sábado, 25 de maio de 2019

Flûte de Portugal

O Três Marias, o Casal Garcia, o Magos e até o "champanhe", doméstico ou de alterne, eram à taça. Agora deu-lhes para o flûte. Ou flauta. Pfff...

Interlúdio fotográfico 97

Foto Hernâni Von Doellinger

Sabatina

Instalava-se um certo desconforto na aula sempre que o professor chamava o Gregório...

Também faço isto muito bem 199

Foto Hernâni Von Doellinger

Barros Pinho 3

Gramática nos olhos da amada 

Qual o adjetivo
para os olhos da amada
os olhos da amada
se confundem com o mar
ora verde ora azul
na cor do triste
no salmo da alegria
semântica da noite
metáfora da madrugada
as sílabas do vento
nos olhos da amada
o verbo amar edifica
os acentos da solidão
olhos do mar olhos do rio
olhos de serpente sem veneno
olhos de mulher olhos de sonhos
que guardei para viver no ponto do luar.


Barros Pinho 

(Barros Pinho nasceu no dia 25 de Maio de 1939. Morreu em 2012.)

Grande y felicísima armada

Foto Hernâni Von Doellinger

Velhos tempos

Chamava-se Glória Dias, morava em Campolide e garantia que, no seu tempo, fora a musa inspiradora de Bruce Springsteen...

sexta-feira, 24 de maio de 2019

A extraordinária Ponte da Arrábida 10

Foto Hernâni Von Doellinger

Mais vale um burro na mão

Era burro, muito burro. Era tijolo, e convinha-lhe.

Também faço isto muito bem 198

Foto Hernâni Von Doellinger

José Terra 3

[Os deuses, só de os pensar...]

Os deuses, só de os pensar, existem.
Quando me sento a esta mesa e deixo
que o pensamento se concentre, a flecha
fende os ares e o real e tomba

aonde os deuses libam o meu sangue.

Sanguessugas os deuses; e contudo
damos-lhes rostos para que se tornem
mais suportáveis no convívio absurdo

que nos impomos quando estamos sós.

São mudos os deuses. E é por isso
que o que não dizem nos isola e oprime.

Moscas são os deuses, quando zunem

no momento do sono, à nossa volta.
Por vezes riem e dançam, mas tão longe!

"Espelho do Invisível", José Terra

(José Terra nasceu no dia 24 de Maio de 1928. Morreu em 2014.)

Os passarinhos, tão engraçados 84

Foto Hernâni Von Doellinger

Ferreira de Castro 7

Idalina desviou ligeiramente os olhos para o cão e voltou a fixá-los na rocha, com aquele mesmo ar preocupado que tinha quando o bicho chegara. Houve um pequeno silêncio e Horácio volveu ao tom de voz anterior:
- Como eu ia a dizer, o quartel de artilharia antiaérea prantava-se mesmo à beira do mar. Viam-se passar os navios, que iam para Lisboa. Às vezes, era cada um, tão grandalhão, que dentro dele ninguém podia ter medo de afundar-se. Ali perto ficava o Estoril. Tu já ouviste falar no Estoril? Aquilo é que é uma terra bonita! É como um jardim a perder de vista. Só te digo que lá até os pinheiros parecem árvores mansas! Nalguns, as roseiras trepam por eles arriba até chegar mesmo aos galhos. E todas as estradas são mais limpinhas do que o chão de uma igreja! Nas horas de dispensa, eu nunca me fartava de ver aquilo. Há lá automóveis por toda a parte e pessoas que falam o raio de umas línguas que a gente não percebe nada...

"A Lã e a Neve", Ferreira de Castro

(Ferreira de Castro nasceu no dia 24 de Maio de 1898. Morreu em 1974.)

Caminho 657

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 23 de maio de 2019

As nudezes de Marisa Cruz

Uma vez Marisa Cruz entrou num filme e apareceu nua. Foi em 2004. O filme, de António Cunha Teles, chamava-se "Kiss Me" e entravam lá também o Nicolau Breyner, o Rui Unas, o Marcantónio Del Carlo e até a Clara Pinto Correia, entre outros.
Marisa Cruz estava então com o jogador de futebol João Pinto, com quem assinaria casamento em 2009 e do qual rescindiria em 2013. Tiveram tempo para dois filhos. João Pinto é hoje director da Federação Portuguesa de Futebol, mas em 2004, época da estreia do filme, jogava no Boavista.
Eu não entrei no filme, casei com a minha mulher e cá estamos, nunca joguei no Boavista nem sou assalariado da FPF. Em 2004 trabalhava no 24horas, Redacção do Porto, e as inteligências lisboetas do meu jornal mandaram-me telefonar ao Jaime Pacheco, que era o treinador dos boavisteiros, a perguntar-lhe se tinha visto o filme, o que é que achara do corpo da Marisa e se tinha comentado o assunto com o João Pinto. As inteligências lisboetas do meu jornal mandaram-me também telefonar aos colegas do João (lembro-me do Frechaut, do Diogo Valente e do Martelinho, por exemplo), a perguntar-lhes se tinham visto o filme, o que é que acharam do corpo da Marisa e se tinham comentado o assunto no balneário. As inteligências lisboetas do meu jornal mandaram-me ainda para a porta do cinema, no NorteShopping, se não estou em erro, a perguntar aos espectadores se gostaram de ver a Marisa nua, se ela era mesmo boa como o milho, como parecia vestida, e se coisa e tal...
Às inteligências lisboetas do meu jornal, eu mandei-as à merda. E ao filme também. Nunca o vi.
Vejo hoje num jornal desportivo - é o que me parece, desportivo - que Marisa Cruz continua a querer mostrar. Está no seu direito. Eu se lhe soubesse desta mania, às tantas, em 2004, em vez de guardar respeito, talvez devesse ter-me dado ao trabalho...

P.S. - As inteligências lisboetas do meu falecido jornal estão hoje muito bem colocadas nos melhores jornais de referência da nossa praça. Lisboetas, os jornais, bem entendido.

Vai na brasa, de lambreta

Foto Hernâni Von Doellinger

O falso central

Foi despedido com justa causa, por desídia. Chegava sempre atrasado aos lances.

Também faço isto muito bem 197

Foto Hernâni Von Doellinger

Carlos de Assumpção 3

Mãe

Noite,
Os anos já pintaram de luar os teus cabelos,
No entanto, tudo parece estar acontecendo agora,
Neste instante.

Noite,
Após tantos anos,
Neste momento,
Vejo tudo diante de mim,
Como se estivesse assistindo a um filme
Da infância:

Nós, teus filhos, todos pequenos,
O relógio parado na hora de privações,
Tantos sonhos de asas quebradas pelos cantos
De nossa casa pobre, sem conforto;

Tu, mulher ainda jovem, tão boa, tão calma,
Constelação de esperança e ternura,
Inspirando segurança,
Inspirando fé, amor,
Em meio a tantos vendavais.

Noite,
Tua luta foi para nós teu maior ensinamento
Sofrias (hoje o sei), entretanto,
Em nossa presença, nunca uma lágrima
Rolou pelo teu rosto.

Noite,
Desde criança aprendi a amar-te,
Mas só hoje, adulto, é que vejo, comovido,
As incontáveis estrelas que brilham em teu ser
E que tantos vendavais não conseguiram apagar.

"Quilombo", Carlos de Assumpção

(Carlos de Assumpção nasceu no dia 23 de Maio de 1927)

A extraordinária Ponte da Arrábida 9

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Chico Buarque, Prémio Camões 2019

Eu te amo

Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir

Ah, se ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir

Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir

Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu

Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu

Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios ainda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair

Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir.


Chico Buarque

Trotinetando 7

Foto Hernâni Von Doellinger

Microcontos & outras miudezas 142

A minha cara
Ofereceram-me um livro. "É a tua cara", disseram-me. O livro resumia-se a uma fotografia. E era realmente a minha cara.

O broche (propriamente dito)
Há quem diga que não há diferença nenhuma entre um broche e um colchete, que são uma e a mesma coisa. Dicionários razoavelmente informados, como, por exemplo, o Dicionário da Língua Portuguesa (7.ª edição) da Porto Editora, que é o que tenho aqui sempre à mão, consideram-nos, ao broche e ao colchete, sinónimos. Eu, com o devido respeito, discordo. Para mim, tirando o che que ambos ostentam, não há comparação possível entre um broche e um colchete. Um broche é um broche e um colchete até pode ser um parêntese recto. Um é uma coisa e o outro é, às vezes, um empecilho. Só quem não passou por eles é que se confundirá. Sei do que falo. Também sei de salas de costura, não cuidem, mas, vamos lá, admitindo a paridade, se vosselências forem gramáticos como eu e quiserem tirar a questão a limpo, se tiver de ser um ou outro, se pretenderem escrutinar a minha preferência, perguntem-me então sem tibiezas: broche ou colchete? E eu digo logo e sempre: broche. Broche, evidentemente. Nem imagino que se possa dizer: olha, faz-me um colchete!...

P.S. - Gramático era o que me chamava o Empregado do Arquivo quando, por azar, calhávamos no mesmo autocarro. O Empregado do Arquivo, assim autodenominado, meu camarada de Primeiro de Janeiro, morava, se não me engano, no Hospital Conde Ferreira, dava três voltas sobre si próprio antes de cruzar a porta do jornal, em Santa Catarina, e era filho do poeta Alberto Serpa, que lhe batia em público. Na próxima aula abordaremos as concomitâncias e respectivas adjacências da palavra pilão. Até lá.

Cautela e caldo de galinha...
Nunca levantava o pé direito sem ter a certeza de que tinha o pé esquerdo no chão. Assim andava Prudêncio. 

Agora a sério
A Graça é de rir...

Palavra do senhor
Evangelista era um implacável porém monótono contador de histórias. Começava sempre: - Naquele tempo...

Que seca!
Madalena chorava por tudo e por nada. Um desperdício, nos tempos que correm...

A extraordinária Ponte da Arrábida 8

Foto Hernâni Von Doellinger

Jorge Barbosa

Poema do Mar 

O drama do Mar,
o desassossego do Mar,
sempre
sempre
dentro de nós!

O Mar!
cercando
prendendo as nossas Ilhas,
desgastando as rochas das nossas Ilhas!
Deixando o esmalte do seu salitre nas faces dos pescadores,
roncando nas areias das nossas praias,
batendo a sua voz de encontro aos montes,
baloiçando os barquinhos de pau que vão por estas costas...

O Mar!
pondo rezas nos lábios,
deixando nos olhos dos que ficaram
a nostalgia resignada de países distantes
que chegam até nós nas estampas das ilustrações
nas fitas de cinema
e nesse ar de outros climas que trazem os passageiros
quando desembarcam para ver a pobreza da terra!

O Mar!
a esperança na carta de longe
que talvez não chegue mais!...

O Mar!
saudades dos velhos marinheiros contando histórias de tempos passados,
histórias da baleia que uma vez virou a canoa...
de bebedeiras, de rixas, de mulheres, nos portos estrangeiros...

O Mar! dentro de nós todos,
no canto da Morna,
no corpo das raparigas morenas,
nas coxas ágeis das pretas,
no desejo da viagem que fica em sonhos de muita gente!

Este convite de toda a hora
que o Mar nos faz para a evasão!
Este desespero de querer partir
e ter que ficar!


"Ambiente", Jorge Barbosa

(Jorge Barbosa nasceu no dia 22 de Maio de 1902. Morreu em 1971.)

Só destes tenho sete 81

Foto Hernâni Von Doellinger

O nome diz tudo?

Não me perguntem porquê, mas chamava-se Negrinho da Fonseca...

terça-feira, 21 de maio de 2019

Mobiliário urbano (propriamente dito) 120

Foto Hernâni Von Doellinger

Desenhos assim-assim

Há os desenhos animados e há os desenhos mortiços. É como tudo.

Os meus cromos 65: Francisco Oliveira

Foto Hernâni Von Doellinger

Olga Savary 2

A água

se enovela pelas pernas
em fio de vigor espiralado
sobre o ventre e o alto das coxas.
O orgasmo é quem mede forças
sem ter ímpeto contra a água.
 

Olga Savary

(Olga Savary nasceu no dia 21 de Maio de 1933)

A extraordinária Ponte da Arrábida 7

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Marcial Valladares 3

Dorido o peito
De suspirar 
Triste, aburrido 
De todo já 
Neste mimoso 
Garrido val 
Apénas fago 
Senon chorar: 
¿Qué è de ti agora, 
Meu ai ai ai?

Gustos, placeres,
Que a acibarar
D'ausencia ven
A tempestá,
Na mente vivos
De cote están,
Pois è imposible
Os sofocar.
¿Qué è de ti agora,
Meu ai ai ai?
[...] 

Marcial Valladares

(Marcial Valladares nasceu no dia 10 de Junho de 1821. Morreu no dia 20 de Maio de 1903.)

Caminho 656

Foto Hernâni Von Doellinger

Profissional

- Então o que é que faz?
- Desempregado.
- E o que é que fazia?
- Nada.

Vida de cão 442

Foto Hernâni Von Doellinger

J. G. de Araújo Jorge

Volúpia

Quisera te associar à pureza e à candura
quando pensasse em ti... Mas a emoção, teimosa,
transforma sem querer toda a minha ternura
numa estranha lembrança ardente voluptuosa...


Não poderei dizer apenas que és formosa
quando a própria beleza em ti se transfigura,
- e pela tua carne há pétalas de rosa
e no teu corpo há um canto fresco de água pura!


Um sincero pudor vislumbro em teus enleios,
mas se disser que te amo com pureza, eu minto,
- no olhar trago tatuada a visão de teus seios...


E em vão tento associar-te ao céu, à fonte, à flor!
Quando falo de ti, penso em teu corpo, e sinto
que ainda estremece em mim teu último estertor!


"Poemas do Amor Ardente", J. G. de Araújo Jorge

(J. G. de Araújo Jorge nasceu no dia 20 de Maio de 1914. Morreu em 1987.)

A extraordinária Ponte da Arrábida 6

Gloria in excelsis

Entrou no Céu ao som de We are de champions. Ficou admirado, mas é o que os anjos cantam nestas ocasiões...

domingo, 19 de maio de 2019

Dia do Físico

Foto Hernâni Von Doellinger

Hoje, 19 de Maio, é Dia do Físico, por causa de um tal Albert Einstein, alemão americanizado, guedelhudo e linguarudo, precursor dos Beatles e inventor dos Rolling Stones, do buraco negro, do bigode libertário e dos ginásios a céu fechado e céu aberto, amigo de Pôncio Pilates e sócio de Che Guevara num abastado negócio de T-shirts, tatuagens e posters.

Sim, mar, eu sei, tu és para mim a outra margem

Foto Hernâni Von Doellinger

Dados e arregaçados

O meu telemóvel é um espertíssimo Huawei. Não temo que os Chineses acedam aos meus dados. Mas incomoda-me que saibam dos meus arregaçados.

Também faço isto muito bem 196

Foto Hernâni Von Doellinger

Mário de Sá-Carneiro 7

Abrigo

Paris da minha ternura
Onde estava a minha Obra -
Minha Lua e minha Cobra,
Timbre da minha aventura.

Ó meu Paris, meu menino,

Meu inefável brinquedo...
- Paris do lindo segredo
Ausente no meu destino.

Regaço de namorada,

Meu enleio apetecido -
Meu vinho de Oiro bebido
Por taça logo quebrada...

Minha febre e minha calma -

Ponte sobre o meu revés:
Consolo da viuvez
Sempre noiva da minha Alma...

Ó fita benta de cor,
Compressa das minhas feridas...
- Ó minhas unhas polidas,
- Meu cristal de toucador...

Meu eterno dia de anos,

Minha festa de veludo...
Paris: derradeiro escudo,
Silêncio dos meus enganos.

Milagroso carrossel

Em feira de fantasia -
Meu órgão de Barbaria,
Meu teatro de papel...

Minha cidade-figura,

Minha cidade com rosto...
- Ai, meu acerado gosto,
Minha fruta mal madura...

Mancenilha e bem-me-quer,

Paris - meu lobo e amigo...
- Quisera dormir contigo,
Ser todo a tua mulher!...

Mário de Sá-Carneiro

(Mário de Sá-Carneiro nasceu no dia 19 de Maio de 1890. Morreu em 1916.)

Hotel com vista para o céu

Foto Hernâni Von Doellinger

Heliodoro Baptista 3

Como um cão

Como um cão curvo-me
e procuro ler nas marcas
que a noite não pôde
recolher o tempo.

Anima-me a superfície fabulária
onde o olhar do dia revolve
o que foi alvoroço vida
ou sinal ténue.

Detenho-me na pegada junto à cama
e a mão precavida incha a memória
nenhuma sensação acende
o que já está perdido.

(Perdidos os meus passos? A minha voz?
é assim tão terrível o amor ao homem?
a justiça foi calcinada em que ritual?)

Pouso então devagarinho
o ouvido na parede húmida
e eis que uma sombra volta-se
num largo aceno de simpatia.

Na paz indizível sopra
a fina aragem desanoitecida
a leve impressão
de um cochichar
uma porta entreaberta
onde pulsa uma esperança.

(Ontem já foi passado e o minuto que vem já é futuro).

Heliodoro Baptista

(Heliodoro Baptista nasceu no dia 19 de Maio de 1944. Morreu em 2009.)

A extraordinária Ponte da Arrábida 5

sábado, 18 de maio de 2019

Fafe e o jogo do pau

Foto Hernâni Von Doellinger

Não. O jogo do pau não é "uma das maiores tradições do concelho" de Fafe. É tão tradição em Fafe como em Lisboa, em Trás-os-Montes, no Ribatejo, na Estremadura, no Algarve ou na Galiza. O jogo do pau é tão tradição em Fafe como a sueca, o futebol ou a malha, o esconde-esconde ou o dominó, que se jogam em todo o lado.
Não. O jogo do pau não foi inventado em Fafe, não deriva da Justiça de Fafe. A Justiça de Fafe é outra coisa, é lenda, lenda nossa, exclusiva, de honra, e, bem vistas as coisas, uma das poucas tradições genuínas do concelho de Fafe, que as há. Mas a autarquia fafense, aflita de cosmopolitismo, tem vergonha da nossa Justiça de Fafe, omite a nossa Justiça de Fafe, e resolveu substituí-la por um pedregulho espetado no coração da cidade, Por Baixo da Arcada.
E no entanto a Justiça de Fafe lá está, que eu bem a vou visitar como quem vai a Fátima duas ou três vezes por ano. Lá está, escondidinha, um pouco acima, e, isso é que deve doer à Câmara, farta-se de jogar ao pau com os ursos...

Interlúdio fotográfico 96

Foto Hernâni Von Doellinger

Tem horas? 3

- Tem horas?
- Tenho, tenho...
- E meias?
- Só vendemos por inteiro.

Music was my first love 53

Foto Hernâni Von Doellinger

Gabriel Mariano 3

Vela do exílio

Acendi hoje uma vela
de estearina na fina
mesinha onde escrevo.
Enquanto ela me ardia
da chama para os meus olhos
velhas lembranças seguiam.
E súbito sobre a parede
da velha casa onde moro
o mapa árido e breve
das ilhas do Caboverde.

Que vento não vem ou se agita
no barco em forma de vela
por dentro da casa fechada!
Que voz materna no écran
da ilha difusa difunde
meu nome em projecto?

Acendi hoje uma vela.
E enquanto me ela queimava
por sobre a mesa pessoas
vivas e mortas passavam.

Vela do exílio acendida
na noite de Moçambique:
pesado, inútil veleiro.
Vela do exílio, meu filho
com apenas um sopro apagas
a vela, o exílio não.


Gabriel Mariano

(Gabriel Mariano nasceu no dia 18 de Maio de 1928. Morreu em 2002.)

A extraordinária Ponte da Arrábida 4

Tarde piaste

Disse a galinha ao pito: - Caluda! Nem mais uma palavra!...

Só destes, tenho sete 80

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Tem horas? 2

- Tem horas?
- Tenho, tenho...
- E meias?
- Estou de havaianas...

A extraordinária Ponte da Arrábida 3

Carlos Pena Filho 3

Soneto do desmantelo azul

Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas,

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.


"Livro Geral", Carlos Pena Filho

(Carlos Pena Filho nasceu no dia 17 de Maio de 1929. Morreu em 1960.)

Caminho 655

Foto Hernâni Von Doellinger

Día das Letras Galegas 2019

O Día das Letras Galegas, que hoje se assinala, é este ano dedicado a Antón Fragua.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Achega de boys

Foto CÂMARA MUNICIPAL DE FAFE

Fafe, a minha terra, tem uma tradição muito antiga por ocasião das suas feiras francas: a chega de bois. A chega de bois em Fafe é tão antiga que eu não me lembro dela quando lá morava. Lembro-me claramente da corrida de jericos e do Reigrilo, das cestinhas e dos carrinhos, do poço da morte, das parrecas, das farturas e dos rosquilhos, do pilas do Serafim Lamelas (que aqui um destes dias contarei), mas de chega de bois nada. A minha cabeça realmente já não dá para tudo. Peço desculpa.
A actual Câmara de Fafe, que esborda de cosmopolitismo e dá mais historiadores ao mundo do que o próprio mundo aguenta, tem-se fartado de inventar novas tradições fafenses.
Em Fafe, em honra à ancestralíssima tradição da chega de bois, a corrida aos empregos públicos, políticos ou administrativos, também é assim que funciona agora e serve de exemplo para o País: os candidatos comparecem no terreiro do Parque da Cidade, descornados mas com luvas, prontos a disputar mano a mano a vaga em questão. Marram por eliminatórias, atenção, e de acordo com as Regras do Marquês de Queensberry: assaltos de três minutos, antes que chegue a polícia, quartos-de-final, meias-finais e final e coisa e tal. O derradeiro, aquele que à conclusão estiver de pé, ou mais ou menos, é o primeiro, o vencedor. Entra ao serviço. Ou então entra o sobrinho do Dr. Fonseca, que não foi à luta porque sofre de asma, mas o tacho já lhe estava destinado.

A extraordinária Ponte da Arrábida 2

A modéstia do caloteiro

Chamavam-lhe caloteiro e outros elogios. Ele dizia: - Limito-me a cumprir o dever.

Só destes, tenho sete 79

Foto Hernâni Von Doellinger

Ronald de Carvalho 6

Filosofia 

A realidade é apenas
um milagre da nossa fantasia...

Transforma numa Eternidade
o teu rápido instante de alegria!
Ama, chora, sorri... e dormirás sem penas,
porque foi bela a tua realidade.


"O Espelho de Ariel", Ronald de Carvalho  

(Ronald de Carvalho nasceu no dia 16 de Maio de 1893. Morreu em 1935.)

Music was my first love 52

Foto Hernâni Von Doellinger

Deitar cedo e cedo erguer

Todos os dias madrugava para o trabalho. De segunda a sexta, sábados, domingos e feriados. Aurora era uma mulher como já não há...

Também faço isto muito bem 195

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Joe Berardo, na Caixa desde 1962

No tempo em que havia 24horas, o original, mandaram-me escrever uma treta qualquer sobre e com os "ricos" da moda. Eram então dois, cromos por sinal: os meus inefáveis chefes, de Lisboa, queriam saber e que o País e mundo soubessem como é que Joe Berardo e Sousa Cintra, os tais, começaram as suas extraordinárias fortunas. Quer-se dizer: os meus inefáveis chefes, de Lisboa, não queriam saber absolutamente nada e faziam votos de que o País e o mundo se fodessem. Precisavam, em todo o caso, de meia dúzia de linhas de coisa nenhuma para meterem lá em cima o título bombástico que já tinham engatilhado e a seguir as fotografias da praxe. Chamarizes...
Isto foi pelos finais de 2007, se não me engano, e o que tinham de bom Sousa Cintra e Joe Berardo era que atendiam o telefone. Cintra contou-me que a avó lhe dava uns centavos quando ele era miúdo de seis ou sete anos, lá na algarvia Raposeira natal, e ele não gastava nem um tostão. E nem sabia bem para quê. Talvez para depois comprar um brinquedo, como via os outros meninos, mas nem isso. Cresceu, meteu-se no futebol e gastou a massa toda em cerveja e petróleo.
Berardo, esse, fez-se milionário sob o alto patrocínio da Caixa Geral de Depósitos. A sua primeira poupança foi uma conta que a mãe lhe abriu na Caixa, em 1962, na Madeira, com dois mil escudos (dez euros), teria ele então 18 anos. Uma semente. Uma conta que se manteve aberta e que nunca parou de crescer. O saldo de Berardo na Caixa já vai em 280 milhões de euros - mas de dívida. Joe Berardo deve ao banco público 280 milhões de euros, que se saiba até ao momento, na sequência de empréstimos manhosos que lhe deram de mão beijada e que ele agora não consegue ou não lhe apetece pagar. À banca portuguesa em geral, o comendador Berardo deve quase mil milhões de euros. Realmente uma fortuna. E tudo começou com apenas dois contos. Parece ilusionismo, número de circo. É por isso que ele se ri tanto e faz pouco do País...

A extraordinária Ponte da Arrábida


Tenho cá em casa meia dúzia de cópias de fotografias da construção da Ponte da Arrábida, sobre o rio Douro, ligando Porto e Gaia. "Trouxe-as" de O Primeiro de Janeiro antes daquilo tudo ir para o galheiro. São fotos históricas e extraordinárias, quase tão extraordinárias quanto a visionária obra de Edgar Cardoso, que então ergueu o maior arco em betão armado do mundo.

Melhor gafanhotos que sapos

Foto do arquivo pessoal do ex-pára-quedista fafense ÁLVARO MAGALHÃES

Quando fiz 21 anos comi 21 gafanhotos vivos. Obrigaram-me. E não me queixo, embora tenha sido uma canseira andar a apanhá-los um a um no mato, eles aos saltos e eu de cócoras, um sol do caraças, a risota do maralhal, o corpo moído, uma sede que eu sei lá, mas antes isso do que passar o dia inteiro a levar pancada. O dia e a noite. Por outro lado, apesar de ter comido 21 gafanhotos vivos quando fiz 21 anos, passei aqueles dias todos a levar pancada. Aqueles dias e aquelas noites. As noites também. O que tinham de bom as noites é que só muito raramente propiciavam "golpes de calor", ou insolações, como se diz quando se quer que se perceba o que se diz.
Eram assim os Comandos, havia um cuidado muito grande com a nossa alimentação. Por vontade de quem mandava, nós, os desprezíveis instruendos, estaríamos sempre a comer, às mãos desabridas de sargentos e cabos com idade para serem coronéis, com poderes de general, práticas de verdugo descontrolado e tremendas saudades ultramarinas. Consta que, quarenta anos passados, os Comandos ainda são assim. E que às vezes "as coisas correm mal"...
Em 1978 correu mal uma aula de morteiros. Um instrutor jactante e incompetente, como se exige que sejam os instrutores, apontou para o infinito, despoletou a granada e, sem querer, deixou-a escorregar tubo abaixo. Pum! O morteiro só parou em cheio num centro comercial da Amadora, por acaso com pessoas dentro. Sei disto porque estava lá, do lado do morteiro e do instrutor palerma. E, para evitar problemas com a população, não me deixaram vir a casa nesse fim-de-semana.
Quanto aos gafanhotos, fritos e de escabeche talvez marchassem melhor. E depois um golinho de água, por favor...

P.S. -  Este texto é velho, mas querem uma novidade? Hoje, 15 de Maio, é Dia Internacional do Objector de Consciência. Eu não fui objector nem voluntário, a tropa aconteceu-me, mas lembro-me de, anos depois da minha malograda passagem pelos Comandos, ter ido a tribunal militar defender um camarada de profissão que objectava. Defendi-o como defendo os combatentes, voluntários ou involuntários, gente marcada pela guerra e de quem o Estado tem uma certa queda para se esquecer.

Arte de bem praiar

Foto Hernâni Von Doellinger

Microcontos & outras miudezas 141

Ficaram os anéis
Quando se ofereceu para lhe dar uma mão, nunca pensou que ele levasse aquilo à letra.

Contra fatos não há argumentos
Era um desses modernos verificadores de fatos. Trabalhava numa alfaiataria.

O guarda-fatos
Tinha uma vida muito arrumadinha. Ao fim do dia, na hora das orações da noite e do exame de consciência, ponderava fatos e mentiras. Desfazia-se das mentiras no penico, pendurava os fatos no guarda-fatos. Evidentemente.

Reuniões ordinárias
O pior das reuniões ordinárias são os palavrões, a maledicência, a má-criação...

Reuniões extraordinárias
Foram reuniões verdadeiramente extraordinárias. Maravilhosas. Tremendas. Iglantónicas...    

A minha língua é a minha língua
Fernando, pessoa?
Florbela espanca?
Cesário, verde?
Gomes, leal?
António, nobre?
José, régio?
Ary, dos santos?
Manuel, alegre?
Ruy, belo?
Manuel, bandeira?
Álvaro, guerra?
Arnaldo saraiva?
António Ramos, rosa?
Valter Hugo, mãe?
Manuel, maria?
António José, forte?
Camilo Castelo, branco?
Jorge, amado?
Hélder Gomes cancela?
Amílcar Ramalho, curto?
António, ferro?
Vinicius, de moraes?
Fernando namora?
Manuel António pina?
Pois não sei com exactidão, e as opiniões dividem-se, mas é o que consta.

Os meus cromos 64: Dezassete da Bomba

Foto Hernâni Von Doellinger