domingo, 22 de setembro de 2019

Também faço isto muito bem 261

Foto Hernâni Von Doellinger

Microcontos & outras miudezas 170

Salvemos a chita!
Convidaram a supermodelo, famosa, a participar no concurso do vestido de chita. "De chita? Jamais! Sou o mais possível contra a roupa feita com pele de animais!", declinou a supermodelo, famosa e irritada, com o mais possível de veemência e dois pontos de exclamação, como deve declinar uma supermodelo, famosa, irritada e activista, que se preze. "Preferia desfilar nua!", atirou, altiva, e era o terceiro ponto de exclamação, para acabar de vez com a conversa. "Também está bem", concordaram.

O requinte e o requente
A diferença entre requintado e requentado passa quase despercebida. No arroz de marisco é que se nota mais. E na sanita, consequentemente.

É isto, somos pó...
O médico mandou-o para o sanatório. Alguém leu mal o papel e levaram-no para o tanatório. Foi-lhe fatal.

Ao virar da esquina
A Felicidade estava sempre ao virar da esquina. Depois, pumba!, hospital...

Desconstrução civil
Perguntavam-lhe pela profissão e ele respondia, orgulhoso, "operário da desconstrução civil". Era um especialista, com efeito. Ele e mais dois camaradas chegavam, de marreta e pé-de-cabra, picareta pneumática e um ror de sonoras caralhadas, e num mês, mês e meio, escavacavam completamente uma casa, esvaziando-a de pavimentos, divisórias, tectos, portas, janelas, memórias e telhados. Só ficavam os alicerces ao baixo e as paredes exteriores ao alto. Depois vinham os outros, os da construção civil, e faziam mais um alojamento local.

Eles não sabiam que o sono
Dormia, por norma, dezasseis ou dezassete horas, consoante fossem dias ímpares ou pares, respectivamente. Ia ao emprego marcar o ponto de saída e era alvo de todas as críticas, atacado por patrões, colegas e até pelo sindicato. Defendia-se, filosoficamente: - Vocês não sabem que o sono é uma constante da vida, tão concreta e definida como outra coisa qualquer?..,

O ritmo, mar, o ritmo, o verso, o verso!

Foto Hernâni Von Doellinger

Político, honesto e poupado

Era um político tão honesto, tão honesto, que ainda tinha a honestidade por estrear.

sábado, 21 de setembro de 2019

O GNR e o cão (ou O binómio)

Foto Hernâni Von Doellinger

Com os ursos

Mandaram-no jogar ao pau com os ursos e ele foi. Nunca mais deu notícias.

Também faço isto muito bem 260

Foto Hernâni Von Doellinger

Herberto Sales 7

Im afraid of

Tenho medo de perder-te
e de, perdendo-te,
não mais te ver cavalgar sobre a relva úmida
em galope elástico e branco,
num ondular de ancas
brancas
de lua com maciez de jacintas.

Tenho medo de perder-te
e de, perdendo-te,
perder-me também
(irremediavelmente)
numa infecunda solidão floral:
sem o mel da polpa que o fruto oculta,
sem o pólen da rosa escarlate.


Herberto Sales

(Herberto Sales nasceu no dia 21 de Setembro de 1917. Morreu em 1999.)

Na minha rua passa o mar 66

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Ora bolhas

Mandaram-no lamber sabão e ele foi. Divertiu-se imenso a fazer bolhinhas.

Vida de cão 469

Foto Hernâni Von Doellinger

Sérgio Milliet 4

[Aranha enorme de ventre amarelo]

Aranha enorme de ventre amarelo
sai a lua da teia do arvoredo...
E as estrelas fogem com medo.


Sérgio Milliet 

(Sérgio Milliet nasceu no dia 20 de Setembro de 1898. Morreu em 1966.)

I want to ride my bicycle 94

Foto Hernâni Von Doellinger

Noémia de Sousa 2

A Billie Holiday, cantora 

Era de noite e no quarto aprisionado em escuridão
apenas o luar entrara, sorrateiramente,
e fora derramar-se no chão.
Solidão. Solidão. Solidão.

E então,
tua voz, minha irmã americana,
veio do ar, do nada nascida da própria escuridão...
Estranha, profunda, quente,
vazada em solidão.

E começava assim a canção:

"Into each heart some rain must fall..."
Começava assim
e era só melancolia
do princípio ao fim,
como se teus dias fossem sem sol
e a tua alma aí, sem alegria...

Tua voz irmã, no seu trágico sentimentalismo,
descendo e subindo,
chorando para logo, ainda trémula, começar rindo,
cantando no teu arrastado inglês crioulo
esses singulares "blues", dum fatalismo
rácico que faz doer
tua voz, não sei porque estranha magia,
arrastou para longe a minha solidão...

No quarto às escuras, eu já não estava só!
Com a tua voz, irmã americana, veio
todo o meu povo escravizado sem dó
por esse mundo fora, vivendo no medo, no receio
de tudo e de todos...
O meu povo ajudando a erguer impérios
e a ser excluído na vitória...
A viver, segregado, uma vida inglória,
de proscrito, de criminoso...

O meu povo transportando para a música, para a poesia,
os seus complexos, a sua tristeza inata, a sua insatisfação...

Billie Holiday, minha irmã americana,
continua cantando sempre, no teu jeito magoado
os "blues" eternos do nosso povo desgraçado...
Continua cantando, cantando, sempre cantando,
até que a humanidade egoísta ouça em ti a nossa voz,

e se volte enfim para nós,
mas com olhos de fraternidade e compreensão!


Noémia de Sousa

(Noémia de Sousa nasceu no dia 20 de Setembro de 1926. Morreu em 2002.)

Folha a folha, a vida

Foto Hernâni Von Doellinger

Alberto de Lacerda 6

Regresso

Por toda a parte espectros
Do mapa percorrido em cinco e quarenta
Prolongados anos


A cidade encontra
O espectro do que eu fui
Saído dos horrores da adolescência

Filtra obscuramente
O meu imo
Que não conheço

Vem
irreconhecível
Ao meu encontro

Tacteamo-nos no escuro
Apaixonadamente
O amor é cego
Mas só ele permite
Realmente ver


"O Pajem Formidável dos Indícios", Alberto de Lacerda

(Alberto de Lacerda nasceu no dia 20 de Setembro de 1928. Morreu em 2007.)

Só destes, tenho sete 107

Foto Hernâni Von Doellinger

Silva Freire 4

o boi é rococó
- quer ver?
boi barroso
boi socado
boi barrito
boi barroco

Silva Freire, "Giro do couro cru"

(Silva Freire nasceu no dia 20 de Setembro de 1928. Morreu em 1991.)

Na minha rua passa o mar 65

Foto Hernâni Von Doellinger

Santos Moraes 3

O circo

Na praça antiga da Matriz havia
Um circo que chegara bem recente.
Eu, menino, julgava-o ingenuamente
O palácio encantado da alegria.

Todas as noites, coração ardente,
Àquele mundo de ilusões corria,
E rindo do palhaço eu me sentia
Um ser extraordinário de contente.

Hoje, o circo perdido na distância
Tantas vezes me vem da alma à tona
Que refloresce em mim a leda infância.

Encantamentos vãos que a mente afaga!
Sonhos que o peito avaro aprisiona
E o coração por alto preço os paga!

"Tempo e Espuma", Santos Moraes 

(Santos Moraes nasceu no dia 20 de Setembro de 1920)

Ponha aqui o seu pezinho...

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Ora bolas

Mandaram-no dar a volta ao bilhar grande e ele foi. "Bati o recorde?", perguntou no final.

Também faço isto muito bem 259

Foto Hernâni Von Doellinger

Botar é a direito e um beber cívico

- Botas tu ou boto eu?
- Bota tu, mas bota de alto.
- Boto em consciência.
- Então bonda, que já esborda.
- E agora?
- Agora: dou-lhe um beijinho, mando-lhe uma pescoçada, e a seguir boto eu.

Só destes, tenho sete 106

Foto Hernâni Von Doellinger

É hoje!, é hoje!...

Dezanove de Setembro, amanhecendo. A velha prostituta, muito limpa e organizada, consultou a agenda praticamente vazia e leu baixinho, soletrando, acariciando as sílabas uma a uma: - Dia do Ortopedista. Às 10h30.
E foi lavar-se.

Na minha rua passa o mar 64

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Adeus, confrade, até outro dia

E agora, o que vai ser das nossas confrarias? Penso muito especialmente, com o coração pesado e não sem um amargo de boca, na Confraria Gastronómica da Região de Lafões, na Confraria da Carne Barrosã, na Confraria Gastronómica da Raça Arouquesa, na Confraria Gastronómica do Toiro Bravo ou, puxando a brasa à minha sardinha, na Confraria da Vitela Assada à Moda de Fafe, honradas confrarias que destaco ao acaso entre as cento e vinte e três mil novecentas e oitenta e sete confrarias gastronómicas de Portugal. E agora, o que vai ser daquelas fatiotas todas janotas? E dos pins? E das fitas? E dos chapéus tão pândegos? E dos sarrafos? E das tainadas quinzenais? E das viagenzinhas eventualmente de geminação, de preferência ao estrangeiro, sempre que possível ao Brasil, o que vai ser, agora?
Teremos sempre, graças a Deus, a Confraria de Nossa Senhora das Neves e a Confraria da Folha de Alface Repolhuda: mas terão estes dois oásis digamos confreiráticos condições para acolher pelo menos com o conforto devido a uma galinha pedrês os milhões de confrades e confreiras assim de repente despejados dos seus deveres e haveres por esse país fora, como se fossem bandidos, refugiados praticamente?
Estou bastante preocupado.

P.S. - Ciúmes, é o que se supõe. O reitor da Universidade de Coimbra, que também veste as suas roupinhas de festa, posto que mais recatadas, entre o padre e a viúva, rematadas na iluminada cabeça por uma  borla com berloques, inveja a garridice carnavalesca das vestimentas das confrarias. Vai daí, faz-lhes a folha.
Já agora. A lengalenga, em Fafe, dizia-se assim: "Pelo sinal, bico real, comi toucinho no teu quintal, se mais me desses, mais eu comia, adeus, compadre, até outro dia."

Raul Meireles, o biker

Foto Hernâni Von Doellinger

Penteando macacos

Mandaram-no pentear macacos e ele foi. Começou por baixo, evidentemente, mas já é cabeleireiro-chefe em Gibraltar.

Vem, Outono, que este Verão já cansa

Foto Hernâni Von Doellinger

Vamos supor que somos amigos

- Vamos supor que eu ganhava as eleições...
- Mas tu vais concorrer?
- Não vou, mas vamos supor...
- Acho que estavas fodido.
- E aquele ordenadão, os subsídios, as mordomias correlativas, as negociatas, a reforma garantida e XXL, o emprego para a minha mulher, para o meu filho, para o meu tio solteiro e para os meu seis sobrinhos, e o conselho de administração do banco no pós-coisa?...
- Pensando melhor, parabéns. E não te esqueças dos amigos, quero dizer, não te esqueças de mim...

Deixem passar o mar 2

Adicionar legenda

O ambientador

Era a gentileza em pessoa. Onde quer que estivesse ou chegasse, criava sempre bom ambiente. Cheirava a alfazema...

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Desampara-me a loja...

Foto Hernâni Von Doellinger

Bravo!

Morreu tão bem, que a família pediu bis.

Também faço isto muito bem 258

Foto Hernâni Von Doellinger

Ovídio Martins 3

Não me aprisionem os gestos

Não me aprisionem os gestos 
a criança ainda não desertou

Ainda sonho cavalgadas de estrelas

e danças lúbricas de flores
em madrugadas azuis
e jardins suspensos de ouro
e crianças aladas a brincar
e gargalhadas de prata.

Não me aprisionem os gestos

que o mar não cabe num dedal
e meus gestos têm a sugestão do mar
o mistério das ondas do mar
a comunicabilidade do mar

Levem-me a Lógica

fiquem com a Política
roubem-me a Metafísica
tirem-me a roupa
e deixem-me morrer de fome

Porém não me aprisionem os gestos

que uma ave sem asas não é ave

E que diria o meu eu-adulto

ao meu eu-criança
- o único afinal -
que sabe viver em sonho e poesia?

Ah por favor

não me aprisionem os gestos
que a criança em mim não desertou ainda.

"Caminhada", Ovídio Martins

(Ovídio Martins nasceu no dia 17 de Setembro de 1928. Morreu em 1999.)

Trotinetando 23

Foto Hernâni Von Doellinger

Agostinho Neto 3

Adeus à hora da largada

Minha mãe
(todas as mãe negras
cujos filhos partiram)
tu me ensinaste a esperar
como esperaste nas horas difíceis


Mas a vida
matou em mim essa mística esperança


Eu já não espero
sou aquele por quem se espera


Sou
eu minha Mãe
a esperança somos nós
os teus filhos
partidos para uma fé que alimenta a vida


Hoje
somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areias ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico
somos os teus filhos
dos bairros de pretos
além aonde não chega a luz eléctrica
os homens bêbedos a cair
abandonados ao ritmo dum batuque de morte
teus filhos
com fome
com sede
com vergonha de te chamarmos Mãe
com medo de atravessar as ruas
com medo dos homens
nós mesmos


Amanhã
entoaremos hinos à liberdade
quando comemorarmos
a data da abolição desta escravatura


Nós vamos em busca de luz
os teus filhos Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
vão em busca de vida.


"Sagrada Esperança", Agostinho Neto

(Agostinho Neto nasceu no dia 17 de Setembro de 1922. Morreu em 1979.)

E se de repente outonasse?

Foto Hernâni Von Doellinger

José Régio 7

Pérola solta

Sem que eu a esperasse,
Rolou aquela lágrima
No frio e na aridez da minha face.
Rolou devagarinho...,
Até à minha boca abriu caminho.
Sede! o que eu tenho é sede!
Recolhi-a nos lábios e bebi-a.
Como numa parede
Rejuvenesce a flor que a manhã orvalhou,
Na boca me cantou,
Breve como essa lágrima,
Esta breve elegia.


"Filho do Homem", José Régio

(José Régio nasceu no dia 17 de Setembro de 1901. Morreu em 1969.)

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Em vias de extinção

Foto Hernâni Von Doellinger

Uma campanha sem lombo de porco

Dizem os jornais que o PS diz que vai fazer dieta durante a campanha eleitoral que vem aí como quem não quer a coisa. Os socialistas prometem cortar no número de iniciativas, nos gastos e na pegada ecológica, nos almoços e nos jantares. E sobretudo garantem que vão acabar com a famosa rota da "carne assada", que na verdade era assada só de nome, lombo de porco estufado no forno, melhor diriam os jornalistas e os políticos se por acaso percebessem alguma coisa do que comem.
Sobre o até agora incontornável e deslavado lombo de porco de campanha, no pré-PAN, escrevi o seguinte, no dia 2 de Abril de 2016:
Não sei se sabem, a comida oficial da política em Portugal (in rima veritas) é o lombo de porco assado, que por acaso é quase sempre apenas estufado, e uma merda. Canja, lombo e musse de chocolate. Quem já passou por campanhas eleitorais e comeu todos os dias lombo, ao almoço e ao jantar, sabe muito bem do que é que eu estou a falar (mais uma vez, e peço desculpa, mas a verdade é que sou de verso fácil, in rima veritas). Depois, quando alcançam o poleiro ansiado e o povo é que paga, os políticos esquecem-se do porco, tão em conta, tão prato do dia, e servem-se entre eles peixinho da alta à lá qualquer coisa, nanja sardinha, faneca ou carapau de pé-descalço.
Olhem o Professor Marcelo (também já comi lombo de porco com ele), agora que é Presidente: no almoço cerimonial da tomada de posse, foi creme de espargos, robalo a vapor e gelado; hoje, no almoço comemorativo dos 40 anos da Constituição, a ementa versava creme de couve-flor, tranches de garoupa e pudim de Estremoz. Também uma merda, mas cheia de classe.

P.S. - António Costa continuará, no entanto, a comer sílabas. Aguardo a posição do PAN a esse respeito.

Interlúdio fotográfico 149

Foto Hernâni Von Doellinger

Bruno Fernandes, o árbitro

Desde André, do FC Porto, e de Carlos Manuel, no Sporting, que não se via um jogador de futebol arbitrar tanto como Bruno Fernandes. Lembram-se? André e Carlos Manuel andavam sempre encostados ao do apito e eram eles quem mandava no jogo, "Falta!" ou "Não é nada!", conforme o que mais lhes conviesse no momento. Agora Bruno Fernandes manda vir no campo todo, passa raspanetes aos árbitros, de dedo em riste, e às vezes até parece que também quer dar ordens à equipa adversária. Tanto paleio deve dar-lhe uma sede que Deus nos livre...

Também faço isto muito bem 257

Foto Hernâni Von Doellinger

Microcontos & outras miudezas 169

O ovo de Colombo
Quando Colombo pôs o ovo, foi o assombro geral. O respeitável público ainda esperou que lhe saísse também um coelho da cartola ou, vá lá, um par de pombas brancas do lenço de seda. Mas nada. O ovo era número único e foi assim que ficou na História.

Génios
Parecendo que não, há uma diferença assinalável entre o génio da lâmpada e o génio da garrafa. Eu, por exemplo, embora também aprecie a competência e o rasgo de um bom electricista, dou muito mais valor à sabedoria decilitrada de um bêbado manso.

Amar é apanhar piriscas, nomeadamente
Seria um casal patusco, se não fosse trágico. Desengonçados ambos, cómicos no vestir, feiinhos graças a Deus, testo e panela emparelhados de encomenda. Cirandam pelas ruas de Matosinhos todos os dias, de manhãzinha à noite, de braço dado, num andar de procissão e olhos caídos, passando o chão a pente fino à cata de piriscas reutilizáveis. Ele, posto que zarolho, tem visão de longo alcance ou então algum radar que eu não sei. Vê a beata e faz um gesto com a cabeça. Ela, em obediência canina, dobra-se, apanha a prisca referenciada, entrega-lha e corre a enfiar-lhe novamente o braço, se ele deixar, até à próxima. Ele fuma e ela vai feliz. Os dois são um filme mudo. Isso, uma fita das antigas, num preto-e-branco fatela. Digo, seria um casal patusco, se não fosse trágico: quando lhe apetece, o filhodaputa bate na mulher.

Era assim. Mas há uns meses que o vejo sozinho pelas esquinas, desamparado, perdido, dando-se ao trabalho de dobrar a espinha se quer matar o vício. E faço votos para que ela apenas o tenha deixado, a ele. Está a ter o castigo que merece, e vai de mal a pior, porque Deus não dorme, excepto aos sábados. Agora o Governo até as piriscas lhe quer tirar. Bem diz o povo na sua indesmentível sabedoria: as desgraças são como as calças - vêm aos pares.

Piopardo ao saco!
A caça ao gambozino é uma excelente e pacífica alternativa por exemplo à caça ao elefante ou à montaria ao javali. Mantém-se o lado lúdico e ecuménico, o são convívio, o almocinho e a merenda, a sacramental troca de mentirolas, mas poupa-se em perigo e em munições, dando-se uma mãozinha, por outro lado, à indústria nacional da serapilheira. Como se sabe, na caça ao gambozino os caçadores não usam armas de fogo, mas sacos e chibatas, e gritam: - Piopardo ao saco!...

The Way 709

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 15 de setembro de 2019

Como um passarinho

Morreu como um passarinho. Abatido a tiro.

Também faço isto muito bem 256

Foto Hernâni Von Doellinger

Guerra Junqueiro 6

A Torre de Babel ou A porra do Soriano

[...]
- Uma fenda do globo, um sorvedouro ignoto
que lhe dá de abrir talvez um dia um terramoto
para que desague, esta porra medonha,
em grossos borbotões de clerical langolha!!!

A porra do Soriano é um infinito assunto!
Se ela está em Lisboa ou em Coimbra, pergunto?
Onde é que ela começa?
Onde é que ela termina
essa porra, que, estando em Braga, está na China,
porra que corre mais que o próprio pensamento
que porra de pardal e porra de jumento??
Porra!

Mil vezes porra!
Porra de bruto
que é capaz de foder o Cosmo num minuto!!


Guerra Junqueiro

(Guerra Junqueiro nasceu no dia 15 de Setembro de 1850. Morreu em 1923.)

I want to ride my bicycle 93

Foto Hernâni Von Doellinger

Bocage 7

[Soneto do pau decifrado]

É pau, e rei dos paus, não marmeleiro.
Bem que duas gamboas lhe lobrigo;
Dá leite, sem ser árvore de figo,
Da glande o fruto tem, sem ser sobreiro:

Verga, e não quebra, como o zambujeiro;
Oco, qual sabugueiro tem o umbigo:
Brando ás vezes, qual vime, está consigo;
Outras vezes mais rijo que um pinheiro:

À roda da raiz produz carqueja:
Todo o resto do tronco é calvo e nu;
Nem cedro, nem pau-santo mais negreja!

Para carvalho ser falta-lhe um v;
Adivinhem agora que pau seja,
E quem adivinhar meta-o no cu. 


Bocage

(Bocage nasceu no dia 15 de Setembro de 1765. Morreu em 1805.)

Vida de cão 468

Foto Hernâni Von Doellinger

Rubem Alves 3

Muito cedo para decidir

Gandhi se casou menino. Foi casado menino. O contrato, foram os grandes que assinaram. Os dois nem sabiam direito o que estava acontecendo, ainda não haviam completado 10 anos de idade, estavam interessados em brincar. Ninguém era culpado: todo mundo estava sendo levado de roldão pelas engrenagens dessa máquina chamada sociedade, que tudo ignora sobre a felicidade e vai moendo as pessoas nos seus dentes. Os dois passaram o resto da vida se arrastando, pesos enormes, cada um fazendo a infelicidade do outro.
Vocês dirão que felizmente esse costume nunca existiu entre nós: obrigar crianças que nada sabem a entrar por caminhos nos quais terão de andar pelo resto da vida é coisa muito cruel e... burra! Além disso já existe entre nós remédio para casamento que não dá certo.
[...] 

"Estórias de Quem Gosta de Ensinar", Rubem Alves

(Rubem Alves nasceu no dia 15 de Setembro 1933. Morreu em 2014.)

De regesso à naftalina

Foto Hernâni Von Doellinger

Manuel Curros Enríquez 5

Ay!...

Cómo foy?... Eu topábame fóra
Cand' as negras vixigas lle deron;
Pol-o arámio sua nay avisóume
Y-eu vínme correndo.

Coitadiño! Sintindo os meus pasos
Revolveu car' á min os seus ollos.
Non me víu... e chorou... ay! xa os tiña
Ceguiños de todo.

Nom m' acordo que tempo m' estiven
Sobr' o berce de dôr debruzado;
Sólo sey que m' erguin c'o meu neno
Sin vida n'os brazos...?


Volvoreta d' aliñas douradas
Que te pousas no berze valeiro,
Pois por él me pergúntas, xa sabes
Qué foy d'o meu neno.


"Aires da Miña Terra", Manuel Curros Enríquez

(Manuel Curros Enríquez nasceu no dia 15 de Setembro de 1851. Morreu em 1908.)

Caminho 708

Foto Hernâni Von Doellinger

Nicomedes Pastor Díaz 3

Á alborada

[...]
Sál como sempre sales,
Mais diviña qu'á diosa de Citera
Salindo d'os cristales,
Máis galana qu'á leda primavera
Esparcindo rosales:
Venus pra min, amante,
Primavera, mañan, e fror fragante.


Xa te vexo salindo
Mirarme, e retirarte avergonzada,
¿E de quén vás fuxindo,
Tontiña, arrebatada?
¿D'o teu amor que canta n-a enramada?


Non fuxas, non, querida;
Ven aqui: baixa a escala sin temores:
Esa frente garrida
A miña man a cubrirá de frores;
Xa as teño aqui xuntiñas;
¡Qué venturosas son! ¡Qué bonitiñas!


Vén despeinada ainda
Darme o primeiro abrazo, darm'a vida.
¡Cánto és así máis linda!
Ven qu'a mañan frorida
Solo pr'os que se queren foi nacida.

[...]

Nicomedes Pastor Díaz

(Nicomedes Pastor Díaz nasceu no dia 15 de Setembro de 1811. Morreu em 1863.)

Mobiliário urbano (propriamente dito) 132

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 14 de setembro de 2019

Tito, o da bola na barra, e o outro

Faz hoje mil novecentos e quarenta e nove anos que Tito e as suas legiões romanas derrubaram a segunda muralha de Jerusalém. Lá dentro, os judeus fugiram à rasca para a primeira muralha, mas os romanos, copiando o Porto de muitos séculos depois, construíram uma circunvalação, cortando vazas aos sitiados e todas as árvores num raio de quinze quilómetros, o que foi considerado um escândalo ambiental. A circunvalação de Tito era também conhecida como muralha de cerco, mais uma vez plagiando por antecipação a Invicta, mas sem bairro. Tito era o filho mais velho de Vespasiano e foi imperador entre 79 e 81. A mãe de Tito chamava-se Domitila, a Maior, para se diferenciar da filha Domitila, a Menor, irmã de Tito.
Tito dedicou-se com sucesso à construção civil em Roma, à presidência da antiga Jugoslávia e ao futebol no Atlético, onde começou a dar os primeiros toques, em 1962. Esqueceu as obras e fez bem, aquilo está tudo em ruínas, e abandonou a política. Deixou a Tapadinha e apostou a sério na bola: mudou-se para o União de Tomar e depois, por quinhentos contos, para o Vitória da Guimarães. É daí que o conheço.
Na década de setenta do século passado, Tito fez sete épocas na Cidade-Berço e marcou 82 golos. Era, e não sei se ainda é, o melhor marcador de sempre do Vitória na primeira divisão. Fisicamente falando, Tito pode ser visto como um monovolumezinho, baixote, entroncado da cabeça aos pés, uma espécie de Müller que os antigos percebem, uma espécie de Miccoli que os menos antigos sabem, e aos mais novos não sei o que lhes diga.
Tito, na área, era imperial. Fino. Até de cabeça. E de fora da área também. Mas não de cabeça. Como muitos craques de hoje em dia, Tito gostava de treinar livres e remates espontâneos atirados propositada e directamente à barra. E tinha uma elevada taxa de acerto. O extraordinário é que, mais difícil ainda, gostava de fazer o número também de costas para a baliza ou de olhos fechados. E acertava. Palavra de honra, acertava!
Claro, não havia YouTube. Conto assim tal qual porque eu vi. E de olhos bem abertos.

P.S. - O textinho acima foi escrito e publicado no passado dia 30 de Maio, numa nas minhas habituais Lições de História. Dois meses depois, a 31 de Julho, os chamados jornais desportivos portugueses ficaram histericozinhos, à falta de melhores mamas, com um "concurso de habilidades" nos EUA abrilhantado, entre outros craques, pelo nosso Nani, do Orlando City, e pelo nosso João Félix, do Atlético de Madrid. Uma das habilidades era o "remate à barra"e foi um sucesso. Realmente a humanidade não se cansa de inventar a pólvora. E agora há YouTube. Mas hoje. Hoje, 14 de Setembro, no ano 81, Tito, o imperador, foi substituído no emprego pelo mano Domiciano e por razão de força maior. Tito Flávio César Vespasiano Augusto, de seu nome completo, falecera ontem, aos 42 anos.

Só destes, tenho sete 105

Foto Hernâni Von Doellinger

Sunset

O dia em que morreu foi um dos melhores dias da sua vida. No velório até disse aos amigos: - Temos de fazer isto mais vezes...

Também faço isto muito bem 255

Foto Hernâni Von Doellinger

Renato Castelo Branco 3

Brasil

Não te verei, Brasil,
a grande pátria dos trópicos.

Não te verei, remido,
igualares o sonho
dos teus artistas e dos teus poetas.

Não te verei
abençoado por teus filhos,
Canaã prometida,
terra que mana leite e mel.

Mas estarei presente à tua glória
no sangue dos meus filhos
e dos netos dos meus netos.

Renato Castelo Branco

(Renato Castelo Branco nasceu no dia 14 de Setembro de 1914. Morreu em 1995.)

Pronto, já passou...

Foto Hernâni Von Doellinger

Ramón Armada Teixeiro 3

[...]
¡Non chores! Eu vou â guerra
porque España me percisa;
si morro por seu honor,
¡bendita a morte! ¡bendita!


Chincharras e verderoles,
pardillos, mérlos, serís;
apadrinade o meu canto:
¡qué non s'esquenza de mín!

Respirou, c'o teu alento,
y-o pampallár tivo vida,
¡quén morre, si a menciñeira
con groria fái a menciña!


Pr'os páxaros, n'un bimbe,
puxéche visgo,
y-a pouco, prisioneiro
fói un pardillo;
sorte d'o diaño:
por ter tan linda dona
fora eu escravo
 

Desfeita sua nái en pranto,
mil bicos lle daba ô ánxel;
cando él non volveu en sí,
¡quén fái conta de milagres!

[...]

"Aturuxos", Ramón Armada Teixeiro

(Ramón Armada Teixeiro nasceu no dia 14 de Setembro de 1858. Morreu em 1920.)

Caminho 707

Foto Hernâni Von Doellinger

Eduardo Blanco Amor 6

Coas pancadas e arrebuños que se deran e coas copas e a veciñanza do lume, puxéranselles as caras grandes e vermellas coma carautas do antroido. Véndoos en tal condición, e no mesmo istante en que estaba a facer mentes de non saír co iles, asomou o arrieiro pra decirnos, falando moi apresa, que acababa de entrar a parexa da Guardia Civil, que disque andaba a precurar a uns pándigos que estiveran na carreteira de grande liorta, que llo contaron unhas regateiras das que veñen cedo á vila pra vender o rianxo, e que si cadra eran os mesmos que armaran outra zarracina o sábado á noite na taberna do Chaguazoso. Eu non lle dei creto, porque xa se vía que o tal reateiro era un bo bardallas, no tocantes a que nos visen as regateiras. Estaba seguro que ninguén, que non fosen iles, tiña pasado cando os outros andaban a rompérense a ialma, e que eran iles mesmos os que contaran o asunto, pois eran homes moi renanteiros, de eses da raia dos maragatos, e ademais con moita de esa solercia que se adeprende polos camiños do mundo.

"A Esmorga", Eduardo Blanco Amor

(Eduardo Blanco Amor nasceu no dia 14 de Setembro de 1897. Morreu em 1979.)

Vida de cão 467

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Vendedores de retroescavadoras com luzinhas

- Então, estás a seguir os debates?
- Quais debates?
- Os das eleições.
- Quais eleições?
- As Legislativas de 6 de Outubro.
- Ah! E as Legislativas são para quê?
- Para elegermos a Assembleia da República.
- A Assembleia da República?
- Realmente, não. Para elegermos o Governo.
- O Governo?
- Tens razão, para escolhermos o primeiro-ministro.
- Ah! Não, não estou seguir os debates.

- Mas vais acompanhar a campanha?
- Qual campanha?
- A das Legislativas.
- Ah! Não, não vou acompanhar a campanha.

- Mas vais votar, não vais?
- Votar em quê?
- Nas Legislativas.
- Ah! Não, eu não voto em eleições de qualidade nenhuma.
- Mas devias. O teu voto é muito importante para todos juntos decidirmos o rumo que queremos dar ao país.
- A sério? Pronto, embrulha-me então aí três das mais baratas, mas uma tem de ser azul e com pirilampos amarelos...

Interlúdio fotográfico 148

Foto Hernâni Von Doellinger

Lapidar

Era uma pessoa com uma extraordinária experiência de vida. E dizia: "Morrer só custa da primeira vez".

Também faço isto muito bem 254

Foto Hernâni Von Doellinger

Aníbal Beça 3

Menino no banheiro

Menino no banheiro
sola um sonho só de gozo
entre a mão e o chuveiro.


Aníbal Beça

(Aníbal Beça nasceu no dia 13 de Setembro de 1946. Morreu em 2009.)

Offshore, se fashavore 268

Foto Hernâni Von Doellinger

Natália Correia 7

De alma aberta

Tomai-me as ancas fartas dão para égua
e as açucenas que ainda são mamudas.
Dos olhos tomai pranto, é boa rega,
já que a chorar por vós vos dei fartura.

Dos ouvidos, silvos que os ocuparam
tomai que até farelo pus em música.
Calo a farinha. Anjos a trituraram.
De agro celeste, o grão não mói a Musa.

De árduos sentidos que chamais pecados
tomai só os mortais. Dão uma récua.
Dos imortais nem um que são velados
por vapores de alvorada paraclética.

Tomai riso também se quereis folia:
mete rabeca e balho o Sprito Santo.
Nos fúlgidos milagres da pombinha
embuça-se o divino no profano.

Tomai polme a ferver de ilhoa irada,
mesmo o coice que dá depois de morta.
Eu deito fogo para não ser queimada.
Mas serva e cerva sou por trás da porta.

Tomai gestos que são dos sete palmos
e para vermes eu não ponho a rubrica.
De publicar-me em pó estais perdoados.
Devo-me eterna vendida em hasta pública.

Traficantes de peles, à puridade
vos digo: só mentira arrecadais.
Porque tal como o lótus, a verdade
vos dou na comunhão que não tomais.


"Poesia Completa - Natália Correia", Natália Correia

(Natália Correia nasceu no dia 13 de Setembro de 1923. Morreu em 1993.)

Interlúdio fotográfico 147

Foto Hernâni Von Doellinger

Itamar Assumpção 3

Abobrinhas não

Cansei de ouvir abobrinhas
vou consultar escarolas
prefiro escutar salsinhas
pedir consolo às papoulas
e às carambolas
pedir um help ao repolho
indagar umas espigas
aprender com pés de alho
sobre bugalhos
ouvir dicas das urtigas
e dessas tulipas
um toque pro miosótis
um palpite pro alpiste
uma luz da flor de lótus
pedir alento ao cipreste
e pra dama da noite
pedir conselho à serralha
sugestão pro almeirão
idéias para azaléias
opinião para o limão, pimentão
abobrinhas não

Itamar Assumpção

(Itamar Assumpção nasceu no dia 13 de Setembro de 1949. Morreu em 2003.)

In american way 6

Foto Hernâni Von Doellinger

Sexta-feira 13

Ano de 2019. Dois mais zero é dois, mais um é três. É claro: três! Três mais nove é doze, noves fora três. Três, estão a ver?! Zero mais um é um e mais nove é dez, noves fora um. Um, evidentemente! Dois mais nove é onze, noves fora dois, e, curiosamente, nove mais dois é onze, noves fora dois. Atenção, dois! Temos, portanto, dois, zero, um e nove, mais três, mais doze, mais dez, mais onze, o que dá quarenta e oito, quatro e oito doze, noves fora três. Três, eu avisei! Mais revelador ainda: o contrário de 2019 é 9102, some-se-lhe, por exemplo, 898 e dá exactamente 10000. Dez mil certos! O que é extraordinário. Agora, sexta-feira 13. Seis mais um é sete, sete mais três é dez, noves fora um. Cá estamos, um! Seis mais três é nove, noves fora nada. Nada! Seis mais treze é dezanove, um mais nove é dez, noves fora um. Cuidado! Um mais três é quatro, adicione-se-lhe um número qualquer ao acaso, seja 9994, e dá exactamente 10000. Brrr!... Isto realmente anda tudo ligado.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Mobiliário urbano (propriamente dito) 131

Foto Hernâni Von Doellinger

Salvemos a chita!

Convidaram a supermodelo, famosa, a participar no concurso do vestido de chita. "De chita? Jamais! Sou o mais possível contra a roupa feita com pele de animais!", declinou a supermodelo, famosa e irritada, com o mais possível de veemência e dois pontos de exclamação, como deve declinar uma supermodelo, famosa, irritada e activista, que se preze. "Preferia desfilar nua!", atirou, altiva, e era o terceiro ponto de exclamação, para acabar de vez com a conversa. "Também está bem", concordaram.

Também faço isto muito bem 253

Foto Hernâni Von Doellinger

Caio Fernando Abreu 5

Vem navegar na minha vida

Faça de conta que meu corpo é um rio,
Faça de conta que os meus olhos são a correnteza,
Faça de conta que meus braços são peixes
Faça de conta que você é um barco
E que a natureza do barco é navegar.
E então navegue, sem pensar,
Sem temer as cachoeiras da minha mente,
Sem temer as correntezas, as profundidades.
Me farei água clara e leve.
Para que você me corte lenta, segura,
Até mergulharmos juntos no mar
Que é nosso porto
.

Caio Fernando Abreu

(Caio Fernando Abreu nasceu no dia 12 de Setembro de 1948. Morreu em 1996.)

Trotinetando 22

Foto Hernâni Von Doellinger

Amílcar Cabral 3

Regresso

Mamãe Velha, venha ouvir comigo
O bater da chuva lá no seu portão.
É um bater de amigo
Que vibra dentro do meu coração


A chuva amiga, Mamãe Velha, a chuva,
Que há tanto tempo não batia assim...
Ouvi dizer que a Cidade-Velha
- a ilha toda -
Em poucos dias já virou jardim...


Dizem que o campo se cobriu de verde
Da cor mais bela porque é a cor da esp'rança
Que a terra, agora, é mesmo Cabo Verde.
- É a tempestade que virou bonança...


Venha comigo, Mamãe Velha, venha
Recobre a força e chegue-se ao portão
A chuva amiga já falou mantenha
E bate dentro do meu coração!


Amílcar Cabral

(Amílcar Cabral nasceu no dia 12 de Setembro de 1924. Morreu em 1973.)

Catatuas, 1 - Cães, 0

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Eles não sabiam que o sono

Dormia, por norma, dezasseis ou dezassete horas, consoante fossem dias ímpares ou pares, respectivamente. Ia ao emprego marcar o ponto de saída e era alvo de todas as críticas, atacado por patrões, colegas e até pelo sindicato. Defendia-se, filosoficamente: - Vocês não sabem que o sono é uma constante da vida, tão concreta e definida como outra coisa qualquer?...

Mobiliário urbano (propriamente dito) 130

Foto Hernâni Von Doellinger

Desconstrução civil

Perguntavam-lhe pela profissão e ele respondia, orgulhoso, "operário da desconstrução civil". Era um especialista, com efeito. Ele e mais dois camaradas chegavam, de marreta e pé-de-cabra, picareta pneumática e um ror de sonoras caralhadas, e num mês, mês e meio, escavacavam completamente uma casa, esvaziando-a de pavimentos, divisórias, tectos, portas, janelas, memórias e telhados. Só ficavam os alicerces ao baixo e as paredes exteriores ao alto. Depois vinham os outros, os da construção civil, e faziam mais um alojamento local.

Chama-me um carro!...

Foto Hernâni Von Doellinger

Orlando Neves 3

Todas as noites me sinto

Todas as noites me sinto
igual aos desconhecidos.
Sou a criança que sou,
só quando o tempo pára.


Fico em mim,
fora dos músculos.


Por que se movem os deuses
quando o sol cresta as formigas?
Lendas da luz da noite
secam todo o movimento.


Seguro a vida
por desespero.


"Trovas da Infância na Aldeia", Orlando Neves

(Orlando Neves nasceu no dia 11 de Setembro de 1935. Morreu em 2005.) 

Capitão da areia

Foto Hernâni Von Doellinger

Ernani Satyro 3

Louvação de Maria

Maria, simplesmente Maria.
Nem do Carmo, nem das Dores,
Nem da Luz e nem da Guia.
Só Maria!

Nem do Céu e nem de Lourdes,
Nem sequer da Conceição,
Simplesmente só Maria:
- O resto é no coração.

Simplesmente Maria.

Nem Maria Anunciada
Nem Maria Aparecida.
Só Maria, sem mais nada,
Só Maria, toda a vida.

Só Maria,
Mas, Maria noite e dia.


Ernani Satyro

(Ernani Satyro nasceu no dia 11 de Setembro de 1911. Morreu em 1986.)

Só destes, tenho sete 104

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 10 de setembro de 2019

O com-abrigo e o sem-abrigo

O com-abrigo abeirou-se misericordioso do sem-abrigo, levantou-lhe o cobertor que lhe defendia a cara e disse "Bom dia", o sem-abrigo respondeu estremunhado "Boa noite", passava um pouco do meio-dia e, pensei eu, teria sido melhor princípio de conversa se se tivessem entendido acerca de "Boa tarde".
Via-se que o com-abrigo tinha tarimba, tirei-lhe logo a pinta, era um bom-samaritano nas horas vagas e por conta própria. 
- Então, companheiro, como é que vai isso? - encarrilou o com-abrigo.
- Ia bem, obrigado, mas esteja quieto no cobertor... - resmungou o sem-abrigo, agarrando-se com unhas e dentes ao calorzinho que lhe roubavam.
- É assim mesmo, companheiro, positivismo acima de tudo, nada de pensamentos suicidas - acrescentou o com-abrigo.
- Pensamentos quê? - interrogou o sem-abrigo.
- Suicidas, companheiro, pensamentos suicidas, vontade de se matar... - explicou o com-abrigo.
- Eu conheço-o de algum lado? - inquiriu o sem-abrigo.
- Não nos conhecemos de lado nenhum, companheiro, mas estou aqui para o ajudar, limpe a cabeça de pensamentos suicidas... - disse o com-abrigo.
- Deixe então aí um ou dois euros, para um copinho de vinho - pediu o sem-abrigo.
- O importante é afastar os pensamentos suicidas, companheiro, não se deixe levar por eles... - disse o com-abrigo.
- E o eurito?... - quis saber o sem-abrigo.
- Os pensamentos suicidas podem ser-lhe fatais, companheiro, é preciso resistir... - disse o com-abrigo.
- Ouça lá - rebentou o sem-abrigo -, porque é que só fala dessa merda, dos pensamentos suicidas? Eu não quero morrer, quero dormir, caralho! Morra você, se gosta tanto! E, já agora, vá chamar companheiro à puta que o pariu...

Palavra de honra se não foi mesmo assim, ou quase exactamente assim.

P.S. - Texto publicado originalmente no dia 16 de Abril de 2016. Hoje, 10 de Setembro, é Dia Mundial da Prevenção do Suicídio.

E bem precisam...

Foto Hernâni Von Doellinger

Fazem muito bem em voltar aos bancos da escola. E às primeiras letras, forçosamente. Talvez enfim aprendam que o "à" de "de volta à escola" se escreve com acento grave e não com acento agudo. "De volta à escola", "regresso às aulas", assim é que está certo.