quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Microcontos & outras miudezas 180

Simplesmente Simplício (ou, vá lá, Sr. Galinhas)
Sou Bomba, Dezassete e Perna-de-Pau, por parte do meu pai, e sou Neques, por parte da minha mãe, com muito gosto. Já me chamaram Américo, Pobre, Padreca, Sacerdote, Profeta, Bítala, Cabeludo, Guedelhudo, Hippie, Careca, 05613478, Amélia, Caixa-de-Óculos, O das Barbas, Ó Tio Ó Tio, Gramático, Chefe, Doutor, Professor, Andrade, Pau de Virar Tripas, Gordo, Ex-Gordo, Hernano, Hermano, Herlânder, Hermo, Hérnio, Irrenane, Renane, Ranano, Renamo, Ernesto, Aquele Senhor, Ó Senhor!, Doente da Cama 2, Próximo!, Nanes, Se'Nane, Belingue, Berlingue, Bilingue, Berlindes, Boelingue, Bolingue, Dillinger, Dilingue, Volkswagen. Eu prefiro que me chamem Simplício.

P.S. - Texto publicado originalmente no dia 29 de Outubro de 2018. Torno hoje a ele porque anteontem, num contacto telefónico com a NOS, recebi uma nova medalha: Galinhas. A simpática e diligente operadora chamava-me Sr. Galinhas, Sr. Hernâni Galinhas. Só para aí à terceira ou quarta vez é que eu percebi e desatei a rir, elogiando a agradecendo tão original rebaptismo. "Mas o senhor não me disse que se chama Hernâni Galinhas?", perguntou-me a menina-senhora, um bocadinho confusa e pareceu-me que também algo constrangida. "Doellinger, eu disse Doellinger", tentei explicar. "Hã?...", tarmamudeou a eficiente profissional, cada vez mais desbaratinada. "Silva, Hernâni Silva. Olhe, chame-me Simplício, simplesmente Simplício", resolvi eu enfim, e foi assim que nos entendemos.

A pintura do Mané
A pintura do Mané não lhe dizia grande coisa. Asseguravam-lhe que o Mané era um grande artista, falavam-lhe do impressionismo francês, até do realismo, dos jogos de luz e de sombra, dos nus, mas ele não se deixava convencer. O Mané era um gajo porreiro, isso nem se discute, pagava umas cervejas quando chegava a sua vez e desenrascava satisfatoriamente o lugar de defesa-esquerdo nos jogos das manhãs de domingo na praia, mas, quer-se dizer, era apenas um trolha regular e à beira da reforma. Como ele...

O organista
- Profissão?
- Organista.
- Orquê?...
- Tocador de órgão...
- Próprio ou de outrem?...

O número
Subiu ao palco, aproximou-se do microfone e anunciou que tinha um número para apresentar. Apresentou o cinquenta e três e foi um sucesso.

Futebol, a quinta-essência
Antigamente jogava-se para ganhar. Às vezes ganha-se, outras vezes perde-se, geralmente empata-se. Agora joga-se para "tirar ilações".

E o fim do mundo era uma gaivota

Foto Hernâni Von Doellinger

A pequena praça, de Sophia

A pequena praça

A minha vida tinha tomado a forma da pequena praça
Naquele outono em que a tua morte se organizava meticulosamente
Eu agarrava-me à praça porque tu amavas
A humanidade humilde e nostálgica dos pequenas lojas
Onde os caixeiros dobram e desdobram fitas e fazendas
Eu procurava tornar-me tu porque tu ias morrer
E a vida toda deixava ali de ser a minha
Eu procurava sorrir como tu sorrias
Ao vendedor de jornais ao vendedor de tabaco
E à mulher sem pernas que vendia violetas
Eu pedia à mulher sem pernas que rezasse por ti
Eu acendia velas em todos os altares
Das igrejas que ficam no canto desta praça
Pois mal abri os olhos e vi foi para ler
A vocação do eterno escrita no teu rosto
Eu convocava as ruas os lugares as gentes
Que foram as testemunhas do teu rosto
Para que eles te chamassem para que eles desfizessem
O tecido que a morte entrelaçava em ti


Sophia de Mello Breyner Andresen

Oysters, of course

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 19 de novembro de 2019

José Mário Branco (1942-2019)

Inquietação

A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes

São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Ensinas-me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria

Se as cumprisse todas juntas
Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
Pra ficar pelo caminho

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda

José Mário Branco

São flores aos milhões

Foto Hernâni Von Doellinger

Colombo, o do ovo

Quando Colombo pôs o ovo, foi o assombro geral. O respeitável público ainda esperou por um coelho da cartola ou, vá lá, um par de pombas brancas de um lenço. Mas nada. O ovo era número único e foi assim que ficou na História.

P.S. - No dia 19 de Novembro de 1493, Cristóvão Colombo desembarcou numa ilha chamada Borinquen, que ele vira pela primeira vez de véspera e que hoje é Porto Rico. Anos mais tarde Colombo construiu um centro comercial e duas torres de escritórios na zona de Benfica, em Lisboa.

Interlúdio fotográfico 189

Foto Hernâni Von Doellinger

Canção de Outono, de José Régio

Canção de Outono
 
No jardim deserto,
Já Novembro perto,
Desfolhei as rosas últimas a dar,
Jóias maltratadas,
Rosas desfolhadas!
Só o seu perfume vai ficar no ar.

Recolhi versos
- Breves universos -
Que atirara ao vento para os espalhar.
Queimei-os, rasguei-os.
Secaram-me os seios…
Só rimas e ritmos vão ficar no ar.

Saudades, lembranças
De vãs esperanças,
Fiz covais no peito para os enterrar.
Nada mais me importa.
Fechem essa porta!
Só um pó doirado vai ficar no ar.
 
José Régio, "Música Ligeira"

Acima, acima, gageiro

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Ambos os dois

A minha sogra tem oitenta e sete anos e padece de um apetite voraz. Prato, sopa e sobremesa em quantidades que eu aqui não digo para evitar a abertura de um conflito diplomático com a Somália. Digamos apenas que a minha sogra é uma multidão a comer. No outro dia perguntei-lhe:
- E agora, quer fruta ou bolo?
- Pode ser - respondeu-me a minha sogra.
- Pode ser o quê? - insisti, até porque a minha sogra é um bocadinho surda quando quer.
- Fruta e bolo - esclareceu a minha sogra, sem sequer olhar para mim.

Passamos pelas coisas sem as ver

Foto Hernâni Von Doellinger

E os amigos do Pina, que é deles?

Quando Manuel António Pina morreu, por assim dizer, em Outubro de 2012, os amigos de Manuel António Pina fundaram o Clube dos Amigos à Espera do Pina. Outros amigos de Manuel António Pina fundaram o Círculo Literário e Artístico Manuel António Pina. Sinceramente achei então que o Pina não merecia tanto. Quero dizer: não merecia tanta vaidade e inveja, tanto umbiguismo, tanto acotovelamento, tanta sede de aparecer à pala do desaparecido, vamos um supor. O Pina de certeza que não sabia que tinha tantos amigos. E ainda por cima amigos desavindos, dissidentes. Que fartura! Duas-colectividades-duas em nome do Pina, no Porto que ainda há pouco enterrara e responsara a Fundação Eugénio de Andrade, com o descaramento de quem limpa as mãos à parede depois de limpar o cu sem papel. Eugénio de Andrade, esse - não sei se tem amigos ou se alguém espera por ele...
Ignoro o que se passa hoje em dia com aquelas duas pressurosas e exclusivas agremiações pinaculares. Desconheço se ainda existem, se bolem, se fazem saraus literários ou pelo menos almoço de Natal, se são nenhuma ou se se multiplicaram por vinte. O Pina é grande e chega para todos: para os compinchas de verdade e para os simpatizantes, curiosos, atrevidos e outros aproveitadores. Eu sou um simples admirador das palavras de Manuel António Pina, só lhe conhecia a voz da televisão e da rádio, naquele falar de quem fala, e do olá no elevador do Edifício JN, e parece que o estou a ouvir dizer: - Sirvam-se.

P.S. - Escrito a partir de um texto publicado originalmente no dia 26 de Novembro de 2013.

Vida de cão 486

Foto Hernâni Von Doellinger

Manuel António Pina 4

Vê se há mensagens
no gravador de chamadas;
rega as roseiras;
as chaves estão
na mesa do telefone;
traz o meu
caderno de apontamentos
(o de folhas
sem linhas, as linhas distraem-me).
Não digas nada
a ninguém,
o tempo, agora,
é de poucas palavras,
e de ainda menos sentido.
Embora eu, pelos vistos,
não tenha razão de queixa.


Senhor, permite que algo permaneça,
alguma palavra ou alguma lembrança,
que alguma coisa possa ter sido
de outra maneira,
não digo a morte, nem a vida,
mas alguma coisa mais insubstancial.
Senão para que me deste os substantivos e os verbos,
o medo e a esperança,
a urze e o salgueiro,
os meus heróis e os meus livros?


Agora o meu coração
está cheio de passos
e de vozes falando baixo,
de nomes passados
lembrando-me onde
as minhas palavras não chegam
nem a minha vida
Nem provavelmente o Adalat ou o Nitromint.


"Cuidados Intensivos", Manuel António Pina

(Manuel António Pina nasceu no dia 18 de Novembro de 1943. Morreu em 2012.)

Aos bons velhos tempos 3

Foto Hernâni Von Doellinger

Fundada em 1894 e desde sempre instalada na Foz, a Oporto British School (Instituto Cultural Britânico do Porto) é uma das escolas britânicas maiores e mais antigas localizadas fora das Ilhas e os seus primeiros alunos foram somente rapazes e súbditos de Sua Majestade. Apenas em 1931 foram admitidas raparigas.
As actuais estruturas físicas desta instituição privada, salas de aulas e de serviços construídas de raiz para este fim, foram inauguradas pela então primeira-ministra Margaret Thatcher aquando da sua visita ao Porto, em 1984. Sinais de outros tempos, que são os nossos, a escola conta actualmente com cerca de 230 rapazes e raparigas, com idades entre os quatro e os dezasseis anos, maioritariamente portugueses, e só a seguir vêm os britânicos. A entrada de Portugal na CEE (União Europeia) e o sucesso do Porto como centro industrial e de negócios multicontinental trouxeram à escola muitos europeus comunitários e americanos. No momento, são quinze as nacionalidades ali representadas.
O Hospital dos Ingleses perdeu-se no tempo, restando apenas o velho edifício, hoje em dia habitado por uma família portuguesa. Mas o conjunto da igreja e do cemitério mantém-se como refúgio espiritual e última morada de uma comunidade praticante do ecumenismo mas que, no entanto, se assume como maioritariamente católica.
Segundo registos compilados por J. Delaforce, britânico radicado no Porto e estudioso das memórias da colónia, a hoje chamada British Church of St. James, no Largo da Maternidade de Júlio Dinis, começou a ser construída no dia 19 de Junho de 1815, em cima da Batalha de Waterloo, e foi consagrada no dia 20 de Agosto de 1843, quando o primeiro bispo de Gibraltar visitou o Porto.
Pragmáticos, os britânicos, depois de resolvidos com Deus, descem às coisas dos homens, abrem uma filial do Bank of London & South America - o Banco Inglês -, em 1863, mas já antes, tratando de consolidar o comércio do vinho do Porto, que iniciaram, ergueram a sua feitoria em pleno centro da Praça comercial da cidade, num caminho paciente e assertivo, em busca de privilégios a adquirir com o tempo.

P.S. - Terceira parte de um trabalho que escrevi para a edição de Junho de 1992 da revista Grande Reportagem, então dirigida por Miguel Sousa Tavares. Lembrei-me dele a propósito de uma recente reportagem do jornalista David Mandim no DN Life. 

Offshore, se fashavore 276

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 17 de novembro de 2019

Relativamente a essa matéria

- Relativamente a essa matéria, senhor deputado, devo esclarecer que não tenho nada a acrescentar relativamente a essa matéria.
- E relativamente à outra matéria, senhor primeiro-ministro?
- Relativamente à outra matéria, senhor deputado, devo esclarecer que não tenho nada a acrescentar relativamente à outra matéria.
- Bem me parecia, senhor primeiro-ministro!
- Ainda bem que nos entendemos, senhor deputado!

Ca... ra... col... ... ...

Foto Hernâni Von Doellinger

Microcontos & outras miudezas 179

Banho ao cão
Mandaram-no dar banho ao cão e ele deu. Aproveitou para limpar e lubrificar as estrias, o ferrolho e o gatilho.

Não se faz
Mandaram-no ir num pé e vir no outro e ele foi e veio. Mas há coisas que não se dizem a um perneta...

Os tais canais
Pegou no telecomando e fez um périplo por todos os canais. Ah, que saudades que ele tinha de nunca ter ido a Veneza!...

Lições de História: Cristiano
Cristiano I nasceu em Oldemburgo, em 1426, e morreu em Copenhaga, em 1481. Era filho de Teodorico de Oldemburgo e de Edviges de Schauemburgo. Casou com Doreteia de Brandemburgo e teve três filhos: João, Margarida e Frederico I. Cristiano foi rei da Dinamarca de 1448 até sua morte, rei da Noruega a partir de 1450 e rei da Suécia de 1457 até ser deposto em 1464.
A reinação cansava-o deveras e, por outro lado, o monarca dava-se muito mal com o frio, que, como se sabe, é muito popular por aquelas bandas. Adoptando o apelido de Pereira, Cristiano viajou para Portugal e dedicou-se ao hóquei em patins. Foi jogador e treinador entre 1971 e 2005, coleccionando títulos de campeão nacional, europeu e mundial.
Sem mais nada para ganhar na moquinha, Cristiano I da Dinamarca, aliás Cristiano Pereira de Paranhos, interessou-se fatalmente pelo futebol, trocou Pereira por Ronaldo, anexou Jorge Mendes e mais umas quantas, e o resto é história a fazer-se aos nossos olhos (e, já agora, um cibinho também de geografia): Cristiano Ronaldo do Funchal é, hoje em dia e para todos os efeitos, rei da Dinamarca, da Noruega, da Suécia, de Inglaterra, de Espanha, de Itália, de Portugal e do mundo inteiro.

Uma luz ao fundo
- O que tu queres sei eu!..., disseram-lhe. E ele, empancado e indeciso da vida, perguntou cheio de esperança: - E o que é? O que é?...

Abençoado fastio
A minha sogra, que tem oitenta e sete anos, comeu ontem ao almoço vinte e três sardinhinhas fritas com arroz de feijão branco e tomate. E só não comeu vinte e quatro porque eu tive a previdente ideia de provar uma à saída da sertã. Perante semelhante calamidade, comi uma sande de biju com meia lata de atum em conserva. Foi o meu almoço, e é a vida.

Dêem ao homem uma viola-de-amor

Foto Hernâni Von Doellinger

Anderson Braga Horta 3

Semântica

As palavras morrem,
virgens, de usura,
- Fartura -
as palavras
finam-se de desuso.

As palavras desviam-se,
mudam de órbita
- Democracia -
as palavras, satélites
forçados a novos planetas.

As palavras ocam-se,
deslembrados signos
- Paz, Amor -
por onde o pensamento,
como um óleo, vaza.

As palavras gastam-se,
oxidam-se de malícia e asco.
- Liberdade! Liberdade! -
As palavras.


Anderson Braga Horta 

(Anderson Braga Horta nasceu no dia 17 de Novembro de 1934)

Vida de cão 485

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 16 de novembro de 2019

Lições de História 55: Albert Hofmann

Atenção ao dia 16 de Novembro, muita atenção! Neste dia, mas em 1938, o químico suíço Albert Hofmann sintetizou pela primeira vez na História o LSD. E sintetizou desta maneira: baixem o volume ao amarelo, que eu não consigo ouvir o azul...

Que me quereis dizer?

Foto Hernâni Von Doellinger

Isto das idades

O quarentão é a média de todos nós. O cinquentão começa a desconfiar da vida. O sexagenário passa a constar das notícias. O septuagenário anda em contramão na auto-estrada. O octogenário é porque se safou no acidente. O nonagenário quer que os quarentões, os cinquentões os sexagenários, os septuagenários e os octogenários se fodam e refodam. Os centenários só se realizam de cem em cem anos, e está certo.

Interlúdio fotográfico 188

Foto Hernâni Von Doellinger

José Saramago 8

Intimidade

No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.


"Os Poemas Possíveis", José Saramago 

(José Saramago nasceu no dia 16 de Novembro de 1922. Morreu em 2010.

Um homem parado à espera do Verão

Foto Hernâni Von Doellinger

Manuel García Barros 5

Eu vin unha ves a Curros

[...]
Acabou de despedirse do úneco acompañante que coíl hastra alí viñera, ó menos que eu puidera ver, soaron os trallazos dos postillóns, arrincou xemendo a "carrilana" e, arrechegándose no asento precurando máis cómoda postura, alá se foi Curros, coma quen di solitario, de Santiago, onde deixaba a delicada ofrenda dun ramo de frescas rosas e o ousequio duns magnífecos versos sobre a tumba da súa irmán espritual, a sen par Rosalía, cara á Cruña onde, nun aito grandioso, de eistraordinaria solenidade se lle poría sobre a fronte graciosa unha esplendente coroa feita de ouro e prata, coma "símbolo de agarimo de Galiza ó seu poeta".
Seguín a "carrilana" coa vista hastra que se perdeu, e ó dar a volta vin que tamén o facía o señor aquil que fora, como xa dixen, o úneco que fora a despedir a Curros, pois eu non era pra contarme, e que máis tarde soupen que se trataba do direutor da Gaceta de Galicia, don Antonio Fernández Tafall.
[...]

"Dos Meus Recordos", Manuel García Barros

(Manuel García Barros nasceu no dia 16 de Novembro de 1876. Morreu em 1972.)

Caminho 740

Foto Hernâni Von Doellinger

Antón Santamarina Delgado 3

O tio Constante non paraba de se repetir para os seus adentros que, ás mañans, os pitiños do poleiro non eran sempre os mesmos. Isto é, que habia menos. E quen era quen de contálos se nunca paraban quedos...
El, des-que viñera de Cuba, sempre criara polos e mais coellos. E agora, ultimamente, por mais que o refrán diga que "ave de vico non pon ao amo rico", ficara só coa cria de pitos. E era de verao cando mais produto lles tiraba, pois sen necesidade de ter conta de cando e onde habia feira, colocaba os seus pitiños entre os abundantes veraneantes que viñan tomar as augas medicinais que surxian, xenerosas, en varios pontos do enxido. Aqueles veraneantes, non afeitos ás graxentas e colesterólicas carnes de porco, sentian verdadeira predileccion polas branquiñas carnes dos bípedos. Congruéncia total, por outra banda, de reximes curativos compostos por descanso e saborosa boa cociña.
E non! Ao amañecer non estaban os mesmos pitos. Non habia a mesma cantidade que el, ollo de bon poleiro - e mellor poleiro ca el non o habia -, fitara teimosamente antes de se ir deitar.
Antes nunca lle faltaran!
A xente do Café?


"O Gatiño da "Miss" e Outros Contos", Antón Santamarina Delgado

(Antón Santamarina Delgado nasceu no dia 16 de Novembro de 1928)

Contorcionista

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Outono, segundo Miguel Torga

Outono 

Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas. 


Miguel Torga, "Diário X"

Interlúdio fotográfico 187

Foto Hernâni Von Doellinger

Tiquetaque

Olhou para o relógio, meio-dia. Ou meia-noite, quem sabe. Pareceu-lhe ter passado uma hora bem medida e olhou outra vez para o relógio, meio-dia. Ou meia-noite, quem sabe. Deixou correr mais uma longa hora contada pelos dedos e encarou novamente o relógio, meio-dia. Ou meia-noite, quem sabe. Há duas horas que o relógio não lhe dava nem mais um minuto. Pensou: morri.

Vidas...

Foto Hernâni Von Doellinger

Bernardo Élis 4

No frio da manhã, o coronel Pedro Melo ia pela estrada montado na sua grande mula, a maior de que havia notícia naquela região. Tilintava as esporas, as rodelas dos freios, as fivelas e bombas do arreio e da cabeçada. Atrás iam os dois jagunços, Mulato e Resto-de-Onça, cada qual com sua repetição alceada no ombro. Os cascos batiam nas pedras. Pelos baixos, a neblina ia densa, molhando o capim que pegava a amarelar. Os bem-te-vis cantavam pelos altos angicos.
Pedro Melo dirigia-se para a Grota, ia pôr seu filho Artur a par de tudo que se passava no povoado, queria dar-lhe parte das exigências de Vicente Lemes.
O velho olhava sobranceiro a paisagem que lhe era tão familiar. Quantas vezes já passaram por ali, nem sabia ao certo! Julgava-se o criador daquela paisagem, daqueles caminhos, daquelas cercas, daqueles muros e daquelas pontes. Tudo saíra de suas mãos ou das de seu filho. Era o criador e dono daquilo tudo. No entanto, Vicente Lemes e Valério Ferreira pretendiam governar. Essa era boa! Uns preguiçosos daquela marca! Que é que eles já haviam feito para a região, a não ser fuxicos e mais fuxicos? Pela frente corria a estrada orvalhada e ainda sem sol. Era uma estrada carreira.

"O Tronco", Bernardo Élis

(Bernardo Élis nasceu no dia 15 de Novembro de 1915. Morreu em 1997.)

Aos bons velhos tempos 2

Foto Hernâni Von Doellinger

Aljubarrota também escreveu alguns parágrafos, posto que modestos, envolvendo ingleses e o Porto. Aqui desembarcaram, possivelmente em 1385, cento e cinquenta homens-de-armas, arqueiros e outros peões enviados pelo rei de Inglaterra para apoiarem o nosso D. João I e a sua causa. Esta ajuda viria a tornar-se decisiva no bom desfecho da decisiva batalha contra os castelhanos.
Aos ingleses tornamos a encontrá-los - dominantes como nunca, respeitados na praça e senhores do negócio do vinho do Porto - no meio do século passado. Júlio Dinis conta-os em "Uma Família Inglesa", benquistos, obsequiados, fleumáticos e genuínos, no protótipo de Mr. Richard Whitestone. Ramalho Ortigão explica-os ditadores da moda e dos modos, contagiando hábitos, usos e costumes, associando o bom gosto à comodidade. So british! O tom e o ar são rapidamente copiados pelos portuenses contemporâneos, que "cultivam esmeradamente a suíça, a gravata espalhafatosa, o fraque curto, a bota grossa e o chapéu de chuva."
De dia entregavam-se ao trato comercial, que então abarcava já as madeiras e o bacalhau, mostravam-se pela Rua Nova (dos Ingleses), recolhendo ao fim da tarde ao lar, primeiro para os lados do Campo Alegre, depois para a Foz e mais tarde para Leça, em Matosinhos, e Miramar, em Gaia. Regressavam à Baixa do Porto, em sendo caso, para os bailes ou para o teatro, e os mais boémios marcavam encontro na Águia de Ouro, reputada casa de pasto.
Mudados de armas e bagagens, instalados definitivamente na Invicta, o sucesso dos ingleses nos negócios impô-los à cidade, conquanto nos privados dos seus five o'clock tea e parties preservassem a, por assim dizer, assumida superioridade de uma colónia como valores únicos, fechada aos perigos da aculturação. Por isso edificaram as suas fortalezas: a sua escola, o seu hospital, a sua igreja, a sua feitoria, os seus clubes.

P.S. - Segunda parte de um trabalho que escrevi para a edição de Junho de 1992 da revista Grande Reportagem, então dirigida por Miguel Sousa Tavares. Lembrei-me dele a propósito de uma recente reportagem do jornalista David Mandim no DN Life. 

What's up, doc? 20

Foto Hernâni Von Doellinger

Às vezes mando passear o telemóvel

O meu mais recente telemóvel está equipado com aquela extraordinária e inutilíssima aplicação a que chamam "pedómetro", embora fosse melhor chamar-lhe "podómetro", mas a que eu chamo "contador de passos". Para ficar satisfeito como um tamagotchi, o contador precisa de dez mil passos diários - e então arrota. Que se segue: em dias de maior preguiça, peço ao meu filho que me leve o telemóvel a dar uma volta...

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Dia de inspecção

Foto Hernâni Von Doellinger

Na antiga Roma era costume fazer no dia 14 de Novembro uma inspecção geral à cavalaria. No calendário romano este era o 18.º dia antes das calendas de Dezembro.

Interlúdio fotográfico 186

Foto Hernâni Von Doellinger

Ele há dias

Há dias que nunca deveriam apresentar-se ao serviço.

O famigerado Bando dos Três

Foto Hernâni Von Doellinger

Avelino Díaz 4

Unha rosa

Unha rosa para ti, Rosalia
con galega fidel devoción,
en homenaxe das rosas nacidas
na verde roseira
do teu corazón.
Unha rosa de cor d'alborada
que sinada de gracia naceu
coma ti, que nachiste sin nada
pra ser maioraza
da gracia de Deus.

Avelino Díaz

(Avelino Díaz nasceu no dia 14 de Novembro de 1897. Morreu em 1971.)

Caminho 739

Foto Hernâni Von Doellinger

Florentino López Cuevillas 4

No val esperta a vida de todos os días. Saen dos curros berros de animaes, e voces humás que chaman. Polo camiño que ven do lugar, rube cara á citania un carro cantarín.

"Prosas Galegas", Florentino López Cuevillas

(Florentino López Cuevillas nasceu no dia 14 de Novembro de 1886. Morreu em 1958.)

Só destes, tenho sete 122

Foto Hernâni Von Doellinger

Júlio Dinis 7

Entre os súbditos da rainha Vitória residentes no Porto ao começar a segunda metade do século dezanove, nenhum havia mais benquisto e mais obsequiado, e poucos se apontavam como mais fleumáticos e genuinamente ingleses, do que Mr. Richard Whitestone.
Por tal nome era em toda a cidade conhecido um abastado negociante de fino tacto comercial e génio empreendedor, cujo crédito nas primeiras praças da Europa e da América, e com especialidade nos vastos empórios da Grã-Bretanha, se firmava em bases de uma solidez superabundantemente provada. Nos livros de registo do Bank of England, bem como nos de alguns Joint Stock banks e dos banqueiros particulares da City ou de West-End, podia-se procurar com êxito documentos justificativos deste crédito florescente.
Não era Mr. Richard homem para seguir somente caminhos batidos, nem para empalidecer ao abalançar-se em veredas não arroteadas, onde se achava a sós com os seus esforços e tenacidade.

Por vezes arriscara capitais a inaugurar companhias, a plantar novos ramos de comércio, a auxiliar indústrias nascentes, aventurando assim proveitosos exemplos, para serem seguidos depois, já com melhores garantias de lucro, pelo seus colegas, caracteres em geral cautelosos e positivos e sempre desconfiados a respeito de inovações. 

"Uma Família Inglesa", Júlio Dinis

(Júlio Dinis nasceu no dia 14 de Novembro de 1839. Morreu em 1871.)

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Fui ao circo e vi o mundo

Foto Hernâni Von Doellinger

Circo que é circo tem nome de circo. Ponto. Nome com pozinhos de perlimpimpim, nomes exóticos, inventados à la minuta, nomes de fazer sonhar. Nomes à antiga: Arena, Brasil, Cardinali, Circolândia, Chen, Cristal, Dallas, Dragon, Eddy, Flic Flac, Império, Leunam, Luftman, Mundial, Nederland, Nery Brothers, Oceanika, Soledad, Romero, Torralvo ou Twister. Ou Circo Royal, com Pierre Ivanoff e os seus leões da Abissínia, ou o meu melhor circo do mundo, Circo Merito, que ia a Fafe todos os anos, sem animais acima de cão, mas com um incrível número de transmissão de pensamento operado pelo senhor Merito em pessoa e sua partenaire, e sobretudo uns palhaços como nunca mais ri na minha vida e que contavam sempre a anedota de que a nossa era a única terra à face da mesma mas com maiúscula onde dormiam dezoito numa cama: o meu avô da Bomba, que era o 17, mais a minha avó. O meu avô afinava e eu achava um piadão.
O senhor Merito, que também era mestre-de-cerimónias do es-tra-or-di-ná-ri-ooo... ex-pe-ctá-cu-looo!!!..., padecia de uns óculos com lentes verdes de fundo de garrafa Carvalhelhos versão 1960, que, aos meus olhos infantis e crentes, justificavam à partida os poderes adivinhatórios de que ele estava evidentemente investido.
Coisas de outro mundo. No circo aprendi palavras sen-sa-ci-o-nais, que gostava de ouvir e de dizer e não sabia o que significavam: funambulista, malabarista, contorcionista, equilibrista, acrobata voador, faquir, trapezista, pirofagista, globista, faquista, mais engolidor de espadas, palhaço e ilusionista - estas três eu ia lá -, e que hoje percebo que todas são afinal meros adereços ou adjectivos para outra palavra do léxico circense que é a palavra... político.
Agora? Agora andam por aí circos com nomes paisanos, insossos, e a magia foi um ar que se lhe deu. Nomes de linha média em quatro-quatro-dois losango: Rúben, Cláudio, Leandro e Walter Dias. Nomes do dia-a-dia, corriqueiros, sem pés nem cabeça, como se fossem nomes de talhos ou retrosarias. Como se fossem: o Circo Almeida, o Circo Brochado, o Circo Ferreira, o Circo Gomes, o Circo Lopes, o Circo Magalhães, o Circo Santos. O Circo Celso. Sem o glamour de um Tony, sem o garbo de um Fredy, sem as lantejoulas de uma Nandy nem as meias de rede de uma Mirita no seu rola-rola, ainda que rotas, porque no circo é importante trabalhar com rede, posto que sem fio, portanto Wi-Fi.
E ainda haverá palhaços excêntricos musicais? E a profissão está devidamente reconhecida e enquadrada? Tem ordem? Carteira profissional?
Era um deslumbramento vivermos - digo bem, vivermos - de coração aos saltos e mãos a tapar os olhos, o perigosíssimo trabalho daqueles artistas cheios de is gregos e cabelo empastado, artistas in-tarrr-na-ci-o-nais de Ermesinde e Freamunde - Cuidado, Dany, cuidado! Res-pei-tá-vel público, silêncio, o mais completo silêncio, por favor, peço o silêncio dos senhores ex-pe-cta-do-reeesss... Vamos, Dany, cuidado, upa, ealé, bravo, bravo, Dany, bravo!...
O circo era o melhor faz-de-conta de todos os tempos! O famoso Pierre Ivanoff chamava-se Pedro Piloña Reina e era um espanhol de Valência nascido em Casablanca, Marrocos. Na jaula, com os leões, vestia de tribuno romano que eu sabia dos filmes - e ficou-me até hoje. Tinha eu se calhar sete anos quando o Pedro, aliás Pierre, desafiou o meu pai, saxofonista, a fazer-se ao mundo a bordo da orquestra do Circo Royal, mas o meu pai não foi. Foi para mim um desgosto muito grande, que já me via palhaço, a morar na rulote, a faltar à escola e a rasgar completamente as meias de rede da Mirita...

O sítio do circo em Fafe era na Feira Velha. A Câmara, quando se tornou mercearia para não ficar atrás das outras, meteu lá carros à hora e é pena.

P.S. - Texto publicado originalmente no dia 17 de Novembro de 2017. Carlos Drummond de Andrade dizia: "Vou ao circo para me sentir em casa com o mundo". E Ferreira Gullar, no poema "Improviso para a moça do circo", do livro "Na Vertigem do Dia", lembrava a infância e contava: "é pouca a vida que a cidade oferece, até que aparece o circo". Estamos com o Natal em cima, haverá circo por todo o lado. Façam-me um favor: vão ao circo! Levem os filhos ao circo, as namoradas, as esposas, as amantes. Descubram o mundo e sejam felizes, porra! Vão ao circo e digam que vão da minha parte e que infelizmente eu de momento não posso ir.

Interlúdio fotográfico 185

Foto Hernâni Von Doellinger

Microcontos & outras miudezas 178

Ao fundo do tonel
A luz ao fundo do tonel é um perigo. Por causa da libertação de gases.

Empreendedorismo
Fazia anos muito bem. E vendia para fora.

Lições de História: Maria Antonieta
Maria Antónia Josefa Joana de Habsburgo-Lorena ou, em alemão, Maria Antonia Josepha Johanna von Habsburg-Lothringen ou, em francês, Marie Antoinette Josèphe Jeanne de Habsbourg-Lorraine chamava-se Maria Antonieta. Nasceu em Viena, Áustria, no dia 2 de Novembro de 1755, foi rainha sem sorte de França e Navarra e perdeu a cabeça em Paris, tinha apenas 37 anos. Coisa de mulheres, houve quem dissesse na altura. Hoje é preciso ter muito cuidado com o que se diz.

Por um triz
Quando finalmente compreendeu que há vida para além da morte, já era tarde demais.

O velho contínuo, como a própria palavra indica
A coisa não empancava quando os assistentes operacionais eram contínuos. Como a própria palavra indica...

Lições de História: a Guerra dos Oitenta Anos 
No dia 4 de Novembro de 1576, na Flandres, forças espanholas capturaram a cidade de Antuérpia, no âmbito da Guerra dos Oitenta Anos, que se verificou entre os futuros holandeses e Espanha. A Guerra dos Oitenta Anos ostenta este curioso e inusitado nome, Guerra dos Oitenta Anos, para não ser confundida com a Guerra dos Dez Anos, entre cubanos e espanhóis evidentemente, com a Guerra dos Treze Anos, entre prussianos e teutónicos, com a Guerra dos Trinta Anos, entre a Alemanha e quem lhe aparecesse à frente, com a Guerra dos Sete Anos, entre França mais aliados e Inglaterra mais aliados (incluindo Portugal), com a Guerra dos Cem Anos, outra vez entre ingleses e franceses, e até com a Guerra dos Seis Dias, entre árabes e israelitas. A História, assim maiusculada, não se compadece realmente com confusões.

Pela sombra
Mandaram-no ir pela sombra e ele foi. Era meia-noite e não lhe deu grande trabalho.

Os dias contados
Tinha os dias contados. Eram já exactamente vinte e dois mil seiscentos e trinta e três.

A vida é como andar de bicicleta: uma chatice...

Foto Hernâni Von Doellinger

Os amantes de Novembro, de Alexandre O'Neill

Os amantes de Novembro

Ruas e ruas dos amantes
Sem um quarto para o amor
Amantes são sempre extravagantes
E ao frio também faz calor

Pobres amantes escorraçados
Dum tempo sem amor nenhum
Coitados tão engalfinhados
Que sendo dois parecem um

De pé imóveis transportados
Como uma estátua erguida num
Jardim votado ao abandono
De amor juncado e de outono.


Alexandre O'Neill, "No Reino da Dinamarca"

Offshore, se fashavore 275

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 12 de novembro de 2019

O circo éramos nós

Compreendo as bancadas vazias dos circos. Os circos são, por estes dias tristes e desesperançados, um luxo e uma redundância. Um anacronismo. A magia e o sonho são delito. A felicidade foi proibida por decreto. A gargalhada, se for popular, é considerada um desperdício. A "escola moderna" é aquela que ensina que a "vida não é só alegria", diz o ministro Nuno Crato. A escola moderna é aquela que fecha, digo eu. Não há dinheiro, não há circo.
O circo somos nós - camelos, ursos, jacarés em camisolas contrafeitas, asnos e leões mansos. Homens-bala de pólvora seca, malabaristas, contorcionistas, ilusionistas, equilibristas, palhaços - somos nós, porque nos mandam e porque somos o único circo a que temos direito. Vivemos na corda bamba e sem rede. Tiraram-nos a rede, esticam-nos a corda, caímos que nem tordos sem capacete. Por mim, deixo em testamento: quando já não houver ninguém em cima dela, podem também levar a corda. Usem-na.

Por outro lado: o circo está na cidade. E eu vou-me rir, vou-me rir, vou-me rir.

P.S. - Texto publicado originalmente no dia 25 de Outubro de 2012, em plena vigência do governo da troika e Passos Coelho.

Respeitável público

Foto Hernâni Von Doellinger

Respeitinho

Lá vão ligeiros, marido e mulher conversando pela rua, ele à frente e ela um passo atrás, coisa de antigos. Têm uma filha. Casou. Lá vai jovem e ligeira conversando pela rua com o marido a estrear, ela atrás, o homem um passo adiante, porque o respeito é muito bonito.

Esplanada, de Manuel António Pina

Foto Hernâni Von Doellinger

Esplanada

Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora do liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes. 


Manuel António Pina, "Um Sítio Onde Pousar a Cabeça"

Interlúdio fotográfico 184

Foto Hernâni Von Doellinger

Bruno Tolentino 7

Em frontispício

"Eu vos compensarei pelos anos que o gafanhoto comeu..."
(Joel, 2:25)


O Senhor prometera nos compensar os anos
que a legião dos gafanhotos devorara,
meu coração, mas a promessa era tão rara
que achei mais natural vê-Lo mudar de planos


que afinal ocupar-Se de assuntos tão mundanos.
Assombra-me, portanto, ver uma luz tão clara
fecundar-me as cantigas, coração meu - repara
como crescem espigas entre escombros humanos...


Naturalmente, quem sou eu para que Deus
cumprisse em minha vida promessa tão perfeita,
e no entanto hei-Lo arando, limpando os olhos meus,


fazendo-os ver que, no trigal em que se deita
a luz dourada e musical, se algo perdeu-se
foi como o grão - entre a seara e a colheita.


Bruno Tolentino

(Bruno Tolentino nasceu no dia 12 de Novembro de 1940. Morreu em 2007.) 

Só destes, tenho sete 121

Foto Hernâni Von Doellinger

O miniaturista

Era um miniaturista sui generis: fazia miniaturas em tamanho real.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Só campo, só sossego, só solidão calada

Foto Hernâni Von Doellinger

Novembro, de Sophia de Mello Breyner Andresen

Novembro

A respiração de Novembro verde e fria
Incha os cedros azuis e as trepadeiras
E o vento inquieta com longínquos desastres
A folhagem cerrada das roseiras.


Sophia de Mello Breyner Andresen, "Geografia"

Vida de cão 484

Foto Hernâni Von Doellinger

Petronas, o Patrício, tio de Miguel, o Ébrio

Fez anos no passado dia 3 de Setembro e foi aqui devidamente assinalada. A Batalha de Lalacão realizou-se entusiasticamente em 863 entre as forças do Império Bizantino lideradas por Petronas, o Patrício, tio do imperador Miguel III, o Ébrio, e um exército invasor árabe, comandado por Ambros, emir de Melitene e não se sabe tio de quem. Depois de algum à-rasquismo próprio destes casuais eventos guerreiros, ora agora bates tu, ora agora bato eu, os bizantinos lá acabaram por levar a taça, decisão unânime dos juízes.
Como prenda pela vitória, o general Petronas - neto de Artavazd Mamikonian, filho de Marino e Teoctista e irmão mais novo de Bardas e da imperatriz Teodora casada com o imperador Teófilo, pais de Miguel -, é hoje em dia cinzento, guarda-redes do Wolverhampton, dono de todas as reservas de petróleo e gás natural da Malásia, tem duas torres gémeas e patrocina carros Mercedes de Fórmula Um e motos Yamaha de Moto GP. Está muito bem na vida, diz a Forbes, que não foi à guerra. Quanto ao sobrinho Miguel, lá continua, nos copos. Bizantinamente...

P.S. - Petronas, o Patrício, morreu a 11 de Novembro de 865, curiosamente no mesmo dia em que faleceu também o monge bizantino António, o Jovem, com apenas 80 anos de idade.

Aos bons velhos tempos

Foto Hernâni Von Doellinger

Longe vão os tempos de ouro da colónia britânica estabelecida no Porto, contados por Júlio Dinis ou Ramalho Ortigão. Às impenetráveis gerações dos descobridores das rotas do vinho do Porto e dos conceituados comerciantes de meados do século passado sucederam os modernos professores e tecnocratas, fleumáticos ainda e genuínos súbditos de Sua Majestade. Para a História e para a cidade, sobraram um certo toque na arquitectura da urbe e o pecado original da conversão ao futebol, contribuições polidamente entremeadas pelas indispensáveis parties e pelo institucional five o'clocke tea, hoje em dia já quase só para inglês ver.

O Porto - a cidade ou o vinho - conserva a sua velha relação de amizade com os ingleses. Relação de amizade e de negócios, diga-se em abono da verdade. Os ingleses são hoje apenas a terceira colónia estrangeira na cidade, e dos antigos monopólios comerciais restam somente recordações, mas há história a contar e justiça a fazer. Fermentada ao longo dos anos, mistura de tempos finos com outros de nem por isso, esta é uma crónica apurada a que os finais do século dão um sabor de memória, muito mais do que de protagonismo.
A "grande invasão" aconteceu naturalmente no rescaldo da Guerra Peninsular (1808-1814), que juntou no mesmo lado da barricada portugueses, espanhóis e britânicos contra a ameaça dos exércitos napoleónicos. Foi então o boom. O extraordinário desenvolvimento económico da cidade e o faro para o negócio dos filhos da Velha Albion conjugaram-se para seduzir muitas famílias inglesas convidando-os à fixação definitiva à beira-Douro, num casamento feliz e duradouro em regime de comunhão de adquiridos. E no entanto não fora o vinho do Porto que chamara os britânicos ao Norte de Portugal. O verde, nas leiras de Viana do Castelo, Melgaço e Monção, tinha sido o primeiro namoro, ainda antes de 1700, mas a "necessidade" de um vinho mais durável, mais encorpado e mais forte empurrou os espertos mercadores até ao Douro e à Invicta, sessenta anos depois.
A verdade, no entanto, é que remonta a séculos antes - ao despertar da nossa nacionalidade - o início das relações do Porto com o reino dos meetings e dos puddings. O primeiro contacto terá sido protagonizado pelo bispo portucalense D. Pedro Pitões, que, por encomenda de Afonso Henriques, pediu a cruzados ingleses em trânsito para a Terra Santa que fossem dar uma mãozinha à libertação definitiva de Lisboa das mãos dos mouros. Corria o ano de 1147.
Dois séculos após, no memorável ano de 1353, o Porto outra vez fazia História, antecipando-se em exactos dois decénios à instituição da Mais Velha Aliança, num rasgo de génio diplomático e comercial: enviado à Corte de Eduardo III, o respeitado mercador portuense Afonso Martins, o Alho, conseguia, a 20 de Outubro, os benefícios de um trato de negócios com os ingleses válido por cinquenta anos.

P.S. - Primeira parte de um trabalho que escrevi para a edição de Junho de 1992 da revista Grande Reportagem, então dirigida por Miguel Sousa Tavares. Lembrei-me dele a propósito de uma recente reportagem do jornalista David Mandim no DN Life.

Interlúdio fotográfico 183

Foto Hernâni Von Doellinger

Jacuzzi!

Contra a injustiça e a mentira, o indignado escritor gritou: - Jacuzzi! E entrou para a história.

domingo, 10 de novembro de 2019

Uma ponte e não um fim

Foto Hernâni Von Doellinger

Álvaro Cunhal 5

Vendo os companheiros afastarem-se, os dois garotos atiraram as marretas ao chão. O do pescoço alto partiu como uma flecha, espadeirando as poças de água com os pés nus e agitando os braços em gestos largos e desengonçados, a querer possivelmente significar que era um grande nadador. O outro seguiu, sacudido de riso. Chegaram antes de todos à taberna, mas o engraçado, incapaz de ali esperar, veio para a chuva, chamando os homens com os braços e reivindicando assim a iniciativa e a descoberta de tão magnífico abrigo.
Foram-se juntando no pequeno e escuro compartimento. Amontoados à porta, olhavam para fora a insinuar ao taberneiro que estariam ali só um instante a abrigar-se da chuva. As ocasiões de negócio eram porém raras e o taberneiro, apressado, pôs-se a lavar os copos já lavados, olhando os homens a pedir desculpa da demora em os servir. Seja pela vergonha de negar tão claro convite, seja porque lhes parecesse não poderem ali ficar todos sem gastar um tostão, seja pela força do pecado, três homens, com ar solene, chegaram-se para beber. Então todos os outros se instalaram mais à vontade, sentando-se uns à roda da mesa, fugindo outros do vão da poria, onde a chuva martelava trazida pelo vento.
- Já não temos outro dia - repetiu o homenzinho magro.
- Era bem precisa, era bem precisa - disse o velho, que não conseguira ainda, nem conseguiria nunca, ajeitar pelos ombros o minúsculo casaquinho.

"Até Amanhã, Camaradas", Manuel Tiago

(Álvaro Cunhal nasceu no dia 10 de Novembro de 1913. Morreu em 2005.)

Vida de cão 483

Foto Hernâni Von Doellinger

O pinto-calçudo e o caga-na-saquinha

São dois conceitos completamente diferentes, embora não falte quem os confunda: pinto-calçudo e caga-na-saquinha. Vejamos: o pinto-calçudo é o rapazinho que começou a usar calças compridas e as calças colam-se-lhe às pernas, mas também pode ser o indivíduo mal-ajambrado que, por exemplo, veste calças estreitas e ridículas, nomeadamente zangadas com os sapatos; quanto ao caga-na-saquinha, é uma criatura medrosa, triste, insignificante, e ponto final.
Portanto, pinto-calçudo e caga-na-saquinha, duas filosofias de vida essencialmente diversas: o pinto-calçudo é uma coisa, questão de aspecto, e o caga-na-saquinha é outra coisa, questão de carácter. Evidentemente, há quem acumule.

É favor apagar a luz no fim do túnel

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 9 de novembro de 2019

Futebol, a quinta-essência

Antigamente jogava-se para ganhar. Às vezes ganha-se, outras vezes perde-se, geralmente empata-se. Agora joga-se para "tirar ilações".

Interlúdio fotográfico 182

Foto Hernâni Von Doellinger

Constantino, o camisa VII

Tal como o outro, este Constantino também era um tipo algo bizantino e evidentemente levado da breca. Imperou entre 913 e 959, celebrando-se hoje o milésimo centésimo sexto aniversário da sua tomada de posse como governante de faz de conta, tinha então oito anos. Para se diferenciar dos restantes Constantinos, que realmente foram mais que as mães, ficou na História como Constantino VII Porfirogénito, que isto de nomes jeitosos era mesmo com ele: filho ilegítimo de Leão VI, o Sábio, e de Zoé Zautsina, casou-se com Helena Lecapena, de quem teve sete filhos: Leão, que morreu jovem, Romano II, futuro imperador, Teodora, que se casou com o imperador João I Tzimisces, e as raparigas Zoé, Ágata, Teófano e Ana, mandadas todas para um convento, acredito-me que Ana e Ágata derivado à simpleza dos nomes próprios e as outras para não se ficarem a rir.
Este Constantino, o Porfirogénito, que quer dizer "o Nascido na Púrpura", ou camisa VII para os amigos, ou CP VII na vetusta comunicação social, foi mentor onomástico de Luciana Abreu e Yannick Djaló e inspirou a criação do mais famoso regimento militar dos Estados Unidos da América, o 7.º de Cavalaria, que entrou em vários filmes. Não se atreveu à pancada contra o Macieira, o 1920, o Croft e o L34, mas ainda fez quatro épocas bem boas no Leça FC.

P.S. - Texto publicado originalmente no passado dia 6 de Junho. Constantino VII, imperador bizantino, morreu no dia 9 de Novembro de 959.

Para atingir, faltou-me um golpe de asa...

Foto Hernâni Von Doellinger

Antonio López Ferreiro 4

Moy leda iba Mariña pol-o camiño. E moitos motivos se lle viñan á a maxinación pra estalo; pero antre todos mandaba un, e era que ao fin hachara o medio de que Ramil non lle poidera chamar ingrata. Así é que nada sinteu o camiño; e logo tamén iba a boo paso. Ao atravesar o portal do seu pazo e mesmo ao apearse, sinteuse un troupeleo de cabalos que viñan d'a parte de Lalín. Algúns d'os criados que se foran achegando pra ver qué era aquelo, volveron axiña berrando: - O señor Sancho! O señor Ramil!
Á as voces sayeu Mariña correndo ao tempo que eles xa saltaran d'os cabalos e viñan c'os brazos abertos cara á ela. Mariña abalanzouse á seu hirmán Sancho, á quen tantas veces dira por morta, e abrazouse un n'outro e de tal maneira que, quen os vira, diría que aquel non era abrazo senon a soldadura de duas almas.
Entramentras Ramil estivo asperando que lle chegase á sua vez. E chegoulle; mais, estando Mariña abrazándoo con aquela tan gran dosis de cariño que ela sabía encerrar n-o seu peito, sinteu de pronto un estremecemento que a fixo rebotar pra atrás. Ramil deixou caer os seus brazos; e como conocía á Mariña, coidou que á él non eran debidos tantos cumprimentos. Ainda pensou si él faria algunha descortesía. Pero logo como se non pasara nada, encamiñáronse todos pra a casa, tan ledos e falangueiros como n-o maor día de festa.


"O Niño de Pombas", Antonio López Ferreiro

(Antonio López Ferreiro nasceu no dia 9 de Novembro de 1837. Morreu em 1910.)

Caminho 738

Foto Hernâni Von Doellinger

O número

Subiu ao palco, aproximou-se do microfone e anunciou que tinha um número para apresentar. Apresentou o cinquenta e três e foi um sucesso. 

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

A falta de ar é opcional

Foto Hernâni Von Doellinger

As pessoas vivem fechadas em caixotes. Em caixinhas dentro de caixotes. E cada caixinha tem um respiradouro chamado varanda. E as pessoas fazem marquises.
No prédio onde eu moro, o meu apartamento é o único que não tem marquise ou paramarquise na varanda. Dá nas vistas, é verdade, destoa, incomoda os vizinhos, aliás condóminos, e todos os dias tenho a caixa de correio assediada por uns quantos panfletos em quadricromia e papel couché que me oferecem o sufoco a xis euros o metro quadrado. Muito agradecido, mas passo: a varanda faz-me falta tal qual está.
Gosto de correntes de ar, que hei-de fazer? Gosto de terra e gosto de mar. E gosto de levar com a terra e com o mar nas ventas. Gosto dos cheiros. Gosto de pensar (ou de pensar que penso), gosto de refrescar ideias. A minha varanda é o meu retiro. E é o meu quintal, a minha esplanada, o meu posto de vigia. Gosto de semear, de regar os vasos, de espreitar o nanocrescimento dos coentros, da salsa e do tomilho, e até tenho um loureiro e um carvalho, gostava de fumar a minha cachimbada e de beber o meu CRF "em balão previamente aquecido", que já não fumo e bissextamente bebo, gosto de ver passar navios. Condenaram-me a isso, a ver navios, mas eu gosto. Sou um gajo cheio de sorte: moro mesmo em frente ao mar, se me puser de lado.


É. Mataram os vizinhos e agora somos condóminos. Éramos vizinhos, lembram-se? E a palavra vizinho queria dizer coisas boas: proximidade, amizade, companhia, ramo de salsa, comunidade, confiança, solidariedade, serões à soleira da porta, copinho de vinho novo partilhado, malga de marmelada, frasquinho de geleia, as primeiras uvas, cumplicidade, visita ao hospital, dar a camisa, porta aberta, comadre, quase família, melhor que família, tu cá, tu lá. Agora somos condóminos. E a palavra condómino tem uma carga que é um pesadelo: propriedade, despesa, individualidade, indiferença, reunião, ausência, chatice, discussão, impessoalidade, porta fechada a sete chaves (três, pelo menos), queixinha, fracção, má-língua, elevador, o tempo, bom dia e boa tarde, eu cá, tu lá.
E é irónico. Há mais de trinta anos que eu sou um condómino exemplar, um condómino da melhor pior espécie - não apareço, só pago -, mas hoje deram-me as saudades de ser vizinho. Sei que já vou tarde. Estamos todos condenados a sermos condóminos para o resto das nossas vidas. Se ainda ao menos fôssemos conDominus nobiscum...

P.S. - Cocktail de textos publicados originalmente nos dias 5 de Maio de 2012 e 8 e 10 de Março de 2013. Hoje, 8 de Novembro, é Dia Mundial do Urbanismo.

Interlúdio fotográfico 181

Foto Hernâni Von Doellinger

A pintura do Mané

A pintura do Mané não lhe dizia grande coisa. Asseguravam-lhe que o Mané era um grande artista, falavam-lhe do impressionismo francês, até do realismo, dos jogos de luz e de sombra, dos nus, mas ele não se deixava convencer. O Mané era um gajo porreiro, isso nem se discute, pagava umas cervejas quando chegava a sua vez e desenrascava satisfatoriamente o lugar de defesa-esquerdo nos jogos das manhãs de domingo na praia, mas, quer-se dizer, era apenas um trolha regular e à beira da reforma. Como ele...

Também faço isto muito bem 285

Foto Hernâni Von Doellinger

António Norton 4

Espelho 

Espelho do quarto, pregado à parede.
Só húmido tempo nas manchas da cal,
E as bocas da fome, do riso, e da sede.
 
Retrato de vidro da cor natural.
As nítidas rugas, a forma do sexo,
A idade dos mortos que vem no jornal.
 
Se canto é o sonho que está no reflexo
Por dentro das coisas que estão no real.
 
Se vejo é teu corpo, na sombra, no ar,
No fundo dos olhos que estão distraídos
Com o cheiro da vida que está a passar.
 
Se entendo é a voz que está nos ouvidos
Por dentro da voz que está a falar
Tão fora das coisas que estão nos sentidos.
 
Se olho, é uma concha. Se canto, é o mar.

António Norton

(António Norton nasceu no dia 8 de Novembro de 1924)

The Way 737

Foto Hernâni Von Doellinger

Teixeira de Pascoaes 9

À minha musa

Senhora da manhã vitoriosa
E também do crepúsculo vencido.
Ó senhora da noite misteriosa,
Por quem ando, nas trevas, confundindo.

Perfil de luz! Imagem religiosa!

Ó dor e amor! Ó sol e luar dorido!
Corpo, que é alma escrava e dolorosa,
Alma, que é corpo livre e redimido.

Mulher perfeita em sonho e realidade.

Aparição Divina da Saudade...
Ó Eva, toda em flor deslumbrada!

Casamento da lágrima e do riso;

O céu e a terra, o inferno e o paraíso,
Beijo rezado e oração beijada.

"Senhora da Noite", Teixeira de Pascoaes

(Teixeira de Pascoaes nasceu no dia 8 de Novembro de 1877. Morreu em 1952.)