN era naquela altura um jornal grande, quase um lençol, muito jeitoso para a sesta, e o meu avô, contrariando a regra geral, gostava de dormir sob aqueles assuntos.
As minhas tarefas em relação à sesta do meu avô eram ir buscar o JN e passar de vez em quando pela camarata para, se necessário, corrigir a posição do jornal. Tinha uma terceira tarefa, não editorial, que era andar em bicos de pés e de bico calado.
O Jornal de Notícias do meu avô era comprado a meias com o Sr. Ferreira do Hospital, que o lia primeiro, e depois eu ia buscá-lo, ou então ficava cada um com metade das páginas e a uma certa hora da manhã eu fazia a troca, já não me lembro bem.
O Sr. Ferreira do Hospital e o meu avô foram amigos e cúmplices toda a vida. Eram unha com carne, apesar de diferentes como a água e o vinho: o Sr. Ferreira era comunista, tinha estado preso, e o meu avô... antes pelo contrário. Para além de comunista, o Sr. Ferreira era um homem bom, um grande Homem que eu admirava e gostava de ouvir. Anos passados, aos domingos, eu à beira de ir para a tropa e sem emprego, o Sr. Ferreira cumprimentava-me com uma nota de 20 escudos escondida na mão tremente.
O meu avô da Bomba fazia a sesta muito bem. Naquele tempo ainda não era moda dizer-se que a sesta faz bem à saúde, o que até vinha mesmo a calhar ao meu avô, que era "uma pessoa muito doente". Era também preguiçoso, como vim a concluir mais tarde, o que me livrou do divã do psiquiatra e despesas adjacentes, uma vez que consegui perceber sozinho que tenho bem a quem sair.
Quando éramos miúdos, o meu avô punha-nos a bulir como gente grande, a mim e ao meu irmão Nelo. Eu era pau para toda a colher: limpava os capacetes e outros amarelos com solarine Coração e uma espécie de pó de talco, lavava as viaturas, verificava o óleo e colocava água nos radiadores, anotava as quilometragens, lavava, punha a secar e enrolava as mangueiras depois dos incêndios, metia baterias à carga, enchia as baterias com água da chuva colhida num garrafão com funil que estava no telhado, ia chamar motoristas para as saídas urgentes de ambulância, servia de bombeiro, varria o "parque do material", levava avisos a casa dos bombeiros, atendia o telefone, tocava a sirene (era a parte de que eu mais gostava), hasteava as bandeiras aos domingos e dias de festa, ia à cave buscar vinho, "sempre a assobiar!", segundo ordens superiores. Enfim, eu é que era o verdadeiro Bomba. E não saía de lá. Também porque naquela casa só se comia e bebia do bom e do melhor - já disse.

Tenho-me esquecido de ir buscar o jornal para o meu avô da Bomba e também já há muito que não estou com o Sr. Ferreira do Hospital. Aqueles dois nem devem ter reparado. Estão entretidos a meterem-se um com o outro, foram sempre assim, ou então dormem uma bela sesta, cada qual com a sua metade de JN sobre o rosto. Quando nos voltarmos a encontrar, os três, ainda nos havemos de rir disto tudo.

(Publicado originalmente no dia 8 de Outubro de 2011. Hoje é dia 17 e pronto.)

Goodbye Maria Ivone

Foto Hernâni Von Doellinger

Vou comprar um cortador de plasma

Vou comprar um cortador de plasma. Isto é, encarreguei a minha mulher de comprar-me um cortador de plasma. O cortador de plasma é capa do último folheto publicitário do Lidl que me meteram cá em casa e está num preço realmente muito jeitoso - 139 euros a partir de hoje e com stock limitado. A minha mulher perguntou-me "O que é um cortador de plasma?" e eu pedi-lhe "Sim, vê-me isso também..."

Também faço isto muito bem 332

Foto Hernâni Von Doellinger

Maria Braga Horta 3

Nox

É teu cone que se desloca lento e solene
sobre a esfera abrasada:

telescópio que a Terra aponta aos astros.
Contrária noite cúmplice:
sem teu não de negrume à luz radiante,
que saberíamos de estrelas?


Maria Braga Horta

(Maria Braga Horta nasceu no dia 17 de Fevereiro de 1913. Morreu em 1980.)

Ponha aqui o seu pezinho

Foto Hernâni Von Doellinger

Rogério Rodrigues 2

Há rios claros, há povoados abertos mesmo que desertos, há água
que lave esta inquieta vontade de nada? Há cordas que amarrem a alma
ao poste da memória e te obriguem a confessar a tua profunda
amnésia? Há tempo para amar ainda quando o resto é tudo
tão breve? Há olhares que nos procuram quando a cegueira alastra?
E há algum sentido para o sentido que isto tem? Há ruas para andar
por onde andaste, com a soleira das portas cheias de sombras?
Há navegações ocultas de que nem tu suspeitas no último adeus
em que acordaste? Há o Homem por trás da cortina da tua casa
desabitada? Há gritos repartidos pela vontade de gritar, quando calas
o próprio silêncio? Há fontes e nascentes e cavalos e portos
quando a condição de ser te prende? Há canções ao fim do dia? Há
que tempos te procuras e não sabes que só a morte não é Interrogação?!

"Nove Poemas de Novembro", Rogério Rodrigues

(Rogério Rodrigues nasceu no dia 17 de Fevereiro de 1947. Morreu em 2019.) 

Os patos que nenhuma filha de rei guardou

Foto Hernâni Von Doellinger

Mal passado

A questão é muito simples: será insulto chamar bife ao camone?

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Espero que ao receberes esta

Foto Hernâni Von Doellinger

Cinco minutos de doze em doze horas

Foi à farmácia e comprou três quartos de hora. Afinal, o tempo é o melhor remédio.

Também faço isto muito bem 331

Foto Hernâni Von Doellinger

Luísa Dacosta 6

Entretenimento

Como quem procura conchas à beira do mar,
escolho as palavras para te dizer,
quando o silêncio dos teus braços
vestir o frio dos meus ombros.


"A Maresia e o Sargaço dos Dias", Luísa Dacosta

(Luísa Dacosta nasceu no dia 16 de Fevereiro de 1927. Morreu em 2015.)

Caminho 776

Foto Hernâni Von Doellinger

Lois Pereiro 7

Mala sorte

E por primeira vez desde que souben
que aínda respiraba e seguía vivo
sei o que é sentir medo a non estalo

Interrompido na mellor escea
cando estaba soñando un soño dérmico
de paixón e beleza
cunha serea distancia literaria e sabia

Só ela podía ser tan inoportuna
groseira inculta e pouco delicada
chamándome despois de ter sobrevivido
á confortable atracción do fracaso
e saber dunha vez o que era a vida
amar e ser amado.


"Poesía Última de Amor e Enfermidade", Lois Pereiro

(Lois Pereiro nasceu no dia 16 de Fevereiro de 1958. Morreu em 1996.)

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Dos tomates e do decoro. E vice-versa.

Foto Hernâni Von Doellinger

Está na rua uma campanha publicitária ao tomate pelado Guloso. Uma desnecessidade para mim, que na cozinha sou utilizador habitual, para não dizer compulsivo, deste produto. Ora bem: há coisa de dois anos o tomate pelado Guloso, como quem diz o tomate nudista, começou a aparecer-me cá em casa vestido, isto é, com pele. Seria pudor? Como já aqui contei, aproveitei a última década para passar de bovino come e cala a guerrilheiro da reclamação, e não me tenho dado mal. Dei-me até muito bem num gramático protesto a propósito de uma alheira de caça à qual faltava a cedilha, como também aqui detalhei.
Que se segue: resolvi contactar o próprio Sr. Guloso, perguntando-lhe, preocupado e mais respeitosamente era impossível, se por acaso não estaria o Excelentíssimo passando por alguma crise de escrotal decoro (há que chamar as coisas, neste caso os coisos, pelo nome), e aproveitei para me queixar do cada vez maior verdor e da cada vez maior acidez do produto em questão. O tomate pelado, não esqueçamos.
O meu e-mail teve resposta em quinze dias. Uma resposta profissional, simpática e, pareceu-me descortiná-la, com uma pitada de ironia no estrugido, que foi o que melhor me soube. Fui informado de que os tomates de que eu reclamava tinham sido produzidos "na campanha de 2017, que, por condições extremas do tempo (chuvas em final de Abril e Maio), se traduziu em tomate mais ácido, com menos cor e que se separa da pele com mais dificuldade."
Como forma de "atenuar a imagem menos positiva" que em mim lamentavelmente provocara, o Sr. Guloso revelou a intenção de enviar-me "um cabaz de produtos da marca, incluindo pelado da campanha de 2018, na expetativa de" me "fazer chegar um tomate pelado mais condizente com o nome". Obviamente agradeci e recusei a oferta, hábito antigo do velho ofício.
Agora. Estamos no ano de 2020. O tomate pelado Guloso continua a chegar-me a casa com pele, verde e ácido, rigorosamente como o da famigerada e defeituosa colheita de 2017. Conclusão, das duas uma: em Portugal os anos são todos de "condições extremas do tempo (chuvas em final de Abril e Maio)", pelo menos para os tomates, ou então há três anos que todos os anos são 2017. O que é lamentável e vice-versa.

Também faço isto muito bem 330

Foto Hernâni Von Doellinger

E hoje é o quê?...

Ontem foi o Dia dos Namorados. E hoje? Com a velocidade a que os tempos correm e mudam as vontades, nunca sei como é que se diz: se hoje é o ex-Dia dos Namorados ou o Dia dos ex-Namorados.

P.S. - Para que conste, hoje é Dia Internacional da Criança com Cancro.

Interlúdio fotográfico 221

Foto Hernâni Von Doellinger

Marcial Suárez 5

- O viño! - pensou. Enchinme tanto de viño, que agora verto.
Pero o que vertía era sangue. Cando se decatou, botou pola rúa enriba, deica a casa do médico. Petou na porta, tan forte como pudo, e berrou:
- Acúdanme! Válanme! Teño a cabeza esfolada!

"O Acomodador e Outras Narracións", Marcial Suárez

(Marcial Suárez nasceu no dia 15 de Fevereiro de 1918. Morreu em 1996.)

Caminho 775

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Se queres que te diga, mulher

Se queres que te diga, mulher, eu não saberia ser casado com outra.

Mobiliário urbano (propriamente dito) 145

Foto Hernâni Von Doellinger

Hoje, e parece que foi ontem

Casámo-nos no Dia dos Namorados. Faz hoje exactamente... diversos anos. (Isto é: mais um do que no ano passado.) Naquele tempo nem se sabia que havia Dia dos Namorados e não fazia falta nenhuma: ainda não tinham sido inventadas as lojas de inutilidades nem as ementas de namorados em restaurantes oportunistas. Namorava-se e pronto, e namorar era bom. Namorar é bom!
Mas o que eu quero dizer: o Dia dos Namorados é uma treta; o aniversário do nosso casamento, não.

Interlúdio fotográfico 220

Foto Hernâni Von Doellinger

O senão do Aristeu

- Ó mor, já posso chamar-te Arismeu? Hoje, pelo menos...

Perseguição

Foto Hernâni Von Doellinger

Corsino Fortes 6

Poema perdido
no pó poalha da palavra
pavor do poeta.

Corsino Fortes

(Corsino Fortes nasceu no dia 14 de Fevereiro de 1933. Morreu em 2015.)

Também faço isto muito bem 329

Foto Hernâni Von Doellinger

Homem de família

A família, para ele, era tudo. Aliás, tinha duas.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Ouço rádio a preto-e-branco

Foto Hernâni Von Doellinger

Comecei a ver o Sporting-Benfica na cozinha, ouvindo o relato na rádio Antena 1. Estava a ser um derby de arromba, bola cá, bola lá, quase-golos uns atrás dos outros, os relatadores esganiçados com tanta emoção, faltava-lhes o ar, que jogatana, que jogatana! Fui a correr para a sala e liguei a televisão, para ver com os meus próprios olhos: o jogo era fraquinho, não havia dois passes seguidos certos, os do Benfica entregavam a bola aos do Sporting e os do Sporting, porventura por civilidade anfitriã, entregavam a bola aos do Benfica, política de boa vizinhança, ao contrário do que nos querem fazer crer. Entre estas cortesias a meio campo, e sempre e ainda no dito miolo do terreno, sarrafava-se a bom sarrafar, mas dentro do protocolo estabelecido. Que merda! Voltei, desiludido, para a cozinha, liguei outra vez o rádio: o prélio tornou a ser uma categoria, um frémito, um frenesim, só não era golo porque não calhava. Eram defesas impossíveis, eram perdidas inacreditáveis, só se jogava nas áreas. Fiquei-me portanto pelos 96.7, que até podia ter sido o resultado final, tantas as oportunidades radiofónicas, e regalei-me. Que jogaço, que jogaço! Esqueçam a televisão por cabo, que nos custa os olhos da cara e só nos dá espectáculos deprimentes. O futebol, para ser bom, deve ser visto na rádio Antena 1. A rádio conta-nos o que não é, mas alegra-nos a vida. A rádio tem futuro. Os dias da rádio são os dias que hão-de vir.
Na verdade - e aqui que ninguém nos vê -, o melhor da televisão é que agora dá rádio.

Eu sou pela Antena 1 desde pequenino, ainda a Antena 1 se chamava Emissora Nacional e dava os resultados da 3.ª divisão e dos distritais já pela noite dentro e era uma comoção tremenda ouvir dizer Fafe, Associação Desportiva de Fafe, no Philips da mesinha de cabeceira dos meus pais. Ficávamos ali todos à espera, a família, como se estivéssemos a rezar o terço mas de boca calada, angustiados e alerta, porque aquilo era dito uma só vez, como no "Alô, Alô", e com a rapidez do "não dispensa a consulta do prospecto". Vamos supor: o jogo do Fafe tinha sido em Arcos de Valdevez, que naquela altura era muito longe e não havia telemóveis (eu sei que é difícil de acreditar); não fora o rádio e só saberíamos o resultado a altas da madrugada, se tivéssemos vagar para isso, quando a excursão regressasse ao Largo, e não era certo. O resultado. Porque o vinho também é bom, mas às vezes atrapalhava as contas.

"Bom dia, boa tarde ou boa noite, conforme a hora e o local em que nos escuta". Ouço portanto rádio. Sou antigo, sou do tempo da rádio a preto-e-branco. Sou um prezado ouvinte e com muito gosto. Prefiro os dicionários encadernados à Wikipédia e os livros de uma forma geral às séries televisivas "de culto". Prefiro o éter à água oxigenada. A dominical Tarde Desportiva, David Ferreira sempre e aquela meia hora dos dias da semana a seguir ao meio-dia ligam-me sacramentalmente à Antena 1.
O rádio faz parte da minha vida, acompanha-me desde que me lembro de mim, conserva-me as mais doces memórias, frescas ou em banho-maria consoante a época do ano. Como por exemplo:

Todas as noites. Após a oração ao anjo da guarda e o sinal-da-cruz feito "sem aldrabices" por ordem expressa e vigilante da nossa mãe, íamos para o nosso quartinho de duas camas, uma cama para a Nanda e a cama maior para o Nelo e para mim. A nossa mãe deitava-se enfim, exausta e nós não sabíamos, e ligava o rádio na Emissora Nacional. Dava teatro. Do lado de cá do tabique, eu, o Nelo e a Nanda pedíamos "mais alto". Também queríamos. (Ou)víamos silentes e na maior das comoções, porque aquelas histórias não eram para brincadeiras. Interrompíamos apenas para um que outro pedido de esclarecimento acerca da senhora que fazia a vida negra ao senhor e que, todos concordávamos com a nossa mãe, era "uma cabra", embora eu não visse nisso grande defeito. Na escola já tinha feito algumas redacções sobre "A cabra" e por isso sabia que a cabra é um animal doméstico e serve, nomeadamente, para a nossa alimentação, que era assim que a coisa se rematava.

O teatro terminava, vinha a ficha técnica - porventura Jorge Alves, Manuel Lereno, Carmen Dolores, Rui de Carvalho, Eunice Muñoz ou Canto e Castro... nos papéis de -, mas a nossa mãe só desligava depois do "Samuel Dinis ensaiou", que era mesmo o fim, e o rádio dizia "Denis". Trocávamos boas-noites dum lado para o outro do tabique. "Agora vamos dormir", mandava a nossa mãe, e nós apertávamo-nos aos cobertores, contentes pela soirée e mortinhos por obedecer.

Todas as noites. Cinco ou dez minutos passados, a minha mãe dava um toquezinho na parede e perguntava, numa voz de embalar:
- Estais a dormir?
- Eu estou - respondia sempre eu.
- Lindo menino - dizia a minha mãe. E eu adormecia feliz. Radioso.

(Excertos e mistura de três ou quatro velhos textos do Tarrenego! ligados à rádio. Há muitos mais. Hoje é Dia Mundial da Rádio.)

Sem mãos (e pés) a medir

Foto Hernâni Von Doellinger

O amor é lindo

O amor é muito lindo. O jackpot do Euromilhões é muito mais.

Mobiliário urbano (propriamente dito) 144

Foto Hernâni Von Doellinger

Love is in the air

Parzinho de namorados. Romântico e fumador. O rapaz dá uma passa no respectivo cigarro e a seguir lança ao ar uma imensa nuvem de fumo. A rapariga dá uma passa no respectivo cigarro e a seguir o rapaz lança ao ar uma imensa nuvem de fumo. O que é extraordinário.

Também faço isto muito bem 328

Foto Hernâni Von Doellinger

Agostinho da Silva 7

Poema de Caeiro a fingir-se de Ofélia

Nandinho, como é isso de pensar,
e nada mais fazes do que pensar que não pensas,
que sou eu um fantasma à Campos ou à Reis ou à quem não sei quem,
que tu julgas reais e te dominam ou tu dominas e finges,
e não vês que sou eu a real de sapato de laço e cabelo de trança,
e tanto gosto de ti que a tudo trocaria por sapato de trança e cabelo de laço,
tu ideia me fazes de real só para um dia te pores em verso ou prosa
de pobre apaixonado empregadinho dum escritório da Baixa
com sua apaixonada empregadinha,
acorda, homem, que sou eu viva e um dia te arrependes de me teres mentido
para viver um sonho, coisa pior que vinho prà saúde,
será que vou ficar velha sem tu seres jamais novo,
então rompe comigo, talvez aí acordes,
e tanta pena como eu tenho, Nandinho,
de só teres pés para as nuvens e não para as calçadas tão fortes, vivas e alegres
quer a Câmara as limpe ou não limpe ou faça chuva ou sol,
tristes só
se por ti morre Ofélia sem tu por mim viveres.

"Do Agostinho em Torno do Pessoa", Agostinho da Silva

(Agostinho da Silva nasceu no dia 13 de Fevereiro de 1906. Morreu em 1994.)

As gaivotas, tantas, tantas

Foto Hernâni Von Doellinger

Cyro Armando Catta Preta 4

Réstia

Pela telha-vã 
se embrenha o sol e desenha 
no chão a manhã


Cyro Armando Catta Preta

(Cyro Armando Catta Preta nasceu no dia 13 de Fevereiro de 1922. Morreu em 2010.)

Interlúdio fotográfico 219

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Ela teve dois amores (pelo menos)

Sentada ao meu lado na sala de espera do hospital, a mulher exibia um potentíssimo braço de boxista peso-pesado, coisa de (me) meter medo. E no sítio do costume, como se tivesse ido à guerra, lá estava escrito e jurado, na tinta imorredoura da tatuagem: "Amor Maneca". E por cima do amado e levemente desbotado "Maneca", mesmo ao centro e aproveitando o "e", sobressaía uma segunda demão, arrependimento ou remedeio, num verde mais fresco e ostensivamente carregado, que dizia: Zé. Pois, é a vida...

Mobiliário urbano (propriamente dito) 143

Foto Hernâni Von Doellinger

Diz-me Baudelaire, meu amor

- Oh! meu amor...
- Oh! minha querida...
- Diz-me Baudelaire, meu amor...
- Baudelaire, meu amor, minha querida....
- Oscula-me, meu amor...
- Osculando, minha querida...
- Amplexa-me, meu amor...
- Amplexando, minha querida...
- Afaga-me, meu amor...
- Afagando, minha querida...
- E agora coita-me, meu amor...
- Coitando, minha querida...
- Oh! meu amor, arrebenta-me toda...
- Arrebentando, oh! minha querida, mas era preciso desconversar?...

Empresta a bola ao outro menino!

Foto Hernâni Von Doellinger

Nuno Bragança 4

"Toda a gente devia comunicar tudo em fala clara.", disse eu. "Se isso acontecesse não eram precisos livros, nem filmes, nem teatro, nem nada dessas coisas a que a malta chama arte. Mas as pessoas vivem a calar o mais importante delas. Às vezes lá passa um nico, em ocasiões especiais".

"Square Tolstoi", Nuno Bragança

(Nuno Bragança nasceu no dia 12 de Fevereiro de 1929. Morreu em 1985.)

Interlúdio fotográfico 218

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Ó mor, mor

- Ó mor, mor! Tu mamas, mor?
- Ó mor, claro que tamo, mor.
- Diz-me a verdade, mor. Tu mamas, mor?
- Tamo, mor. Tamo tipo bué, tás a ver, mor?
- Não, mor, tipo a sério, mor, tu mamas-me tipo... a sério, mor?
- Tamo-te, mor. Tamo-te tipo, mor.
- Mamas-me mesmo, mor?
- Tipo agora, mor? Tipo aqui, mor?...

Mobiliário urbano (propriamente dito) 142

Foto Hernâni Von Doellinger

O pedinte e o pedante

Entre o pedinte e o pedante vai a diferença de uma vogal. A favor do pedante, evidentemente.

Também faço isto muito bem 327

Foto Hernâni Von Doellinger

Manuel Lugrís Freire 6

Sada

¡Sada! ¡Sada! terra miña
Onde o meu berce abalou,
O teu nome levo escrito
No fondo do corazón.

Podes ferir e aldraxarme,
Podes meu nome negar,
Que eu hei de seguir queréndote
Hasta o último alentar.

Axuntada có teu nome
Vai sempre a miña ilusión...
¡Fuche-la musa sagrada
Que os meus versos inspirou!

"As Mariñas de Sada", Manuel Lugrís Freire

(Manuel Lugrís Freire nasceu no dia 11 de Fevereiro de 1863. Morreu em 1940.)

Caminho 774

Foto Hernâni Von Doellinger

Gastão de Holanda 4

Em nome das ondas

Ela me olhava de lado
com a indeterminação
de um cego
no vago espaço
como se me visse
um marinheiro inconformado
com seu lado peixe

"O Dragão Encurralado", Gastão de Holanda

(Gastão de Holanda nasceu no dia 11 de Fevereiro de 1919. Morreu em 1997.)

Interlúdio fotográfico 217

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Namorados públicos, de Vinicius de Moraes

Namorados públicos

Da mesma forma que os monumentos históricos ou artísticos, as belezas naturais, os bailes e cafés, os parques e jardins - os casais de namorados são coisa que pertencem ao patrimônio de uma cidade. Uma cidade sem namorados públicos não é uma verdadeira cidade. Os cicerones de Paris costumam mostrá-los aos turistas, inteiramente despreocupados em suas ternuras, como típicas curiosidades locais. No Hyde Park, em Londres, é possível vê-los às centenas, sobre o gramado esmeralda desse parque inexcedível como se estivessem em casa. O transeunte margeia beijos intermináveis, abraços infinitos, olhares abissais, namorados que lêem romances, namorados que dormem, namorados que brigam, a um passo uns dos outros, perfeitamente indiferentes ao que lhes vai em torno, - e o que é formidável - guardados da curiosidade, ou malícia alheias, por um passante constable, cuja função é zelar pela perfeita consecução de seus carinhos, com uma imparticipação e fidelidade dignas de todos os aplausos. É claro que os namorados não abusam. Mas nessa questão de carinhos de superfície eles se permitem um uso inumerável. Estrafegam-se em beijos que fariam a inveja de John Gilbert ao tempo da sua paixão por Greta Garbo. Dão-se abraços de não se saber mais quem é o outro. Fazem-se cafunés maravilhosos, esfregam-se os narizes, acarinham-se os rostos, enfim: tudo isso que faz a deliciosa cozinha dos que se amam e que vem sendo a mesma desde os tempos mais recuados no tempo.
[...]

Vinicius de Moraes, "Para Viver Um Grande Amor"

I want to ride my bicycle 95

Foto Hernâni Von Doellinger

Recensão crítica

Resolveu fazer um estudo comparado. Mas comparado com quê?, inquietou-se logo após. Ele nunca tinha estudado! Optou então por fazer um ensaio. Ensaiou mas desistiu. Estava cansado. Pediu mais uma cerveja e a conta, bebeu, pagou e foi-se embora.

Fugindo do trânsito

Foto Hernâni Von Doellinger

Valentim, o do amor

Fernando Pessoa inventou e patenteou o aerograma. Exactamente esse Fernando Pessoa, o da "Mensagem" e dos heterónimos - se não sabiam, ficam a saber. O aerograma era uma carta sem envelope e andava de avião. Escrevo era e andava porque não sei se ainda há aerogramas. Se há, são fáceis de reconhecer: os aerogramas são cartas levezinhas e contorcionistas que se dobram e fecham sobre si mesmas. É procurar nos circos.
O aerograma foi um enorme sucesso durante a Guerra Colonial. Era o meio de comunicação preferido entre as famílias cá na então chamada metrópole e os militares enviados lá para o então chamado Ultramar, para o campo de batalha do regime. O aerograma matava saudades entre Portugal e África. Mas também inventava amores, alimentava namoros, alcovitava casamentos. Contava histórias.
Em Fafe, os aerogramas eram vendidos no palacete do Grémio da Lavoura, onde hoje funciona o Arquivo Municipal. Entrava-se pela porta das traseiras, e está certo, porque a guerra era uma vergonha. Eu ia comprar aerogramas para a Mila Tripa, que se tornara madrinha de guerra do soldado Valentim que eu não conhecia. Nem ela. A Mila trabalhava na Fábrica Alvorada e era como se morasse connosco, era da família a bem dizer, uma espécie de tia e irmã mais velha, mulher extraordinária que o tempo me obrigou a admirar e respeitar cada vez mais.
Os aerogramas eram oficialmente grátis e já não me lembro quanto é que custavam. Que se segue? Aerograma para lá, aerograma para cá, fotografia para cá, fotografia para lá, e poupando nos pormenores, a Mila e o Valentim passaram naturalmente a namorados e noivaram por correspondência. O soldado Valentim deixou as pernas na guerra, mas voltou homem inteiro e bom. Ele e a Mila casaram. De mãos dadas construíram uma vida bonita, apesar de todos os apesares. Instalaram-se primeiro em Lisboa, e em sua casa me acolheram fraternalmente durante a minha passagem pela tropa, numa que outra fugidinha de férias, então eu já com a minha mulher, ou quando, em viagens de trabalho para o estrangeiro, tinha de pernoitar na capital. Era só bater à porta e era uma alegria - havia sempre lugar à mesa para mim, para nós. Após o jantar, o Valentim fazia questão, tinha gosto em levar-me ao meu hotel. Depois mudaram-se para Fafe, e fizeram muito bem. Visitei-os apenas mais três ou quatro vezes nos últimos vinte e tal anos, e fiz muito mal.
O Manuel Valentim morreu na semana passada, sem me revelar o segredo dos tremoços curtidos com alho à moda da sua Madeira. Meti-me na camioneta e fui a Fafe dar um beijo à Mila, despedir-me do Valentim, agradecer-lhes o bem que me fizeram. A gente chega sempre atrasada para estas coisas, não é?...

P.S. - Publicado originalmente, nesta versão, no dia 13 de Abril de 2016.

Interlúdio fotográfico 216

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Quem com ferros mata, espetos de pau

FC Porto exige que casos do Benfica em tribunal sejam julgados por juízes estrangeiros.

Interlúdio fotográfico 215

Foto Hernâni Von Doellinger

Em dia que começa bem não se mexe

Ontem. Ainda não eram oito da manhã e um carro, suspeito que fosse um carro parado ostensiva e provocadoramente debaixo da minha varanda, gritava de janelas e goelas abertas e grande fervor clubista o hino do Benfica. Ia naquela parte um bocado suspeita das "papoilas saltitantes". Eu pensei, enquanto calçava as sapatilhas para a voltinha do costume: isto está a começar bem, logo à noite ainda me vou rir. E ri-me.

Campeoníssimo

Foto Hernâni Von Doellinger

Os Bítalas

Os Bítalas eram um conjunto e cantavam obladi oblada. Eram quatro, sendo que o do bombo tinha cara de morcão, e chamavam-se Bítalas exactamente por terem cabelo grande, mas que afinal não era assim tão grande, como os hippies vieram depois a demonstrar - era apenas um cabelinho amaricado, aparadinho, muito anos vinte, muito tipo Beatriz Costa. Os Bítalas eram ingleses de Liverpool e do mundo. Em Portugal, no tempo em que imperava o corte à tigela (ou malga, consoante a parte do país), quem tivesse o cabelo a roçar as orelhas era Bítala. Eu fui, mas cantava num orfeão e por isso passei ao lado de uma grande carreira.

P.S. - Os Beatles apresentaram-se pela primeira vez no Cavern Club de Liverpool no dia 9 de Fevereiro de 1961. Três anos depois, exactamente no dia 9 de Fevereiro de 1964, estrearam-se no Ed Sullivan Show, programa dominical obrigatório para todas as famílias na televisão americana. No dia 9 de Fevereiro de 1972, desfeitos os Beatles dois anos antes, Paul McCartney fez o seu primeiro espectáculo com os Wings.

Vida de cão 497

Foto Hernâni Von Doellinger

Nunca se sabe o dia de amanhã

Pegou em seis horas e meia e meteu-as cuidadosamente no cofre. Afinal, tempo é dinheiro...

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Mobiliário urbano (propriamente dito) 141

Foto Hernâni Von Doellinger

De volta ao Tatu (ou a grandeza dos pequenos)

O Tatu está de volta. Perguntar-me-ão: mas qual Tatu?, e eu poderia dar uma certa e determinada resposta, rimada e bem conhecida aí por uns tantos, porém, pessoa educada que sou, digo simplesmente: o Tatu da "Ilha da Fantasia", que a RTP Memória em boa hora, dezanove em ponto, resolveu pôr a arejar. O Tatu (Tattoo) era o francês Hervé Villechaize, um excelente anão mas fracativo actor. Ainda assim, gosto mais de o ver trabalhar do que, por exemplo, ao ultrafamoso Tyrion Lannister (Peter Dinklage) da "Guerra dos Tronos", essa tão aclamada série de culto que a mim não me assiste. Exactamente. Se andavam à procura do gajo que, a nível mundial, nunca viu um episódio da "Guerra dos Tronos", spoilers tampouco, podem mandar suspender as buscas - c'est moi.
Anões e o mundo do espectáculo - assunto menor? Não creio. Falo primeiro por mim, que, perguntado ainda na escola primária acerca das minhas perspectivas de futuro, respondi que quando fosse grande queria ser anão para ir para o circo. E antes de mim já havia o Peter Pan e depois de mim saiu da cartola aquela improvável linha média - Adelino Teixeira, Alves, Vítor Martins e Octávio - com que mestre José Maria Pedroto calou Wembley-o-Velho e empatou a arrogante Inglaterra, no nosso mítico ano de 1974. Parece que ainda os estou a ouver, em Dolby 4-4-2, subindo em passinhos curtos a estrada dos tijolos amarelos: The house began to pitch. The kitchen took a slitch. It landed on the Wicked Witch in the middle of a ditch, Which was not a healthy situation for the Wicked Witch.
Dos pequenos, sim, reza a História. Coloquemos pois os anões em cima da mesa, porque merecem. Se me pedissem uma shortlist dos mais famosos, sendo que a fama se mede em televisão e cinema, eu escolheria:
Talvez a Thumbelina (Debbie Lee Carrington), de "Desafio Total". Talvez o Mini Me (Verne Troyer), de "Austin Powers: O Espião Irresistível". Talvez o múltiplo Oompas Loompas (Deep Roy)", em "A Fantástica Fábrica de Chocolate". Talvez o duende Marcus (Tony Cox), em "Um Pai Natal para Esquecer". Talvez o professor Filius Flitwick (Warwick Davis), na saga "Harry Potter". Talvez o Mickey Abbott (Danny Woodburn), na série "Seinfeld". Talvez o "Arnold" Gary Coleman. Talvez o R2-D2 (Kenny Baker), da "Guerra das Estrelas". Talvez o Wee-Man (Jason Acuña), do "Jackass" da MTV. Talvez o munchkin Karl Slover, do "Feiticeiro de Oz". Talvez James Cagney, Mickey Rooney, Edward G. Robinson ou o apalpador Dustin Hoffman. Evidentemente poderia juntar à lista o Danny DeVito e o Tom Cruise, mas estes, peço desculpa, dizem-me muito pouco. Talvez...
Ou talvez o fogoso Nelson Ned, que era de outras artes e me dava cabo da cabeça aos domingos à tarde, nos castigadores altifalantes dos Comandos, da Amadora a Santa Margarida. Ou talvez o anão do Multibanco. Ou talvez, porque não?, o Sr. José Nogueira, de Fafe, que, em meados do século passado, esteve quase a ir para Lisboa e ser famoso. Ou ainda talvez, puxando ao sentimento, as minhas duas queridas avós, a Bó de Basto e a Bó da Bomba, pequerrichas também, ou o senhor Flórido Engraxador ou o César da Recta ou o senhor Clemente que fazia pipas e escadas para as vindimas e decilitrava aguardente como um alambique. Talvez...
Mas que fique registado que o meu anão favorito é uma anã. Chama-se Cadence Roth, Cady para os amigos, e chegou a ser a mulher mais pequena do mundo, se tivesse de facto existido. Conheci-a num livro, "Talvez a Lua", de Armistead Maupin. Procurem o livro. Descubram a Cady.

P.S. - Publicado originalmente no dia 10 de Dezembro de 2017. Gary
Wayne Coleman, o Arnold de "Diff'rent Strokes", nasceu no dia 8 de Fevereiro de 1968. Morreu em 2010.

Também faço isto muito bem 326

Foto Hernâni Von Doellinger

Eduardo Pondal 6

Meniña, rapaza nova,
Ou rosa de Corcoésto;
Que te brandéas con grácia,
Os doces sopros do vento:
S' hé certo que por tí vivo
S' hé certo que por tí peno;
Se tan doce é dadivosa,
Como dín que és, hé certo;
Cúrame, ou rapariga,
Estas suidades que teño:
Estas suidades da alma,
De non sei qué, que padezo;
Ti tés dos meus males a doce manciña,
Ou rosa de Corcoésto.

"Queixumes dos Pinos",  Eduardo Pondal

(Eduardo Pondal nasceu no dia 8 de Fevereiro de 1835. Morreu em 1917.)

Caminho 773

Foto Hernâni Von Doellinger

Traga uma árvore também

Era uma localidade um bocadinho estranha. Nas suas principais entradas, a autarquia colocara frondosas tabuletas que avisavam os forasteiros: "Se quiser sombra, traga a sua própria árvore".

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Fafe já não tem piononos

Foto Hernâni Von Doellinger

No monte de São Jorge havia um pionono. E constava que havia outro no monte de Castelhão. Fui testemunha de ambos, embora o segundo possa não ter existido. O pionono, para mim, era uma espécie de meco que ajudava montes de pouca monta a porem-se em bicos de pés, a chegarem-se a uma certa altura, a uma altura certa, a um número redondo que desse jeito falar. Quero dizer: era uma espécie de sapato de salto alto para caga-tacos, porém ao contrário, com o tacão virado para cima e usado na cabeça. Depois tomei conhecimento do Pio IX, mas nunca percebi a relação, e acho um insulto chamar-lhe marco geodésico. Ao papa.
Assim com maiúscula, o Pionono era exactamente em São Jorge, é justo que se diga. Pionono era nome próprio, sítio, geografia. "Vou ao Pionono". Ia-se ao Pionono. Ia-se aos pinheiros pelo Natal, ia-se aos fentos ou ao mato para o eido ou às giestas secas para espertar a lareira do chão da cozinha, ia-se brincar aos cobóis, ia-se cagar ao monte e ia-se dar umas trancadas, e o que eu gostava da palavra trancadas, mesmo sem conseguir alcançar o que ela quereria dizer.
(As giestas também davam umas vassouras de categoria e o Trancadas era um barbeiro mesmo ao lado do tasco do Neca do Hotel, o que se revelava de uma comodidade extrema. Por falar nisso, lembro-me de descer um degrauzinho, mais cá para o centro da vila, ali entre a sombria loja da Rosindinha Catequista e a Cafelândia, mas esse era o Sr. António Grande, o segundo barbeiro do meu padrinho Américo. Eu ia lá com o meu padrinho mais o meu tio Zé da Bomba, aos sábados de manhã, que naquele tempo eram sempre de sol. Na espera lia-se "O Primeiro de Janeiro", mal eu sabia que ainda o haveria de fazer. O meu padrinho Américo e o meu tio Zé da Bomba eram irmãos do meu pai, o grande Lando Bomba, e depois foram meus pais, à falta do propriamente dito, por razão de força maior.)
Hoje os montes de São Jorge e de Castelhão são casas e é o progresso. Os montes foram capados, terraplenados, desarborizados, alcatroados, liquidados. Os montes morreram de morte matada e a culpa morreu solteira. Fafe já não tem piononos. Mas, dizem-me, tem ainda a "Garrafinha" e historiadores até dar com um pau. Um deles, quem dera que não chova, ainda há-de contar esta como deve ser.

Só para que conste: pio-nono será a forma "correcta" de escrever, se nos referirmos ao meco. Mas pionono pode ser também nome de doce muito popular em Espanha, na América Latina e nas Filipinas.

P.S. - O papa Pio IX, que se chamava Giovanni Maria Mastai-Ferretti, morreu no dia 7 de Fevereiro de 1878.

Cidadã

Foto Hernâni Von Doellinger

Geraldo Pinto Rodrigues 4

Faz tempo que aportei aqui

Faz tempo que aportei aqui,
nesta vida gorda, de algibeira rasa.
Peão de sonhos, pastor de auroras,
os reinos conquistados foram meus.
Vesti-me de certeza, de ousadias,
fui peregrino silente entre silêncios.
Meus cantares ecoaram nas planícies,
vibraram meus acenos noutros céus.
Se as tardes floresciam nos vergéis,
luzes ali ardentes se acendiam.
Já distante, embora,
este sol radiante
sucumbe, agora,
ao punhal do tempo.


"O Punhal do Tempo", Geraldo Pinto Rodrigues

(Geraldo Pinto Rodrigues nasceu no dia 7 de Fevereiro de 1927. Morreu em 2004.)

Mobiliário urbano (propriamente dito) 140

Foto Hernâni Von Doellinger

Verticalidade

Era um aspirador vertical. De uma rectidão a toda a prova.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

O meu cinema paraíso

Foto Hernâni Von Doellinger

Parece o reclame de um salão de cabeleiro unissexo. "Sansão & Dalila". Desinteresso-me primeiro, mas ele está ali mesmo à minha frente, colado na carruagem do metro, e de repente começa a exercer sobre mim um fascínio inesperado e misterioso. Olho melhor, a ver se percebo o que se passa comigo. Ah!, afinal é a ópera de Camille Saint-Saëns, que vai à cena no Coliseu do Porto. É "Sansão e Dalila". O e não é comercial, é apenas truque gráfico, modernice. Pronto, está tudo esclarecido...
Mas não estava! O anúncio continuava a chamar por mim. Que raio de poder hipnótico poderia ter aquele pedaço de papel plastificado? As palavras mágicas não paravam de ecoar na minha cabeça, "Sansão e Dalila", "Sansão e Dalila", "Sansão e Dalila"! Resolvi-me, levantei-me do meu lugar, dei dois passos em frente, tirei os óculos, semicerrei os olhos e tentei espreitar para dentro do reclame. O metro apitou, uma, duas, três vezes, e o reclame abriu-se num clarão como se fosse o meu espelho de Alice, puxando-me pelos colarinhos e levando-me aos confins do meu passado, numa viagem instantânea até ao tempo em que

eu era um miúdo. Éramos todos uns miúdos. E íamos em bando até à porta da D. Laura Summavielle, filha, que morava à beira da Igreja Nova. Os Summavielles (Sumaviéis, na versão fafense) eram os donos do Teatro-Cinema de Fafe, do Cinema. E nós íamos pedir à D. Laura, que devia ser o melhor coração da família e para mim era o melhor coração do mundo, que nos levasse a ver o filme de graça. E a boa senhora levava.
A coisa tinha o seu ritual. Esperar à porta do cinema não valia, tínhamos que ir mesmo a casa da D. Laura, que também não era longe. Éramos para aí uns seis ou sete, às vezes menos, consoante o lado para que tinham acordado os pais de cada qual, e devíamos lá chegar pelo menos com uma boa meia hora de avanço em relação à hora de saída prevista da senhora. Chegávamos e esperávamos. Não se batia à porta, não se tocava na campainha, esperávamos apenas, calados como ratos, porque o mais pequeno ruído podia deitar tudo a perder.
A senhora saía, encarava-nos sempre com um grande sorriso e nós continuávamos sem dizer nada, nem era preciso. Púnhamo-nos atrás dela, em fila, como pintainhos seguindo a mãe galinha, e, agora que penso nisto, acho que devia ter sido uma coisa bonita de se ver, aquele extraordinário grupo a atravessar o Largo da Igreja e a descer até ao Cinema, na máxima compostura e no mais religioso silêncio.
A D. Laura entrava e nós ficávamos cá fora, bem guardados pelo Sr. Leitão porteiro, que era mau como as cobras e vestia um capote castanho, com botões dourados e gola vermelha, que até parecia um general soviético, embora na bilheteira é que estivesse o Sr. Castro, comunista, alfaiate e bom amigo.
Perdíamos os desenhos animados, perdíamos os "documentários", mas na horinha do arranque do filme a sério vinha a ordem da D. Laura e imediatamente desatávamos a correr Cinema acima, dois andares a bater chancas em chão de soalho com escarradores, numa trovoada que quase deitava a casa abaixo, até chegarmos ao nosso sítio. Só ali voltávamos a portar-nos bem, sempre perante o olhar bondoso e compreensivo da nossa benfeitora, que, do seu camarote ao lado da cabina de projecção do Sr. Reinaldo Pires, nos lançava mais um sorriso, com o dedo de chiu sobre os lábios finos.
O nosso sítio era uma frisa e cheirava a veludo velho e tabaco. Quase que pertencíamos ao filme! O som dos altifalantes entrava-nos pelo corpo dentro, estremecia-nos, eu era do tamanho dum buraco do nariz do Maciste e tinha que me afastar para não ser sugado. Foi ali que eu conheci pessoalmente o Ursus, o Spartacus, o Ben-Hur e o Hércules e podem crer que aqueles cenários de papelão só pareciam de papelão. Eu sei, porque estive nos filmes. Fui eu que ajudei o Sansão a dizer "morra Sansão e todos os que aqui estão", para eu e ele nos vingarmos da traidora da Dalila e acabarmos com o filme logo ali, porque aquilo não se faz, e não me venham dizer que ele não disse nada disto.
Perguntassem ao "Sandim". Ele é que ia à estação de comboios "buscar os artistas", num carrinho com rodas de madeira. Mas não trazia os beijos todos. Não cabiam nas bobinas, decerto. As cópias dos filmes eram velhas, cheias de cortes, no melhor e mais quentinho passavam sempre à frente. Como o Jornal da Igreja Nova trazia uma sinopse das películas do fim-de-semana, nós achávamos que o Sr. Arcipreste fazia um visionamento prévio e culpávamo-lo por aquele imperdoável acto de censura. Mal eu sabia que ainda havia de ser feito um filme sobre esta história, mas em italiano.
No meu Cinema, no tempo em que o que eu queria era crescer para ver filmes "para maiores de 17", havia também umas senhoras da Rua de Baixo e de Santo Ovídio que faziam de arrumadoras e tomavam conta do buffet, onde serviam gasosas, laranjadas, café de cafeteira e rebuçados mulatos. Ao intervalo, enquanto o ardina entrava plateia dentro com a edição do Norte Desportivo de domingo à noite, já com os resultados e relatos dos jogos todos, os espectadores recebiam umas senhas para irem lá fora tomar café em condições.
No meu Cinema liam-se as legendas em voz alta para os analfabetos. O respeito e a, como hoje se diria, segurança eram zelados pelo Senhor Barroco, pelos Sr. José e Sr. António do Santo e pelo Sr. António Quim, que eu sempre confundi com o outro, o de "Zorba, o Grego". Foi na companhia desta gente que eu cresci. Mal comecei a ganhar, passei a ter bilhete reservado para todas as sessões e, depois do 25 de Abril, até vi o "Último Tango em Paris". Duas vezes.

Deixei Fafe no início da década de 1980 e o meu Cinema entrou em ruína. Pensei que outros tivessem ficado a tomar conta, mas enganei-me. Depois de 25 anos de inactividade, muita politiquice e um impressionante trabalho de recuperação, o Teatro-Cinema de Fafe reabriu portas em 2009, sem Maciste, sem Sansão nem Dalila, sem o Sr. José do Santo e sem a D. Laura Summavielle. Já lá não estão, já cá não estão. O novo Teatro-Cinema de Fafe, que só conheço por fora, funciona agora como entreposto cultural camarário. O que é certamente aplaudível e tem muito mais cagança, mas não é a mesma coisa.

P.S. - Publicado originalmente no dia 26 de Setembro de 2011. Kirk Douglas, o meu Spartacus, o Spartacus do meu cinema paraíso, morreu ontem, aos 103 anos.