segunda-feira, 15 de julho de 2019

Rosalía de Castro 8

Bos amores

Cal olido de rosas que sai de antre o ramaxen
nunha mañán de maio, hai amores soaves
que n'inda vir se sinte, nin se ve cando entraren
pola mimosa porta que o corazón lles abre
de seu, cal se abre no agosto
a frol ó orballo da tarde.

E sin romor nin queixa, nin choros, nin cantares,
brandos así e saudosos, cal alentar dos ánxeles,
en nós encarnan puros, corren coa nosa sangre
i os ermos reverdecen do esprito onde moraren.

Busca estes amores..., búscaos,
si tes que chos poida dare;
que éstes son sóio os que duran
nesta vida de pasaxen.
 

"Follas Novas", Rosalía de Castro

(Rosalía de Castro nasceu no dia 24 de Fevereiro de 1837. Morreu no dia 15 de Julho de 1885.)

Chovera em Santiago

Foto Hernâni Von Doellinger

Dama com armário

Pediu ao amante um armário. E o amante comprou-lho. Quando o móvel lhe entrou em casa é que ela deu fé do engano. Ela queria um arminho...

Trotinetando 16

Foto Hernâni Von Doellinger

Henriqueta Lisboa 3

Noturno

Meu pensamento em febre
é uma lâmpada acesa
a incendiar a noite.

Meus desejos irrequietos,
à hora em que não há socorro,

dançam livres como libélulas
em redor do fogo.


"Prisioneira da Noite", Henriqueta Lisboa

(Henriqueta Lisboa nasceu no dia 15 de Julho de 1901. Morreu em 1985.)

Interlúdio fotográfico 125

Foto Hernâni Von Doellinger

Anilda Leão 3

À procura da infância

Procuro ouvir na voz do vento
o eco perdido da minha infância.
E no riso franco das criancinhas
eu vislumbro o meu riso antigo.
Procuro nas ruas desertas e silenciosas,
o canto alegre das cirandas
e as minhas correrias do tempo recuado.
Dentro daquela avenida asfaltada,
onde rolam automóveis de luxo,
eu busco a minha ruazinha feia e pobre.
Procuro ver nas bonecas de hoje,
tão lindas, de tranças sedosas,
a bonequinha de trapo que eu embalei no meus braços.
Procuro encontrar no rosto das neocomungantes
traços de minha inocência
e a primeira emoção daquela que ficou no tempo.
Procuro descobrir, desesperada,
na face ingênua das crianças
a minha pureza perdida.
Procuro em vão, pois não encontrarei jamais
vestígios da minha infância feliz,
que os anos guardaram no seu abismo.

 "Chão de Pedras", Anilda Leão

 (Anilda Leão nasceu no dia 15 de Julho de 1923. Morreu em 2012.)

Na minha rua passa o mar 61

Foto Hernâni Von Doellinger

Luísa Villalta 4

A estación
 
Onda nós nunca pasan os trens.
só chegan ou parten.
Por iso tamén somos nós
a nosa última estación
o noso amor definitivo.


Así podemos marchar
no único sentido posibel
ou esperar o avalo dos viaxeiros
para sentirnos expandidos nas miradas extrañas
que chegan arrastrando as bambalinas do mundo.


Onde nós non hai nunca outro destino
que ser un anónimo fin
ou un glorioso comezo.


Máis alá
máis alá somente o mar
e a incertidume da luz
o extremo
o abismo
o espello detido en nós.


"En Concreto", Luísa Villalta 

(Luísa Villalta nasceu no dia 15 de Julho de 1957. Morreu em 2004.)  

Caminho 682

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 14 de julho de 2019

O dia do anho

Os domingos tinham esse pequeno problema, e quem for de Fafe e antigo sabe do que falo: tripas ou vitela assada? Era a verdadeira questão, o dilema do almoço dominical. Os fafenses, gente de bom comer e satisfatório beber, resolveram facilmente o assunto, há muito, muito tempo: isto é, em vez de tripas "ou" vitela assada, o almocinho de domingo passou a ser tripas "e" vitela assada. Nem Salomão, no seu ancestral e sábio critério, tomaria decisão mais acertada.
A vitelinha guiava-se em casa, com vagar e carinho, com as voltinhas todas, e as tripas, regra geral, iam-se buscar num tachinho à Esquiça ou à Pacata, consoante a ideia que cada um tinha acerca da sua própria posição social.
Começava-se portanto pelas tripas, e a seguir vinha a vitela. O apetite era gerido ao milímetro, mais ou menos um bocadinho daquelas, mais ou menos um bocadinho desta - porque, como determina o princípio da impenetrabilidade da matéria, dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo, e as vacas é que têm felizmente quatro estômagos. Ora bem: a malta nova, pouco dada à tripalhada, reservava-se para a chicha com batatinha de ouro e arroz de forno. Mas de quando em quando reservava-se mal. Como daquela vez em que o nosso Zé não tocou no feijão. Perguntaram-lhe se estava doente, se tinha fastio, se queria um caldinho branco, se queria meter o termómetro. Que não, que não, que não e que não, respondeu respectivamente, e explicou todo gaiteiro: - Estou a guardar-me para a vitela!
Naquele domingo não havia vitela. E as tripas já tinham saído da mesa...

Moral da história: contar com a vitela no cu da galinha, por assim dizer, e com licença de vossências, pode ser uma merda.

Mas hoje, 14 de Julho de 2019, o dilema gastronómico nem se coloca, em Fafe. Hoje é dia da extraordinária procissão da Senhora de Antime, tremenda e comovente, multitudinária e única. E a seguir à procissão é agnus day, quer-se dizer dia do anho. E da vitela. E eventualmente das tripas, aquele meio tachinho que ficou guardado de ontem... 

(Onde escrevi "tripas" e "vitela assada", deve falar-se "tripasss" e "bitela assada". À moda de Fafe. A vitela assada à moda de Fafe, quando bem feita, é provavelmente a melhor vitela assada do mundo. A confraria da dita não veio ajudar nada, antes pelo contrário, mas veste que é uma categoria.)

Mobiliário urbano (propriamente dito) 125

Foto Hernâni Von Doellinger

A lebre de serviço

Os principais favoritos organizaram uma tainada e comeram a lebre. Depois fizeram tempos de merda.

Vida de cão 457

Foto Hernâni Von Doellinger

Demóstenes Cristino 2

Raça

O Brasileiro traz dentro de si
Um Português, um Negro e um Índio Guarani.
O Luso deu-lhe a fibra audaz, arrojadiça
O bugre a natureza apática, a preguiça,
O amor à pesca, a inclinação à caça.


No excesso de carinhos e de zelos,
Reflecte do africano o doce coração
E, às vezes, dos cabelos, aquela permanente ondulação...
Em harmonia vivem sempre os três;
Enquanto o Negro bebe e o Guarani batalha,
O pobre Português trabalha.

Mas ai! Se no esplendor da graça,
Quebrando as ancas em lascivo jogo,
Uma morena passa:
O Negro dança,
O bugre pega fogo,
E o Português... avança!


"Musa Bravia", Demóstenes Cristino

(Demóstenes Cristino nasceu no dia 14 de Julho de 1894. Morreu em 1962.)

Offshore, se fashavore 261

Foto Hernâni Von Doellinger

Omnipresente

Deus está em toda a parte. Mas não é geral.

Potente

Foto Hernâni Von Doellinger

O encontro das duas senhoras

- Bom dia, Senhora da Misericórdia!...
- Olá, Maria das Dores, há um ano que não nos víamos...
- Saio pouco, enjoo na viagem...
- E eu também, são estes solavancos, estes salamaleques, estas ladainhas altifalantadas, estes tambores, este sol, este povo...
- O nosso povo, não é?
- No dia do anho parece que sim, de resto nunca sei dele...
- Mas a senhora está muito bem.
- E a senhora também.
- Porém os anos...
- A quem o diz...
- Por falar nisso, tinha qualquer coisa para lhe dizer...
- E eu também, mas não me lembro...
- Bem, vou-me lá...
- Realmente, são que horas, vá indo que eu vou do meu vagar...
- Então adeus, até para o ano...
- Se Deus quiser. Adeus.

sábado, 13 de julho de 2019

Quando o Texas era um tasco e era em Fafe

Foto Hernâni Von Doellinger

O Texas era um tasco e era em Fafe. Chamava-se também Quiterinha, derivado ao nome da dona, senhora respeitável, ou Pensão Império, e eu nunca soube derivado a quê. Estão a ver a Rua Monsenhor Vieira de Castro, quem vai para o Picotalho, do lado do Cinema, depois da padaria e encostado ao Noré, mesmo em frente à cabine, antes de chegar às Grilas e ainda mais às Turicas, nas barbas da procissão da Senhora de Antime? O Texas era exacta e geograficamente aí, previamente a ter-se instalado de armas e bagagens no sul dos Estados Unidos da América, resvés com o México, segundo vi depois nos filmes a cores.
O Texas, o nosso Texas, o verdadeiro Texas, era a preto e branco e tinha, após o balcão, um reservado com vista para a cozinha e para os campos do Santo, onde hoje se ergue o cimento do Pavilhão Municipal. Foi no nosso Texas, na sala da frente, que eu vi na televisão os jogos de Portugal no Mundial de 1966. Eu e a RTP éramos miúdos da mesma idade. Ao Texas fui com o meu pai, no Texas confraternizei com os músicos antigos da Banda de Revelhe, que tinha casa de ensaio ali a dois compassos, coisa tão a calhar, com o querido Senhor Ferreira do Hospital ou com o Queirós, meu camarada bissexto na fábrica e provavelmente o melhor tintureiro do mundo, desse-se o caso extraordinário de ele aparecer ao trabalho...
Vamos dizer, então, que o Texas, o nosso, era uma casa de pasto - sem ofensa para todos os verdadeiros americanos do faroeste, incluindo gado cavalar e vacum. As portas do Texas eram verdes, mas não eram de saloon. Cobóis, apareciam alguns, sobretudo às quartas-feiras, porém não me lembro de tiros. Naquele tempo em Fafe, terra de paz e amor, matava-se mais à sacholada e a Justiça de Fafe era um postal com quadras bairristas do Zé de Castro, poeta-cauteleiro, o nosso Aleixo. Borracheiras havia-as, e eram acontecimento de alta patente, é preciso que se note. Não tínhamos xerife, mas tínhamos o Chester, tínhamos o regedor de pistolete à cinta e tínhamos o Miguel Cantoneiro, que tinha uma questão com os erres e, para todos os efeitos, também era autoridade. Às vezes, quando não era precisa, também tínhamos polícia...
Em todo o caso: no Texas, no nosso Texas, um pascácio do calibre de Donald Trump nunca seria eleito sequer para fazer a escrita da sueca...

P.S. - A sueca é realmente boa como o milho, tem umas mamas que eu sei lá e um rabo que não desfazendo, mas, para que conste, já está servida de contabilista.

Interlúdio fotográfico 124

Foto Hernâni Von Doellinger

O benfeitor

Era um recatado benfeitor: não queria que se soubesse que ele queria que se soubesse.

Um gato no altar

Foto Hernâni Von Doellinger

José Agrippino de Paula 2

As vitrinas e os bares estavam iluminados e a multidão transitava em todos os sentidos cercando os carros que se amontoavam ao lado dos outros. Estava frio e eu segurava Marilyn pelo ombro. Marilyn estava protegida por um casaco de lã e caminhava absorvida em si mesma olhando para o chão. Ela aprovava ternamente a atitude que eu tinha tomado em relação a ela; Marilyn Monroe repetiu que eu não era culpado, mas que o erro era dela de não ter sido como eu pretendia. Eu continuava segurando fortemente Marilyn pelo ombro como se pretendesse protegê-la e pretendesse me desculpar da minha atitude em relação a ela...
Eu e ela fomos encontrar Clark Gable, que nos esperava sob o Arco do Triunfo. Eu cumprimentei Clark Gable e nós saímos passeando os três, eu e Clark Gable abraçados a Marilyn. Marilyn Monroe caminhava silenciosa e infantil entre nós dois, e naquele instante eu senti uma grande ternura por ela e beijei sua boca. A ternura que eu sentia por Marilyn Monroe se transmitiu para Clark Gable, que sorriu grave e beijou Marilyn na face. Eu e Clark Gable nos sentíamos bem ao lado de Marilyn. Marilyn Monroe encontrou uma amiga e parou para conversar na frente da vitrina. Eu me introduzi na conversa falando com a amiga de Marilyn, enquanto procurava esconder com o corpo o índio brasileiro enfeitado de penas que estava nu exposto na vitrina. O enorme e mole pênis do índio caía até o joelho e eu não queria que Marilyn Monroe visse o tamanho do sexo do índio brasileiro...

"PanAmérica", José Agrippino de Paula 

(José Agrippino de Paula nasceu no dia 13 de Julho de 1937. Morreu em 2007.)

Mobiliário urbano (propriamente dito) 124

Foto Hernâni Von Doellinger

Fontes & fontes

Fonte baptismal, fonte de vida, fonte luminosa, fonte milagrosa, fonte de alimentação, fonte de ignição, fonte da juventude, fonte de inspiração, fonte de transpiração, fonte termal, fonte de tráfego, fonte tipográfica, Fontes de Onor, Fonte Arcada, Fonte da Telha, Fonte das Sete Bicas, Fonte da Moura, Fonte do Bastardo, Fonte do Santo, Fonte da Cana, José Fonte, Fontes Pereira de Melo, Fontes Rocha, Fontes de Alencar, Águas das fontes calai ó ribeiras chorai que eu não volto a cantar, Adios rios adios fontes.

Na minha rua passa o mar 60

Foto Hernâni Von Doellinger

Omnisciente

Deus sabe tudo. Mas às vezes esquece-se.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Se cá nevasse, fazia-se cá ski

Foto Hernâni Von Doellinger

O papel

Conseguiu finalmente acabar com o papel na sua empresa. Nas casas de banho notou-se logo.

Também faço isto muito bem 228

Foto Hernâni Von Doellinger

Manuel Antonio 3

Navy Bar

Este bar ten balances
E tamén está listo
pra se facer á vela

Enchéronnos o vaso
con toda a auga do Mar
pra compor un cocktail de horizontes

Pendurados das horas
atlas xeográfico de esperantos
están sen tradución
E tatexan as pipas
co ademán políglota das bandeiras

Ese cantar improvisado
é o mesmo
que xa se improvisou nalgures

Quen chegou avisándonos
desa cita nocturna que temos
co vento ao NE
na encrucillada das estrelas apagadas?

Aquí bebe de incógnito
o Mariñeiro Desconecido
- sen xeografía nin literatura -
A noite dos naufraxios
co seu brazo salvavidas
aferrará connosco unha vela de chuvascos

O vaso derradeiro
estaba cheo de despedidas 


Polas rúas dispersas
íamonos fechando
cada un dentro da súa alta mar

No repouso dalgún vaso
tódalas noites naufraga o Bar.


"De Catro a Catro", Manuel Antonio

(Manuel Antonio nasceu no dia 12 de Julho de 1900. Morreu em 1930.)

Carrinho 681

Foto Hernâni Von Doellinger

Fonte limpa

Dois banhos por semana: à terça e à sexta. Não esquecer atrás das orelhas!...

Interlúdio fotográfico 123

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Portugal à la minuta

"Somos menos e estamos mais velhos, casamos pouco e continuamos pobres" - este é, dizem os jornais, o "Retrato de Portugal" que a Pordata, base de dados estatísticos da Fundação Francisco Manuel dos Santos, fez questão de revelar hoje, Dia da População.
Fico sempre de pé atrás com esta coisa do "somos" sem me terem perguntado nada. Lembra-me a história do frango para dois que um comeu e o outro viu comer, e portanto, cientificamente, cada qual comeu metade.
Resolvi por isso esmiuçar, item por item, as grandes conclusões dos dados analisados, que reportam aos anos de 2007 a 2018. E então: somos menos? Somos. O meu sogro morreu há coisa de quatro anos. Estamos mais velhos? Estamos, que remédio, à média de um ano por ano. Casamos pouco? Pois casamos, mas aí a culpa é minha, que só casei uma vez. Continuamos pobres? Cada vez mais, mas alegres, e seja por alma de quem lá têm. E a minha decisão é: ora aqui está um estudo que finalmente realmente.

Mobiliário urbano (propriamente dito) 123

Foto Hernâni Von Doellinger

Daltónicos Anónimos

Entrou, por engano, na reunião dos Daltónicos Anónimos. Compreende-se: estava um bocadinho turvo.

Também faço isto muito bem 227

Foto Hernâni Von Doellinger

Lélia Coelho Frota 3

João Sebastião

João Sebastião
É cruzamento da linha.
Adeus verões, perfil humano,
monólitos, élitros, verdores.
A dinamite do concreto aqui
se realiza.
Bach pulveriza
todo contato terra.
Polifonicamente o órgão mói
todo humano cuidado:
aquilo que exulta e aquilo que dói.
Cuidado!
Sob o sopro ardente do arcanjo
Deixamos sem reticência o qualquer pó
para a nudez maior da claridade.


Lélia Coelho Frota

(Lélia Coelho Frota nasceu no dia 11 de Julho de 1938. Morreu em 2010.)

Music was my first love 55

Foto Hernâni Von Doellinger

Fonte confidencial

Descobriu-a sem querer aí num sítio, dá-lhe setenta e três garrafões por dia, e mais não diz.

Mar à vista!

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Lições de História 24: Jonas

Jonas era profeta com escritório em Israel e Deus mandou-o a Nínive passar umas gáspeas aos assírios, que eram maus como as cobras e de uma crueldade bíblica para com inimigos e povos vencidos em geral. Jonas acagaçou-se com os perigos da demanda e tentou desobedecer a Deus, fugindo, disfarçado de Hercule Poirot, numa viagem de cruzeiro pelo Mediterrâneo. Deus levou a mal tamanha manifestação de cobardia e diletantismo, caiu-lhe em cima com uma tempestade de criar bicho e atirou-o borda fora. Jonas foi engolido por uma baleia e por lá se acomodou durante três dias e três noites. Ao fim da terceira noite, isto é, ao quarto dia, depois do pequeno-almoço, a baleia deu à Costa da Caparica e o resto da história é bem conhecido: Jonas assinou pelo Benfica e em quatro épocas já marcou 122 golos.

(P.S. - Texto escrito e publicado no dia 30 de Junho de 2018. Jonas, o pistoleiro, pendurou as botas aos 35 anos e com as costas num frangalho. Tipo raro este Jonas, que também me incomodou bastante. Estimo-lhe as melhoras.)

Do que a casa gasta

Foto Hernâni Von Doellinger

O dia de amanhã

"Nunca se sabe o dia de amanhã", dizia ele constantemente ao filho. E repetia e repetia e repetia. "Nunca se sabe o dia de amanhã". Cansado de ouvir o pai, o filho ofereceu-lhe um calendário.

Também faço isto muito bem 226

Foto Hernâni Von Doellinger

Borobó 2

Inda que sempre escribía en prosa
castelán, soñei que si rimaría
os renglóns sairíanme na fermosa
fala en que falóu Rosalía.

E cando, por vez primeira, o texto
enceteino en galego, eu sentía
voar a prosa, escribindo en verso
coma si me levara da man Rosalía.

Deus me perdone, e Nosa Señora
da Saudade, señora de Murguía,
por meterme a facer versos, embora
ao xeito de Rosalía.

Borobó

(Borobó nasceu no dia 10 de Julho de 1916. Morreu em 2003.)

Caminho 680

Foto Hernâni Von Doellinger

Maria Isabel Barreno 4

Acho que vou ficar a morar aqui no Sal, dissera-lhe Maria Josefa, semi-afirmando, semi-interrogando. Ficaram os filhos atentos. Os que estavam perto naquele momento: Isabel e José. Mas o João, também ali sentado, não prestou mais atenção do que o habitual: o Sal é mais saudável, respondeu, distraído, olhando a mãe com um sorriso de devoção filial. Não é por isso, é pela memória do teu pai. Sim, sim, evidentemente, o Sal foi o primeiro sonho do pai.
Maria Josefa calara-se, imersa nas suas emoções contraditórias. Manuel António acabara por morrer no Sal, sozinho, quer dizer, sem ela. Muitos dos seus filhos e filhas se tinham instalado no Sal, uma vez casados: Teresa, Bernarda, Isabel, José e Aniceto. Os filhos haviam sido os primeiros colonos do Sal.

 "Vozes do Vento", Maria Isabel Barreno

(Maria Isabel Barreno nasceu no dia 10 de Julho de 1939. Morreu em 2016.)

Interlúdio fotográfico 122

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 9 de julho de 2019

Motoristas de matérias perigosas, há-os

Condutores de autocarros das viagens de finalistas a Espanha e das claques de futebol em Portugal aderem à greve dos motoristas de matérias perigosas e exigem do Governo o reconhecimento da categoria profissional e salários mais dignos, pelo menos compatíveis com a responsabilidade que lhes cai em cima e o risco de vida que correm sobretudo aos fins-de-semana e antes que cheguem as eleições.

Última hora: Os motoristas dos autocarros da Resende, em Matosinhos, e os condutores de tractores agrícolas e os manobradores de empilhadores, em todo o país, ponderam entrar na luta.

Hemisfério sul

Foto Hernâni Von Doellinger

Vinicius de Moraes 8

Soneto de agosto

Tu me levaste, eu fui... Na treva, ousados
Amamos, vagamente surpreendidos
Pelo ardor com que estávamos unidos
Nós que andávamos sempre separados.

Espantei-me, confesso-te, dos brados
Com que enchi teus patéticos ouvidos
E achei rude o calor dos teus gemidos
Eu que sempre os julgara desolados.

Só assim arrancara a linha inútil
Da tua eterna túnica inconsútil...
E para a glória do teu ser mais franco

Quisera que te vissem como eu via
Depois, à luz da lâmpada macia
O púbis negro sobre o corpo branco.


"Livro de Sonetos", Vinicius de Moraes

(Vinicius de Moraes nasceu no dia 19 de Outubro de 1913. Morreu no dia 9 de Julho de 1980.)

Vida de cão 456

Foto Hernâni Von Doellinger

Microcontos & outras miudezas 153

A invenção da sogra
Consta que os muçulmanos introduziram a nora em Portugal. Gostaria de saber: e quem terão sido os filhosdeputa que nos introduziram a sogra?

Flores ao solheiro
Um restinho de sol e lá se sentavam elas comparando doenças e façanhas de netos havidos ou inventados. Rosa, Violeta, Hortênsia, Margarida, Dália, Açucena - evidentemente no jardim, ao entardecer da vida...

Não me dêem ideias
Logo na quarta página, ao lado do índice instalado em desafogo na página cinco, um selo-aviso com ares terminantes e antigos de imprimatur e nihil obstat. Rezava: "Respeite o direito de autor. Não fotocopie livros". Nunca me tinha passado pela cabeça, mas ainda bem que me lembraram disso. Fotocopiei - e foi uma tarde bem passada. Era um valoroso livro com 895 páginas.

Gosto que as palavras me enganem
Gosto de nomes, gosto do falar antigo, gosto das palavras. Gosto de palavras com piada fina, palavras como parreca, como esbraguilhado, como caguinchas, como cachicha. Mas ainda gosto mais de palavras desalinhadas, subversivas, fora-da-lei. Matreiras. Gosto de palavras que não são o que parecem. Aprecio especialmente as palavras que viram a norma de pernas para o ar e a abusam, como, por exemplo, e estas são cá das minhas, solhão, cordão, pontão, estradão ou picão.
Cá está. Cá estão: solhão, cordão, pontão, estradão e picão, palavras rematadas com o famoso sufixo "ão", unanimemente considerado pelos mais reputados gramáticos como um dos sufixos por excelência para a formação de aumentativos. E, no entanto, para quem sabe das coisas, solhão é uma espécie de solha mais pequena, cordão é uma corda de bolso, pontão é uma pontinha sobre um ribeiro, estradão é uma estrada estreita e geralmente em terra esburacada, conveniente para ralis, e picão é uma picareta diminuta, ferramenta de mineiros. São excepções que confirmam a regra? Não, pelo contrário: são palavras que querem que as regras se fodam.
Evidentemente a palavra pilão levar-nos-ia muito mais longe...

Dia de amar
Dois de Julho, amanhecendo. A velha prostituta, muito limpa e organizada, consultou a agenda praticamente vazia e leu baixinho, soletrando, acariciando as sílabas uma a uma: - Dia do Bombeiro Brasileiro. Às 11 horas.
E foi lavar-se.

Só destas, tenho vinte e uma 93

Foto Hernâni Von Doellinger

Fonte próxima

A abençoada borla da água fresquinha escorrendo cristalina da bica. Um consolo nas tardes de Verão, lavagem do carro nas manhãs de sábado. E a dois passos de casa...

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Amarração

Foto Hernâni Von Doellinger

Santa culpa

A culpa morreu solteira, virgem e pura tal qual veio ao mundo. Aguarda canonização.

Também faço isto muito bem 225

Foto Hernâni Von Doellinger

Fausto Wolff 5

Parada obrigatória

Foi o nada que criou
Os limites
Pois temia
Ser fatalmente
Revelado
Pela luz
Que inventaria

"Gaiteiro Velho", Fausto Wolff

(Fausto Wolff nasceu no dia 8 de Julho de 1940. Morreu em 2008.)

Interlúdio fotográfico 121

Foto Hernâni Von Doellinger

Laurindo Rabelo 5

Soneto monárquico

A fêmea capixaba deu entrada
No seu leito ao monarca brasileiro,
Que nos gozos de amor, hábil, matreiro,
A sujeita deixou logo emprenhada.


Um jumento pariu! (Pobre coitada!)
Tem do Mattoso o rosto traiçoeiro,
Do Monte Alegre as patas, e o traseiro
É a cara do Olinda retratada.


Tem do Torres a força inteligente,
Do Manuel Felizardo a prenda brava,
Com que raivoso vinga-se da gente.


Quando Jobim, parteiro, o apresentava
Todo o povo dizia geralmente
Que de tal pai, tal filho se esperava.


Laurindo Rabelo

(Laurindo Rabelo nasceu no dia 8 de Julho de 1826. Morreu em 1864.)

Acima, acima, gajeiro

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 7 de julho de 2019

Por outro lado, Rui Rio é FDP

Rui Rio foi ontem ao tribunal. Os tribunais ficam de graça ao País e não têm mais nada que fazer, de forma que a Justiça resolveu matar o tempo à procura da seguinte verdade, somente a verdade e nada mais do que a verdade: dizer que Rio é um FDP é chamar "filho da puta" ao presidenta da Câmara Municipal do Porto ou, como se fôssemos todos tolos, apenas um remoque ao facto de o autarca anti-FCP ser um "fanático dos popós"?
Rui Rio garante que é "filho da puta", até porque não se considera "fanático dos popós". "Nunca ouvi esse disparate", afirmou Rio à juíza, sem mais delongas, enquanto ajustava o volume do sonotone. E aqui é que ele se espalhou. Porque toda a gente sabe, até a Justiça, o que é que o outro lhe quis chamar com a falsa pichagem do FDP na fachada do Mercado do Bolhão. Isso é uma coisa. Coisa feia, garotice. Outra coisa é que o presidente da Câmara do Porto é mesmo "fanático dos popós". Rui Rio nunca o escondeu até ontem, pelo contrário, toda a gente sabe e diz. E se FDP pode ser isso dos automóveis, então Rio é.

(P.S. - Texto publicado no Tarrenego! no dia 4 de Agosto de 2012. Mais achas para a fogueira, aqui.)

Interlúdio fotográfico 120

Foto Hernâni Von Doellinger

Tanques para o Irão

Portugal está a mandar tanques para o Irão. Para além de tanques, Portugal está a vender também estendais, cestos e molas.

Antes e depois, que tal? 9

Foto Hernâni Von Doellintger
Foto Hernâni Von Doellinger

Fonte segura

Após quatro braços, duas pernas, sete costelas, três cabeças e trinta e seis cântaros partidos, a Junta de Freguesia resolveu finalmente fazer obras de consolidação e requalificação. Agora sim, Leonor.

Só destes, tenho sete 92

Foto Hernâni Von Doellinger

Artur Azevedo 5

Que horror

Estou esplenético e tétrico.
Sorumbático e sombrio...
Vi de longe um bonde elétrico!
Não faço versos, não rio...


"Rimas", Artur Azevedo

(Artur Azevedo nasceu no dia 7 de Julho de 1855. Morreu em 1908.)

Vida de cão 455

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 6 de julho de 2019

Lições de História 46: Isaías

Isaías era profeta. Filho de Amoz, nasceu por volta de 765 a.C., acompanhou os reinados de Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias, uma linha média de se lhe tirar o chapéu quando disposta em 4-4-2 losango, casou com uma mulher conhecida apenas pelo nome de Profetisa, que o marido lhe pôs, e tiveram dois filhos: Sear-Jasube e Maer-Salal-Hás-Baz. Está-se a ver, portanto, aonde é que os brasileiros e a Luciana Abreu vão buscar os nomes para os  seus rebentos.
Isaías escreveu um livro para a Bíblia chamado especificamente Livro de Isaías para não ser confundido com o Deuteronómio. A crítica não lhe foi favorável. Diversos especialistas descrêem que a obra tenha um único autor, Isaías ele próprio, vendo-a, antes, como um trabalho a várias mãos e de diferentes épocas, coligido eventualmente no ano 400 a.C, ou até mais tarde. Isaías seria assim uma espécie de escritor dos nossos dias, nome de capa, escritor do que já foi escrito. Por outros.
Amuado com semelhante desmerecimento público, Isaías deixou-se de profecias, abandonou o reino de Judá e veio jogar futebol para Portugal, em 1987. Começou pelo Rio Ave, brilhou no Boavista e foi para o Benfica, onde fez cinco épocas, 178 jogos e 71 golos, ganhou dois campeonatos e uma Taça. Passou pelo Coventry City, de Inglaterra, e tornou cá em 1999, para representar o Campomaiorense. Regressou ao Brasil em 2000 e pendurou as botas em 2003.
Ficaram célebres os seus dizeres numa por acaso flash interview: "Ouvi a palavra do Senhor, príncipes de Sodoma, escutai a lei do nosso Deus, povo de Gomorra."

Interlúdio fotográfico 119

Foto Hernâni Von Doellinger

À vez 2

Branca de Neve brincava às casinhas com a casa dos sete anões. Com os anões brincava aos médicos, há quem diga.

Também faço isto muito bem 224

Foto Hernâni Von Doellinger

Tomaz de Figueiredo 5

A Marcelírica

Marcelo José das Neves,
Das Neves Alves Caetano.
Das Neves rima com greves
E Caetano com magano
E José, José, José
Rima bem com cambapé
Cambapé é uma rasteira
Igualzinha à tua asneira
Quiseste passá-la ao Botas,
Mas só achaste derrotas.
Apoiaste o reviralho,
Ó meu cara de trabalho,
Aumentaste a confusão,
Foste um doce pré traição.
Marcelo, mar de marmelo,
Marmelada de chinelo.
O chinó pré-contrabandista
Pré careca comunista.
Mais vale sê-lo, mais sê-lo
Que parecê-lo, Marcelo!
E tu, tens de cor velha,
Puseste a sala vermelha.
E selo, leva-o tu
Com pontapés no -ú-ú-ú
Sabes com que rima Alves?
Rima, Caetano, com talves.
Talves te espremas, marmelo,
Meu vento pífio amarelo.
Talves te sumas, ó Neves
Marcelo José das greves.
Talves te mirres, marmelo
Talves te rasgues, Marcelo,
Talves te cosas, ó Alves
Talves te escorras, talves,
Ó chupista ambicioso,
Ó presuroso inditoso,
Oportunista grevista,
O que tu queres é alpista.
Já te conhecem, Marcelo,
Melro de bico amarelo,
Ó candidato a chefinho,
Caneca de água com vinho.
Meu meias-tintas, bufão,
Catão-cotão, aldrabão.
Ó Neves, ó Neves, ó Neves
Dos graves modos, das greves,
Vê a asneira que cometes!
Não paras nessas retraites.
Tu vais caindo, caindo.
E vais aí ter! Que lindo!
Talves te desfaças todo,
A abrires-te desse modo.
Talves, talves, talves, talves.
Das Neves Marcelo Alves
Ó Alves José das Neves,
Alves Caetano das greves,
Marcelo Neves José
Lava a cara no bidé,
E onde hás-de lavá-la tu,
Ó Neves cara de Ubu?
Já te chamaram terrífico
Os que te chamam magnífico.
Hoje é a traição que te invoca,
Marcelo galinha choca.
Cacareja, à estudantada!
Que grande cacarejada!
Do arejo sai um odor
Cada vez pior, pior.
É cheiro russo e vermelho
E chamusco de chavelho.
É cheiro de foge o pé,
De escorregar, José,
De José Alves Marcelo,
E de foice com martelo,
De José Alves Caetano
De ratazana de cano
De Caetano Alves das Neves,
Dos passos falsos e breves,
Das breves podres carreiras,
Das moscas e das asneiras.
Carreiras ou correrias
Pra nos trazer porcarias,
Pra nos trazer - o doutor! -
Este cheirete, este odor.
Ó Caetano Alves das Neves,
Marcelo José das greves,
Das Neves Alves Caetano,
Ó Alves José do engano,
Marcelo, burro com sela,
Tochinha, pequena vela,
Toucinho, magro presunto!
Marcelo cheira a defunto,
Marcelo cheira a grevista,
Cheira a peste, cheira a pista.
Depois de posta mamada,
Pões as mamas de criada,
Vais servir o comunismo,
Marcelo José Cinismo,
Marcelo José Compota,
Meu marmelada, anedota.
Pata, pita, peta, pé,
Marcelo Alves José,
Marcelo José Caetano,
Caetano José marçano,
Tanto importa, tanto faz,
Dito da frente pra trás,
Dito de trás pra diante,
É sempre o mesmo tratante.
Caetano José das Neves,
Castanha chulé das greves,
Alves Caetano Marcelo,
Alças de pano de adelo,
Das Neves Alves Caetano,
Comes-e-bebes, tutano,
Tétano, Alves e Calvos,
Marcelo, mas de papalvos,
Marcelo, chá de macela,
Macela, massa, mistela,
Maçudo, um, mamarracho,
Maço, mula, mala, tacho,
Alves Caetano das Neves,
José Marcelo das greves,
Marcelo Caetano Alves,
Talves que te sumas, talves.
 

Tomaz de Figueiredo e Goulart Nogueira

(Tomaz de Figueiredo nasceu no dia 6 de Julho de 1902. Morreu em 1970.)

The Way 679

Foto Hernâni Von Doellinger

João Abel 3

O mar não é só aquele interminável espaço

o mar não é só aquele interminável espaço
permanentemente ondulado pela tirania das marés

o mar também tem ruas
a ziguezaguear as suas serranias

e se tem ruas
também tem largos e avenidas
por onde desfilam os grandes carnavais

esquecidos dos becos
aonde nunca chegam as obras

João Abel

(João Abel nasceu no dia 6 de Junho de 1938)

Vida de cão 454

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Xosé María Díaz Castro 7

Esmeralda 

Herba pequerrechiña 
que con medo surrís
ó sol que vai nacendo
e morrendo sen ti,
por qué de ser pequena
te me avergonzas ti?
O Universo sería
máis pequeno sin ti!

"Nimbos", Xosé María Díaz Castro

(Xosé María Díaz Castro nasceu em 1914 e morreu em 1990. "Nimbos" foi publicado no dia 5 de Julho de 1961 pela Editorial Galaxia.)

Interlúdio fotográfico 118

Foto Hernâni Von Doellinger

Ponto de honra

Licenciou-se. Fez três mestrados, uma pós-graduação, uma pós-produção e uma pós-tulação. Arranjou trabalho num call center. O pai, preocupava-o o pai: certamente desiludira o cota. O cota dizia-lhe que não: - Meu filho, qualquer emprego é bom e digno desde que seja honesto. Ainda que assaltes bancos ou roubes velhinhas, se o fizeres honestamente, serás sempre o meu orgulho.

Na minha rua passa o mar 59

Foto Hernâni Von Doellinger

Álvaro Feijó 3

Varina

Eu mudei de pincel e de paleta
- embora seja a mesma a tinta com que escrevo -
mas mudei, que, de repente,
surgiste diante de mim.
Não é que me perturbes, mas eu sinto
que alguma coisa me comove ao ver-te.
Não é que te examine, porque sei
que me é quase impossível,
que me é mesmo impossível descrever-te.
A tua história, sim? A história que se repete
e é sempre nova porque há sempre gente
que nunca a ouviu
ou que não a quis ouvir.
O cais viu-te nascer!
Corrias, loucamente, pelas rectas
intermináveis dos paredões
de cimento e granito,
e em caixotes com cheiro de sardinha
fazias tabogan das linguetas
- o tabogan dos parques infantis
que não pudeste ver.
Assim, faminta e seminua
mas livre como os peixes
fizeste-te mulher!
Depois foi o correr das ruas da cidade,
enrouquecendo a gritar:
- "Quem merca os camarões"...
Depois um que voltou da Terra Nova
e te olhou como fera sequiosa
de carne,
quando o lugre, ao chegar, entrou na doca.
Depois o inevitável!
O luar...
A Senhora d'Agonia...
A quentura de Agosto...
E, então,
não era só o peso da canastra,
era o peso dum filho
e a fome de dois para matar,
até que o lugre voltasse
e se esquecesse
o calvário da luta...
Um dia no intervalo da campanha
o sexo falou mais alto
e o coração calou.
Foste dum outro homem e, depois,
de dois,
de três.
Quando ele voltou
encontrou-te perdida
e tu perdeste-o.
Hoje, num outro porto, ainda gritas
o teu pregão.
Quando um homem te encontra fora de horas,
para ele foi sempre um bom encontro...
e... "até mais ver"...
Vês! Eu sei a tua história...
(Há tantos que a não sabem!)
E, no entanto,
Dum homem só ou de cem,
num porto do meu país ou num porto de Islândia
Tu surgiste aos meus olhos
como a mesma mulher.


"Os Poemas de Álvaro Feijó", Álvaro Feijó

(Álvaro Feijó nasceu no dia 5 de Julho de 1916. Morreu em 1941.)

Aqui que ninguém nos ouve...

Foto Hernâni Von Doellinger

Período de compensação de neutralizações

Esgotados, os seis minutos de descontos pediram ao árbitro que acabasse o jogo.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Deficiente, vamos lá definir...

Foto Hernâni Von Doellinger

À vez

A casa dos sete anões era tão pequena que só lá cabia um. Com os pés de fora.

Vida de cão 453

Foto Hernâni Von Doellinger

Microcontos & outras miudezas 152

As despesas da corrida
Fez todas as despesas da corrida. Quando lhe apresentaram a conta, ia morrendo do coração...

What?
E diz o runner ao finisher: - O pacemaker hoje não vem?...

Sem peneiras
Ali estava um tipo sem peneiras. Chamavam-lhe doutor, e ele não gostava. Era engenheiro, com efeito. Senhor Engenheiro, como preferia.

Proposta indecente
O Google AdSense sugeriu-lhe: "Rentabilize a sua paixão." Ele perguntou à namorada, mas ela levou a mal.

Período homólogo
- Boa tarde...
- E o que vai ser?...
- Queria meio ano.
- Novo ou usado?
- Novo, se faz favor.
- Da parte do segundo semestre, portanto...
- Se houver...

Se ameaçar sol, não se esqueça da árvore
Era uma localidade um bocadinho estranha, porém exuberantemente moderna e cosmopolita. Nas suas principais entradas, a autarquia colocara frondosas tabuletas que avisavam os forasteiros: "Se quiser sombra, traga a sua própria árvore".

Tipo Le Mans

Foto Hernâni Von Doellinger

Adolfo Casais Monteiro 5

Vem vento, varre

Vem vento, varre
sonhos e mortos.
Vem vento, varre
medos e culpas.
Quer seja dia,
quer faça treva,
varre sem pena,
leva adiante
paz e sossego,
leva contigo
nocturnas preces,
presságios fúnebres,
pávidos rostos
só covardia.


Que fique apenas
erecto e duro
o tronco estreme
de raiz funda.


Leva a doçura,
se for preciso:
ao canto fundo
basta o que basta.


Vem vento, varre!

Adolfo Casais Monteiro

(Adolfo Casais Monteiro nasceu no dia 4 de Julho de 1908. Morreu em 1972.)