quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Até amanhã, se Deus quiser...

Foto Hernâni Von Doellinger

Gosto que me digam "Até amanhã, se Deus quiser". Gosto. Gosto que me digam "O Senhor te abençoe". Gosto. Gosto que me digam "Vai com Deus". Gosto. Acredito em bênçãos, mas execro as benzeduras. Como acredito na oração, mas dispenso as rezas. Acredito. Dispenso intermediários, agentes, representantes, vendedores e empresários - eu e Deus é assunto nosso, ligação directa. Dispenso também os novos profetas e as novas profetisas, o Facebook, o Instagram, o Twitter, as mensagens em cadeia e às vezes o Diário de Notícias. Dispenso.
Gosto de pedir a bênção, gosto que me abençoem. Eu pedia a bênção beijando a mão aos meus avós da Bomba e aos meus avós de Basto. Pedia a bênção ao meu pai, à minha mãe, ao meu padrinho, à minha madrinha, aos meus tios e às minhas tias. Até às tias chegadas à família por casamento, que no princípio achavam aquilo um bocado estranho, mas que depois se habituaram e creio que gostam.
Fiquei traumatizado para toda a vida, como diria o outro que disse Foucault.
Gosto tanto de ser abençoado, que a minha mãe já sabe: as nossas despedidas só estão completas quando ela me diz "O Senhor te abençoe! Fica com Deus!", e eu digo "Obrigado!", sem saber onde meter as mãos e as lágrimas. Pelo sim e pelo não, tusso.

Gosto de bênçãos, acredito nas bênçãos. Porque sim, e não por respeito ou porque me ensinaram ou obrigaram em pequenino. Sou interesseiro. Preciso de bênçãos como de pão para a boca, as bênçãos fazem-me tanta falta como o ar que respiro, como água no autoclismo. Sou abençoado por ter um amigo que há anos me abençoa sem juros e não acredita em bênçãos, e o que é que isso interessa? Pelo contrário, a Senhora Dona Maria Amélia, que ali vai no retrato, ligeira quanto pode, abençoa-me todos os dias cerca das sete e meia da manhã. Madrugo de propósito para encontrá-la na minha caminhada diária pela marginal Matosinhos-Porto.
A minha abençoadora das 7h30 vem de Gondomar e àquela hora já está prestes a apanhar o(s) autocarro(s) de regresso a casa. Não consigo imaginar a que horas é que ela sai da cama. Tem as pernas vergadas pela idade, talvez 84 anos, não sabe bem, e pela vida, dez filhos, muito trabalho e desgostos mais do que a conta. Vê-me, levanta o braço direito e diz-me, num largo e comovente sorriso, "Bom dia, vá com Deus!"
E eu fico pronto. Claro que a Senhora Dona Maria Amélia diz "Bom dia, vá com Deus!" a toda a gente. A maioria não liga, ignora-a ou sorri-se dela, pior para eles e mais sobra para mim.

Quando a minha mulher, o meu filho, a namorada do meu filho, o Lando, o Jorge, o Lopes, o Nestes e outros amigos que me visitam saem cá de casa, digo-lhes sempre, à porta, "Vai com cuidado!", e repito quantas vezes forem precisas até obter uma resposta. Um "Sim!" ou um "Tá bem..." sossegam-me. Digo "Vai com cuidado!" porque vi muito A Balada de Hill Street e, por outro lado, sinto que não tenho estatuto para dizer "Vai com Deus!" Mas eles sabem que, nas entrelinhas do coração, o que lhes estou realmente a dizer é "O Senhor te abençoe, vai com Deus!" e, sobretudíssimo, "Até amanhã, se Deus quiser"...

Livro de reclamações

Foto Hernâni Von Doellinger

Epitáfio

Quando Epitáfio morreu, ninguém sabia o que dizer...

Na minha rua passa o mar 43

Foto Hernâni Von Doellinger

Carlos Drummond de Andrade 6

Amor - pois que é palavra essencial

Amor - pois que é palavra essencial
comece esta canção e toda a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
reúna alma e desejo, membro e vulva.

Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?

O corpo noutro corpo entrelaçado,
fundido, dissolvido, volta à origem
dos seres, que Platão viu contemplados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.

Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?

Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentraram.

Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara,
mas, varado de luz, o coito segue.

E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da própria vida,
como ativa abstração que se faz carne,
a idéia de gozar está gozando.

E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o clímax:
é quando o amor morre de amor, divino.

Quantas vezes morremos um no outro,
no úmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.

Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, qual estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.

"O Amor Natural", Carlos Drummond de Andrade

(Carlos Drummond de Andrade nasceu no dia 31 de Outubro de 1902. Morreu em 1987.)

As iludências aparudem 14

Foto Hernâni Von Doellinger

Aureliano Pereira 4

[Foi à irexa rezar: os seus pesares]

Foi à irexa rezar: os seus pesares
eran tantos ¡meu Dios!
qu' a probe d' a rapaza non podía
vivir 'n aquel door.
Cavilaba 'n o falso que roubara
seu corozo, sua fe,
y-olvido iba pidir ò Santo Cristo,
á Dios, supremo ben.
¿Non ouvia contar moitos milagres
que tiña feito xa?
¿non había facer qu' ela vivise,
cal 'n outro tempo, en paz?
- Siñor, pouco che pido, lle decía:
¿doeráste de mín?
sácame d' a mamoria sua lembranza,
¡que non podo vivir!
Y-alzand' os lindos ollos, d' auga cheos,
pra-o Cristo miróu
e víu que tiña o Santo a mesma cara
d' o home qu' a engañou.


"Cousas d'a Aldea: Versos Gallegos", Aureliano Pereira

(Aureliano Pereira nasceu no dia 22 de Janeiro de 1855. Morreu no dia 31 de Outubro de 1906.)

Caminho 574

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Gustavo Pernas

Branco e negro

Home e muller vestidos de branco e negro. Sala de espera con dúas sillas.

EL - (Incómodo) Vai calor, ¿eh?
ELA - 1300.
EL - ¿Cómo?
ELA - 1300º aí dentro...
EL - ¡Ah, si...! Iso lémbrame a cola do pan...
ELA - ¿Que?
EL - Tamén vai calor... o forno, xa sabe, e hai que esperar... claro que de pé... e alí faíseche a boca auga...
ELA - ¡Aah! (Rompe a chorar) ¡Auga!
EL - ¿Quere beber?
ELA - Non somos máis que auga...
EL - É bo chorar.
ELA - Nun 80%...
EL - O que faga falta.
ELA - Un 80% de nós é auga...
EL - Non crea que non o intento...
ELA - Tódolos días...
EL - Pero non podo...
ELA - Tódolos días ás 5 da tarde...
EL - ¿Ás 5?
ELA - Despois do café.
EL - ¿O café?
ELA - Choro...
[...] 

Gustavo Pernas

(Gustavo Pernas Cora nasceu no dia 26 de Novembro de 1959. Morreu ontem, dia 29 de Outubro de 2018.)

Bate na rocha e desmaia (é mais crível!)

Foto Hernâni Von Doellinger

O mistério dos hemisférios

Já repararam como o hemisfério norte encaixa tão bem no hemisfério sul, e ficam ali os dois hemisférios hermeticamente atarraxados no equador e às voltas ao Sol, sem uma folga, e sem entornararem a água dos oceanos? É um mistério. Penso muito nisto, sobretudo por causa dos peixes...

Também faço isto muito bem 116

Foto Hernâni Von Doellinger

Maria Amélia Neto 3

A imagem

Esperar a imagem. Queimar o incenso,
Deixar a luz entrar na casa,
Escolher as melhores cores, fixar a seda branca,
Esperar que a imagem cresça no silêncio.
Era assim que fazia Kuo Hsi.
Além dos tons de branco,
O azul da azurite ou "Azzurra della Magna",
O vermelho da poeira de coral, o amarelo do pavão,
O verde da malaquite, o vermelho fulgurante do cinábrio,
Todas as cores, primeiro expectantes,
Eram gritos no acto da criação.
Mas, querido Mestre Kuo Hsi,
No nosso mundo, as imagens não nascem enquanto o incenso arde.
Quando não se escondem, deixando apenas cactos e poeira,
Irrompem com furor na noite escura,
E, sílaba a sílaba, lágrima a lágrima,
derramam-se sobre o papel, não sobre a seda branca.
Por vezes, acompanha-as o vento das estrelas,
Que sucede ao vento solar,
Com memórias do gelo dos anéis de Saturno
E da Grande Mancha Vermelha de Júpiter.
Porém, quase sempre nascem mais perto,
Dubrovnik sob as bombas, o Arboretum em chamas,
Sarajevo, a Somália, o sangue, e o sono de Deus,
As águas da Normandia e os muitos deuses da guerra.
Um lugar mágico por vezes, o café de Rick,
E mágicos também os écrans azuis dos computadores,
L.A. ao romper do dia, o Harlekin de Stockhausen,
Um cavaleiro através da névoa,
O Tejo outrora tão verde em Toledo.
Mas sempre a ameaça do vento nos gélidos caminhos,
Não obstante Proust, o feiticeiro do tempo,
A cadeia da criação, Picasso, Rilke e a Quinta Elegia,
A tinta castanha de Da Vinci.

Oeste, terra dos mortos, dizem os egípcios.
O grito é de Munch.

"Quinteto para o Império do Meio", Maria Amélia Neto

(Maria Amélia Neto nasceu no dia 30 de Outubro de 1928)

Caminho 573

Foto Hernâni Von Doellinger

Carvalho Calero 5

Na China
 
nacem vinte e seis nenos por minuto.
Radiaçons de amarelo,
em ondas incessantes,
estenderám-se pola pele do mundo,
seja esta prata, cobre ou ónix;
metais, enfim, ou pedras
menos fortes que o ouro
como padrom de câmbio. A quantidade
impom a qualidade
num tempo em que o poder de massa é decisivo.
Agora nom é o raro
o bom. O raro é vergonhoso.
E prata, cobre ou ónix
serám em breve formas patológicas
de cor da pele. Consulte o dermatólogo
quem nom assimilasse o ouro padrom.
Toda pele minimamente sá
tem que ter recolhido
as radiaçons do Oriente,
provenientes da China, onde, segundo
seguras estatísticas,
nacem vinte e seis nenos por minuto.
Muitos milhons de poros irradiando
cromossomas ou gens,
esporos ou eflúvios
auríferos, avondam
para que se produza a necessária
mutaçom na epiderme discrepante,
e a feliz unidade se reduzam
as nom rendíveis, e perturbadoras
divergentes pigmentaçons da pele.
Os insensíveis às obriças ondas,
serám corpo a extinguir no lazareto.
Pele amarela, oblíquos olhos, liso
cabelo negro em toda a parte triunfarám.
Exércitos inúmeros
de engraçados meninhos
e de maes jeitosíssimas
da cor do sol, invadirám o mundo,
e imporám a sua graça
sobre toda a epiderme,
mediante a mestiçagem,
o enxerto, a cirurgia,
o estofado, o verniz. De um jeito ou outro
(se nom nas transacçons
mercantis), na genética,
o padrom ouro triunfará afinal.


"Reticências", Carvalho Calero

(Carvalho Calero nasceu no dia 30 de Outubro de 1910. Morreu em 1990.)

Outonando 16

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Simplesmente Simplício

Sou Bomba, Dezassete e Perna-de-Pau, por parte do meu pai, e sou Neques, por parte da minha mãe, com muito gosto. Já me chamaram Américo, Pobre, Padreca, Sacerdote, Profeta, Bítala, Cabeludo, Gedelhudo, Careca, 05613478, Amélia, Caixa-de-Óculos, Ó Tio Ó Tio, Gramático, Chefe, Doutor, Professor, Andrade, Pau de Virar Tripas, Gordo, Ex-Gordo, Hernano, Hermano, Herlânder, Hermo, Irrenane, Renane, Ranano, Renane, Ernesto, Aquele Senhor, Doente da Cama 2, Próximo!, Nanes, Se'Nane, Belingue, Berlingue, Bilingue, Berlindes, Boelingue, Bolingue, Dillinger, Dilingue, Volkswagen. Eu prefiro que me chamem Simplício.

I want to ride my bicycle 67

Foto Hernâni Von Doellinger

Adalgisa Nery 6

Poema ao farol da Ilha Rasa

O aviso da vida
Passa a noite inteira dentro do meu quarto
Piscando o olho.
Diz que vigia o meu sono
Lá da escuridão dos mares
E que me pajeia até o sol chegar.
Por isso grita em cores
Sobre meu corpo adormecido ou
Dividindo em compassos coloridos
As minhas longas insônias.
Branco
Vermelho
Branco
Vermelho
O farol é como a vida
Nunca me disse: Verde.


"Poemas", Adalgisa Nery

(Adalgisa Nery nasceu no dia 29 de Outubro de 1905. Morreu em 1980.)

Vida de cão 382

Foto Hernâni Von Doellinger

José Chagas 3

[Por trás do poema]

Por trás do poema
não se respira

Ventos se quebram
rolam onde o chão trabalha
um verde de outra cor

Por trás do poema
devemos estar mortos
inoticiados

Palavras emigram
vão para o labor de espessas
emoções

Por trás do poema
as chuvas se gastam
gastam-se os vôos os frutos
a alegria branca das praias

O tempo inicia seus escombros
por trás do poema

Uma rua de estátuas
cai sua cinza
cai o seu nada
de muitos séculos

E um rio em si mesmo se afoga
seca em suas areias
a vontade de mar

Não olheis nunca por trás do poema

podem vossos olhos
em sal tornar-se


"Lavoura Azul", José Chagas

(José Chagas nasceu no dia 29 de Outubro de 1924. Morreu em 2014.)

Outonando 15

Foto Hernâni Von Doellinger

Trocado por miúdos

O divórcio aos cinquenta anos era-lhe um desgosto muito grande. Ainda por cima trocado por dois rapazes de vinte e cinco...

domingo, 28 de outubro de 2018

Um certo falar antigo (ou o fafês, possivelmente)

Foto Hernâni Von Doellinger

"És um caguinchas!", chamou-lhe. "E tu és um parrano!", chamou-lhe o outro. Todos os dias a mesma toléria, aqueles dois: colegas de escola, camaradas de armas, amigos do peito (mamaram da mesma ama), parceiros de quartilhos e do falar antigo, mas, mal se entornavam no tinto, escamavam-se por dá cá aquela palha. - Que tal a pinga? - Calar... -, isto antes do destruete, ali à frente de toda a gente: o borra-botas, o cagão, o moncoso, o ranhoso, o piolhoso, o chulezeiro, o lamprancho, o pinante, o larilas, o maricandeiro, o azeiteiro, o boca-rota, o boca-suja, o leva-e-traz, o lambe-conas, o chupista, o choupilo, o mal-ajambrado, o todo-tirone, o lonchanei, o pinto-calçudo, o côdeas, o broeiro, o minguches, o cachicha, o piça-fria, o caga-na-saquinha, o corno, o sacrista, o licranço, o pascácio, o colhões-dácio, o videirinho, o sebento, o gijo, o catinana, o belga, o caiçara, o desgraça, o fastio, o adeus-ó-vai-te-embora, o puta-velha, o boxevista, o já-me-tinhas-dito, o escova, o morgado, o penquicite, o bastelo, o bítala, o alma-grande, o meia-foda, o chega-rebos, o gibreiro, o armante também conhecido como senhor-caguei-pra-ele, o peneirento, o doutor-da-mula-ruça, o molho-de-ossos, o lingrinhas, o pau-de-virar-tripas, o meu-rico-menino, o remelado, o aluado, o matarruano, o burgesso, o chorinhas, o bronquite, o bom-serás, o enjoado-de-merda e o ganante, que tinha artes de desaparecer na hora das contas. Os do costume, portanto. Ainda por cima, com o mulageiro, calistro profissionalizado e moina residente na mesa do canto, sempre a meter bedelho e carvão como quem não quer a coisa. Que se segue? Apartava-os o alemido - "Bonda!", mandava ele, guindando-se da cadeira que já se lhe formatara ao cu, e ia às carreiras botar água na fervura antes que desse para o torto, escarmentado por mor daquela vez em que o liorneiro pôs tudo aos tiros só por ter chamado cosmopolita ao lincréu...
Quem me contou foi o anzoneiro.

P.S.: Para rever, isto. Quanto ao meu textinho: o original tem mais de quinze dias e não há dia em que não me venham à cabeça um ou dois acrescentos no billboard do falarmo-nos em Fafe. Por isso cresce o raio do texto, e é a vida. Darei conta de futuros upgrades.

Com a casa às costa

Foto Hernâni Von Doellinger

O optimista

Era um optimista por natureza. Costumava dizer: - O mais difícil é que é complicado, o resto faz-se bem...

Também faço isto muito bem 115

Foto Hernâni Von Doellinger

Natércia Freire 2

A morte de calar

As viagens que sou prenderam-se em redomas
Ao corpo das palavras. À morte de calar.
Do alfabeto meu ignoro as cristalinas
Formas de aladas letras nestes versos finais.
São fantasmas de sol. São fantasmas de sede
Que chegam alta noite para nenhum lugar.

Decifro nas entranhas das trevas migradoras
O solstício da vida além da morte clara.
Mas quem me vem cegar, com setas voadoras
Nega-me agora a paz das secretas paisagens.

Meus Irmãos de astronaves, guiadas por um morto,
Que me esperam e estão, que me cantam e falam.
Que na vazia Cruz crucificam meu corpo
E abandonam a flor, mesmo a meio da sala.
À janela rasgada, para as cinzentas águas,
Encostam-me, sem olhos, e deixam-me ficar.

Não tenho nada mais a escrever sobre as ondas.
E mesmo que tivesse, ninguém leria o mar.

Natércia Freire

(Natércia Freire nasceu no dia 28 de Outubro de 1919. Morreu em 2004.)

Ocasos de fogo 12

Foto Hernâni Von Doellinger

Paulo Varela Gomes 4

Tenho um cancro de grau IV. De cada vez que abro o teclado do computador na intenção de escrever, ocorre-me a frase, já mil vezes repetida, "Quando estiverem a ler estas linhas, é provável que o autor já não esteja vivo".
São incontáveis os artigos, livros, documentários e filmes sobre pessoas que morrem de cancro. Nunca vi nenhum porque não aguento o stress mas ouvi dizer que alguns são eficientes e fazem os espectadores chorar muito. Não vou escrever aqui um artigo desse género, primeiro, porque não sou capaz, e em segundo lugar porque a história da minha doença e daquilo que tenho feito para lidar com ela tem algumas características muito peculiares que podem interessar a todo o género de pessoas que se preocupam com a vida e a morte e que pensaram com seriedade no tema deste número da Granta: Falhar melhor.


"Morrer É Mais Difícil do que Parece", Paulo Varela Gomes

(Paulo Varela Gomes nasceu no dia 28 de Outubro de 1952. Morreu em 2016.)

As iludências aparudem 13

Foto Hernâni Von Doellinger

João Aguiar 2

Relanceei um olhar alarmado à nossa volta e nesse instante ouvi uma espécie de silvo, como se fosse uma cobra, e logo a seguir a voz soou de novo - e saía da boca de Arduno, mas não era ele que falava nem era a sua voz; parecia a de uma mulher, embora o som fosse grave e a articulação dura e enérgica.
- Tongio, filho de Tongétamo. Porque fazes perguntas sobre o destino se os deuses já te disseram o que podias ouvir? À vossa frente o caminho é longo. Há vitórias e derrotas, alegria e sangue, traição e glória. A águia está ferida mas este é o tempo do seu domínio. Depois do Touro virá a Corça. Porque fazes perguntas? Ε tempo de combater. Só tu verás a era da Corça. Mas os deuses querem-te, os deuses surgirão no teu caminho...


"A Voz dos Deuses", João Aguiar

(João Aguiar nasceu no dia 28 de Outubro de 1943. Morreu em 2010.)

Vida de cão 381

Foto Hernâni Von Doellinger

Vianna Moog 6

Armando quis pagar a despesa, mas o prefeito não deixou. Não, aquela mesa era dele.
À saída, Becker, todo mesuras, respondeu aos boas-noites, de acordo com a hierarquia: para o prefeito e o fiscal foi uma saudação enfática, calorosa. Para Karl Wolff um pouco mais discreta. Para Geraldo, o secretário e o promotor, uma resposta cansada.
Quando ganharam a praça, o prefeito chega junto de Geraldo e diz:
É preciso preparar os homens da hidráulica. As eleições estão chegando.
Geraldo, sem saber o que havia de responder, apenas pôde murmurar, vago:
Pois não, não há dúvida.
Karl Wolff se aproxima para despedir-se.
Então estamos combinados. Sábado ou domingo, se não chover, podemos fazer a nossa partida.
Um vento forte levanta a poeira da rua. O grupo se dispersa. Ruben Tauben e o fiscal tomam o rumo do Centro. O major, o secretário e o promotor pendem para o ângulo direito da praça. Karl Wolff encaminha-se num passo largo e batido para o fim da rua. O engenheiro se recolhe ao hotel.

"Um Rio Imita o Reno", Vianna Moog

(Vianna Moog nasceu no dia 28 de Outubro de 1906. Morreu em 1988.)

Caminho 572

Foto Hernâni Von Doellinger

Xosé Filgueira Valverde 5

Furnas da dura costeira
si tedes a vos primeira,
ese cantar
querédesmo ben mostrar?

Furnas do alto penedo,
si sabés a vos que eu quero,
ese dizer
eu quixera deprender.

Si tedes a vos primeira,
feita sabor da ribeira,
ese cantar
querédesmo ben gardar?

Si sabés a vos que eu quero,
feita do mar e do ceo,
ese dizer
eu viñera por saber.

Feito sabor da ribeira,
furnas da dura costeira,
ese cantar
non m'o querades negar!

Feito de vento delgado,
furnas do penedo alto,
ese dizer
non o deixedes perder!

"Seis Cantigas de Mar in Modo Antico", Xosé Filgueira Valverde 

(Xosé Filgueira Valverde nasceu no dia 28 de Outubro de 1906. Morreu em 1996.)

Outonando 14

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 27 de outubro de 2018

Microcontos & outras miudezas 111

Ai quem me dera...
"Ai quem me dera ter outra vez vinte anos", cantava com sentimento o jovem fadista, estrela que haveria de ser. Tinha apenas sete aninhos, coitadinho, mas parecia que tinha oitenta...

Lições de História: Batalha de Trafalgar
A Batalha de Trafalgar realizou-se com assinalável sucesso no dia 21 de Outubro de 1805. Os historiadores e críticos de arte afiançam que foi uma batalha realmente bastante bélica. As coisas passaram-se na principal praça de Londres, que, não por acaso, se chama Trafalgar Square. De um lado a coligação franco-espanhola, comandada pelo almirante Villeneuve, e do outro a equipa da casa, os britânicos, orientada pelo almirante Nelson, que mais tarde se tornaria famoso cantando "Tudo passará" e "On the road again". Isto dos almirantes tem uma explicação muito simples: a batalha foi naval, jogada ao balcão de um pub do mais in que então podia haver.

Lições de História: Crónica Feminina
Vieram as calças, e ela nada. Os movimentos libertários, o divórcio, o voto, a canasta, os empregos, os carros, os cigarros, as gravatas, os sapatos de salto baixo e os sapatões também vieram, e ela nada. Em casa, sempre em casa, de uma virgindade absoluta em relação ao amantíssimo esposo e demais, bordava, falava francês e tocava piano. E dava alpista ao canário. E regava os vasinhos, ela própria um flor de estufa. Muito cor-de-rosa, muita renda na roupa interior que só ela sabia, muito tafetá, muitos lacinhos e sabonetinhos. Queimou uma vez um sutiã, é verdade, mas foi sem querer, passando a ferro, quando a serviçal lhe faltou. Tirando isso, nada. Parecia doença. As amigas chamavam-lhe, por graça, Crónica Feminina.

O Evereste e o Evaristo
Diz o chinês: - Além disso, temos o Evereste, que é o maior monte do mundo!
E diz o português: - E nós temos o Evaristo, que, não desfazendo, também é um gajo porreiro...

Pontos de vística
- O caro amigo desculpe, mas está completamente errático...
- Pelo contrário, ó ilustríssimo: estou absolutamente cértico.

Só destes, tenho sete 43

Foto Hernâni Von Doellinger

Graciliano Ramos 6

Lembrou-se dos filhos, da mulher e da cachorra, que estavam lá em cima, debaixo de um juazeiro, com sede. Lembrou-se do preá morto. Encheu a cuia, ergueu-se, afastou-se, lento, para não derramar a água salobra. Subiu a ladeira. A aragem morna acudia os xiquexiques e os mandacarus. Uma palpitação nova. Sentiu um arrepio na catinga, uma ressurreição de garranchos e folhas secas.
Chegou. Pôs a cuia no chão, escorou-a com pedras, matou a sede da família. Em seguida acocorou-se, remexeu o aió, tirou o fuzil, acendeu as raízes de macambira, soprou-as, inchando as bochechas cavadas. Uma labareda tremeu, elevou-se, tingiu-lhe o rosto queimado, a barba ruiva, os olhos azuis. Minutos depois o preá torcia-se e chiava no espeto de alecrim.


"Vidas Secas", Graciliano Ramos

(Graciliano Ramos nasceu no dia 27 de Outubro de 1892. Morreu em 1953.)

Caminho 571

Foto Hernâni Von Doellinger

Faustino Rey Romero 2

A un tribunal composto de tres profesores

Burrísima trinidá
- como decía Curros -,
seica non sodes tres burros
e unha soia nulidá?

Eu examinarme? Cá!
Cando nas miñas me poño
son máis forte ca un carballo;
quizais que non saiba un coño,
pero vosoutros, supoño,
non sabedes un carallo.

Faustino Rey Romero

(Faustino Rey Romero nasceu no dia 27 de Outubro de 1921. Morreu em 1971.)

Outonando 13

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Maria Xosé Queizán

Ideal de saúde mental feminina

Ponte guapa sumisa maquillaxe abnegada,
masaxe dependente depilación
pasiva bronceado maternal
suave peluquería emotiva
limpeza de cutis e ri

Ponte tacóns e ri
Ponte riquiña e ri
Ponte debaixo e ri
Ponte preñada e ri
Ponte a fregar e ri
 

Como non delirar?

Algo como un desgarrado ouveo
unha rabia alimentada por mil avoas silenciosas
estertor e furia.
 

Ponte quieta!
Histérica!
Contra natura!
Non coñeces os límites?

Como non delirar?
 

Delira! Delira! Está delirando!
 

Reclusión! deciden
 

Fogar ou manicomio?
A elixir...


"Non o Abras Como Unha Flor", Maria Xosé Queizán

(Maria Xosé Queizán foi anunciada como co-vencedora do Prémio Otero Pedrayo, partilhando o galardão com a professora e pedagoga Antía Cal)

Offshore, se fashavore 220

Foto Hernâni Von Doellinger

António Lobo de Carvalho

Este que vês aqui, formosa dama,
Entre moles testículos pendente,
Já foi em outro tempo raio ardente,
Hoje é pavio que não solta chama.

Este que vês aqui, já foi o Gama
Dos mares onde navega tanta gente;
Hoje é carcaça velha, que somente
Dos estragos que fez conserve a fama.

Este que vês aqui, foi do trabalho
O maior sofredor (quem tal dissera!),
Hoje de amor é lânguido espantalho.

Este que aqui vês, na ardente esfera,
Já foi flor, já foi luz, já foi caralho;
Mas hoje não é já quem dantes era.

"Poesias Jovais e Satíricas", António Lobo de Carvalho

(António Lobo de Carvalho nasceu por volta de 1730. Morreu no dia 26 de Outubro de 1787.)

Ó Lua que

Foto Hernâni Von Doellinger

Lições de História 37: Constantino

Constantino era um tipo algo bizantino, porém completamente levado da breca. Foi imperador romano nos anos trezentos e o seu nome deu nome à cidade de Istambul, como o próprio nome indica. Andar à pancada era com ele: derrotou Magêncio e Licínio, sovou francos e alanos, visigodos e sármatas. Depois abrandou. Abrandou, e nos inícios do século passado voltou à luta, agora sobretudo contra o Macieira, o 1920, o Croft e o L34.

Na minha rua passa o mar 42

Foto Hernâni Von Doellinger

Darcy Ribeiro 3

Aquela
 
Minha amada é de carne, de pele e pêlo.
Ora é negra, ora é loura, ora é vermelha.
Minha amada é três. É trinta e três.
Minha amada é lisa, é crespa, é salgada, é doce.


Ela é flor, é fruto, é folha, é tronco.
Também é pão, é sal e manga-rosa.
Minha amada é cidade de ruas e pontes.
É jardim de arrancar flores pelo talo.


Ela é boazuda e é bela como uma fera.
Minha amada é lúbrica, é casta, é catinguenta.
Minha amada tem bocas e bocas de sorver,
de sugar, de espremer, de comer.


Minha amada é funda, latifúndia.
Minha amada é ela, aquela que não vem.
Ainda não veio, nunca veio, ainda não.
Mas virá, ora se virá. A diaba me virá.


"Eros e Tanatos", Darcy Ribeiro

(Darcy Ribeiro nasceu no dia 26 de Outubro de 1922. Morreu em 1997.)

Mobiliário urbano (propriamente dito) 90

Foto Hernâni Von Doellinger

Antón Tovar 2

Eiquí

Non teño outras certezas máis seguras
que a certeza mortal das criaturas.
Onde elas me agarimo e me demoro,
i en longa despedida canto e choro.
Abóndame que a vida faga acenos
dende o mar pequeniño duns centeos.
Dádeme o sol da terra, o sol do mar,
e que me queime a vida hasta o final.
Dádeme o sol, e que me queime os días,
que me queime o pensar i as agonías.
Teño medo das longas aventuras
que adivina o conceito antre as negruras.
Que non teño certezas máis seguras
que a certeza mortal das criaturas.
A certeza de telas ó meu xeito,
pedra prás maus e non conceito.
Son o que son, deixaime niste ser,
deixaime no solciño froitecer.


"Arredores", Antón Tovar

(Antón Tovar nasceu no dia 26 de Outubro de 1921. Morreu em 2004.)

Caminho 570

Foto Hernâni Von Doellinger

Murilo Araújo 6

Sonho de herói 

Com um galho de bambu verde
e dois ramos de palmeira
eu hei de fazer um dia o meu cavalo - com asas!
Subirei nele, com vento, lá bem alto,
de carreira,
por sobre o arvoredo e as casas.

Voarei, roçando o mato,
as copas em flor das árvores,
como se cruzasse o mar…
e até sobre o mar de fato
passarei nas nuvens pálidas
muito acima das montanhas, das cidades, das cachoeiras,
mais alto que a chuva, no ar!

E irei às estrelas,
ilhas dos rios de além,
ilhas de pedras divinas,
de ribeiras diamantinas
com palmas, conchas, coquinhos nas suas praias também…
praias de pérola e de ouro
onde nunca foi ninguém…

"Poemas Completos de Murilo Araújo", Murilo Araújo

(Murilo Araújo nasceu no dia 26 de Outubro de 1894. Morreu em 1980.)

Outonando 12

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Duzentos e vinte e quatro

Foi julgado e condenado por ter ligado a pedir o 224. O 112 achou que era gozo, chamada falsa. A verdade é que foram realmente precisas duas ambulâncias...

I want to ride my bicycle 66

Foto Hernâni Von Doellinger

Manuel Leiras Pulpeiro 4

Desque lle a pela bolaron
naide máis foi à Frouseira;
soilo Dios puxo froliñas
por entremédias das penas;
froliñas pequerrichiñas
e agrouladas, que semellan
bágoas de sangue calladas
no bico das carrasqueiras;
froliñas que, con ser froles,
caladamente se queixan
de que tanto, lanto tarden
en cobrar-se contas vellas!


Manuel Leiras Pulpeiro

(Manuel Leiras Pulpeiro nasceu no dia 25 de Outubro de 1854. Morreu em 1912.)

Caminho 569

Foto Hernâni Von Doellinger

Manuel Lago González 4

O tesouro de Santa María

[...]
Velei veñen pol-as ruas,
formados os escuadrós
ca xente que D.ª Urraca
por eses mundos levou
a loitar contra seu home,
por ver quen manda dos dous;
velei veñen e tran fame, 
que nos lles deron ración.

Donde os leva D.ª Urraca?
pra que os truxo a pé de nos?
Aique muller sin xuicio!
que reina! que tarollóu!
Doña Urraca, doña Urraca
vállate Dios.
[...]

Manuel Lago González 

(Manuel Lago González nasceu no dia 25 de Outubro de 1865. Morreu em 1925.)

Outonando 11

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Lições de História 36: Guerras Médicas

As Guerras Médicas têm uma fama que vem de longe, como o Constantino. Começaram no século quinto antes de Cristo, entre gregos e persas, e decorrem actualmente em Portugal in tandem com a Guerra dos Enfermeiros.

Suecódromo 13

Foto Hernâni Von Doellinger

Pontos de vística

- O caro amigo desculpe, mas está completamente errático...
- Pelo contrário, ó ilustríssimo: estou absolutamente cértico.

Mobiliário urbano (propriamente dito) 89

Foto Hernâni Von Doellinger

Antônio Rangel Bandeira 3

Fim do mundo

Todos os jornais darão edições especiais
E ainda um bonde terá tempo de colher um transeunte.
O Presidente dirá palavras de conforto à Nação.
Os bombeiros ficarão a postos
Como à espera dos grandes cataclismos.
À falta de luz eléctrica os homens usarão querosene
Em candieiros alados.
O poeta se perderá em cogitações
De interesse particular.
Um telegrama esclarecerá pequenos detalhes:
- As agulhas das bússolas ficarão desnorteadas
E os sinais telegráficos perder-se-ão no espaço.
Além do mais algumas estrelas cairão sobre o mar
- Parnasianas.
E entre palmas e gritos dos espectadores
A ressurreição da carne será anunciada.


Antônio Rangel Bandeira

(Antônio Rangel Bandeira nasceu no dia 24 de Outubro de 1917. Morreu em 1988.)

Showcooking...

Foto Hernâni Von Doellinger

Ramalho Ortigão 6

Por detrás do cancelo do quinteiro, no mato fofo das enchidas, por baixo da ramada, ao lado das mais humildes cabanas, vê-se a porca ruça esfoçando a estrumeira, o galo branco cacarejando satisfeito, empoleirado na padiola, na escada de mão encostada à parede do cortelho ou no caniço do carro; e o podengo amarelo, de orelha bicuda, ladra da porta de casa ou de cima do muro, mostrando a quem chega os dentes anavalhados e o grande rabo em ponto de interjeição.
Não há adega, não há despensa, não há fogão de cozinha. A panela preta de barro de Prado ferve solitária sob o testo no pequeno lar enfumarado, à fogueira de cepas e de agulhas de pinheiro, entre os dois escabelos de castanho. Mas há broa em todos os balaios à porta do forno, há toucinho ou há unto, pelo menos, em todas as salgadeiras, há azeitonas no cântaro da salmoeira, há um ovo para pôr a cada galinha choca, uma braçada de erva para cada boi, uma côdea para cada cão, uma rasa de milho para cada fornada, uma estriga para cada roca, uma leira para cada enxada. 

"As Farpas", Ramalho Ortigão

(Ramalho Ortigão nasceu no dia 24 de Outubro de 1836. Morreu em 1915.)

Outonando 10

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Medicamentos sem papéis

A notícia: quase nove mil medicamentos ilegais foram apanhados nas fronteiras portuguesas, no âmbito de uma megaoperação policial que envolveu 116 países e decorreu de 9 a 16 de Outubro. Originários maioritariamente de Singapura, Índia, China e Brasil, vinham sobretudo para a noite e para o sexo. Tanto quanto se sabe do que realmente se passou, as nossas autoridades puxaram-os à parte e perguntaram-lhes: os papéis? E eles não tinham. Eram ilegais, com efeito, e vão ser expulsos do território nacional. Alegadamente.

Também faço isto muito bem 114

Foto Hernâni Von Doellinger

O Evereste e o Evaristo

Diz o chinês: - Além disso, temos o Evereste, que é o maior monte do mundo!
E diz o português: - E nós temos o Evaristo, que, não desfazendo, também é um gajo porreiro...

Também faço isto muito bem 113

Foto Hernâni Von Doellinger

Xervasio Paz Lestón 3

Noiva de emigrado
 
N-o encanto da homilde aldea
naceu súa fermosura
envolta n-a galanura
d-enxebre gracia serea.

¡De beleza ultraterrea:
os seus ollos amantiños
son com-as frores dos liños;
os seus labios, dous craveles,
i albas perlas, detrás d-eles,

son seus dentes miudiños!

Cal románica vestal
mantén o fogo sagrado
n-o mol altar agochado
do seu peito virxinal,

donde arde o amor ideal,
e n-as alas da ilusión
vai a lírica pasión
cabo do mozo adourado,
do nobre chan emigrado,

dono do seu corazón.
[...]

Xervasio Paz Lestón

(Xervasio Paz Lestón nasceu no dia 23 de Outubro de 1898. Morreu em 1977.)

Caminho 568

Foto Hernâni Von Doellinger

Eneida de Moraes 3

Quis distrair-me, penetrar na conversa, tomar parte no assunto, não abandonar o amigo, prestar atenção às suas frases e opiniões, apoiá-lo ou divergir, mas nada consegui. Palavras que em qualquer outro momento me despertam e agitam - fome, miséria, injustiça, opressão, liberdade, direito, saúde, alegria - naquele instante eram fluidas, sem cor e ressonância. Minha vontade desaparecera ante a eloquência do apelo dos pés.

 Eneida de Moraes

(Eneida de Moraes nasceu no dia 23 de Outubro de 1904. Morreu em 1971.)

Ai flores...

Foto Hernâni Von Doellinger

Domício da Gama 3

Maria sem Tempo

[...]
Maria sem Tempo caiu extenuada sob uma grande mangueira no meio do campo. Na perturbação da emoção profunda todas as ideias se lhe confundiram e o desvario completo entrou-lhe na mente.
Era aquilo a guerra e era o seu filho que a fazia contra ela. O homem dissera que era ele e a cantiga a não enganara. Para se encontrarem daquele modo vivera ela tão longos anos, penando pelos caminhos! À ideia de que pudera ter morrido aos golpes do filho estremecido, um calafrio sacudiu-a toda convulsivamente e por fim as pernas se lhe inteiriçaram. Depois, a necessidade de abandonar toda a esperança quebrou-lhe as derradeiras forças. Uma toalha de gelo espremeu-lhe o coração num grito de agonia infinita e Maria sem Tempo morreu.
Algumas horas depois formava-se uma trovoada e um raio caía sobre a árvore que abrigava o cadáver. A tempestade passou e os escravos que, voltando da roça, foram ver o tronco lascado descobriram a morta. Os respingos da chuva lhe tinham coberto o rosto de terra e os olhos esgazeados já pareciam olhar do fundo da sepultura. Um dos escravos se abaixou para lhos fechar, dizendo: "Coitada de Sinhá Maria! Vá que ela agora descanse de procurar o filho!..." E outro, velho, resmungou, sem saber que tão bem dizia: "Esta morreu de ser mãe..."

"Histórias Curtas", Domício da Gama

(Domício da Gama nasceu no dia 23 de Outubro de 1862. Morreu em 1925.)

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Vida de cão 380

Foto Hernâni Von Doellinger

Lições de História 35: Crónica Feminina

Vieram as calças, e ela nada. Os movimentos libertários, o divórcio, o voto, a canasta, os empregos, os carros, os cigarros, as gravatas, os sapatos de salto baixo e os sapatões também vieram, e ela nada. Em casa, sempre em casa, de uma virgindade absoluta em relação ao amantíssimo esposo e demais, bordava, falava francês e tocava piano. E dava alpista ao canário. E regava os vasinhos, ela própria um flor de estufa. Muito cor-de-rosa, muita renda na roupa interior que só ela sabia, muito tafetá, muitos lacinhos e sabonetinhos. Queimou uma vez um sutiã, é verdade, mas foi sem querer, passando a ferro, quando a serviçal lhe faltou. Tirando isso, nada. Parecia doença. As amigas chamavam-lhe, por graça, Crónica Feminina.

Offshore, se fashavore 219

Foto Hernâni Von Doellinger

Mário Faustino 2

[Estava lá Aquiles, que abraçava]

Estava lá Aquiles, que abraçava
Enfim Heitor, secreto personagem
Do sonho que na tenda o torturava;
Estava lá Saul, tendo por pajem
Davi, que ao som da cítara cantava;
E estavam lá seteiros que pensavam
Sebastião e as chagas que o mataram.
Nesse jardim, quantos as mãos deixavam
Levar aos lábios que os atraiçoaram!
Era a cidade exata, aberta, clara:
Estava lá o arcanjo incendiado
Sentado aos pés de quem desafiara;
E estava lá um deus crucificado
Beijando uma vez mais o enforcado.

Mário Faustino

(Mário Faustino nasceu no dia 22 de Outubro de 1930. Morreu em 1962.)

domingo, 21 de outubro de 2018

Passou o vento, quando havia vento

Foto Hernâni Von Doellinger

Lições de História 34: Batalha de Trafalgar

A Batalha de Trafalgar realizou-se com assinalável sucesso no dia 21 de Outubro de 1805. Historiadores e críticos de arte afiançam que foi uma batalha realmente bastante bélica. As coisas passaram-se na principal praça de Londres, que, não por acaso, se chama Trafalgar Square. De um lado a coligação franco-espanhola, comandada pelo almirante Villeneuve, e do outro a equipa da casa, os britânicos, orientada pelo almirante Nelson, que mais tarde se tornaria famoso cantando "Tudo passará" e "On the road again". Isto dos almirantes tem uma explicação muito simples: a batalha era naval, jogada ao balcão de um pub do mais in que então podia haver.

I want to ride my bicycle 65

Foto Hernâni Von Doellinger

Microcontos & outras miudezas 110

Um bocado palerma
Os óculos são como as luvas, as calças, as meias, as botas, os patins, as jarras, os estalos, os cornos e outras coisas boas da vida - vêm aos pares. Ocorreu-me este acutilante pensamento porque precisei de mudar de óculos. E então: "Estes óculos fazem-me um bocado palerma", disse eu à menina da loja, mirando-me no espelho. "Não diga um coisa dessas, por acaso até lhe ficam muito bem", disse-me a menina da loja. "Exactamente, é isso que eu quero dizer: estes óculos favorecem-me. Normalmente sou palerma completo", esclareci.

Lições de História: Idade Média
A Idade Média, ao contrário do que o próprio nome parece indicar, foram duas: a Baixa Idade Média e a Alta Idade Média. Diferenciam-se, evidentemente, pela altura.

Turismo de natureza
Mal rompeu o dia, e não foi bem um romper, saltaram aos magotes para o Passeio Atlântico, ali em baixo. São fáceis de identificar, famílias inteiras vestidas de fato de domingo e telemóvel armado em máquina fotográfica, só lhes falta o merendeiro. Querem saber com os próprios olhos se a Praia de Matosinhos foi engolida pelo furacão, se pura e simplesmente desapareceu do mapa. Ficam desiludidos: a praia está ali normalíssima da vida, inteira, cheia de gente a jogar à bola. Os magotes desmobilizam, as famílias tornam a casa, telemóveis murchos, num desgosto que só visto. Vão comer frango de churrasco, comprado, e assistir à desgraça como deve ser na televisão. Para a semana, se Deus quiser, vão de bicicleta visitar um eucaliptal que é uma categoria. São turistas de natureza. Quero dizer: de natureza... duvidosa.

Bestial
- Ó sua besta!
- Minha? Minha, porquê?...

Maria já não vai com as outras
Enquanto Maria ia com as outras, bem ia. O pior foi quando foi com o outro, só para provar. Resultou grávida de seis meses e agora as outras já não a deixam ir.

Conflito de interesses
Era parte interessada. E outra parte não.

sábado, 20 de outubro de 2018

Mijar no Terrace custa pelo menos euro e meio

Foto Hernâni Von Doellinger

Aflitíssimo, entrei no Terrace e pedi: - Por favor, dá-me licença de utilizar a casa de banho? -. Estava preparado para receber uma de duas respostas, "sim" ou "não", mas deram-me a terceira: - Vai tomar alguma coisa? - Eu disse que beberia uma água e tornei a pedir: - Por favor, dá-me licença de utilizar a casa de banho? - Que assim sim. Utilizei então a casa de banho, isto é, mijei, fiz uma descarga de autoclismo, limpei do chão duas pingas que não souberam o caminho e lavei as mãos. Evidentemente eu poderia sair da casa de banho do Terrace e vir-me embora, mas fui tomar a água contratada. Aproveitei para explicar calmamente ao jovem e educado funcionário que um dia, quando ele for mais velho, talvez da minha idade, vai ficar tipo fodido por lhe fazerem a ele o que ele me fez a mim. O jovem e educado funcionário disse-me que é desta maneira que ali se trabalha, no Terrace, por ordens da gerência. Paguei um euro e meio pela água e estou arrependido: não sei se o dinheiro chegava, mas, em vez de beber a puta da água, devia ter comido um biju. A água pôs-me outra vez à rasca na viagem de metro da Trindade até Matosinhos. Vim a correr para casa e mijei-me pernas abaixo mal consegui abrir a porta...

O Terrace é um café situado no gaveto das ruas de Fernandes Tomás, da Trindade e do Estêvão, nas traseiras da Câmara Municipal do Porto. E tem gerência.

Ai quem me dera...

"Ai quem me dera ter outra vez vinte anos", cantava com sentimento o jovem fadista, estrela que haveria de ser. Tinha apenas sete aninhos, coitadinho, mas parecia que tinha oitenta...

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Quero denunciar o meu pai

Foto Tarrenego!

Quero fazer uma denúncia: o meu pai era benfiquista e morreu quando eu tinha dez anos. Isso faz-se? Tem algum jeito? Não sei se a CMTV e a TVI vão pegar no caso, mas justificava-se. Porque desgraça assim é para dar na televisão. Há que tempos que eu sou mais velho do que o meu pai, e acho mal. E o meu pai ainda me faz falta e tenho essa razão de queixa. E às vezes sinto-me órfão, como por exemplo hoje, e já não tenho idade para isso. Na minha ideia, a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Judiciária também deviam fazer alguma coisa.
O meu pai era portanto benfiquista e penso que só isso é mais do que suficiente para abrir um processo. Era benfiquista e levava-me a ver os treinos do Fafe no Campo da Granja que também já não existe. O meu pai ensinou-me o futebol e outras coisas boas da vida. Uma vez levou-me às Festas Gualterianas a Guimarães, fomos a um tasco e eu pedi-lhe para comer feijão com tripas, que nunca tinha provado, e gostei que eu sei lá. Se calhar por isso é que ainda hoje gosto tanto e faço tão bem. Outra vez trouxe-me de presente uma pistola Luger de brincar, pesada e igualzinha às dos nazis dos filmes, e gostei que eu sei lá. Não sei o que me deu na cabeça, mas cresci e não gosto de armas. Continuo a gostar do meu pai.
Para além de benfiquista - repito, benfiquista -, o meu pai era também novo, bonito e bom, mas suponho que isso não interesse para o processo, e era excelente operário tecelão, músico, bombeiro e jogador de dominó. Contava-se que no dominó, jogado na mesa do canto direito para quem entrava na sala das traseiras do café Peludo, o meu pai até escondia pedras na boca para enganar parceiros e ganhar mais uns tostões para casa. Eu ia chamá-lo, bem ensaiado pela minha mãe para que ele não ficasse mal perante os amigos. "A mãe manda dizer que a comida está pronta", era o que eu dizia, uma e só uma vez, e ficava ao lado dele todo contente à espera.
É preciso que se note: o meu pai, também conhecido como Lando Bomba ou Lando da Bomba, não era só dominó. Nas festas onde a Banda de Revelhe ia tocar, o meu pai, que tocava saxofone, tinha também sociedade com o homem da roleta de feira, artesanal e viciada. Nos intervalos dos concertos, fartava-se de ganhar canivetes, cintos, saca-rolhas, tesouras, baralhos de cartas e gaitas de beiços. O meu pai era o engodo. "Mais uma para o senhor músico. Está em dia de sorte, o raisparta o músico!", gritava o homem da roleta, feitos um com o outro, a chamar o povo. No final, o meu pai devolvia tudo a troco de umas coroas ou de mais uma navalha para oferecer.

O meu pai dávamo-nos tudo o que podia, quando podia. Por exemplo, os pastéis. Eu conhecia-os de vista. De passar pelas montras ou das mesas do Peludo, mas nunca me tinham sido apresentados. Até que uma vez o meu pai trouxe meia dúzia para casa. Vinham naquela caixinha de papel, obra de engenharia feita na hora, ali mesmo aos olhos do freguês, com a habilidade, a precisão e o requinte de quem trabalha filigrana, de quem constrói um avião. Se me estou a lembrar bem, havia, naquele tempo, os bolos de arroz, as bolas de berlim, os queques, os jesuítas, os caramujos, os mil-folhas, as natas e os cocos. As tíbias apareceram depois, já na era das minissaias.
O meu pai chegou muito tarde "da música" e se calhar os pastéis vinham por isso, como pedido de paz, para adoçar a boca à minha mãe. Não tenho a certeza. Era pequeno demais para então perceber o que agora sei tão bem. Mas gostei da festa que foi: acordámos - a Nanda, o Nelo e eu -, sentámo-nos todos na beira da cama da frente, ao lado da nossa mãe, provámos a novidade, o nosso pai fez-nos rir e fomos felizes. Então pastéis era aquilo? Era bom. Para mim, quase tão bom como uma côdea de broa coberta com açúcar amarelo.

Calhava-me, de vez em quando, levar o almoço do meu pai à fábrica. Estando sol, o meu pai e outros operários da Fábrica do Ferro comiam num terreno muito jeitoso para o efeito, a caminho do rio. Do Comporte. Sentávamo-nos numas pedras à sombra de pinheiros e eu adorava estar ali com o meu pai aquela meia hora. Era como se fosse um piquenique, mas eu ainda não conhecia a palavra.
O meu pai gostava muito de fazer rir a minha mãe e, de malandrice, lia-lhe o jornal metendo as expressões "pelo cu acima" e "pelo cu abaixo" entre as palavras das notícias. Se fosse hoje, ficaria, por exemplo, assim: "A atriz pornográfica, pelo cu acima, Stormy Daniels, pelo cu abaixo, descreveu, pelo cu acima, o pénis, pelo cu abaixo, do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pelo cu acima, comparando-o, pelo cu abaixo, a um cogumelo, pelo cu acima". Eu e os meus irmãos, que arranjávamos sempre maneira de ouvir, escangalhávamo-nos a rir. A minha mãe repreendia o meu pai, tentava tirar-lhe o jornal das mãos, e nós ainda nos ríamos mais. Éramos pobres, mas tínhamos o riso. E o riso é muito bom, é uma riqueza alternativa. Éramos então remediadamente felizes.
O meu pai foi para França, Belfort, resvés com a Suíça, e escrevia-nos cartas numa letra muito perfeitinha em papel quadriculado que nós líamos à nossa mãe. Nós também íamos para França, mas não tivemos tempo. O meu pai morreu, acredito que de saudades, numa véspera de Natal. No dia seguinte nasceu o Menino Jesus, disseram-me que de propósito para tomar conta na minha mãe, de mim e dos meus três irmãos. Que Deus me perdoe, mas o velhote, que nunca pôde ser, também nos teria dado um grande jeito...

P.S. - Éramos tão pobres que o corpo do meu pai ficou em Belfort. Apenas o corpo. O meu pai, não: o meu pai veio naturalmente para casa e vive comigo.

Também faço isto muito bem 112

Foto Hernâni Von Doellinger

Vinicius de Moraes 7

Eu te amo, Maria, eu te amo tanto
Que o meu peito me dói como em doença
E quanto mais me seja a dor intensa
Mais cresce na minha alma teu encanto.


Como a criança que vagueia o canto
Ante o mistério da amplidão suspensa
Meu coração é um vago de acalanto
Berçando versos de saudade imensa.


Não é maior o coração que a alma
Nem melhor a presença que a saudade
Só te amar é divino, e sentir calma...


E é uma calma tão feita de humildade
Que tão mais te soubesse pertencida
Menos seria eterno em tua vida.


"Antologia Poética", Vinicius de Moraes

(Vinicius de Moraes nasceu no dia 19 de Outubro de 1913. Morreu em 1980.)

Offshore, se fashavore 218

Foto Hernâni Von Doellinger

Álvaro Guerra 3

As armas

[...]
Vem do céu, silvando, assobiando, um envenenado e gigantesco dedo de Deus, igual ao teu dedo que premiu um botão a mais de mil metros de altitude, vem do céu e tu vais longe já, voando sobre a terra onde começa a acender-se um clarão alaranjado que sobe em cogumelo e lentamente se desfaz sobre os campos e as cidades onde ninguém fica para te contar a morte à bomba.

"Memória", Álvaro Guerra

(Álvaro Guerra nasceu no dia 19 de Outubro de 1936. Morreu em 2002.)

Vida de cão 379

Foto Hernâni Von Doellinger